4. ARAŞTIRMA BULGULARI VE TARTIŞMA
4.12. Katyonlar
4.12.4. Sodyum
No início do século XVII, uma ruptura essencial na forma como o saber ocidental vinha se configurando acontece. O pensamento deixa de se movimentar enquanto uma operação investigativa à procura da semelhança. A similitude afir- ma-se não mais enquanto ponto de chegada e partida do saber, mas antes como a instância do erro em meio ao qual o pensamento pode perigosamente se iludir. Trata-se, assim, da estruturação do pensamento clássico, que ao nascer pelo início do século XVII e estender-se até o final do século XVIII, acaba “excluindo a se- melhança como experiência fundamental e forma primeira do saber”, substituin- do-a pelo estabelecimento de identidade de diferença, de medida e de ordem. 165
Descartes, expoente desse novo campo epistêmico, não recusa o “ato de comparar”, mas antes o considera enquanto aparato a ser utilizado à procura de identidades e diferenças. No pensamento cartesiano, ha duas formas de compara- ção possíveis, sendo elas a comparação de medida e a de ordem. Na comparação de medida, considera-se uma totalidade a ser divida em unidades. Para que a comparação entre tais unidades aconteça, torna-se necessário o estabelecimento de uma unidade comum. “Assim, a comparação efetuada pela medida se reduz, em todos os casos, às relações aritméticas da igualdade e da desigualdade. A medida permite analisar o semelhante segundo a forma calculável da identidade e da dife- rença.” 166
Diferentemente da comparação de medida, a comparação de ordem é esta- belecida sem referência a uma unidade exterior, isto é, pode-se determinar a or- dem entre dois entes sem nada considerar além deles. Pressupõe-se, ainda, que a ordem não pode ser conhecida a partir da natureza isolada das coisas, mas antes por intermédio da construção de uma série, que se iniciando com a coisa mais simples e se estendendo continuadamente até as coisas mais complexas, é capaz
164 Ibidem, p. 43. 165 Ibidem, p. 70-71. 166 Ibidem, p. 73.
de evidenciar identidades e diferenças. Estes são, portanto, os dois tipos de com- paração cartesianamente definidos: o primeiro deles analisa em unidades com o objetivo de encontrar relações de igualdade e desigualdade; o segundo dispõe os elementos em uma sucessão responsável por destacar diferenças segundo os graus mais fracos possíveis.167 Deve-se destacar que a redução de medidas a uma ordem compõe o horizonte do saber clássico. Tal operação, na verdade, consiste no novo método que então se funda:
reduzir toda medida (toda determinação pela igualdade e a igualdade) a uma colocação em série que, partindo do simples, faz aparecer as diferenças como graus de complexidade. O se- melhante, depois de ter sido analisado segundo a unidade e as relações de igualdade ou de desigualdade, é analisado segundo a identidade evidente e as diferenças. 168
Contudo, nota-se que tal ordem ou comparação generalizada pode ser en- tendida apenas enquanto um encadeamento presente na esfera do próprio conhe- cimento. Nesse sentido, o conhecimento não concerne ao ser dar coisas, mas sim à maneira como elas podem ser entendidas ou encadeadas. Dizendo de outro modo, para a epistémê clássica o caráter de uma coisa não está isento de variações, não possui um valor em si mesmo absoluto; a ordem pode, a um só tempo, ser indis- pensável e natural (em relação ao pensamento) e arbitrária (em relação às coisas), uma vez que determinada coisa, segundo a maneira como a consideramos, pode ser situada em diferentes pontos do ordenamento que se quer estipular. 169
Advêm desse novo quadro muitas modificações à forma com que o saber passa a configurar-se a partir do século XVII. Destaca-se, primeiramente, a “subs- tituição da hierarquia analógica pela análise”: se, no século XVI, pressupunha-se a existência de um sistema global onde as coisas assemelhavam-se por correspon- dência, com o pensamento clássico qualquer semelhança será apenas admitida “quando for encontrada, pela medida, a unidade comum, ou mais radicalmente, pela ordem, a identidade e a série das diferenças”.170 E ainda: se os reflexos de
similitude eram antes infinitos, mesmo que demarcados pela finitude de um mun- do comprimido entre o microcosmo e o macrocosmo, agora o saber clássico torna possível um encadeamento completo,
167 Ibidem, p. 73. 168 Ibidem, p. 74. 169 Ibidem, p. 74. 170 Ibidem, p. 75.
quer sob a forma de um recenseamento exaustivo de todos os elementos que constitui o conjunto visado; quer sob a forma de uma colocação em categorias que articula na sua totalidade o domínio estudado; quer enfim, sob a forma de uma análise de certo número de pontos, em número suficiente, tomados ao lon- go da série.171
Vê-se que o conhecimento, enquanto operação investigativa, não mais buscará aproximar as coisas entre si com o intuito de nelas evidenciar um essenci- al parentesco, uma força de convergência ou uma natureza secretamente comparti- lhada. Ao contrário, o foco do saber clássico é discernir, ou seja, determinar iden- tidades mediante a diferenciação de entes ordenadamente dispostos. Destarte, o discernimento como que impõe à comparação um principal dever a ser entendido enquanto método: “a busca primeira e fundamental da diferença”. 172
O fundamental para a epistémê clássica é a sua relação com a máthêsis, is- to é, com uma “ciência da medida e da ordem” que permaneceu constante até fins do século XVIII. Tal relação apresenta duas características. A primeira delas de- termina que embora as relações entre os seres possam ser pensadas, de um lado, sob a forma da medida e, de outro, sob a forma da ordem deve-se considerar a necessidade de reduzir os problemas da medida aos da ordem. Assim, “a relação de todo conhecimento com a máthêsis se oferece como a possibilidade de estabe- lecer entre as coisas, mesmo não-mensuráveis, uma sucessão ordenada. Nesse sentido, a análise vai adquirir bem depressa valor de método universal [...]”.173 Observa-se que tal relação com a máthêsis não restringiu o saber às matemáticas, à contagem incessante dos seres do mundo. Houve, pelo contrário, o aparecimento de um conjunto de novos “domínios empíricos” do conhecimento e, em quase nenhum deles, encontra-se uma redução ao mecanicismo e à matematização, mas antes a evidenciação de uma “ciência possível da ordem”. 174
Assim apareceram a gramática geral, a história natural, a análise das riquezas, ciências da ordem no domínio das palavras, dos seres e das necessidades; e todas essas empiricidades, novas na época clássica e coextensivas à sua duração (têm por pontos de referência cronológicos Lancelot e Bopp, Ray e Cuvier, Petty e Ricardo, que escreveram, os primeiros por volta de 1660, e os segundos por volta dos anos 1800-1810), não se puderam cons-
171 Ibidem, p. 75-76. 172 Ibidem, p. 76. 173 Ibidem, p. 78. 174 Ibidem, p. 78-79.
tituir sem a relação que toda a epistémê da cultura ocidental manteve com a ciência universal da ordem.175