• Sonuç bulunamadı

SMYRNA KENTİ ARKEOLOJİK HARİTASININ COĞRAFİ BİLGİ SİSTEMİ İLE OLUŞTURULMAS

Só o tempo é capaz de pôr à prova a fé em homens, em idéias e governos. (Hitler Odeia Bons Vizinhos. Em Guarda, Ano 1, nº10, p.15).

No período abarcado pela revista Em Guarda (1941-1946) os homens, as idéias e os governos passavam por profundas mudanças. Um dos efeitos mais visíveis dos combates foi a intensa modernização dos equipamentos bélicos dos países beligerantes. Contudo, os anos que compreenderam o entre – guerra significou uma releitura de conceitos e idéias que foram amplamente utilizadas para fins de propaganda política. Na luta por corações e mentes em todo planeta, Estados Unidos e Alemanha criaram uma rede poderosa de difusão de filmes, folhetos e periódicos que tinham como objetivo principal convencer as pessoas sobre o melhor mundo a ser habitado no pós-guerra.

A Segunda Guerra Mundial sintetizou a mobilização máxima dos recursos e dos indivíduos no conflito. Durante a Grande Guerra iniciada em 1914, a Alemanha dera prova da importância em modernizar não somente os equipamentos militares, como também a administração racionalizada para a destruição de vidas humanas. Apesar disso, a necessidade de planejamento e organização dos materiais para a batalha ficou evidente para Estados Unidos e Inglaterra a partir do blitzkrieg do exército alemão na Europa em 1940. As guerras ajudaram a difundir a especialização técnica, e tiveram grande impacto na organização industrial e nos métodos de produção em massa. Hobsbawm afirmou que:

A guerra total sem dúvida revolucionou a administração. Até onde revolucionou a tecnologia e a produção? Ou, perguntando de outro modo, até onde adiantou ou retardou o desenvolvimento econômico? Adiantou visivelmente a tecnologia, pois o conflito entre beligerantes avançados era não apenas de exércitos, mas de tecnologias em competição para fornecer-lhes armas eficazes e outros serviços essenciais. Não fosse pela Segunda Guerra Mundial, e o medo de que a Alemanha nazista explorasse as descobertas da física nuclear, a bomba atômica certamente não teria sido feita, nem os enormes gastos necessários para produzir qualquer tipo

de energia nuclear teriam sido empreendidos no século XX. Outros avanços tecnológicos conseguidos, no primeiro caso, para fins de guerra mostraram-se consideravelmente de aplicação mais imediata na paz – pensamos na aeronáutica e nos computadores – mas isso não altera o fato de que a guerra ou a preparação para a guerra foi um grande mecanismo para acelerar o progresso técnico, “carregando” os custos de desenvolvimento de inovações tecnológicas que quase com certeza não teriam sido empreendidos por ninguém que fizesse cálculos de custo-benefício em tempo de paz, ou teriam sido feitos de forma mais lenta e hesitante.163

Apesar das divergências entre os dois países, ambas as políticas convergiam para um ponto: ganhar a guerra junto à opinião pública. Contudo, era fundamental a mobilização de técnicas, idéias e intelectuais que forjassem uma história comum entre os norte-americanos e os demais aliados. Portanto, o foco da presente análise recairá sob os múltiplos discursos construídos pelo periódico acerca do pan-americanismo. O recorte temático consistirá no aprofundamento da imagem de América Latina que mensário veiculava. Assim, será possível apreender o tipo de representação edificado acerca dos Estados Unidos; os valores que disseminava a concepção de política da boa vizinhança e, ainda, a apreensão da revista em relação aos países do Eixo.

Dentre os diversos discursos difundidos por Em Guarda, sobressaía o modo de vida americano (american way of life). As reportagens giravam em torno do binômio modernidade/civilização, em oposição à barbárie e ao atraso latino- americano, patente, por exemplo, na série sobre a tecnologia empregada na agricultura. Para o governo Roosevelt, o pan-americanismo deveria incorporar uma série de fatores, como localização geográfica, interesses econômicos e aspirações nacionais que possibilitassem maior aproximação continental.

Havia uma certa forma de estruturação entre texto e imagens que se repetia com o objetivo de descrever a unidade interamericana. Em relação ao

163 HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 54.

discurso forjado pelo periódico, podem-se destacar três diretrizes básicas que orientavam a sua linha editorial. Primeiro, a excepcionalidade do povo norte- americano, sintetizada na intensa mobilização para “salvar” as democracias francesa e inglesa, o sacrifício individual dos cidadãos, a venda de bônus para financiar a guerra e a produção crescente de equipamentos bélicos foram assuntos recorrentes nas páginas do periódico. Em segundo lugar, a revista Em Guarda trazia textos que destacavam o esforço dos “amigos” das Américas pela união interamericana. Dessa forma, percebe-se que havia uma intenção deliberada dos editores em construir uma ordem na qual os Estados Unidos ocupariam o topo, enquanto aos aliados do continente era reservado o papel de meros fornecedores de produtos agro- exportadores.

Ao lado do esforço norte-americano e do pan-americanismo, o terceiro ponto que versava acerca do debate sobre a modernidade figurou no periódico como um tópico primordial na constituição do ideal pan-americanista, apregoado pelos Estados Unidos. Contudo, é preciso ter em conta que o tema vinha implícito nas reportagens da revista, ferrenha defensora do domínio da máquina sobre o homem.

Durante a publicação do mensário (1941-1946), pensar o pan- americanismo significava, antes de tudo, enfrentar a difícil questão das intervenções norte-americanas na América Latina no início do século XX. Entretanto, foi a partir da eleição de Franklin Roosevelt em 1933, que o paradigma de aliança intercontinental, quanto ao conteúdo e a forma, sofreu importantes transformações.

Na década de 1910, não eram poucos os que nos Estados Unidos clamavam por uma intervenção mais enérgica no continente. Desde o bloqueio aplicado por Inglaterra, Itália e Alemanha à Venezuela em 1902, por conta de dívidas não pagas, crescia no Departamento de Estado norte-americano o receio

não só da intromissão estrangeira nas Américas, como também a insurgência dos países ao sul em um possível desafio ao poder estadunidense.164

Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt elaborou um Corolário à Doutrina Monroe.165 Por meio deste documento, buscava solidificar o poderio do

país na região e inaugurava a célebre política do big stick, o grande porrete. Segundo Voltaire Schilling, dali em diante:

(...) os Estados Unidos não aceitariam demonstrações de força nas suas áreas de interesse. Ainda que os motivos fossem aceitáveis, como os de executar dívidas em atraso. Se os financistas europeus quisessem determinar aquele tipo de operação, que solicitassem antes os préstimos dos Estados Unidos, porque doravante o governo americano se arvorava em concentrar os poderes internacionais de polícia. Se algum vizinho, por sua vez, não se comportasse, ferisse interesses, resvalasse no caos e no vandalismo, na devastação de propriedades, ele não hesitaria em enviar a Grande Esquadra Branca, como ele chamava a sua marinha, para pôr ordem nas coisas. 166

Abordagens dessa natureza, justificada ante as ameaças externas, transformou o Caribe em protetorado norte-americano. Em parte, essa informação explicava o grande interesse que o periódico mantinha em relação aos temas referentes à América Central.

Contudo, as vésperas do segundo conflito mundial, a intervenção armada na região havia cedido espaço para outra conduta. Ao invés de blindados, marines e torpedeiros, o Departamento de Estado estadunidense buscava adotar medidas que integrassem as Américas em uma comunidade com anseios comuns. Dessa forma, o governo daquele país reconhecia que o uso excessivo da força atrapalhava os

164

Em 1902, o ditador Cipriano Castro recusou-se a reconhecer as dívidas venezuelanas para com os banqueiros europeus e estes mobilizaram os exércitos de seus respectivos países. Com o apoio dos Estados Unidos, a Alemanha bombardeou o Forte de S. Carlos e destruiu a cidade em 1903. Cf. SCHILLING, Voltaire. Estados Unidos X América Latina: as etapas da dominação. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984, p. 24.

165

Corolário pode ser definido como: “... medidas cuja função é interpretar a doutrina segundo a

conjuntura histórica, adequando-se às realidades de interesses táticos da política externa norte- americana.” Cf. Idem, p. 11.

166

SCHILLING Voltaire. América: a história e as contradições do império. Porto Alegre: L&PM, 2004, p.139.

negócios, além de alimentar no continente os grupos políticos favoráveis a acordos com a Alemanha nazista.

Na VII Conferência Interamericana em Montevidéu (1933), o secretário de Estado Cordell Hull assinou um pacto de não intervenção que reiterava a diretriz adotada de não intromissão em assuntos internos de Estados soberanos. Devido ao longo histórico imperialista norte-americano no continente, Hull teve que por diversas vezes reafirmar o compromisso firmado aos chanceleres latino-americanos:

“Nenhum governo precisa temer qualquer intervenção dos Estados Unidos sob a administração Roosevelt”. 167

Em 1938, o governo Roosevelt criou um órgão exclusivamente voltado para estimular encontros culturais nas Américas. Era consenso nos altos círculos do poder estadunidense que a hegemonia deveria ser exercida por outros meios, promovendo debates, fomentando o diálogo e, sobretudo, forjando uma unidade que privilegiasse a tradição, a liberdade, as riquezas naturais e o passado comum dos povos americanos. A retórica do presidente norte-americano era sintetizada pela explicitação do que ele buscava com o possível fim da tirania nazista:

Contra a Nova Ordem (o programa nazi-fascista), Roosevelt contrapõe a Ordem Moral. Os americanos, desde a sua fundação, disse ele, estão empenhados numa perpétua mudança, numa revolução pacífica, ajustando a si mesmos para alterar as condições, sem precisar de campos de concentração. “O mundo que nós buscamos (...) é o de cooperação entre países livres, trabalhando juntos, numa amigável e civilizada sociedade. Esta nação (...) plasmou o seu destino com as mãos, cabeças e corações, de milhões de homens e mulheres livres, com fé na liberdade sob a proteção de Deus (...). Nosso apoio, vai para aqueles que lutam para alcançar esses direitos e mantê-los. A nossa força é a nossa unidade de propósito. Para esses elevados princípios, não pode haver um fim senão o da vitória”. 168

O período abordado pela revista Em Guarda foi, no contexto latino- americano, de importância estratégica. Apesar de nem sempre identificados, os

167

Cordell, Hull. Memories. Nova York, 1948, p. 334. APUD: SCHILLING Voltaire. op. cit.,1984,p. 36. 168

articulistas e editores do periódico traduziam para os leitores a política elaborada no Departamento de Estado. Assim, no decorrer dos quatro anos de publicação, apareceram sessenta e cinco reportagens referentes á países da América Latina – aspectos militares, diplomáticos, educação, saúde, infra-estrutura, agricultura; quarenta relacionados ao Brasil e quarenta e sete traziam perfis de nações do continente.

A revista Em Guarda permite não só avaliar o tipo de relacionamento que os ativistas do Office pretendiam transmitir para o público da região, como também apreender os valores e a política em prol da efetiva aliança das Américas. Ao invés de tropas norte-americanas desembarcando nas matas do continente, cantores e diretores de Hollywood produzindo material para a divulgação da mistura de ritmos nos cines dos Estados Unidos.

A tarefa de constituir uma política oposta àquela disseminada no inicio do século XX, parecia demandar a necessidade de lançar mão de novas estratégias de propaganda. Se do ponto de vista da quantidade o quadro era estimulante, com a utilização do rádio, cinema e revistas, sob o aspecto da qualidade pode-se afirmar que Em Guarda significou importante veículo de divulgação do pan-americano, em especial o que se relacionava aos temas militares.

No entanto, a análise sistemática do periódico revelou mais que uma suposta atuação benevolente do governo dos Estados Unidos. O discurso de igualdade apregoado e de aliança entre os países do continente escamoteava a existência de um paradigma extremamente autoritário. Nela, os latinos americanos eram descritos como nações atrasadas, de economia extrativista, e na qual a população ainda trazia arraigadas as tradições primitivas dos ancestrais indígenas e espanhóis.

Desde os primórdios da guerra os Estados Unidos compreenderam que a defesa do hemisfério tinha de ser construída sobre alicerces econômicos, políticos e militares. Já em 1940, Roosevelt havia aventado a possibilidade de constituir um gigantesco cartel para controlar o comércio do continente. Contudo, seu projeto contou com a forte oposição de nações que cultivavam intensas relações com o Eixo como a Argentina e o Chile. 169

Portanto, a plêiade de programas voltados para a América Latina fazia parte da dupla estratégia norte-americana de afastar o perigo alemão das Américas, além de assegurar o controle junto aos governos locais no pós-guerra. Como afirmou Victor Bulmer- Thomas:

Entre os surpreendentes paradoxos dos anos de guerra, e uma de suas principais conseqüências, foi a crescente intervenção econômica dos Estados Unidos na América Latina e a expansão do papel dos governos nacionais, inclusive o uso de controles diretos. Em grande parte da América Latina, os interesses do setor privado a cada dia se atrelavam mais aos do governo, mais ou menos da mesma maneira que ocorreu nos Estados Unidos, onde o governo cooptou os líderes dos negócios para planejar e executar toda uma série de novos projetos. Esses dois desenvolvimentistas seriam fundamentais para o novo modelo de crescimento no pós-guerra. 170

Frente aos quatro anos de publicação, não seria difícil de imaginar que a revista Em Guarda tenha permanecido igual, a temática imutável. Se nos primeiros vinte e quatro meses de existência a preocupação era assegurar o apoio da América Latina na guerra, posteriormente o mensário iria objetivar a construção política mundial no pós-guerra, com o debate acerca da constituição de fóruns com legitimidade ampla – e que resultou na fundação da ONU em 1947.

169

O Chile cortou relações com o Eixo somente em 1942, quando os Estados Unidos concederam empréstimos de longa duração; e a Argentina declarou guerra à Alemanha e o Japão a poucas semanas do fim dos combates na Europa. Cf: BETHELL, Leslie. História da América Latina após 1930: Economia e Sociedade. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Brasília, DF: Fundação Alexandre de Gusmão, 2005.

170

Todavia, no que se refere à primeira fase, a leitura que o periódico fazia do continente era caracterizado pela pouca disposição ao diálogo. As nações ao sul da região eram apresentadas dentro de uma seqüência invariável, classificada a partir de referenciais determinados a priori. A conseqüência mais imediata desse critério era a divisão dos países em dois grupos distintos: aqueles que viviam sob extrema pobreza e que, portanto, deveriam receber uma assistência material maior; e aquelas em desenvolvimento, parceiros restritos a algumas áreas, em especial na agricultura.

No primeiro conjunto, podem-se elencar as nações que compunham a América Central (Nicarágua, Guatemala, Cuba, El Salvador, Panamá, Honduras e República Dominicana) e os territórios pobres na América do Sul (Paraguai, Bolívia e Venezuela). O que os caracterizava era a economia dependente das exportações de produtos primários – fumo, açúcar, cacau e cana –, e na política, a profusão de ditadores que os governavam.

O segundo grupo era composto por países que, se não haviam escapado de governos autoritários, pelo menos contavam com um incipiente parque industrial e com a abundância de matérias primas relevantes como minerais e produtos agrários. Nessa categoria, os destaques eram Brasil, Argentina e México, parceiros potenciais do governo Roosevelt na extirpação do nazismo nas Américas.

Dessa forma, a política de boa vizinhança - revisitada por meio do reavivamento do pan-americanismo – não transmutou na prática as relações entre Estados Unidos e América Latina. A hegemonia norte-americana sob o continente em nenhum momento foi discutida em uma possível divisão de poderes entre os “amigos” latino-americanos. Porta-voz do governo estadunidense, Em Guarda reafirmou os valores apregoados desde meados do século XIX, por meio da

declaração do Destino Manifesto: a superioridade amparada na idéia de povo

escolhido por Deus, do caráter desbravador exemplificado na conquista do Oeste, a

inventividade e perspicácia que levara os norte-americanos a promover a tecnologia desde os primeiros anos de idade.

No universo da revista, os aliados e inimigos eram classificados a partir de um padrão definido. A estratégia de convencimento do leitor ia desde a construção da narrativa, com a harmonia entre texto e iconografia; e a utilização de cores que, com pretensão pedagógica, auxiliava na leitura “correta” da reportagem.

Outras táticas prescritas pelo mensário consistiam no uso de comparações/oposições entre o “bem” e o “mal”, o maniqueísmo caracterizado pelo emprego de frases e trechos discursivos grandiloqüentes de autoridades políticas e militares. Além disso, a existência das montagens fotográficas denotava a prova testemunhal de quem esteve lá, reforçava o que a reportagem contava por meio de “provas”. Por fim, o amplo emprego de clichês para nomear os latino-americanos reforçava o viés pouco afeito ao debate da revista – “defensores da liberdade”, “adeptos do pan-americanismo”, “mútua amizade e apreço entre as nações”.

Esse tipo de abordagem, típica de publicações voltadas para difusão propagandística, privilegiava uma descrição lacunar do continente, o que de saída pressupunha a adoção de um padrão ideal a respeito do que deveria ser a

verdadeira América. Independente da localização da nação, o roteiro para a

apresentação estava definido a priori: o texto iniciava com um balanço das recentes medidas que o país havia adotado na guerra contra o Eixo; seguia-se a descrição dos recursos naturais, industriais ou agrícolas disponíveis para a transformação no moderno parque industrial norte-americano e, por fim, a declaração otimista em

relação ao futuro das relações no continente obtidas junto a algum presidente “amigo”.

A iconografia também acompanhava o padrão definido pelos editorialistas da revista. Por meio da leitura do corpo documental, percebe-se que a par da nação apresentada, a seqüência fotográfica permanecia invariável: cenas de paisagens agrícolas, sucedidas por imagens de cidades planejadas com ótima infra-estrutura e ações voltadas para a educação e a saúde da população.

No que concerne o discurso e a prática, havia uma enorme distância entre o que os editores e articulistas desejavam transmitir aos leitores e o que correspondia à realidade das Américas. As páginas do periódico apresentavam programas avançados de saúde, indivíduos saudáveis e cidades bem administradas. Entretanto a realidade latino-americana era sombria, com altos índices de analfabetismo, profusão de doenças, surtos epidêmicos e miséria generalizada.

O conceito que sustentava tal entendimento era a noção de modernidade. Para pensar nas particularidades do termo, recorremos ao que afirma Berman Marshall:

Ser moderno é viver uma vida de paradoxo e contradição. É sentir-se fortalecido pelas imensas organizações burocráticas que detêm o poder de controlar e freqüentemente destruir comunidades, valores, vidas; e ainda sentir-se compelido a enfrentar essas forças, a lutar para mudar o seu mundo transformando-o em nosso mundo. É ser ao mesmo tempo revolucionário e conservador: aberto a novas possibilidades de experiência e aventura, aterrorizado pelo abismo niilista ao qual tantas das aventuras modernas conduzem, na expectativa de criar e conservar algo real, ainda quando tudo em volta se desfaz (...).Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. A experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porém, é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, da ambigüidade e angústia.171

171BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo:

Ser moderno, na concepção do mensário, era substituir o passado - ligado aos colonizadores do “Velho Mundo”- pelas instituições e tecnologias do Novo Mundo – leia–se Estados Unidos. Dessa forma, longe de ser altruísta, a Fundação Rockefeller apregoava que por meio da educação e do emprego de técnicas modernas, a pobreza do continente seria amenizada. Assim, a idéia de aliança interamericana vinha acompanhada invariavelmente dos termos moderno e Novo

Mundo, sugerindo um processo violento de desenraizamento cultural no qual o modo

de vida norte-americano deveria atuar como paradigma a ser seguido.

Noutros termos, essa persistência apontaria para uma liderança inconteste estadunidense – única nação apta a fornecer a “chave” da modernidade – além de

Benzer Belgeler