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SKORLAMALAR APACHE II Skoru

1.3.1.

A saúde pública e a juventude

Ao considerar a juventude como construção social e a importância da construção de políticas públicas que respeitem a heterogeneidade deste público, o espaço da Saúde Pública pode ser um lócus privilegiado no sentido de contribuir para a construção de novas práticas na realidade dos jovens.

No campo da Saúde Pública, as políticas públicas direcionadas à adolescência e à juventude foram geralmente embasadas num modelo biológico que reforça a compreensão a partir da teoria dos instintos e hormônios, gerando serviços para controlar estes aspectos (ADORNO e col., 2005).

SANTOS (2006) reforça essa discussão, apontando diversos autores críticos e questionadores desse discurso que enfatiza a noção de que a adolescência e a juventude são fenômenos atemporais e universais.

Diante do perigo de instituir um olhar pautado numa visão sanitarista e repressiva para a juventude, LONCLE (2008) coloca que, a partir dos anos 80, o que até então era considerado uma questão juvenil, como a dificuldade de inserção social e profissional ou a crise de cidadania, começou a ser analisado como um problema de Estado. Em um momento da história, a juventude foi considerada “um recurso formidável”, mas atualmente é encarada como um problema, como mostram as diversas criações de políticas voltadas à juventude para as questões de violência, AIDS, álcool e drogas, especialmente no campo da saúde.

A conscientização sobre a importância dos determinantes sociais, as desigualdades sociais e de saúde, bem como a influência da ideologia neoliberal, levou ao que denominou de “sanitarização das questões sociais” , em que diante do jovem ameaçador constroem-se intervenções de proteção e saúde, entretanto “Ninguém se pergunta por que eles bebem, por que têm

idéias suicidas, por que bancam os idiotas nas estradas... Ao contrário. as análises sobre as condições de vida são descartadas, pois supõem dispositivos sociais de grande envergadura aos quais o Estado renunciou e que as coletividades locais não têm meios de pôr em prática", como

conseqüência "as políticas de saúde pública, menos custosas, mais fáceis de quantificar e valorizar, vão de vento em popa" (LONCLE, 2008).

VALADÃO destaca que o discurso biomédico utilizado no campo da saúde visa normatizar a vida do jovem, sugerindo que este não tem competências para responsabilizar-se pela sua saúde, sua sexualidade, sua vida afetiva e social, entendendo os riscos à saúde como conseqüência do modo de vida juvenil. Além disto, nas últimas décadas, a saúde pública vem sendo questionada quanto aos excessivos gastos com doenças, com métodos sofisticados e com impactos pouco satisfatórios na saúde da população. Dentro desta discussão, ganhou força o campo da elaboração de políticas públicas saudáveis, a partir do paradigma da Promoção da Saúde,

com o propósito de realizar um trabalho articulado no campo da saúde (VALADÃO, 2003).

Por esse prisma, a intervenção procura potencializar ações que envolvam os determinantes da saúde. O exemplo citado pela autora ilustra esta questão: os altos índices de violência enfrentados principalmente pelos jovens precisam ser discutidos para além da criação de prontos socorros, propondo-se a reavaliação de leis do transito, programas de combate ao tráfico, currículo escolar, ente outros aspectos (VALADÃO, 2003).

Em recente publicação do Ministério da Saúde (2006), a Política Nacional de Promoção de Saúde consolida o compromisso de ampliação e qualificação das ações de promoção da saúde no Sistema Único de Saúde. Isto posto, indica o quanto a saúde precisa ser entendida de forma mais ampla, assumindo uma postura diferente da tradicionalmente concebida

1.3.2. O referencial da Promoção da Saúde

Ao descrever saúde, BUSS (2003) ressalta que se trata de um conceito amplo com determinantes sociais, econômicos, políticos e culturais, que vão além das questões biológicas, genéticas e ambientais. Nesse sentido, considera-se que há uma forte relação entre os estilos de vida das pessoas, sua posição social e econômica, suas condições de vida e seu estado de saúde.

Ao analisar o conceito da promoção da saúde, BUSS (2003) distingue esta da prevenção de doenças, afirmando que enquanto a prevenção de doenças busca que os sujeitos fiquem isentos destas, a promoção da saúde é mais abrangente, pois procura identificar e enfrentar os determinantes do processo saúde - doença a fim de transformá-los a favor da saúde.

WESTPHAL (2006) também diferencia a prevenção de doenças da promoção da saúde, considerando que a primeira está mais relacionada a uma visão biológica e comportamental do processo saúde doença, enquanto a promoção da saúde está relacionada a uma visão holística e emancipatória deste processo. Dessa forma a prevenção, por não considerar a dimensão sócio-histórica do processo saúde doença, não intervém em seus determinantes.

Considerada como um novo “paradigma” no campo da saúde pública, a promoção da saúde refere-se a um modelo de atenção à saúde que vai além da assistência médico curativa, resgatando a concepção de saúde como produção social, como resultado de relações de distintas naturezas, ou seja, econômicas, políticas, organizacionais, ideológicas, culturais e cognitivas (SICOLI e NASCIMENTO, 2003). Baseia-se em uma concepção de saúde que não a restringe à ausência de doença, mas que atua sobre seus determinantes, incidindo sobre as condições de vida da população.

Este novo referencial foi descrito em diferentes documentos produzidos nas Conferências Globais de Promoção da Saúde: Ottawa em 1986, Adelaide em 1988, Sundsval em 1991, Jacarta em 1997, Bogotá em 2000 e Bancoc em 2005. Seus conceitos indicam a necessidade da Saúde Pública utilizar-se de novas estratégias para que se possa alcançar a saúde para todos (WESTPHAL, 2006).

Considerada por CARVALHO (1996) um marco institucional no campo da saúde pública, a Conferência do Canadá em 1986, ao aprovar a Carta de Ottawa, estabelece que “o conceito de promoção da saúde passa a

ser considerado a espinha dorsal da nova saúde pública” (p.117). A Carta de

Ottawa define promoção da saúde como “o processo de capacitação da

comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo” (BRASIL,

Este documento define também os cinco campos de atuação da promoção da saúde que são: a elaboração e implementação de políticas públicas saudáveis; criação de ambientes favoráveis à saúde; o reforço da ação comunitária; desenvolvimento de capacidades pessoais e a reorientação dos serviços de saúde

De acordo com WESTPHAL (Westphal apud FERNANDEZ et al, 2008) são destacados como princípios norteadores da promoção da saúde: “(1) envolve a população como um todo, no contexto de vida diário, mais do que a focalização nas pessoas em risco de ser acometido por uma doença específica; (2) é dirigida para a ação sobre os determinantes ou causalidade social, econômica, cultural, política e ambiental da saúde; (3) combina métodos e abordagens diversas, porém complementares; (4) objetiva particularmente a efetiva e concreta participação social; (5) é basicamente uma atividade do campo social e da saúde e não somente serviço de saúde (p. 157)”.

Há uma diversidade de entendimentos e reflexões sobre a promoção da saúde, justificadas pelas influências do contexto contemporâneo de mudanças econômicas, políticas e culturais. Esta pluralidade de entendimentos, permite que a promoção da saúde esteja em constante ebulição, o que lhe possibilita a função de “desconstrução” do paradigma hegemônico e da visão economicista baseada na relação custo-benefício (FERNANDEZ et al. 2008)

Podem-se dividir em dois grandes grupos as conceituações da promoção da saúde: primeiro, como uma forma de estruturar atividades com componentes educativos, objetivando transformar comportamentos individuais para construir estilos de vida saudáveis, como por exemplo, atividades físicas, dietas, aleitamento materno, etc. Uma segunda forma de trabalhar a promoção da saúde parte do entendimento de que a saúde é reflexo de diversos fatores sociais e das condições de vida dos sujeitos e, conseqüentemente, as atividades devem ser estruturadas por meio de

políticas públicas e de ambientes favoráveis ao desenvolvimento da saúde, considerando o espaço coletivo em que os sujeitos estão inseridos (BUSS, 2003).

Segundo DOWBOR (2008), diferentes autores, ao longo da história da promoção da saúde, criaram distintas abordagens teóricas para este campo de trabalho. Caplan, em 1993, propôs quatro diferentes propostas de trabalhar a promoção da saúde, Seedhouse em 1997 sugeriu cinco modelos de intervenção, que puderam ser resumidos em três mais importantes. Em 1995, Labonte nomeou três enfoques distintos e em 1994 Naido & Wills propuseram cinco formas de trabalhar com a promoção da saúde. Estes enfoques teóricos possuem intersecções entre si e foram classificados em cinco grupos, como indicado no quadro a seguir.

Figura 1 - Categorização de promoção de saúde.

AUTOR/GRUPO A B C D E

CAPLAN

Benzer Belgeler