Após um período de doze anos – de 1932 até 11 de janeiro de 1944 – a P.R.E.9 deixou de pertencer ao grupo liderado por João Dummar e foi incorporada pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand. O episódio que envolveu a incorporação foi marcado por pressão por parte de Chateaubriand e ressentimento da parte dos Dummar, principalmente João.
Segundo escreveu João Dummar Filho, o cheque utilizado por Assis Chateaubriand para pagar a Ceará Rádio Club circulou, a mando de João, durante uma semana na Praça do Ferreira como forma de demonstrar a sua contrariedade com a venda.486 O capítulo do livro no qual o autor narra a
incorporação chama-se “Projeto interrompido”.
Eduardo Campos – que ouviu de João Dummar que sua voz não servia para locutor na emissora, mas que foi contratado nos primeiros anos da incorporação, chegando a exercer o cargo de presidente – aponta que a incorporação foi um marco de “aperfeiçoamento e melhoria” para a emissora.487
A memória é seletiva. Muitos outros textos sobre a incorporação foram escritos e, com certeza, tantas outras conversas devem ter tido o assunto como pauta para a discussão. No entanto, na prática, pouca coisa, além da veiculação do “prefixo musical que identifica[va] para o Brasil e para o mundo
as Emissoras Associadas do Brasil” e o afastamento de João, deve ter mudado
logo após a incorporação. Os músicos e técnicos, além da organização da programação continuaram basicamente os mesmos. Porém, após um ano, a incorporação representou um distanciamento da emissora com relação à cidade. Afinal, a partir do momento em que ela passou a fazer parte dos Diários
Associados, suas ações passaram a se conectar com as estratégias traçadas
para o grupo – que, somente em Fortaleza, detinha ainda os jornais Unitário e
Correio do Ceará.
A exemplo de outras capitais, Fortaleza teve muito da sua relação com a música influenciada pelo convívio de seus moradores com as “máquinas
486 DUMMAR FILHO, João. João Dummar, um pioneiro do rádio. Fortaleza: Edições Demócrito
Rocha, 2004, p. 73.
487 CAMPOS, Eduardo. 50 anos de Ceará Rádio Clube (1934-1984): breve histórico da
falantes”, principalmente com o rádio. Da mesma forma, o jeito da Ceará Rádio Club fazer rádio foi influenciado pelas demandas e artistas locais. Não era possível descartar a experiência adquirida em mais de uma década e que começava a se tornar bem sucedida, caindo no gosto do público. Afinal, na década de 1940 não só a quantidade de aparelhos aumentava de forma significativa, como a demanda e o desejo pelos rádios também.
Numa cidade em que os “primeiros contatos” com esses aparelhos se deram, se comparados com a Capital Federal, tardiamente, a quantidade de anúncios publicados nos periódicos locais na década de 1940 mostra que para alguns já não bastava possuir o rádio, mas uma máquina com o maior número de válvulas, de melhor qualidade, que incorporasse vitrola e rádio em um mesmo aparelho ou todas as anteriores.
Tentou-se discutir, um pouco, sobre essa aproximação – da cidade com o rádio. Inicialmente, buscou-se falar de uma Fortaleza que ainda não conhecia o rádio e que conhecia o fonógrafo, o gramofone e a vitrola por ouvir falar. Também buscou-se mostrar que mesmo com uma pequena quantidade de “máquinas falantes” existentes na cidade, a música em Fortaleza não era estática. Ela circulava pela cidade por intermédio das bandas de música, seresteiros, partituras, cadernos de modinhas e era cantada pelos sujeitos em casa e no trabalho.
Mostrou-se, ainda, o lugar que o rádio veio ocupar. O rádio foi instalado na cidade em um momento que as sociabilidades envolvendo a música ganhavam um certo destaque. Não que antes disso fosse inexistente, mas que a partir da década de 1930, com a valorização das festas dançantes, a música gravada deixou de ser algo distante dos sujeitos e se tornou cada vez mais uma “necessidade” principalmente nos lares mais ricos.
A P.R.E.9, assim como qualquer outra instituição, não pensava por si só. Foram os sujeitos envolvidos com a emissora que a construíram. Assim, mesmo existindo alguns modelos a seguir – a rádio educadora ou o
broadcasting americano – quando foi instalada em Fortaleza, a emissora se
construiu no uso, se relacionando com uma cidade que também estava em constante mudança. As sensibilidades sonoras em mudança – com a industrialização e o aumento de máquinas ruidosas, carros e similares – se
relacionava ainda com a música gravada e tocada nos bares, cafés e calçadas da cidade.
O rádio influenciou a forma de os artistas locais fazerem música – que começavam a se prender ao tempo máximo de um lado do disco, à impostação mais propícia da voz, posicionamento e forma de tocar o instrumento que favorecesse a captação. Além disso, a possibilidade de “viver de música”, que até então era quase que restrita aos membros das bandas de música ligadas às instituições militares – apenas alguns poucos conseguiam viver em Fortaleza como músicos profissionais ou professores de música –, passou a se tornar cada vez mais possível. Que o diga Lauro Maia, que largou a Faculdade de Direito na última semana do último semestre para se dedicar somente à música. Não que esta não tenha sido uma decisão difícil, afinal ele tentou levar o curso superior até onde pôde, mas sem a emissora local essa decisão teria sido ainda mais complicada.
Conforme os sujeitos iam se afeiçoando ao “bicho” – o rádio – ele causava disputas, na forma de regularizar os usos. Críticas, editoriais, apelos à polícia e reformas urbanas foram utilizados como forma de normatizar os usos, mas as composições cantadas pela Pequena Notável, por Chico Viola e outros, caíram no gosto de muitos que frequentavam os cafés, as bodegas, os bares e a casa dos vizinhos...
Trata-se de um trabalho sobre um tema ainda pouco pesquisado em Fortaleza. E por isso, todas as qualidades e defeitos provenientes desta empreitada se encontram nessas páginas. A teoria – quase sempre oriunda de outras áreas e escrita para outras finalidades – utilizada na pesquisa, assim como as lunetas de Simplício – do romance A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo –, propiciou os benefícios da visão, mas, por vezes, permitiu enxergar apenas um aspecto do objeto.488 Assim, optou-se por ampliar
e cruzar as referências, cabendo ao historiador utilizar o que fosse mais potente para a pesquisa. Esse lugar de “fronteira”, possibilitou um crescimento intelectual do pesquisador que, espera-se, seja visível nas linhas aqui escritas, ao mesmo tempo em que ocasionou alguns problemas que foram, espera-se,
488 MACEDO, Joaquim Manuel de. A luneta mágica. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha,
resolvidos no decorrer da pesquisa. Porém, não escolheria estar em outro lugar que não à “beira da falésia”.
Muito ainda precisa ser feito para ampliar a compreensão do “circuito da música” em Fortaleza. Pouco ainda se sabe sobre os músicos, sobre as composições locais – letras e melodias –, lugares e formas do ensino de música, os caminhos do violão e de outros instrumentos na cidade.
As questões ligadas à ciência do rádio, à movimentação desses engenheiros na cidade e à circulação em Fortaleza de revistas especializadas – Rádio e Electron – ainda não foram observadas. Sobre as revistas, inclusive, existem vestígios que atestam a circulação dessas publicações em Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.
Pouco se sabe também sobre o comércio de discos, máquinas falantes e partituras em Fortaleza, o que seria importante para compreender a circulação dessas composições na cidade. Inventários de comerciantes, documentação da alfândega e anúncios em periódicos, poderiam dar alguma ideia das composições que circulavam em Fortaleza.
Assim, considera-se oportuno terminar este trabalho com reticências e não com ponto final, anunciando que muito trabalho ainda estar por vir...
FONTES
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Menezes Pimentel.
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Diário Oficial (1933-1944) – Setor de Periódicos da Biblioteca Pública Menezes
Pimentel.
O Estado (1938-1944) – Setor de Periódicos da Biblioteca Pública Menezes
Pimentel.
Gazeta de Notícias (1927) – Setor de Periódicos da Biblioteca Pública Menezes
Pimentel.
Gazeta Oficial (1924-1932) – Instituto do Ceará.
Guia Cearense. (1926 e 1939) – Arquivo Público do Estado do Ceará.
O Nordeste (1924-1944) – Setor de Periódicos da Biblioteca Pública Menezes
Pimentel.
O Povo (1928-1944) – Setor de Periódicos da Biblioteca Pública Menezes
RÁDIO (1924) – Biblioteca Nacional (RJ).
A Rua (1933-1934) – Setor de Periódicos da Biblioteca Pública Menezes
Pimentel.
Unitário (1938-1944) – Setor de Periódicos da Biblioteca Pública Menezes
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