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Siyasal Alanda Kadına Şiddet

A história territorial brasileira começou em Portugal. A primeira iniciativa de distribuição de terras no Brasil, pela coroa de Portugal, deu-se com “a carta patente, dada a Martim Afonso de Souza, na vila do Crato, a 20 de novembro de 1530.”129Com essa carta, Martim Afonso recebeu autorização para tomar posse das terras que descobrisse, tornando-se Capitão-mor e Governador do Brasil, com permissão de conceder sesmarias das terras a quem pudesse explorá-las e fazê-las produzir. Martim Afonso desembarcou no Brasil com quatrocentas pessoas, distribuídas em três navios. “A missão clara era a defesa da costa e a pesquisa de metais preciosos.”130A ele próprio foram concedidas, diretamente pelo Rei D. João III, cem léguas e, a seu irmão, Pedro Lopes, cinquenta. O mesmo Rei, aos 28 de fevereiro de 1532, encarregou seu Capitão- mor de dividir o litoral do Brasil, de Pernambuco ao Rio da Prata, em 12 partes, que se chamaram capitanias hereditárias, medindo cada uma delas cinqüenta léguas de costa,131 doadas aos capitães desbravadores. Estes eram portugueses, altos funcionários da corte, homens de “posses”, que tinham influência política e que dispunham de

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LIMA, Rui C. Pequena história territorial do Brasil..., p. 32. 130

recursos para uma aventura nada comum, ou seja, vir para um lugar tão distante, enfrentando toda espécie de perigo.

O objetivo primordial da implantação dessas capitanias era ocupar e defender as terras conquistadas. Portugal corria o risco de perdê-las para os franceses, que constantemente atacavam e ocupavam a feitoria de Pernambuco. A forma de ocupação, lenta e esparsa, deixava a impressão de que o Rei não tinha tanto interesse por essas terras, mas, na realidade, o que aconteceu foi o contrário, pois Portugal nunca abriu mão do território. Sempre que outras nações tentavam invadi-lo, eram repelidas à força. Apesar da vigilância, os holandeses, ingleses e franceses só foram expulsos definitivamente do Brasil em 1654.132 O potencial produtivo dessas terras, as riquezas vegetais e minerais não eram de se desprezar.

Os 12 capitães, ou pessoas contempladas pelas doações de terras, denominavam-se “donatários”, a quem não era permitido dividir, com ninguém, sua capitania. Era-lhes, no entanto, permitido ficar com dez léguas, não contíguas, e o restante deveria ser repartido, em regime de sesmarias, às pessoas que as requeressem e que tivessem condições financeiras para cultivá-las.133 De forma que o Rei doava os benefícios e o usufruto da terra, e não ela própria, pois os donatários não eram proprietários de fato, mas apenas uma espécie de administradores. Até 1822, “a apropriação das terras brasileiras regeu-se exclusivamente pelas Ordenações do reino”,134 por intermédio da concessão de sesmarias, caso o regime de sesmaria tivesse sido cumprido, pois se sabe que a Lei de Sesmaria não foi cumprida na íntegra.

Das 12 capitanias, somente três foram bem sucedidas. Em outras quatro, “os donatários nem sequer tomaram posse e as demais estagnaram-se por falta de recursos.”135Esses aventureiros enfrentaram toda sorte de problemas, como os conflitos deles e dos missionários com os habitantes nativos; enfrentavam também os ataques dos franceses, dos espanhóis, dentre outros desafios, como as doenças, o desconforto, os insetos. Além do que, a eles era exigido viverem segundo os costumes do Reino, até no tocante aos vestuários. De todas as causas do fracasso desse empreendimento, as mais

131

Ibidem, p. 33. 132

PRADO JÚNIOR, C., Formação econômica do Brasil. 35. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 49. 133

SILVA, L. Osório. Terras devolutas e latifúndio..., p. 29. 134

Ibidem, p. 32. 135

graves foram: “a extensão do território, a falta de vias e meios de transporte e, principalmente, a falta de uma instância central coordenadora.”136

Buscando solucionar os entraves causadores do insucesso dessas capitanias, aos 17 de dezembro de 1548, a Coroa chamou para si o direito de distribuir terras, revogando os poderes dos capitães e dando-os todos ao capitão da Bahia de Todos os Santos, Tomé de Souza, que se tornou governador-geral de todas as capitanias.137 Surgiram então as capitanias da Coroa, em lugar das hereditárias. O primeiro governador-geral, Tomé de Souza, juntamente com a missão jesuíta, tentou estruturar o processo de povoamento, a distribuição e fiscalização das sesmarias e a organização da produção. Nem Tomé de Souza nem outros governadores obtiveram sucesso, uma vez que lutavam em vão contra a concessão indiscriminada de terras, contra a desorganização administrativa, o descaso dos funcionários e a desordem do Governo.138

As sesmarias surgiram em Portugal, com a Revolução de Avis, em 1375, segundo João Bosco Feres139 e Paulo Bertran;140 ou em 1385, de acordo com Roberto Smith,141 no reinado de D. Fernando. Tratava-se de concessão de terras, condicionada à sua efetiva exploração, podendo ser reversível, caso não fosse cultivada. A origem da palavra sesmaria “deriva para alguns, medida de divisão das terras do alfoz; como para outros, de sesma ou sesmo, que significa a sexta parte de alguma cousa; ou ainda, para outros, do baixo latim caesina, que quer dizer incisão, corte.”142 Dentre as interpretações, a mais amplamente aceita é que sesmaria deriva da palavra sesma ou sesmo ou ainda seis ou sexta parte de qualquer coisa.143 Cirne Lima explica, ainda, que com o tempo a palavra sesmaria se transformou em Lei, que passou a reger ou designar a forma de distribuição de terras em Portugal, ou seja, “Sesmarias são propriamente as dadas de terras, casaes, ou pardieiros, que foram, ou são de alguns Senhorios, e que já em outro tempo foram lavradas e aproveitadas, e agora o não são.”144 Lígia Osório também traz explicações para a palavra e diz que

136

Ibidem, p. 25. 137

LIMA, Rui C. Pequena história territorial do Brasil..., p. 35. 138

FERES, J. B. Propriedade da terra: opressão e miséria..., p.25-26. 139

Ibidem, p. 24. 140

BERTRAN, P. História da terra e do homem no planalto central: eco-história do Distrito Federal: do indígena ao colonizador. Brasília: Solo, 1994, p. 85.

141

SMITH, R. Propriedade da terra e transição..., p. 341. 142

LIMA, Rui C. Pequena história territorial do Brasil..., p. 15. 143

Ibidem, p. 16. 144

outros ainda afirmam que as terras distribuídas eram chamadas de sesmaria porque o agente que repartia as terras devolutas era o sesmeiro, uma espécie de magistrado municipal, escolhido entre os “homens bons” da localidade, integrante do sesmo ou colégio de seis membros, encarregados de distribuir o solo entre os moradores. 145

Afirma também que na Colônia, só a partir do século XVII, o termo passou a designar, nos papéis oficiais, a pessoa que recebia a concessão de sesmaria.146 Quer dizer, sesmeiro em Portugal “era o componente de uma comissão que fiscalizava as terras para obrigar o seu cultivo ou distribuir as terras incultas aos arrendatários.”147No Brasil, sesmeiro era a pessoa que recebia terras de sesmaria, tendo como regra, o compromisso de fazê-las produzir, senão a terra voltava ao domínio da Coroa.

Em Portugal, a Lei de Sesmarias foi uma tentativa de contornar a crise de abastecimento pela qual passava o país, como também uma medida para reintegrar ao campo o povo que havia migrado para as cidades, expelidos pelo sistema feudal ou em busca de outras alternativas de sobrevivência. Em Portugal, diz Lígia Osório: “a sesmaria gerou a pequena propriedade, e no Brasil, ao contrário, foi a causa principal do latifúndio brasileiro.”148

O sistema sesmarial foi transplantado para cá com as mesmas características de Portugal, o que causou vários transtornos, pois a realidade da colônia era completamente diferente, em todos os sentidos. A começar pela imensidão das terras vagas, não ocupadas ou habitadas apenas pelos indígenas que não conheciam nenhuma forma de apropriação, até o termo terra devoluta, que, no sistema sesmarial de Portugal, significava terras ociosas, não-cultivadas e que voltavam à Ordem de Cristo. No Brasil, seu sentido foi distorcido, passando a significar terra vaga, que normalmente não retornava à Coroa e passível de ser ocupada. O exemplo seguinte é apenas um dos vários encontrados nos livros do Registro Paroquial:

Digo eu Jozé Amancio de Araújo Goudinho (...) sou Senhor e possuidor de duas léguas de terras de comprimento, e uma de largura pouco mais ou menos (...), cujo terreno achando-se devoluto foi por mim apossiada e nela fundei uma Fazenda e pus lhe o nome de São Jozé, aonde tenho casas de morada,

145

SILVA, L. O., Terras devolutas e latifúndio..., p. 38. 146

Ibidem , p. 38. 147

Ibidem, p. 116. 148

Engenho de cana e mandioca, lavoura, curral e limitam-se (...). Santa Rita vinte e quatro de novembro de 1856. 149

Por esses e outros motivos, a Lei de Sesmarias teve outra conotação neste país. Raimundo Faoro150 afirma que o regime gerava grandes propriedades, para a criação extensiva de gado e para o cultivo de exportação. As sesmarias eram distribuídas a quem tivesse condições econômicas para cultivá-las. Aos trabalhadores cabia vender sua força de trabalho ou viver como agregados (moradores de favor) ou como posseiros, que produziam para subsistência, já que até 1888, utilizava-se a mão- de-obra escrava. Assim, a Coroa distribuía terras, visando a grande produção e a sua inserção no quadro dos negócios do mercantilismo.

As regras das sesmarias eram cada vez mais desrespeitadas, como por exemplo, a exigência de cultivo da terra, dentro de um prazo de seis anos, que permaneceu ignorada; da mesma forma, a proibição de venda ou trespasse das terras obtidas, ou sua transmissão por herança. Implantado por D. João III, em 1532, esse sistema de distribuição de terras perdurou até 1822, ano da Independência oficial do Brasil, ocasião em que essa distribuição fundiária já havia sido totalmente desvirtuada, e o governo perdera o controle das concessões de sesmarias. Os grupos monocultores eram os verdadeiros detentores do poder.

No período de 1580 a 1640, as Coroas espanhola e portuguesa eram unidas. Portugal era governado por um vice-rei, em nome do soberano espanhol. Com a crise de abastecimento em Portugal, muitos imigrantes vieram tentar a vida na colônia, sobretudo a contar de meados do século XVII.151 Somente no ano de 1750 e seguintes, redigiram-se os tratados que limitariam definitivamente os territórios português e espanhol. A partir de 1640, foi estabelecida a unidade administrativa, criando o Conselho Ultramarino que permaneceria até o fim da era colonial.152 Os donatários e demais autoridades foram cada vez mais submetidos a essa administração da Coroa. A metrópole impôs nova política econômica à colônia, proibindo o desenvolvimento de certos produtos agrícolas como as especiarias, a oliva, a vinha etc., para não atrapalhar

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Livro 6, registro 5. 150

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 8. ed. v. 2. São Paulo: Globo,1989, p. 407-408.

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PRADO JÚNIOR, C. História econômica do Brasil, p. 50. 152

seu comércio com as Índias. Os portugueses queriam vender aqui os produtos que compravam lá, então, a colônia deveria produzir só o que interessasse ao comércio da metrópole. O que era viável para a vida da colônia não interessava.

A metrópole “fechou os olhos” à legislação fundiária não-cumprida, pois o vislumbre de lucro e a necessidade de arrecadar eram maiores. Nos séculos XVI e XVII, havia condicionantes para a obtenção de carta Régia para sesmaria, mas não eram, entretanto, cumpridas na maioria dos casos, como por exemplo, devolvê-las, caso os sesmeiros não conseguissem cultivá-las, dentro de seis anos. As exigências burocráticas de confirmação pelo Rei só foram complicando a situação dos colonos. Havia os ataques constantes dos índios, a distância entre os “Registros” e as glebas, a taxa do foro,153 ou a sisa154 que onerava o lucro. Tudo emperrava o cumprimento das exigências de Lisboa, estimulando a prática cada vez mais crescente de apossamentos. A regra era doar terras a quem nelas fosse produzir, mas as autoridades não respeitavam as práticas nem as recomendações sesmariais, tampouco quanto ao tamanho. Eram concedidas sesmarias de até vinte léguas quadradas, enquanto “a Carta Régia de 17 de dezembro de 1695 limitava a extensão das sesmarias a quatro léguas por uma e outra carta posterior as limitava a três léguas por uma.”155

Em Goiás, a Lei de Sesmarias teve pouquíssima expressão, uma vez que as primeiras bandeiras vieram em busca de índios para o tráfico da escravidão. Só mais tarde, entre 1723 e 1725, descobriram o ouro e o território da futura Capitania foi efetivamente incorporado à geopolítica metropolitana portuguesa. 156 A longa distância, as dificuldades de acesso, os altos custos de demarcação, a entrada clandestina de forasteiros, ocupando o sertão, a resistência dos aborígenes etc, eram empecilhos para obter a terra por via legal. Os requerimentos, as concessões e confirmações foram em número reduzido, limitando-se aos beneficiários de cargos, patentes e provisões régias.157 O mais comum era o apossamento puro e simples ou, no máximo, a obtenção de uma Carta de Concessão que sancionava a posse “natural”, “espontânea” e

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Foro: pensão paga pelo anfiteuta, certa e anual; domínio útil do terreno; privilégio, uso ou direito garantido

pelo tempo ou pela lei (GLOSSÁRIO de direito agrário, p. 44). 154

Sisa: designação antiga do hoje chamado imposto de transmissão; imposto sobre o valor das vendas de imóveis urbanos – é taxada em 10% (FERRREIRA, Aurélio B. de Holanda, Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Moderna, 1986, p. 1594).

155

PESSOA, J. M. A Igreja da denúncia e o silêncio do fiel, p. 77. 156

SILVA, E. J. Sesmarias: capitanias de Goiás 1726-1770. (Dissertação de Mestrado). Goiânia, 1996, p. 147. 157

“pacífica”. 158As extensões dessas sesmarias ou posses raramente obedeciam ao estipulado pelas modificações implantadas na legislação de Sesmaria, em 1753, determinando três léguas de comprimento por uma de largura. As técnicas de medição eram rudimentares e imprecisas, tornando fácil aumentar a extensão, apossando-se de terras aos redores.

Para Lígia Osório,159 todas essas razões contribuíram para transformar o Brasil em um país latifundiário, mas a principal foi a inserção no amplo mercado mundial que se abria para determinados produtos, como o açúcar, o algodão, o fumo, o café, que, segundo a autora, traçaram o modelo de agricultura aqui instalada: “latifundiária, monocultora e escravista”. Essas condições, continua a autora, levaram a metrópole a agir com tamanha liberalidade na disposição do solo colonial e, por isso, foram concedidas grandes sesmarias e a quem tinha “posses” para fazê-las produzir. Esses argumentos são pertinentes, mas insuficientes para explicar a estrutura fundiária desse período. Existiram outros fatores também relevantes que contribuíram para formar o quadro da realidade fundiária brasileira, como a influência dos liberais na política brasileira, a prática desenfreada de apossamentos de terra, a necessidade de regularizar a colonização, cultivando e povoando a terra, dentre outros. São muitos os aspectos que influenciaram essa história.