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Sivil Toplum ve Sponsorluk Desteği

E. Kurumsal İlkeler

11. Sivil Toplum ve Sponsorluk Desteği

As imagens de Harro-Harring que mostram cenas das relações entre senhores e escravizados, no Rio de Janeiro, desejam nos contar uma história em forma de pantomima. A maneira como o artista construiu as cenas, sua linguagem visual correlaciona-se a uma antiga tradição pictórica, que pode nos levar até a Idade Média, mas talvez sua principal referência, nesse sentido, tenha sido o pintor inglês William Hogarth33 (1696-1774), que se tornou famoso por suas caricaturas com uma forte crítica social.

Hogarth tinha o propósito de que seus quadros ensinassem as recompensas da virtude e os castigos do pecado (GOMBRICH, 2009, p.462). Para isso, na série A vida de um

libertino, uma série de quadros contando o apogeu e a decadência de um libertino34, o pintor buscou demonstrar as variadas formas de pecados como a ociosidade, a devassidão, o crime e a morte. Na imagem O hospício, por exemplo, ele planejava contar, de forma pedagógica, como se daria a decadência do homem que vivesse no e pelo pecado. Ali, todas as figuras presentes na imagem são constituídas com uma tarefa determinada de esclarecer o seu significado através de gestos e do uso de atributos cênicos, por isso, precisam ser identificadas facilmente pelo público. Hogarth empenhou-se em realçar o que chamava de “caráter” de cada figura, não só por meio de sua expressão fisionômica, mas também por meio do vestuário e do comportamento. Cada sequência pictórica por ele criada deveria ser “lida” como uma história ou como um sermão.

As figuras presentes nas imagens de Harro-Harring também parecem assumir papéis pré-estabelecidos, que teriam como função “o pedagógico”. No lugar de uma moral religiosa, que definiria a virtude e o pecado, as imagens de Harro-Harring engendram concepções de mundo a partir de suas crenças políticas e filosóficas, que subsidiaram os conceitos de despótico, injusto e ilegítimo.

As imagens de Hogarth não são mera continuidade das imagens medievais que também contavam história, ele empreendeu uma grande inovação, pois, em seus quadros, existe uma narrativa serial que lembra, de longe, as histórias em quadrinhos – a diferença essencial é que, nos quadrinhos tradicionais, a narrativa é dividida em vinhetas. Hogarth, em

33 A relação entre Harro-Harring e Hogarth já havia sido sublinhada por Karen Lisboa em “As afinidades eletivas

entre Leuzinger e o artista revolucionário Paul Harro-Harring”, publicado no livro Cadernos da Fotografia

Brasileira (Instituto Moreira Salles, v. 3, 2006, p.215-231).

34 É possível conhecer todas as narrativas visuais criadas por Hogarth através do site Art Renewal Center:

certa medida, temporalizou seus quadros, compondo distintos momentos seriais no interior do espaço visual. A maneira como Domenech descreve os quadros desse artista é de uma síntese que vale a pena repetir:

Se contemplarmos qualquer representação das cenas visuais formadas pelas narrações de Hogarth, veremos que estão repletas de personagens e situações. O conceito ideal do tempo que a pintura tem começa a se dissolver com essas composições, pressionadas pela acumulação de acontecimentos. Cada cena é como o capítulo de um romance, mas o que seria narrado seqüencialmente nele aparece condensado em um só momento gráfico. No entanto, esse momento é ilusório, constitui uma camada superficial que se rompe no instante em que se inspeciona de perto o quadro e surge a divisão de acontecimentos e personagens que revelam ser separados por temporalidades ligeiramente diferentes. Ou seja, as cenas de Hogarth não são o que em fotografia se denominaria um “instantâneo”, ou seja, a captação de um momento único em que se reúne uma série de acontecimentos temporalmente relacionados, mas “sincronias” ou histórias acumuladas no espaço. Os instantâneos congelam um momento temporal, as sincronias formam uma constelação de momentos temporais distintos (que podem ser simplesmente sucessivos). (DOMÈNECH, 2011, p.229)

É importante perceber que, embora Hogarth insira o tempo em suas imagens, elas ainda se dão numa forma unitária, pois, como sustenta Domenech, estão em uma zona fronteiriça entre a unidade pictórica e a fragmentação modernista. Por isso, Hogarth pode ser considerado aquele que dá a passagem de uma estrutura pictórica para outra.

Acreditamos que Harro-Harring se inspirou ou, ao menos, aproximou-se da estrutura visual de William Hogarth, pois suas aquarelas não apenas apresentam visões “instantâneas” de pessoas, coisas e lugares, mas, sobretudo, contam histórias. Olhando-as de forma serial, é possível até mesmo se perguntar se o projeto do artista não era construir um romance ilustrado ou, como Hogarth, ilustrações “romanceadas”.

Dentro desse pressuposto, é plausível pensar que Harro-Harring nos apresenta, em seu conjunto de imagens, uma alegoria em sintonia com as disputas políticas que aconteciam na Europa na primeira metade do século XIX, da qual ele próprio era um sujeito atuante e destacado. A partir da compreensão dessa estratégia de construção, nos foi possível interpretar o recorte temático do artista. Percebemos que suas imagens giram em torno de cenas “teatrais” que contam e ensinam como se davam as relações entre senhores e cativos. Tais relações, por estarem atravessadas por uma sociedade inerentemente despótica e desigual, só poderiam culminar na opressão de senhores, quase sempre presentes em situações de acusações falsas e injustas, demonstrando que uma sociedade escravista causava a

desumanidade não apenas do cativo, mas em concomitância a do senhor. Por outro lado, os escravizados são apresentados nas imagens como homens e mulheres fraternos e em situações de resistência à opressão dos senhores.

Harro-Harring permaneceu no Rio de Janeiro por apenas três meses, período em que produziu diversas imagens, incluindo as 24 aquarelas que integram o álbum Esboços

Tropicais do Brasil, publicado pelo Instituto Moreira Salles. Seus olhos estavam atentos para apreender as condições de vida dos escravizados no país. A maneira como ele representou o sofrimento e a violência da escravidão o aproxima dos relatos sentimentais os quais, naquela altura, eram muito apreciados pelo movimento abolicionista europeu de forma geral (PRATT, 1999, p.155).

Quando o artista pintou as aquarelas com as cenas do cotidiano e das paisagens do Rio de Janeiro em 1840, estiveram presentes os modelos pré-concebidos do escravizado africano que ele, muito provavelmente, viu e leu nos relatos de outros viajantes. Entretanto, os homens escravizados e senhores irascíveis de suas imagens não estavam já guardados em algum ponto do imaginário de sua cultura, eles também se atualizaram mediante a experiência do artista e do seu olhar na capital do império.

Quando teceu e configurou a visualidade em suas imagens, a disposição e a composição escolhidas para expressar a realidade percebida foram nutridas tanto pelos estímulos exteriores– o que lhe era visível -, como também pelos elementos imaginários de sua cultura e de seu hábito mental, forjando, com isso, tal visualidade. Suas imagens não são fruto unicamente de suas ideias eurocêntricas, mas produto de uma relação simbiótica entre aquilo que se deu a ver para o nosso artista e as possibilidades de “leitura” que ele encontrou por meio de seus hábitos mentais, para dar sentido ao visto, vivido e imaginado.

Comecemos, portanto, do visível, isto é, das condições materiais e concretas que Harro-Harring pôde ter se deparado ao desembarcar no Rio de Janeiro, em maio de 1840. Essas condições, muito bem delineadas por Sidney Chalhoub, no livro A Força da Escravidão (2012)35, mostram que, na primeira metade do século XIX, cerca de dois milhões de africanos escravizados chegaram ao Brasil. O que representa, partindo de meados do século XVI, assustadores 42% do total de homens que foram contrabandeados como mercadoria para o país desde o início das atividades dos traficantes de escravizados africanos para o Brasil.

35 Não deixa de ser coincidência que, das nove imagens utilizadas por Chalhoub para ilustrar o seu livro, três

sejam de Paul Harro-Harring. Infelizmente, Chalhoub as utilizou apenas como ilustração para as divisões capitulares e não citou seus títulos na íntegra. As imagens utilizadas por ele são: Ilha de Santana, Desembarque

de escravos negros (2012, p.33) (il. 11); Brasileiro imagina reconhecer um escravo fugitivo (2012, p.141) (Il. 28); e Scène d'Ouverture d'une Vente Publique de Nègres (2012, p.227) (Il. 32).

É justamente na primeira metade do século XIX, paradoxalmente, que as autoridades imperiais brasileiras passaram a sofrer intensas pressões internas e externas para que fosse abolido o tráfico. O que levou a proibição do mesmo por lei aprovada no parlamento brasileiro em 7 de novembro de 1831 (CHALHOUB, 2012, p.36).

O cenário encontrado por nosso artista, em 1840, era o de completo insucesso da lei supracitada o que demonstrava, por sua vez, que, apesar da lei, o tráfico continuava a todo vapor. E pior, havia uma complexa engrenagem, alimentada pelos interesses de escravistas, parlamentares e fazendeiros que não apenas faziam vista grossa para o desrespeito à lei como, também, articulavam, no interior do governo Imperial, novas maneiras de manter a continuidade do tráfico à revelia das pressões internas e externas. O argumento essencial, que legitimava o tráfico, era a suposta impossibilidade de substituir a mão de obra escrava por uma “livre” nas lavouras (CHALHOUB, 2012, p.76). Destarte, não é que a lei foi completamente ignorada, na verdade, houve uma profunda mudança na estrutura imperial para que traficantes continuassem a exercer o infame contrabando e alimentassem as grandes fazendas de açúcar e café com a desejada mão de obra à revelia de qualquer tentativa parlamentar ou humanitária de sufocá-la.

No âmbito externo, o Brasil estava envolvido em uma intensa crise nas relações com a Inglaterra. Na década de 1840, o parlamento britânico intensificou suas medidas contra o tráfico de escravizados no Atlântico Sul, medidas que se desdobraram na lei Bill Aberdeen, aprovada pelo parlamento britânico em agosto de 1845 e resultando em uma atuação mais repressiva, da marinha britânica, na costa brasileira (CHALHOUB, 2012, p.77, 110).

O abolicionismo na Inglaterra já vinha com força desde o final do século XVIII com a ação de políticos e intelectuais humanistas, bem como depoimentos e testemunhos de ex- escravos em colônias britânicas, Portanto, não podemos ignorar a contribuição de vozes negras, de africanos e afro-americanos, na constituição e condução dos debates abolicionistas, não apenas na Inglaterra, mas também nos Estados Unidos e na Europa continental. É possível destacar alguns nomes como Ottobah Cugoano (1757-1791), Olaudah Equiano e Ignatius Sancho (1729-1780) e afro-americanos como Frederick Douglas (1818-1895), que discursavam no parlamento e publicavam livros. Por meio dessa forte pressão sobre o parlamento britânico, a abolição do tráfico negreiro nas colônias inglesas foi conquistada em 1807. Naquela ocasião, o projeto de lei que aboliu o tráfico trazia uma frase afirmando que ele era “contrário aos princípios de justiça, da humanidade e da política acertada” (WILLIAMS, 2012, p.246). A “política acertada”, naquele contexto, era a defesa de que as relações

coloniais não deveriam se limitar apenas à dominação política, mas também ao comércio e ao trabalho livre.

Os humanitaristas ingleses formavam um grupo de homens com grande inserção no parlamento e nas discussões políticas na Inglaterra – muitos deles, inclusive, com negócios pendentes nas colônias. Entre os envolvidos com a abolição, podemos destacar Thomas Clarkson (1760-1846), Thomas Fowell Buxton (1786-1845), William Wilberforce (1759- 1833), Josiah Wedgwood (1730-1795), James Stephen (1758-1832) e Zachary Macaulay (1768-1838).

O movimento abolicionista é, por vezes, considerado como um movimento de intelectuais e artistas brancos. Em sua estratégia para pressionar o governo, havia uma clara consciência da importância dos relatos e das imagens como uma poderosa arma para tocar o coração e a alma da opinião pública na Inglaterra. Tanto os relatos quanto as imagens procuravam sensibilizar as pessoas ao mostrar as incongruências do sistema escravista frente valores protestantes, mas também liberais, como, por exemplo, mostrando que a escravidão era incompatível com certa concepção de família, justiça e igualdade.

James Stephen, que já vinha de uma família engajada em causas humanitárias e que se tornou subsecretário permanente do Departamento Colonial, insistia publicamente que a única maneira de frear os crimes coloniais ligados ao comércio de escravos era divulgá-los para o público inglês e, assim, armar a campanha abolicionista por meio da indignação pública (WILLIAMS, 2012, p.247).

Em 1815, com o fim das guerras napoleônicas e em consequência de algumas contingências da política interna inglesa, grupos abolicionistas ganharam força e passaram a exercer pressão sobre questões concernentes à política externa do Império britânico, a ponto de um importante político inglês clamar por moderação36.

Entre outras coisas, os abolicionistas utilizaram ameaças, em nome do poderio inglês, em prol da causa abolicionista, como no episódio em que ameaçaram uma declaração de guerra contra a França para impedir que ela reconquistasse São Domingos e, também, quando pressionaram a Inglaterra a só reconhecer a independência do Brasil caso o país se comprometesse a abolir o tráfico negreiro. Além disso, também foram os grandes responsáveis pela transferência de uma esquadra para o Atlântico sul com o objetivo de acabar com o intenso tráfico negreiro naquela região (WILLIAMS, 2012, p.259).

36 Castlereagh (1759-1821), representante do governo da Inglaterra no Congresso de Viena (1815), chegou a

rogar para o grupo dos abolicionistas “moderar seus sentimentos virtuosos e pôr sua solicitude pela África sob o domínio da razão” (WILLIAMS, 2012, p.259).

Na primeira metade do século XIX, o comércio negreiro e a escravidão se tornaram um assunto popular para pessoas de distintas classes sociais. Mais uma vez, Eric Williams mostra-nos como o assunto era preponderante na cultura política daquele país:

Numa inesquecível eleição geral em 1831, na qual os candidatos foram interrogados sobre suas posições em relação à escravatura, os abolicionistas arrastaram até lá negros com correntes douradas e, onde não encontraram negros, levaram limpadores de chaminé. Pregaram cartazes em todos os palanques do reino, com imagens em tamanho natural de fazendeiros brancos açoitando mulheres negras. Nas campanhas, apelavam ao coração e à consciência das mulheres inglesas e chegavam a abordar as crianças. Leeds publicou uma coleção contra a escravatura voltada para o público juvenil. Mandaram fazer um mostrador de relógio abolicionista, para que as pessoas de bem, gozando ao anoitecer dos confortos domésticos ao pé de uma lareira na Inglaterra, lembrassem que os negros estavam se esfalfando nas fazendas ao calor opressivo do sol tropical. (WILLIAMS, 2012, p.260)

É irônico, mas, enquanto os abolicionistas pressionavam seu próprio governo a esmagar o comércio negreiro e a escravidão no Atlântico, o Brasil e a Inglaterra eram grandes parceiros econômicos. Os negócios ligados à exportação e à importação de açúcar e mesmo de café geravam grandes fortunas para comerciantes em ambos os países e, por consequência, acabavam incentivando o comércio negreiro entre a África e o Brasil para alimentar as fazendas com mão de obra. Assim, o tráfico negreiro alimentava a produção voltada para o comércio com a Inglaterra que consumia, em porção crescente, os produtos cultivados nas fazendas brasileiras.

A riqueza da Inglaterra não dependia apenas do açúcar e do café brasileiros. Havia, também, para a própria existência do capitalismo britânico, uma dependência do algodão dos Estados Unidos que, por sua vez, sobrevivia à custa do trabalho escravo. Eric Williams sugere que os abolicionistas tinham olhos demasiadamente rigorosos somente para países em que não mantinham relação comercial (WILLIAMS, 2012, p.260).

À revelia da hipocrisia e mesmo da contradição dos olhos filantrópicos ingleses sobre a escravidão, é preciso perceber que as campanhas abolicionistas produziram uma reorientação do imaginário político na Inglaterra não apenas em relação ao sistema e ao comércio escravista, mas também às questões internas.

Desta forma, o imaginário que alimentava o discurso abolicionista também era uma arma importante para grupos oprimidos. Por isso, vale a pena compreendermos a visualidade das imagens abolicionistas de forma compreensiva em relação aos homens que sentiam que a

escravidão era incompatível com seus valores, tentando desnudar a constelação desses valores presentes na visualidade das imagens financiadas em prol da causa antiescravista.

É comum vermos críticas aos antiescravistas por defenderem causas “humanistas”, mas manterem, ao mesmo tempo, interesses econômicos sobre as regiões criticadas. No entanto, é preciso levar em conta que na primeira metade do século XIX, o comércio e a preocupação humanista não eram incompatíveis.

É importante ressaltar, neste ponto, que os humanistas – incluindo os abolicionistas –, em geral, viam o desenvolvimento das regiões periféricas do mundo, pautado no comércio e no trabalho livre, como algo essencialmente bom para as populações que viviam nessas regiões.

Podemos tomar como exemplo as palavras de Guillaume Thomas François Raynal ou Abade Raynal (1713-1796) que, em 1770, escreveu e publicou A História das duas Índias, obra que se tornou uma referência para boa parte do discurso ilustrado sobre as maneiras de colonizar e civilizar os povos “atrasados”:

Enfim, foi ao ver a meus pés essas belas regiões onde florescem as ciências e as artes, e que as trevas da barbárie por tanto tempo ocuparam, que me perguntei: quem abriu esses canais? Quem drenou essas planícies? Quem fundou essas cidades? Quem reuniu, vestiu, civilizou esses povos? E então todas as vozes dos homens esclarecidos que existem entre eles me responderam: foi o comércio, o comércio. (VARIKAS, 2010, p.35)

Nesse sentido, podemos entender um folheto abolicionista publicado em 1828, em Liverpool, que ressaltava que a Índia sobrepujara as Índias Ocidentais como mercado de tecidos de algodão britânico – por causa de um suposto trabalho livre – e defendia que a exigência da abolição da escravidão seria um incentivo nas Índias Ocidentais (BLACKBURN, 2002, p.467). De forma geral, o antiescravismo não fazia crítica ao capitalismo, mas, conforme afirma Blackburn, ele tendia a enfatizar valores “humanitários” e familiares sobre os interesses dos negócios e da propriedade.

Mesmo com muitas contradições em seus modos de funcionamento, o fortalecimento dos grupos ligados ao abolicionismo na Inglaterra nos permite entrever que o tema se alojava no coração da sociedade inglesa, que tomava forma de múltiplas e inesperadas maneiras e não apenas pela força das instituições e sociedades criadas por abolicionistas.

O tema escravidão era sensível à pressão popular que clamava por um sistema político menos arbitrário e corrupto e encontrava, na escravidão, uma alegoria para sua

situação nas fábricas inglesas37. O próprio governo inglês, por vezes, sentia-se impelido a divulgar suas ações em nome da proteção de escravos, o que demonstra que não se tratava de ações de um grupo isolado, mas a expressão de um imaginário político muito sedimentado na sociedade inglesa na primeira metade do século XIX.

George Canning (1770-1827), por exemplo, que foi primeiro ministro da Inglaterra, chegou a apresentar uma série de moções ao público que visavam proibir o açoitamento de escravas, aceitar o testemunho de escravos em tribunais e instaurar um programa de instrução religiosa, mas que não chegaram a ser implantadas integralmente (BLACKBURN, 2002, p.448).

Em suma, os senhores eram criticados pelas publicações abolicionistas, entre outras coisas, por forçarem homens a trabalharem até a morte e por lucrarem com um sistema desumano, imoral e antirreligioso. Por outro lado, os dois primeiros decênios do século XIX foram marcados por algumas crises políticas e econômicas no interior da Inglaterra, que fortaleceram o discurso abolicionista, pois grupos de contestação e de críticos tendiam a argumentar que as condições sociais, na própria Inglaterra, eram perigosamente próximas da escravidão (BLACKBURN, 2002, p.467)38.

Como um elemento importante do imaginário político inglês oitocentista, o movimento abolicionista ganhou ímpeto e passou a intervir no parlamento para que o governo intensificasse suas ações pelo mundo afora. As pressões no parlamento não eram apenas por meio da participação política, mas também da conquista da opinião pública através de propaganda.

Em 1825, por exemplo, foi fundada a revista The Anti-Slavery Reporter, editada por Zachary Macaulay e seu filho, Thomas Babington Macaulay (1800-1859), que veiculava propaganda antiescravista e, também, divulgava informações detalhadas sobre a permanência do comércio negreiro no atlântico e as condições dos escravizados em diversas regiões do Caribe (BLACKBURN, 2002, p.449).

A partir do século XVIII, a publicação de relatos de viajantes – ou mesmo de africanos, como no caso de Olaudah Equiano39 –, sobre os horrores causados pela escravidão

37 Os relatos e a iconografia abolicionistas representavam a escravidão como formas essencialmente corruptas

corruptoras e injustas.

38 Como nos mostra Blackburn, o discurso antiescravista era popular na Inglaterra, pois ele também suscitava a

consciência da precariedade dos trabalhadores livres. Em 1830, Richard Oastler, pastor evangélico que tinha contatos com abolicionistas, publicou um panfleto atacando o que ele denominava “Escravidão do Yorkshire”,

Benzer Belgeler