O Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial (CNPIC) foi instituído em 1944, através do Decreto-Lei nº 5.982, de 10 de novembro de 1943, como órgão consultivo ligado diretamente ao Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (MTIC). Seu objetivo era estudar a política industrial e comercial para um cenário pós-guerra, e propor diretrizes de planejamento da economia nacional. A criação da CNPIC visava uma melhor articulação entre os vários setores
122Organograma elaborado a partir do Decreto-Lei nº 4.750, de 28 de setembro de 1942. 123Diniz (1978: p. 203).
124Sobre a extinção da CME ver: D.O.U de 28/12/1945, Seção 1, p. 19201.
125O CNPIC existiu entre 1944 e 1946. Entretanto, sua atuação mais efetiva se encerrou em 1945. Portanto, para os
objetivos desta tese levaram-se em consideração os agentes desse órgão somente até 1945. Sobre o CNPIC ver a obra de Diniz (1978).
Coordenador Geral Conselho Consultivo
Setor de Planejamento Setor de Informações Secretaria Executiva
Setor de Produção Industrial
da administração pública, levando em consideração os diversos estudos dos conselhos, de diversos departamentos públicos, e das entidades de representação de classe, já instituídas, e que interferiram sobre as atividades industriais e comerciais.126
Cabe destacar a importância do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (MTIC), durante a gestão de Alexandre Marcondes Filho, para a criação do CNPIC, ao realçar a urgência de se definir uma política industrial e comercial para o pós-guerra.
O órgão era composto por representantes indicados de quatro ministérios: o próprio ministro do Trabalho, Indústria e Comércio (como presidente do CNPIC); um representante do Ministério da Fazenda; um representante do Ministério da Agricultura; um representante do Ministério da Viação e Obras Públicas. Também pertenciam à composição, dois representantes da indústria, e dois representantes do comércio (indicados pelas respectivas entidades), e mais cinco membros de “notório saber”, indicados diretamente pelo Presidente da República.127
Tabela 04 - Composição e Representação no CNPIC128
Composição Período
1944-1945
Min. Trabalho, Indústria e Comércio P
Min. Fazenda 1
Min. Agricultura 1
Min. Viação e Obras Públicas 1
Representantes da Indústria 2
Representantes do Comércio 2
Outros Membros 5
Total de Membros 13
Legenda:Próprio Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio; Representantes de reconhecida competência; P = Presidência do órgão; Min.= Representante de Ministério.
126Conforme Decreto-Lei nº 5.982, de 10 de novembro de 1943. 127Artigo 1º do Decreto-Lei nº 5.982, de 10 de novembro de 1943.
Sobre o papel do CNPIC dentro da estrutura estatal, Rômulo Almeida afirma que este “representou uma tentativa de composição do governo com o empresariado industrial que, através de sua liderança mais expressiva, pressionava por uma participação mais intensa na formulação de alternativas de política econômica.”129Já, para Diniz,
entre os órgãos consultivos criados durante o Estado Novo como parte do projeto corporativo implantado ao longo do período 1930-1945, o Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial (CNPIC) situa-se entre aqueles mais nitidamente comprometidos com a perspectiva de transpor o conflito entre os diferentes grupos dominantes da burocracia estatal através da auto- representação, nos órgãos técnicos, dos principais interesses em confronto. (Diniz, Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial. (verbete). In: DHBB). Como afirmam Monteiro e Cunha, entretanto, a criação do CNPIC implicou, em certo sentido, uma duplicação com as tarefas do CFCE, e sua atuação pouco frequente limitou sua importância como órgão de decisão econômica.130 Mas, cabe ressaltar a importância do CNPIC pelo debate seminal suscitado em torno ideia de criação de um órgão central de coordenação e planejamento do desenvolvimento econômico e industrial.131
Se como órgão formal as funções do CNPIC se sobrepunham as do CFCE, entretanto o órgão representou também uma arena de confronto entre os diferentes projetos econômicos. Assim, destaca-se a relevância dos debates desenvolvidos no âmbito do CNPIC em torno dos caminhos que a economia brasileira deveria trilhar. Isso ficou evidente na célebre controvérsia do planejamento entre Roberto Simonsen, relator do CNPIC e defensor da ampliação das práticas de medidas protecionistas à indústria brasileira, e Eugênio Gudin, relator da Comissão de Planejamento Econômico (CPE), que apontava para os limites do dirigismo estatal e da politica protecionista.132
Já nas primeiras reuniões do Conselho o debate sobre o planejamento se tornava presente, quando o Presidente do Conselho, Alexandre Marcondes Filho, pedia para que fossem estudados “os princípios fundamentais que devam orientar o desenvolvimento industrial-
129Almeida (1950)
130Monteiro e Cunha (1974: p. 08). 131Diniz (1978: p. 204).
132Os debates foram publicados em: SIMONSEN, Roberto; GUDIN, Eugênio. A controvérsia do planejamento na
comercial do Brasil no futuro”.133 Nos desdobramento dessa discussão, surgiram propostas para organização e institucionalização da “planificação nacional”, como projeto encaminhado pelo representante industrial Roberto Simonsen, vislumbrando órgãos executivos e deliberativos para viabilizar essa função, e que davam um novo caráter à ação intervencionista estatal, e que fora aprovado pelo Conselho após debates e alterações no plenário do Conselho. A aprovação dessa proposta suscitou forte reação e críticas do CFCE e da CPE, também criada em 1944, e subordinada ao Conselho de Segurança Nacional, e que buscaram esvaziar o projeto do CNPIC. Como relator da CPE e do CTEF, para o projeto do CNPIC, foi escolhido Eugênio Gudin, que criticou e rejeitou veementemente o projeto, denunciando o uso inadequado de conceitos e argumentos econômicos, e sugerindo um caminho de redução gradual dos mecanismos de intervenção estatal na economia.
Esse debate extrapolou os limites da burocracia econômica estatal, pois se constituiu num significativo elemento da institucionalização de um espaço para uma elite estatal do planejamento, ao promover e reconhecer o planejamento econômico como um importante elemento para a definição de diretrizes de desenvolvimento, e, portanto, como um elemento em disputa no jogo político.
Com o fim do Estado Novo, e o arquivamento do projeto, o CNPIC foi extinto pelo Decreto-Lei nº 9.083, de 22 de março de 1946. Assim, sua atuação limitou-se à elaboração do referido projeto de “planificação da economia nacional” sendo inexpressivo em termos de influência no processo decisório. Entretanto, esse debate suscitado foi de grande relevância na definição de um projeto de industrialização, cuja viabilidade dependeria do reforço da capacidade de intervenção do Estado no domínio econômico.