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PROFISSIONAL

Características marcantes de nossa época é a preponderância das relações de produção sobre as forças produtivas, que, porém há muito desdenham as relações. Que o braço estendido da humanidade alcance planetas distantes e vazios, mas que ela, em seu próprio planeta, não seja capaz de fundar uma paz duradoura, manifesta o absurdo na direção do qual se movimenta a dialética social

(Adorno, 1986, p. 70).

Para dar seqüência ao debate da relação entre formação e trabalho, neste capítulo, dividido em duas partes, o objetivo é discutir o que tem representado para os jovens o processo de formação existente na sociedade atual. Na primeira parte, intitulada “Valor dado ao trabalho e à educação, por jovens brasileiros”, destaca-se a vulnerabilidade tangente a essa relação ao ser expressa por jovens, de acordo com o resultado de estudos de alguns pesquisadores. Na segunda parte, denominada “As exigências do mercado de trabalho à formação profissional” , como sugere o título, são apresentadas características pertinentes à formação profissional nos dias atuais e às políticas públicas formuladas a fim de dar aos jovens a formação – pseudoformação – profissional.

Para iniciar a discussão, retomam-se questões pertinentes à experiência profissional da pesquisadora. Dentre os motivos já apontados, significativos ao mote desta investigação, uma situação, que chamava bastante atenção nas atitudes dos jovens do IMCG, era o desinteresse que muitos deles apresentavam pela escola ao serem encaminhados ao mercado de trabalho. Frente a tal problema, a Instituição precisou organizar um controle mensal, em parceria com as escolas, para tentar impedir o abandono. Além disso, parecia que, para muitos jovens e seus familiares, o trabalho tinha maior importância que a escola, por atender às necessidades de subsistência não só do jovem, mas também da família. Assim, no momento em que o jovem tinha acesso ao mercado de trabalho, ficava-se com a impressão que a escola deixava de apresentar resultados pragmáticos, conforme diziam os jovens e seus familiares. Ao ter o emprego garantido, estudar parecia perder sentido.

Em reuniões de avaliação sobre os trabalhos desenvolvidos, os professores do IMCG, costumeiramente, relatavam que os jovens afirmavam terem maior apreço pelas atividades ali realizadas, pois conseguiam aprender com mais facilidade no Instituto que nas escolas. Esses professores, com o objetivo de melhor se capacitarem, eram incentivados a participarem de constantes programas de estudos, orientados para que trabalhassem respeitando as possibilidades de cada jovem e, ao mesmo tempo, deviam procurar instigá-lo a pensar de forma crítica sobre a sociedade atual20, mesmo com todas as limitações e contradições que isso implicasse, pois o processo de formação proposto não podia deixar de capacitá-los para atender ao mercado de trabalho.

Mas, seria essa forma de trabalho, que buscava ser instigadora, responsável por despertar maior interesse nos jovens? Ou decorria da necessidade imperativa de emprego, conforme mencionado? Provavelmente, é possível articular as duas situações. Mas, sem dúvida, outro aspecto interessante a ser pensado é o significado do valor erótico que passou a ser dado ao trabalho, na sociedade contemporânea.

20 Não há aqui o propósito em fazer apologia ao trabalho da Instituição, pois há a clareza das limitações impostas pela sociedade ao processo educativo de um modo geral. Os técnicos “formadores” dos jovens não deixavam de se confrontarem, também, com as artimanhas de uma pseudoformação. Por outro lado, tem-se presente que a ideologia da filantropia não deixa de representar uma forma de barbárie, uma vez que o desenvolvimento da sociedade, no que tange à tecnologia, já prescindiria de ações filantrópicas. Nos valores dessas ações, os direitos do indivíduo viram favores, fazendo com que esses indivíduos se sintam privilegiados por ter acesso aos benefícios oferecidos.

O significado da relação entre trabalho, prazer e repressão, está relacionado à tendência erótica para o trabalho, uma vez que, no trabalho, há possibilidade de descarga dos impulsos libidinais. Marcuse (1999) observa que a síndrome instintiva “infelicidade e trabalho”, relacionada à interpretação do mito de Prometeu, apresentada por Freud, tem por fulcro a ligação entre a sujeição da paixão sexual e o trabalho civilizado. O processo civilizatório e a relação entre trabalho e prazer, estão articulados a um processo de sublimação, quando o trabalho oferece um elevado grau de satisfação libidinal. Conforme Marcuse (1999) há um modo de trabalho que oferece um elevado grau de satisfação libidinal, cuja execução é agradável: “E o trabalho artístico - sempre que genuíno - parece brotar de uma constelação instintiva não-repressiva e visar finalidades não-repressivas – tanto assim que o termo sublimação parece requerer considerável modificação” (Marcuse, 1999, p.88). No entanto, as relações de trabalho dadas na sociedade atual ocorrem de modo muito diferente, não acontecem pela livre opção dos trabalhadores, principalmente os assalariados. As pequenas chances de escolha existentes, propagandeadas como se existisse o poder de “livre opção”, não deixam de representar limites preestabelecidos para melhor administrar um princípio repressivo de realidade. E, da forma como as relações de trabalho têm sido organizadas, sustentadas por acirradas formas de competição, fica cada vez mais difícil realizar trabalho aliado a prazer, à situação de gratificação. Aliar trabalho e prazer acaba sendo, portanto, uma situação de privilégio para poucas pessoas.

Abordar essa discussão é importante, pois ajuda a refletir sobre as condições de vida dos jovens que participam do IMCG, os quais, na grande maioria das vezes, sequer podiam pensar em escolhas, em algo a que pudesse ater os seus interesses ou desejos, mesmo nas limitadas condições das escolhas possíveis que, às vezes, a Instituição procurava lhes oferecer. A “libido” desses jovens – o impulsivo arroubo juvenil – direcionava-se à garantia de subsistência. O trabalho, para eles, representava a força da disciplina, mesmo não sendo mais fundamentada nos princípios de valores militares, que outrora fizera parte da história dessa Instituição.

Todavia , além da questão da sobrevivência de jovens que precisam trabalhar, é preciso pensar o quanto o desenvolvimento das forças produtivas tem valorizado o trabalho e o faz ser visto como prioridade a uma significativa maioria de jovens dessa sociedade. Consagra-se, assim, contraditoriamente, uma vez que, com o avanço da

tecnologia, têm diminuído os postos de trabalho, a ideologia do trabalho, como um fim disciplinador, referenciando toda lógica do mundo administrado, conforme já destacado.

Freire (2003), em um estudo que discute como o jovem estudante paulista utiliza o tempo livre e os espaços de convivência com seus pares, aborda temas como escola e trabalho, política, dentre outros, analisados a partir da fala dos jovens. Nas considerações referentes às análises dos dados obtidos, a autora mostra que a escola representa para os jovens investigados um fator de exclusão social e de injustiça em relação às diferentes classes sociais. Os jovens, que não podem pagar a escola e cursos complementares, acreditam que serão prejudicados quanto à profissionalização e à continuidade dos estudos.

A autora também afirma ser evidente o binômio exclusão-pertencimento, quando os jovens falam de sua formação, ou seja, da intensidade do processo de pseudoformação ao qual estão submetidos. Mas, mesmo quando eles tecem críticas à sua realidade, não são despertos para ações transformadoras, desde aquelas pessoais, como mudar o canal de televisão, quanto às grupais, como participar de processos reivindicatórios estudantis. Com isso, Freire (2003) observa um presente nível de adaptação e conformismo. Para ela,

os jovens ressaltam o sentimento de desrespeito com o qual são tratados pelos adultos e nas conversas sobre o tema trabalho, ao apontarem a dificuldade, em especial das meninas, de ingressarem no primeiro emprego devido ao descrédito atribuído pelos adultos aos jovens (Freire, 2003, p. 107).

Pode-se afirmar que, de um modo geral, nos diferentes temas abordados pela autora, fica claro o imobilismo provocado pela pseudoformação, decorrente das experiências do processo de escolarização. Os jovens percebem que terão o futuro comprometido ao fazerem projeções, mas não conseguem se ver fora dos contornos sociais já definidos pela sociedade existente.

Os estudos de Giovinazzo Jr. (2003), sobre o significado que adolescentes atribuem à experiência escolar, também colaboram para o esclarecimento das questões

que se referem à juventude e, principalmente, o que tem significado a experiência formativa procedente da escolarização.

Nas análises realizadas, Giovinazzo Jr. (2003), observa ser difícil submeter à crítica os dizeres dos jovens a respeito de si mesmos e da realidade, pela falta de linearidade e pela ambigüidade de suas posições. O autor ainda explica que eles têm, também, dificuldades em definir posicionamentos e relacioná-los aos esquemas que lhes orientam as observações. Os alunos conhecem seus problemas, seus limites e suas possibilidades e conseguem distinguir as dificuldades encontradas na escola. No entanto, as opiniões deles “não passam da reprodução de clichês e estereótipos, o que paralisa o movimento do sujeito e do objeto e dificulta a reflexão e a auto-reflexão” (Giovinazzo Jr., 2003, p.204).

Segundo esse autor, as identificações com o coletivo e a naturalização dos condicionamentos sociais ficaram claramente expressas nos dizeres dos jovens, ao verificar que, mesmo reconhecendo a necessidade de maior envolvimento com a política, não deixavam de serem absorvidos pela necessidade de adaptação aos valores impostos pela sociedade. Por outro lado, o autor constata também que eles valorizavam a importância da ação e percebiam limites nos seus fazeres. E, ao concordarem que podiam fazer algo para melhorar, conseguiam encarar as ações apenas em termos individuais.

Giovinazzo Jr. (2003) também observa que a escola ainda parece ser uma instituição que exerce influência sobre os alunos e suas famílias, mesmo que seja verdade o fato de os alunos não valorizarem a escola, pois, algum tipo de trabalho ainda continua sendo realizado por meio da educação escolar, ainda que seja como pseudoformação (nos termos de Adorno), continua sendo imposta.

Ainda para esse autor, o controle social representa uma das funções para o qual a escola foi criada. Mas, para ele, a escola pode também ser um espaço de produção cultural. Espaço criado, muitas vezes, pelos próprios alunos, que transformam a passagem pela escola em uma experiência significativa. “Havendo certa tensão na relação dos alunos com a escola algumas resistências acontecem, algumas práticas fora dos padrões estabelecidos ganham espaço e podem conter alternativas à ordem social e às próprias práticas pedagógicas.” (Giovinazzo, 2003, p. 208).

Assim, a escola pode tornar-se um espaço para contradições, capaz de fazer surgir o novo, de favorecer o processo de individuação do sujeito. Porém, o que tem predominado nas experiências produzidas nas escolas, observadas a partir de como ela é organizada, é que ela tem atuado como uma extensão da indústria cultural, mesmo quando, aparentemente, opõe-se a ela. O interesse expresso nas práticas pedagógicas fica muito preso à adaptação dos alunos, a oferecer apenas uma cultura purgada dos elementos que possibilitariam o desenvolvimento da autonomia, da crítica, já que ela mesma busca adaptar-se às necessidades sociais, defende Giovinazzo Jr. (2003). Pois, a escola passa a ser apenas uma instituição que trabalha a favor da perpetuação da necessidade de “ganhar a vida”, impedindo, assim, o florescimento de outras necessidades.

Souza (2003), ao investigar que tipo de sujeito está sendo formado na escola, por ela identificada em crise e em um momento de mutação cultural, apresenta os resultados de uma pesquisa realizada em 1997.

A investigação apresentada por essa pesquisadora contou com a participação de 172 sujeitos (faixa etária entre 17 e 20 anos), estudantes da última série do ensino médio, do período noturno e inseridos no mercado de trabalho, em dois estabelecimentos escolares, administrados pelo Estado de São Paulo, localizados na Zona Norte. Dentre as conclusões a que se chegou, são interessantes as comparações feitas sobre o comportamento do jovem das gerações anteriores (até os anos de 1970) com os da investigação, em 1997. Segundo Souza (2003), o jovem (ou pelo menos o “modelo ideal” do estudante radical) dos anos anteriores acreditava em seu caráter rebelde e no seu poder de mobilização e intervenção social. Entretanto, nos sujeitos pesquisados, foi identificado um sentimento de “insignificância” perante a realidade.

Para a amostra dos jovens, pesquisados em 1997, a realidade apresentava-se, portanto, na forma de fatos dados, prontos e acabados, os quais não comportavam uma reflexão sobre os processos que os produziram, tampouco um esforço de imaginação de alternativas possíveis. Assim, verificou-se que o poder de realização dos jovens pareceu débil, e sua ação – individual – condenada a não ter alcance algum, nem a seus olhos, nem aos olhos do mundo. Para eles, não havia nada que podia ser feito diante do imediatamente dado, conforme explica Souza (2003).

Vale ressaltar que as conclusões dessa autora não são diferentes das feitas por Freire (2003), para quem os traços do sentimento de insignificância transpareceram nas atitudes dos alunos, diante da própria relação de ensino e de aprendizagem, que acontece na escola. O aluno se coloca como aquele que deve ser resgatado, convencido, capturado pelo professor. Nas palavras de Souza (2003, p. 170),

ele não se vê como receptor passivo ou mero depositário de conteúdo, pois questiona o valor do conhecimento escolar, mas também não se coloca como sujeito da ação educativa. O jovem aluno se auto-representa como aquele que deve ser “guiado” pelo mestre, depois de ter sido suficientemente persuadido, não por meio de argumentação racional, mas pela relação – porque não dizer – afetiva que deve se estabelecer entre ambos. Ao professor, e apenas a ele, caberia a iniciativa e a condução do processo de aprendizagem escolar.

Há outras situações que indicam o comportamento de insignificância do jovem, apresentadas pela autora: a questão das drogas (percebe-se como vítima indefesa); a questão do desemprego (sente-se como um indivíduo a quem se negam oportunidades). Mas, com relação ao desemprego, a autora constata que eles reconhecem o fato, estatisticamente comprovado, de que se trata de um dos maiores problemas que tem acometido a juventude. E, ao contrário do que prega a retórica neoliberal, eles identificaram a origem do problema não na ausência de qualificações pessoais, mas nas condições adversas do mercado de trabalho.

Já com relação à importância do conhecimento produzido na escola, a autora constata que o interesse do jovem está intimamente relacionado às necessidades práticas, inclusive às relativas a comportamentos que tenham utilidade imediata para a vida social. Para eles,

enquanto a escola é considerada como o local em que se aprende apenas o básico, o trabalho é visto como o ambiente onde se pode aprender ampliar o círculo inicial composto pelos familiares e pelo grupo de pares, além de se adquirir responsabilidade. Isto é, o trabalho – ao contrário da escola – é a oportunidade de crescimento e amadurecimento (Souza, 2003, p.172).

Observa-se, assim, que o valor dado ao trabalho, em relação à escola, sobressai de maneira significativa, de acordo com as conclusões de Souza (2003). Essa autora ainda assinala que, mesmo exercendo funções de trabalho menos qualificadas, os jovens entrevistados, na grande maioria, declaram-se satisfeitos com seus empregos.

Essas posições evidenciam, portanto, que estão na contramão das teorias que decretaram o fim do trabalho na sociedade pós-industrial, pois, ao contrário, valorizam o trabalho como uma importante oportunidade de socialização e fator de inserção social.

Outro estudo que mostra o valor dado ao trabalho, ao discutir a relação entre escolaridade e emprego, é o de Gomes (1997). Nesse estudo, a autora constata que há discrepâncias entre os discursos e a vida de jovens filhos de pais analfabetos, para o valor dado à escola e ao trabalho.

A parte inicial da pesquisa de Gomes (1997), foi feita acerca da ação familiar socializadora com base na construção de histórias de vida, para o que foram colhidas informações sobre as experiências escolares dos sujeitos e seus familiares. Depois, a pesquisa foi complementada por um estudo longitudinal das trajetórias de adolescentes em relação à escola e ao trabalho, no período de 1988 a 1992.

Essa investigação permitiu constatar que os jovens entravam e saíam da escola sem que tivessem, de fato, premidos por qualquer necessidade material mais imediata e, ao mesmo tempo, manifestavam acentuada intolerância à rotina escolar . Pareciam, portanto, buscar no trabalho um substitutivo ao proposto pela escola, pois trabalhar parecia ser mais atraente e mais convincente do que a escola.

O valor dado ao trabalho também está presente nos relatos resultantes dos estudos desenvolvidos pelo Projeto Juventude, com o objetivo de investigar o perfil da juventude brasileira, realizado por meio de um amplo levantamento quantitativo, organizado pelo Instituto Cidadania e apresentado no livro Retratos da Juventude Brasileira (2005). Dentre o conjunto das análises feitas, baseadas nos dados colhidos, destacam-se dois artigos que reforçam as discussões em questão: o de Branco (2005) e o de Guimarães (2005). Os temas desses autores atêm-se ao estudo dos dados que pesquisaram a importância do trabalho para os jovens. Seus argumentos são fundamentados em relatos colhidos de 3.501 entrevistados, com idade entre 15 e 24 anos, distribuídos em 198 municípios.

O trabalho apresentado por Guimarães (2005), Trabalho: uma categoria chave no imaginário juvenil?, revela que a questão do trabalho foi uma preocupação central no imaginário juvenil (valor, necessidade, direito). Para essa autora, a peculiaridade do jovem brasileiro está implícita ao adjetivo que lhe qualifica a especificidade: “trata da juventude trabalhadora brasileira” (Guimarães, 2005, p.167). Os dados mostrados identificam a especificidade dessa juventude, “que em parcela não desprezível, ingressa no trabalho ainda na infância; nada menos que 33% deles iniciam sua carreira como trabalhadores entre 5 e 14 anos, e somente um quarto deles o faz depois da maioridade”. (Guimarães, 2005, p. 167).

Branco (2005), ao fazer uma análise das condições estruturais do mercado de trabalho e das demandas dos jovens ante o tema, apresenta dados que não são diferentes dos apontados por Guimarães (2005). Com pesquisas distintas, os autores mostram que os jovens destacam o trabalho como o assunto de interesse principal, tanto os que já têm trabalho, quanto os que ainda o estão procurando.

Por outro lado, os pesquisadores também demonstram que o desemprego é considerado o problema manifesto mais agudo, em especial, entre os jovens de 18 a 20 anos de idade. Os resultados quantitativos apresentados pelos pesquisadores revelaram o sentido da centralidade do trabalho para o jovem brasileiro, pois mostram o interesse sobre a questão da empregabilidade.

Por terem sido, os estudos aqui apresentados, feitos com o propósito de mostrar o valor dado pelos jovens, na sociedade atual, ao trabalho e à escola, não serão feitas análises do que representam as conclusões formalizadas pelos autores citados.

Ao avaliar o quão presente se demonstrou o valor dado ao trabalho e seu significado para os jovens, de acordo com as pesquisas mencionadas, suscita pensar no manifesto de Lafargue (2003), do direito à preguiça. Esse autor chama a atenção à degradação imposta à vida do trabalhador, afirmando que as relações de trabalho tornaram-se uma loucura. “Vergonha para os proletários!”, exclama Lafargue (2003, p. 29).E ainda questiona:

Onde estão aquelas velhas comadres de que falavam as nossas fábulas e histórias antigas, atrevidas, sem papas na língua, amantes de um bom trago?

(...). Hoje as moças e as mulheres estão na fábrica, insignificantes flores de cores pálidas, com o sangue sem força, estômago deteriorado, os membros sem energia! (...). E as crianças? Doze horas de trabalho para as crianças. Oh, miséria! (Lafargue, 2003, p. 29).

O tempo desse autor data do século XIX, mas os apelos ainda servem para o momento atual, pois o peso do dogma sobre o trabalho ainda domina os homens e está dominando os jovens, como mostraram as pesquisas acima citadas. Essa estranha loucura tomou conta da sociedade e traz, como conseqüência, misérias individuais e sociais. O valor dado ao trabalho, por ser considerado o responsável em garantir o bem- estar do trabalhador, há séculos tortura a triste humanidade, argumenta Lafargue (2003). Embora o valor benéfico atribuído ao trabalho seja anunciado por dogmas das igrejas, abalizado por economistas, referendado por filósofos, na experiência da vida humana, esse dogma vem sendo imposto ao trabalhador de forma a escravizá-lo e a fazê-lo aceitar com paciência uma vida de adversidades e de exploração.

Para o jovem, não é diferente o valor atribuído ao trabalho e, mesmo quando ele não pode entrar na esfera de satisfação dos desejos imediatos, como na situação dos jovens do IMCG, por terem de cumprir obrigações institucionais, compõe esperança, simboliza sonhos de conquistar os bens propagandeados pelo mundo administrado, de galgar melhores postos de trabalho, de ser, um dia, o dono do próprio negócio.

Observa-se, assim, que o trabalho povoa o imaginário de muitos jovens, cultivando a crença em que o caminho da educação junto ao esforço pessoal são