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A partir dessa breve descrição de alguns elementos do método fenomenológico existencial de Heidegger, é preciso pensar como ele é situado no atual cenário da pesquisa científica atual, domínio em que este trabalho se deu.

Nos moldes da pesquisa científica atual, o método fenomenológico existencial de investigação é utilizado como uma possibilidade do método qualitativo de pesquisa. Entre os diversos tipos de pesquisa científica, o método fenomenológico existencial se enquadra neste, a pesquisa qualitativa.

O método qualitativo de pesquisa, segundo Denzin e Lincoln (2006), se pretende como um estudo de fenômenos em seus cenários naturais, buscando interpretar tais fenômenos a partir dos significados que os pesquisados mesmos lhes conferem. Os autores afirmam que a pesquisa qualitativa serve para localizar o pesquisador em uma situação no mundo. A pesquisa qualitativa oferece um conjunto de práticas materiais e interpretativas que transformam o mundo em representações. Em tais práticas podem estar inclusas entrevistas, conversas e gravações.

Denzin e Lincoln explicitam as várias possibilidades da pesquisa qualitativa:

estudo do uso e a coleta de uma variedade de materiais empíricos – estudo de caso; experiência pessoal; introspecção; história de vida; entrevista; artefatos; textos e produções culturais; textos observacionais, históricos, interativos e visuais – que descreveram momentos e significados rotineiros e problemáticos na vida dos indivíduos (DENZIN & Lincoln, 2006, p.17). O método qualitativo de pesquisa pode enquadrar o fenomenológico justamente pela sua aproximação quando ao modo de pesquisar, que pressupõe a compreensão de um fenômeno a partir do que ele mostra, e não a partir de hipóteses prévias sobre ele. Segundo Moreira (2004), o método fenomenológico de pesquisa permite que o problema da pesquisa seja fundado “em dúvidas e não em hipóteses prévias e, assim, ele deverá interrogar os sujeitos para conseguir respostas a essas dúvidas” (MOREIRA, 2004, p. 110).

Ainda segundo Moreira (2004), a interrogação do método fenomenológico existencial não nasce em hipóteses, mas em perguntas sobre um determinado fenômeno. Também não pretende explicar o fenômeno interrogado, pois explicar pressupõe a determinação de categorias de análise, que devem ser medidas cientificamente. O método fenomenológico tem como pretensão a compreensão, e não a explicação dos fenômenos, por que a partir de sua concepção de mundo a explicação de categorias não se adequa ao que concerne ao humano, conforme nos lembra Critelli:

o investigar que se proponha interrogar ações humanas deve, por princípio, ser mais abrangente do que os instrumentos que selecionar; deve poder empreender-se na independência deles, e orientado pelo homem mesmo em seu estar-sendo-no-mundo. (CRITELLI, 1996, p. 28).

Assim, o rigor da investigação fenomenológica reside no seu fundamento hermenêutico, ou seja, que cada fenômeno acontece em um determinado mundo, composto por um horizonte de sentido historicamente constituído; e que tal fenômeno só pode ser

53   compreendido a partir deste horizonte e por isso faz parte da investigação ele ser esclarecido e reconduzido ao seu sentido original.

Portanto, o pesquisador em fenomenologia não deve se aproximar do fenômeno que pretende analisar a partir de construtos teóricos prévios, mas do horizonte a partir do qual o fenômeno em si mesmo mostra. Dessa forma, o rigor do método fenomenológico de investigação reside na busca da compreensão de cada fenômeno a partir do que dele se mostra em direção ao seu horizonte de sentido.

A partir do esclarecimento do método fenomenológico existencial de investigação, e sua situação na pesquisa científica, será esclarecido agora o modo de pesquisar qualitativo que melhor se enquadra ao contexto da presente pesquisa.

2.2.1. A pesquisa qualitativa como pesquisa-invervenção

A pesquisa qualitativa abarca, na área de Psicologia da educação, um modo de pesquisar chamado de pesquisa-intervenção, ou pesquisa-ação. Esta pesquisa caracteriza-se como uma pesquisa-intervenção. Conforme explicita por Szymanski (2004), “a modalidade de pesquisa qualitativa que chamamos de pesquisa-intervenção, [é a] que se apresenta com um duplo objetivo de contribuir para o conhecimento científico e oferecer um trabalho de cuidado psicológico.” (ZYMANSKI, 2004, p. 356).

Szymanski discorre sobre como a pesquisa-ação, ou intervenção, nasce de uma demanda de uma determinada comunidade que será atendida pelo psicólogo/pesquisador. Assim, o que é oferecido como serviço à comunidade, uma ação, acaba, por consequência, sendo também a construção de conhecimento científico, conforme a autora colocou:

Por se tratar de demanda do grupo, a intervenção tem, para este, na maior parte das vezes, o sentido de prestação de serviço em psicologia. O sentido de investigação científica se constitui quando o trabalho é oferecido por pesquisadores engajados em projetos de uma instituição de pesquisa. A condição dupla de serviço psicológico e investigação científica obriga o pesquisador a uma sujeição tanto às normas da ética da pesquisa com seres humanos como às da prática psicológica. (SZYMANSKI, 2004, p. 360-361) Este é um ponto importante para a presente pesquisa, que nasceu justamente através de uma demanda da equipe de multiplicadores pela continuidade da parceria com o ECOFAM para sobre a prática dos multiplicadores após o curso de formação de multiplicadores. Na

ocasião onde a demanda se realizou10, a liderança da Associação contou sobre sua percepção de haver a necessidade de continuidade do trabalho ECOFAM com os multiplicadores, para que esses fossem orientados em sua atuação na Comunidade através dos serviços que coordenavam.

Somando essa demanda às análises do ECOFAM sobre o curso de formação dos multiplicadores11, foi pensado uma proposta de trabalho e apresentada aos multiplicadores no primeiro encontro, objeto de análise desta pesquisa12. A equipe aceitou a proposta de trabalho e colocou que estava de acordo com o que eles buscavam como contribuição do ECOFAM.

A pesquisa-intervenção se ajusta muito bem ao olhar fenomenológico-existencial, pois ela parte justamente da faticidade do fenômeno, de sua solicitação no mundo, para se realizar. A pesquisa-intevenção não é senão a resposta ao chamado de determinado fenômeno, com o objetivo de desvelar seu sentido.

Assim, uma vez apresentado o método fenomenológico existencial de investigação, cujo olhar fundamenta esta investigação, e tendo ele sido enquadrado nos moldes da pesquisa científica através do método qualitativo na forma de pesquisa-intervenção; serão descritos agora os procedimentos de colheita dos dados que viabilizaram a análise da pesquisa.

Benzer Belgeler