Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com a fumaça o planeta (Jorge Luis Borges).
Em meio às criações e descobertas da sociedade ocidental na metade do século XV, como a pólvora e as armas de fogo portáteis42, surgiu o livro com páginas impressas, costuradas e encadernadas. Um simples objeto portátil que permitiu à civilização ocidental
40Aquilo que implica um processo e uma a relação com o sujeito.
41DARNTON, R. A questão dos livros: passado, presente, futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 42FEBVRE, L.; MARTINS, HJ. O aparecimento do livro. Tradução de Flávia M.L. Moretto, Guacira Marcondes
apurar-se e desenvolver-se sob a indiscutível influência do pensamento e das imagens no transcorrer dos feitos sociais.
O aparecimento, a construção e a circulação do livro – enclausurado em mosteiros e igrejas, ornados em bibliotecas de reis, agregados às primeiras universidades, até sua comercialização em feiras abertas – dessa época em diante, inicialmente na Europa Central, o livro abriu rotas e caminhos comerciais, ideológicos e sociais. A princípio, o livro impresso e encadernado permite alguma ordem imutável, algo fixo e intacto, talvez por esse motivo sempre esteve ligado as religiões judaicas, mulçumanas e cristãs, religiões monoteístas do Livro, segundo Michel Melot (2012). A escrita segue a mesma relação da ordem do imutável para os judeus, para os quais as letras hebraicas são sagradas e devem ser mantidas intocadas. Os textos impressos e manuscritos, documentos bíblicos e não bíblicos em caracteres hebraicos não são destruídos, queimados, jogados no lixo ou abandonados. Eles têm um destino certo, são postos sob à terra e antes de serem conduzidos ao cemitério ficam em um estado de espera, separados em armários de sinagogas ou como a Biblioteca Guenizá do Cairo (Egito)43. Guenizá significa esconderijo, arquivo, tesouro, armário e depósito na sinagoga,
onde eram armazenados todo material gasto pelo tempo, pelo uso e aqueles em desuso; tal material é fragmentário e contém livros em hebraico, aramaico, grego e árabe, aproximadamente do século IX ao XII44.
Michel Melot (2012) afirma que a escrita é sagrada para os judeus, o texto é sagrado para os mulçumanos, já os cristãos são menos rígidos quanto à forma escrita e ao texto e, assim, na medida em que as tradições religiosas saem de seus territórios, no caso dos católicos para catequizar novos fiéis, o Livro precisaria se adaptar, a tradição se torna “portátil”. O autor assinala que o uso do códice pelos cristãos de alguma maneira contribuiu para sua duração, mas que tal fato não é suficiente para explicar sua existência em nosso mundo atual. Além do uso litúrgico, havia o uso erudito do livro, “o qual apenas teria início no período gótico e com o pensamento escolástico” (MELOT, 2012, p.65).
De grandes formatos para a leitura em voz alta, direcionada a um público, o livro se tornou pouco a pouco menor, possibilitando leituras mais discretas, familiares, muitas vezes individual e íntima. Há uma mudança evidente de modelos luxuosos, pesados, ornados e sagrados considerados em sua unicidade para exemplares portáteis, dessacralizados, profanos, industriais. O que não muda é a capacidade do livro de pesquisar, publicar, fixar e oferecer,
43Disponível em: http://www.genizah.org/TheCairoGenizah.aspx. Acesso em 18 de dezembro de 2013.
44Disponível em: http://bibliahebraica.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Gueniza_do_Cairo.pdf. Acesso em
aos poucos, visibilidades e modos de pensar inéditos aos homens; transformando os pensamentos em algo que continuamente escapa às fronteiras de papel, às fronteiras terrestres. Em O Aparecimento do livro (1992), dos historiadores franceses Lucien Febvre e Henri-Jean Martins, nos é apresentada uma longa e detalhada pesquisa sobre a história do livro e suas relações com a sociedade da Europa Central.
Figura 17: Encontro de Mares, Fábio Morais, 200645.
Por meio de figuras, mapas e números, também conhecemos nomes; um pouco sobre os trânsitos e tarefas de quem estava envolvido com a construção do livro. Fabricantes de papéis, os tipógrafos e suas oficinas, escritores e editores, transportadores, comerciantes, enfim, entre tais oficinas e atividades existia uma relação de interdependência, esses trabalhadores e suas regionalidades estavam envolvidos em uma espécie de rede articulada por mais de 110 cidades como Itália, Alemanha, Suíça, Holanda, Bélgica, Espanha, Polônia, Inglaterra. O conceito de rede é referente ao tempo contemporâneo, mas nos esclarece acerca desse passado:
Assim, no fim do século XV, cerca de 50 anos após o aparecimento do primeiro livro impresso, 35.000 edições pelo menos, representando sem dúvida de 15 a 20 milhões de exemplares, já foram publicados, e a imprensa já se espalhou por todos os países da Europa (FEBVRE; MARTINS, 1992, p.273).
Este recente fluxo de relações em torno do livro e da informação, por meio da quantidade de edições e sua distribuição, podem impressionar pelo curto tempo entre o desenvolvimento da imprensa, sua reprodução e consolidação na sociedade. Porém, anterior à era Gutenberg, superfícies foram utilizadas para a necessidade do homem de deixar sua
45Disponível em http://fabio-morais.blogspot.com.br/2009/01/encontro-de-mares-2006.html. Acesso em 15 de
marca, sua visão grifada. Segundo Melot, no século XIII, há um salto considerável de difusão de escritos, período em que houve uma divisão de atividades dos copistas para conseguirem produzir manuscritos em série, permitindo-os desenvolver uma escrita “mecânica”, em especial, para as universidades, como a Universidade de Leiden, na Holanda. O que provavelmente estimulou os inventores dos tipos e da impressão e, também inspirou Honoré de Balzac (1799-1850), em seu romance Ilusões perdidas (2010). Antes do advento da imprensa, rolos de papiro e pergaminho eram as superfícies utilizadas – em larga escala sob a perspectiva da época – na Antiguidade e na Idade Média antes das melhorias na fabricação do papel, como por exemplo, as oficinas na cidade de Fabriano (Itália). Matéria tão importante para a impressão tipográfica e a fabricação do livro, o papel surgido na China, no século II d.C., chegou ao Ocidente pelos árabes. Se retomarmos ainda mais o passado, observaremos a emblemática Biblioteca de Alexandria, no Egito do século III a.C, que pode ter armazenado um milhão de rolos de papiro. E a Biblioteca de Pérgamo, fundada por Eumene II, rei de Pérgamo (197-160 a.C), que era tão importante quanto a de Alexandria. “Estima-se que as bibliotecas de Pérgamo e de Alexandria reuniram, em média, de 200.000 a 500.000 volumes” (PAIVA, 2010, p.20).
Desde épicas bibliotecas, da antiguidade, o códice passou por mudanças formais e conceituais, bem como seus modos de uso doméstico e público, tanto quanto a sociedade sofisticou suas relações sociais, políticas, econômicas e tecnológicas, o que tornou possível a normatização do pensamento e a expansão das ideias. Como objeto do mundo, o livro acompanhou as manifestações culturais e os eventos científicos sem perder sua relação com o conhecimento, com a narrativa, com a memória e a imaginação, antes, se fortaleceu como suporte da linguagem e da expressão, como matéria reflexiva e coisa propícia à criação. Sem se reduzir ao texto, o livro se estabelece como presença simbólica, estrutura valores e representações de ordem mística, intelectual, social, mas também, artística. Entretanto, diante de tantas mudanças e contradanças, o que mais o livro poderia fazer manifestar, acontecer? De frente para um desses objetos folheáveis poder-se-ia perguntar: O que mais o livro tona possível?