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DR. OKTAY SİNANOĞLU

12. SINIF – 25. ETKİNLİK

Impossível não dissertar sobre ES, a diversidade de sua nomenclatura, abrangências e abordagens se não refletirmos sobre aquilo que é comum a todas essas questões: o corpo. A pergunta não é recente, mas ainda prevalece e é pontual: que corpo?

No pensamento contemporâneo, o corpo deixa de ser considerado como entidade fechada e reduzida à sua realidade biológica. Trata-se, doravante, de

corporeidades, conceito fundado pelo filósofo francês Michel Bernard que supõe

uma abertura, um cruzamento de influências e de relações, reflexo de nossa cultura e imaginário, de nossas práticas e de uma organização social e política (PERRIN, 2006). Bernard complementa:

A corporeidade é, mas é sem ser, ela perde seu estatuto ontológico. Não há essência na corporeidade [...] o trabalho artístico produz uma subversão estética da categoria tradicional de corpo: necessário falarmos, a partir de então, de corporeidade. (BERNARD; NIOCHE; PERRIN; 2005, p.04, tradução nossa)44

Neste estudo, a palavra corpo deve ser compreendida através do conceito de Michel Bernard. Em respeito à nossa vinculação ao pensamento do filósofo, doravante, aqui neste estudo, onde se lê corpo, entenda-se corporeidade.

Em entrevista-artigo do filósofo Michel Bernard cedida à coreógrafa Julie Nioche, submetem-se algumas temáticas da criação em dança, seus ecos e as variações corpóreas advindas desse processo. Nessa entrevista, transcrita por Julie Perrin45, Bernard revela que pensar o corpo não significaria pensar numa entidade corporal e sim um pensar sobre um campo sensorial. Não haveria mais um ser corporal em si, mas uma “película efêmera, um devir energético-poliformo” (BERNARD, NIOCHE, PERRIN, 2005).

Bernard esclarece que não se trata de uma dissolução da corporeidade, afirmando que a ideia de dissolução seria delicada sob o ponto de vista teórico (2005, p.4, tradução nossa):

Nunca falei de dissolução da corporeidade, eu disse que a corporeidade poderia ser pensada como um tecido sensorial fundiário com seus múltiplos prolongamentos, suas articulações motoras; este tecido é móvel, instável, em permanente renovação.46

      

44 No original: La corporeité est, mais est sans l’être, elle perd son statut ontologique. Il n’y a pas d’essence de la corporeité [...] Le travail artistique produit une subversion esthétique de la categorie traditionelle de corps: Il faut désormais parler de corporeité (BERNARD; NIOCHE; PERRIN; 2005, p.04).

45

Trata-se de uma entrevista-artigo a partir do convite da coreógrafa francesa Julie Nioche ao filósofo Michel Bernard, para assistirem e discutirem sobre um solo de Nioche intitulado: H2O-NA CL. A entrevista foi transcrita por Julie Perrin, professora da Paris 8, e publicado no Magazine du Centre d’Art et de Création des Savois à Bonlieu Scène nationale em Annecy (Ibid.).

46

No original: Je n’ai jamais parlé de dissolution de la corporeité; j’ai dit que la corpoeité pouvait être pensée comme un tissu sensoriel foncier, avec sés multiples prolongements, sés articulations motrices; ce tissu est móbile, instable, en renouvellement permanent (ibid. p.4).

Se a questão não seria de um corpo que se dissolve ou desconstrói, poderia ser então, a questão da dinâmica sensorial e seus múltiplos

prolongamentos, implicada na base da dança. Para Bernard, os bailarinos deveriam

definitivamente esquecer a noção de uma unidade ou de uma entidade chamada corpo, e refletir a partir de possibilidades do campo sensorial:

Todo trabalho de reflexão, de análise e exploração sob o plano cênico, deveria se efetuar ao nível da diversidade sensorial, sem se referenciar a um “corpo que faz isso ou aquilo”. A corporeidade é uma sensorialidade incontrolável [...] Falemos de tatilidade, e não do corpo que toca. A tatilidade nos leva além. (BERNARD, NIOCHE, PERRIN, 2005 p.3, tradução nossa).47

Assim como no pensamento em arte, a dança contemporânea exige uma mudança do discurso tradicional de corpo. Qual corpo daria conta de uma dança contemporânea, sendo essa uma dança complexa e porosa, que se explica através de uma pergunta formulada enquanto resposta? Ou ainda, uma dança que se explica através de sua própria desconstrução48?

A dança por si só, é o território privilegiado de uma interrogação do e no corpo, produzindo uma subversão estética, deslocando assim, a terminologia do corpo à da corporeidade. É nesse sentido que podemos dizer que corporeidade e dança contemporânea se afinam. Trata-se de uma dança que escapa às grades dos conceitos, trata-se de uma dança que, em resumo, escapa (BERNARD, 2004, p.4), e, para dançá-la, não se pode descartar a dimensão simbólica, imaginária e cultural de um tecido sensorial que comporta uma corporeidade.

Bernard vincula uma performance em dança à ideia de um tecido de variações sensoriais que se segmentariam ora na parte alta, ora na parte baixa do corpo. Afirma, ainda, que poderiam ser as diferentes facetas de uma corporeidade que dão a ver as mutações de uma sensorialidade singular. Bernard exemplifica a partir da sua sensação ao observar a performance de Julie Nioche em seu solo

H2O-NACL:

       47

No original: Il faudrait que tout travail de réflexion, d’analyse et d’exploitation sur le plan scénique s’effetue au niveau de la diversité sensorielle, sans référer à un “corps qui fait ceci ou cela”. La corpoeité est une sensorialité débridée. [...] Parlons de la tatilité, et non du corps qui touche. La tatilité déplace ailleurs (ibid. p.3).

48

Thereza Rocha em seu artigo: “O que é dança contemporânea? A narrativa de uma

impossibilidade” discorre sobre a complexidade em responder esta pergunta: “não há resposta, pois a própria pergunta é sua resposta própria [...]” (2011, p.4).

Eu não vejo a queda, enquanto queda, com suas significações, mas o que a sua sensorialidade tenta me fazer sentir fisicamente, através da forma e da temporalidade de cada uma dessas quedas (BERNARD; NIOCHE; PERRIN; 2005, p.3, tradução nossa)49.

Sendo a possibilidade de se criar variações em torno de uma sensorialidade singular aquilo que interessa à dança, como a ES poderia atuar nesse campo de possibilidades? Como estabelecer práticas que invertam as formulações de um corpo que salta, que corre e que anda em cena para uma pura sensorialidade?

Benzer Belgeler