• Sonuç bulunamadı

Em primeiro lugar, faremos uma breve incursão acerca da temática do risco e de sua construção social na história da sociedade moderna, por considerá-la essencial na conformação das relações entre os profissionais e as pessoas atendidas em organizações e programas sociais.

A seguir, nos deteremos sobre a importância dos vínculos já constituídos pelos familiares atendidos, - e das possíveis rupturas destes -, simultaneamente à necessidade de desenvolvimento de outros, com os profissionais e pessoal dos serviços que se propõem a realizar o atendimento.

Finalmente, trataremos da estratégia de trabalho em redes, capaz de potencializar os esforços de cada serviço individualmente, para obter resultados mais amplos no atendimento das crianças, adolescentes e de suas famílias.

Entendemos que estes três aspectos básicos perpassam a relação entre a equipe e a população atendida, não só do Projeto Quixote, mas também de outros equipamentos. Por isso, é de grande interesse e necessidade fundamentá-los.

Na Idade Média não existia o conceito de risco; ele foi cunhado a partir dos séculos XVI e XVII, pelos exploradores ocidentais, quando de suas viagens pelo mundo. Tal conceito designava a navegação em águas não cartografadas (falha na orientação espacial). Depois, passou para um tempo posterior, referindo-se às transações bancárias e investimentos para enfrentar empréstimos. Só mais tarde passou a designar “situações de incerteza”. Neste caso “[...] risco não é o mesmo que infortúnios ou

perigo. Risco se refere a infortúnios ativamente avaliados em relação a possibilidades futuras” (GIDDENS (2000:32-45).

Antes do advento da sociedade industrial, o destino, a sorte ou vontade dos deuses atribuía sentido e significado à vida. Nas sociedades industriais, estar vivo já é arriscado por definição; há um esforço sistemático para não confiar o futuro à tradição, à religião, ao curso da natureza. Mas gostaríamos de realçar que as situações de incerteza, de receio, sempre estiveram presentes ao longo da história da humanidade.

lucro e perda futuros, e, portanto, o risco como processo contínuo” (Idem). Isso só foi

feito a partir da contabilidade com “partidas dobradas”, inventada no século XV na Europa, o que tornou possível acompanhar o investimento de dinheiro para ganhar mais dinheiro.

Por haver uma infinidade de riscos que afetam a saúde, desde as suas origens a noção de risco é seguida da noção de sistemas de seguros. O seguro, parasita do risco, acaba sendo o alicerce para as pessoas assumirem os riscos. Ou seja, diante de riscos iminentes, há o desafio de enfrentamento, de lidar com eles, de não se imobilizar.

Desta forma, teríamos o risco vindo da natureza e o fabricado pelo crescente conhecimento do mundo. O autor reconhece o limite da separação entre os dois tipos de risco, pois, por exemplo, as pessoas se casam sem saber como será para elas o funcionamento dessa instituição.

No risco fabricado, não se tem sua dimensão exata antes que ele ocorra, ou nada sabemos antes que seja tarde demais. Por exemplo, quais as conseqüências do acidente de Chernobyl ou da encefalopatia espongiforme bovina? No entanto, na sua origem, risco também significava ousar.

Paulilo (1999) considera que os medos coletivos sempre fizeram parte da humanidade, seja dos perigos físicos a serem perpetrados pelos seus semelhantes, seja o da força mítica vinda dos deuses da natureza, de entidades do bem e do mal, entre tantas outras imaginações. O medo é uma reação natural do ser humano, pois está na base da sua necessidade de segurança, esteja ele exposto a risco ou não, porque está ligado às funções instintivas, que derivam da capacidade natural de defesa diante da iminência real ou imaginária, provável ou possível, de um perigo. Entretanto, tendo em conta que insegurança é o símbolo da morte, a segurança, o da vida, conforme as circunstâncias, o medo pode proteger o homem, ou funcionar contra ele próprio, caso de seu exagero –o pânico- que pode paralisá-lo.

PAULILO (1999) afirma que segundo teoria desenvolvida por DOUGLAS (1994) do “modelo inocente” o risco e a cautela nem sempre são escolhas racionais, o duelo entre segurança e risco é um grande paradoxo.A mesma autora continua dizendo que a resposta ao risco é culturalmente compartilhada. Nesse modelo, consideram-se três elementos fundamentais para a compreensão do risco: a hierarquia que os riscos assumem na vida pessoal, a intersubjetividade ao tomar decisões e o contexto no qual os

riscos ocorrem.

A autora continua, afirmando que o risco e a cautela nem sempre são escolhas racionais, o duelo entre segurança e risco é um grande paradoxo. Para o raciocínio antropológico relacionado ao chamado “modelo inocente”, a percepção do risco é uma resposta culturalmente compartilhada.No século XVII, a idéia de risco estava associada à probabilidade matemática, mas a partir do século XIX começou a ligar-se à idéia de perigo. O risco está, em certa medida, relacionado com o desenvolvimento tecnológico e imbuído da idéia de laissez-faire da economia liberal, que estimula as iniciativas individuais.

Nos nossos dias, risco se associa a resultados negativos. Por conta da complexidade dos termos formais de análise do risco, há tendência a subestimar a análise de uma pessoa leiga. Se desde a Antigüidade isso não ocorresse de modo natural e informal em termos de possibilidades, os seres humanos não teriam sobrevivido. Considerando as diferenças culturais, mesmo num mesmo país, há de se ver que “ uma

análise de risco que considere o comportamento cauteloso de aversão ao risco como normal e racional e a atitude de correr o risco como anormal, patológica ou decorrente de um traço individual de personalidade está, portanto, fadada a apresentar um grande viés cultural.” (PAULILO, 1999:24), pois, desta maneira, na teoria cultural, as

explicações estariam mais próximos da percepção do risco das pessoas leigas. “O

debate envolvendo risco e sociedade contemporânea nos faz ver que riscos individualmente tomados ou coletivamente assumidos incluem a possibilidade da doença e da morte.” (Idem, p 32.)

A forma como nos temos relacionados com a vida, com o próximo, pode, em tese, agravar ou diminuir possíveis riscos; e, ao falar de relacionamento, estamos

supondo a importância do vínculo, um dos pressupostos que também aparece como

alicerce das atividades no Quixote.

Numa breve apreciação, procuramos agora desvendar a configuração do Vínculo, passando tanto pelo plano de sua intimidade como da expressão que assume no âmbito mais geral da vida social.

Nas relações humanas, ocorrem vários sentimentos significativos e importantes para nos constituirmos como tal. São sentimentos de amor, raiva, medo, angústia, entre outros, que a linguagem verbal não consegue traduzir, ou dificilmente nomeia dentro

dos seus limites.

Pela vivência do luto, da perda de um ente querido ou em outra situação que afeta profundamente o relacionamento, o afastamento da pessoa com quem possuíamos tal vínculo, ou a falta que sentimos na medida em que ela não corresponde mais aos nossos anseios, pode causar-nos sofrimento ou, em certos casos, até mesmo alívio. Na verdade, não sentimos amor por qualquer pessoa, o vínculo afetivo depende de uma atração especial de uma pessoa pela outra, e deve ser construído.

Por muito tempo a ciência ignorou, ou desprezou, como objeto científico, a existência de vínculos afetivos; os psicanalistas, embora reconhecendo sua importância

na vida dos pacientes, “... demoraram para desenvolver uma estrutura científica

adequada, dentro da qual a formação, manutenção e rompimento de tais vínculos possam ser entendidos” (BOWLBY, 2001:96- 99).

O autor afirma que, com a “teoria da ligação”, podemos especificar a existência deum comportamento resultante da proximidade alcançada, e mantida, por uma pessoa em relação a outra, esta última vivida como diferenciada, preferida, sendo considerada mais forte e/ou mais sábia. Esse é um comportamento que caracteriza os seres humanos do nascimento à morte e, entre outras manifestações, inclui: choro, apego, chamamentos que pedem cuidados, e protestos, como no caso da criança que fica sozinha ou com estranhos. Essa reação se torna mais evidente quando se está doente, consternado, assustado, ou seja, em situação de fragilidade humana. São comportamentos que dependem da idade, sexo, circunstâncias e experiências resultantes, principalmente, dos primeiro anos de vida. Acreditamos que também a cultura define, em parte, esse comportamento e as reações compatíveis à faixa etária e ao gênero. O processo de socialização pode acentuar isso, encorajando um comportamento entre vários possíveis.

A Teoria de Ligação e Dependência enfatiza que o vínculo possui quatro princípios: especificidade, duração, envolvimento emocional e aprendizagem. Especificidade – pois é ele dirigido para algum indivíduo específico, geralmente

conservando uma ordem de preferência; duração – ou seja, persistência por grande

parte do ciclo vital, não obstante possa ser atenuado e suplementado, na adolescência, em conseqüência de novas ligações; envolvimento emocional – as emoções intensas que o acompanham surgem, principalmente, no começo de sua formação, no rompimento ou na renovação das ligações. Quanto maior a relação, maior chance há da pessoa se ligar a

outra, sobretudo até o terceiro ano de vida (e também em outras idades, quando ela adquirir outros recursos e houver amparo que dê segurança ao sujeito para agir com tranqüilidade); depois disso, a ligação torna-se cada vez menos ativada. Também está presente, na ligação, a aprendizagem – que permite distinguir o familiar do estranho, como chave do desenvolvimento.

As recompensas e punições têm papéis secundários, pois uma ligação pode ser desenvolvida por repetidas punições da figura de ligação. A ameaça da perda do vínculo gera ansiedade e a perda deflagra tristeza. A manutenção do vínculo afetivo é sentida como fonte de segurança e sua renovação como fonte de júbilo; também são características do vínculo: ontogenia – nos primeiros nove meses de vida, desenvolve-se

o comportamento de ligação em humanos; e organização – inicialmente o

comportamento de ligação é mediado por resposta organizada até um ano de idade. A partir daí o vínculo passa a ser mediado por sistemas comportamentais cada vez mais refinados, que incorporam modelos representacionais do meio ambiente e do eu. O vínculo é, ainda, uma função biológica – o comportamento de ligação ocorre em todas as espécies de mamíferos e em certas espécies permanece durante toda a vida.

Em um animal imaturo, a manutenção de proximidade com o adulto preferido (quase sempre a mãe, ou a pessoa que normalmente exerce essa função materna) é regra geral, o que sugere ser regra de sobrevivência. Afirma o autor que as necessidades de alimentação, reprodução, sexuais, são os motivos essenciais para a vinculação. Assim é, portanto, que o comportamento de ligação é, de longe, a principal proteção, especialmente contra predadores de outra espécie.

“[...] Sejam quais forem os modelos representacionais de figuras de ligação e do

eu que o indivíduo constrói durante a infância e adolescência, eles tendem a persistir relativamente inalterados até durante toda a vida adulta [...]” (BOWLBY, 2001:186),

Nos humanos, vínculos fortes são a regra, sobretudo entre pais e a sua prole, especialmente entre mãe e filho pequeno, como algo que persiste até a idade adulta. Na ausência de vínculo, normalmente há uma resistência à abordagem que outros possam tentar.

Devemos estar cientes de que não se trata, entretanto, de uma postura determinista., ou seja, as modificações em certas idades e circunstâncias podem vir, ainda que sejam morosas.

Além disso, embora considerando fundamental a visão de Bowlby, gostaríamos de ponderar que poderão ser acrescidos outros vínculos, tais como os de amizade, a relação de cooperação advinda de trabalho, companhia numa viagem, de militância, por causa de afinidade ideológica, política, e da necessidade do outro enquanto ser social. Entendemos que o vínculo possa ser constituído tendo como base estas outras dimensões, permeado pelo respeito mútuo e pela autonomia dos sujeitos.

O papel dos pais – ou de qualquer pessoa que se incumba de cuidar de uma criança ou de alguém – é complementar ao comportamento de ligação. A pessoa deve estar disponível e pronta para atender à solicitação, e intervir judiciosamente no caso; e terminá-lo, limitá-lo no momento adequado é importante para o crescimento; entretanto, na vida real nem sempre é tranqüilo terminar, ou limitar, o vínculo no momento adequado, até porque é difícil, muitas vezes, demarcar com precisão esse momento.

No Quixote, entende-se que o vínculo começa no encaminhamento da criança, do adolescente, e da família, ao atendimento que recebe, pelo telefone, ou presencialmente. A presença de outras pessoas, o contexto em que essa comunicação ocorre, podem ser determinantes para que o atendimento tenha continuidade. Mudanças das condições sociais, tais como, desemprego, ameaça de morte, o crescimento, mudança do endereço de residência, novos relacionamentos e a falta de perspectiva influenciam na formação e na ruptura do vínculo.

Alguns autores afirmam que a ruptura de vínculos significativos pode acarretar perturbações psiquiátricas importantes na vida de um indivíduo. A incapacidade de estabelecer vínculos pode estar associada a experiências na infância, caracterizadas por separação, divórcio, morte (sobretudo da mãe ou da pessoa que faz o papel da maternagem); a ausência dela por um tempo igual ou superior a seis meses, nos primeiros cinco ou seis anos de vida, também pode trazer problemas para a criação do vínculo.

É importante reconhecer que o ser humano é dotado de capacidade e criatividade histórica para inventar e encontrar substitutos que ajudem na sua relação com o mundo e com os seu semelhantes. Ainda que a vinculação possa parecer natural, ela é uma construção social, histórica e localizada numa determinada cultura, passível de ser recriada infinitamente pelos humanos. As diferentes culturas criam seus mecanismos e redes que definem as relações a serem estabelecidas, de acordo com as circunstâncias,

as expectativas e as formas como vão ser atendidas em cada momento.

Historicamente, as relações atendem a determinadas necessidades e desejos humanos, que transformam o homem e por ele são transformadas. Desse modo, alguns vínculos são indispensáveis e essenciais em algumas circunstâncias, e em outras nem tanto: seu rompimento pode ser até sinônimo de autonomia, uma busca na direção de uma relação mais saudável, que satisfaça o sujeito.

As condições acima mencionadas nos instigam a uma reflexão sobre algumas outras categorias intensamente utilizadas em nosso exercício profissional. O ser humano não nasce completo, seu desenvolvimento ocorre ao longo da sua existência e acredita- se que os primeiros pilares se estabelecem nos primeiros estágios, ou fases, da vida, compreendendo a infância e a adolescência. O significado do que sejam infância e adolescência varia conforme as organizações sociais, culturais, históricas, próprias dos diversos contextos sociais e possíveis de acordo com o nível de desenvolvimento da sociedade. Em síntese, trata-se de uma construção social.

As funções de cuidar e amparar as gerações mais jovens têm sido historicamente delegadas às mulheres, que podem ser mães, parentes, amigas ou não, inclusive idosas, e a outros equipamentos sociais, tais como Creches, Jardins de Infância, Escolas etc.

“[...] Ao longo de todo o século XIX, a autoridade paterna foi incessantemente

revalorizada, embora sendo em alguns lugares constantemente rompida, dividida, fragmentada, laicizada. E uma vez que o pai se tornava, na França, o depositário das instituições estatais, e, na Europa, da sociedade civil, a subordinação das mulheres e a dependência dos filhos não podia mais ser ilimitada. Se o pai se enfraquecia, se cometia erros ou injustiças, devia receber punição. É assim que a substituição de Deus pai pelo pater familias abre caminho para uma dialética da emancipação, cujas primeiras beneficiárias serão as mulheres e, depois delas, as crianças.”

(ROUDINESCO, 2003:40.)

Atualmente, no espaço urbano, os membros de famílias de baixa renda, em sua maior parte, permanecem separados por longas horas. Embora isso não seja exclusivo dessa camada social, é nela em que as conseqüências são mais agudas e de maior repercussão, pois adicionam-se a outras carências, em função das atividades e compromissos relacionados à sobrevivência que, como já dito, podem incluir cuidar de pessoas. Mas, repete-se, é necessário que se tome cuidado para não reduzir de maneira

simplista a relação entre criança em situação de rua e pobreza, vendo isso apenas como resultado de privação material, pois processos culturais e psicossociais mais complexos nela interferem, ainda que necessitem ser devidamente dimensionados.

As ações de enfrentamento à pobreza são ainda marcadas pelo assistencialismo e clientelismo, ou sequer existem. Como conseqüência, temos, em parte, o enfraquecimento dos vínculos familiares, o aumento de crianças e de adolescentes ingressando precocemente no mercado de trabalho, abandonando a escola, passando alguns deles a viverem na rua.

A forma como determinada sociedade se organiza para produzir, reproduzir, socializar, trocar, distribuir, consumir tem rebatimento, e influência, nas várias dimensões da vida social e, sobretudo, nas instituições que se encarregam de executar essas funções. A família é uma das instituições onde ocorrem, regra geral, as primeiras experiências e um dos espaços privilegiados na formação dos indivíduos, em seu exercício de sentimentos diversos e íntimos, carregados de emoção.

Os sucessos e frustrações são vividos nesse processo, e lida-se com eles conforme cada membro é afetado, ou registra e apropria-se dessas questões. Sem entrarmos no mérito do que isso seja, podemos afirmar que, na sua maioria, essa instituição vai em busca do que é socialmente valorizado, e dos valores que lhe são próprios e, na sociedade capitalista, por exemplo, a propriedade, o consumo são quase sinônimos de poder, por conseguinte, os mais desejados na busca da felicidade.

No cotidiano observamos que a maioria dos membros da família que comparece e acompanha as crianças, adolescentes é constituída pelas mulheres (mães biológicas, adotivas, madrastas, irmãs mais velhas, avós, tias, vizinhas etc.), essas fazem diversas queixas, tais como: “quero internar meu filho porque não agüento mais; meu filho fica na rua, não volta em casa, usa drogas, não vai à escola, anda com más companhias, cometeu esta ou aquela infração, está rebelde, não obedece, trabalho o dia inteiro inclusive sábados e não tenho com quem deixar meu filho, não consegui vaga na Creche, no Espaço de gente jovem, meu filho está dando problemas na Escola e vivem me chamando etc.”.

Diga-se, aqui, que a divisão social de trabalho existe e é universal em todas as culturas, como afirma Françoise Heritier, e a divisão entre os gêneros é uma construção cultural. Cuidar da criança, do adolescente e do próximo em geral, trata-se de um

trabalho vital para a sociedade, pois contribui significativamente na reprodução social, apesar de ser uma atividade não eqüitativa em relação às outras na inserção em outras esferas do mercado de trabalho, pois depende do valor socialmente atribuído a esse trabalho. Em nome do desenvolvimento e progresso social, das reivindicações e lutas sociais, a mão-de-obra feminina foi sendo cada vez mais incorporada em outras esferas sociotécnicas, mas sem ter quem a substituísse na necessidade vital da família, no cuidado dos seus membros, embora esse assunto esteja nas políticas sociais e públicas de vários países, mas em posicionamento vago, restrito, com ações genéricas e pouco conseqüentes.

Conforme a inserção, as possibilidades e o entendimento, a questão do cuidar é gradativamente " lidada", em maior ou menor grau, objetiva e moralmente, e isto passa pela destinação de recursos afetivos e materiais através das diversas políticas públicas e de âmbito privado.

Assim, falar do conceito de família, tão importante em nossa pesquisa, ainda que pareça uma questão simples, na verdade é muito complexo, segundo afirma Lévi- Strauss (1976), porque os conceitos são atravessados pelo grau de conhecimento produzido pela humanidade, e dependem dos paradigmas e hipóteses que fundamentam tais conhecimentos. Para um exemplo, basta citar que, pela influência do evolucionismo biológico, diversos autores, com base nos parâmetros das suas próprias culturas, estudavam sociedades desconhecidas por eles como formas primitivas, que poderiam ter existido em tempos remotos da humanidade. No entanto, o fenômeno da cultura, por ser uma construção social, por si só ganha sentido e significado no contexto onde está inserido, ainda que possa dialogar com o de outras culturas.

Desse modo, os segmentos populacionais com poucos recursos, ou não viáveis às exigências da sociedade vigente, são os que experimentam o ônus mais pesado dessa tarefa, porque muitas vezes ela é realizada de forma solitária – ainda que isso não seja exclusivo a esse grupo – pelos cuidadores, na sua maioria do sexo feminino. Essa atividade acontece porque a mulher não têm com quem partilhar suas questões, seja por impossibilidade de fazê-lo, seja pelo entendimento de que é função exclusiva para si e

Benzer Belgeler