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Em “Outsiders: estudos de sociologia do desvio”, de 1963, Howard S. Becker aborda este tema e explica alguns procedimentos comuns aos grupos em relação às regras:

“Elas podem ser formalmente promulgadas na forma da lei, e, nesse caso, o poder de polícia do Estado será usado para impô-las. Em outros casos, representam acordos informais, recém-estabelecidos ou sedimentados com a sanção da idade e da tradição; regras desse tipo são impostas por sanções informais de vários tipos” (BECKER, 2008, p. 16).

Ele cita determinadas premissas para a criação e imposição de regras sociais: (1) a necessidade da figura do empreendedor moral; (2) a delação, exposição pública da falha encontrada; (3) a motivação pessoal do delator, que percebe que o processo lhe garantirá algo em beneficio próprio; (4) a variação dos graus de interesse de cada um dos demais indivíduos do grupo para o efetivo cumprimento da regra, de acordo com a complexidade de cada situação (cf. BECKER, 2008, p. 129).

Fazendo valer novamente um dos nossos exemplos anteriores: é do interesse da companhia de transportes coibir as ações de comércio ambulante. Para isso até contrata funcionários exclusivamente para esta função, pois, dentro dos terminais existem locais específicos para instalações comerciais que são alugados para gerar uma receita extra para a própria companhia. Se assumirmos o ponto de vista tanto dos empreendedores morais que elaboram a regra (neste caso, os gestores da companhia de transporte) quanto de seus agentes de segurança (responsáveis pelo cumprimento da mesma), veremos que existem diversas motivações para esta regulação específica: desde a preocupação com a segurança dos usuários (a organização de espaços próprios para a circulação de pessoas e o cuidado com a saúde de todos através da observação de normas sanitárias), até os fatores econômicos que garantirão o efetivo funcionamento do serviço de transporte (a renda do aluguel dos espaços como parte da receita geral da empresa ou o recebimento do salário, no caso dos funcionários).

Com relação à sociedade de uma maneira mais geral, Becker observa que muitas vezes, independente da ação dos indivíduos do grupo na intenção de escolher alguém para a função de empreendedor moral, emerge a figura de um líder, um reformador cruzado: indivíduo que julga ver o mundo de um patamar superior: tudo o que vê abaixo é mal e sua ética absoluta lhe fornece a consciência para corrigir – qualquer meio deve ser usado para combater o mal. Mesmo que à primeira vista isto pareça exagerado, segundo o autor, essas pessoas têm plena certeza de que sua postura e seus atos contribuem grandemente para o bem

estar coletivo: se forem obedecidos a vida de todos será muito melhor. O que essas pessoas não cultivam é o respeito pela alteridade: “querem, de modo típico, ajudar os que estão abaixo deles a alcançar um melhor status. Outra questão é saber se os que estão abaixo deles gostam sempre dos meios propostos para sua salvação” (BECKER, 2008, p. 155).

Em nossa literatura encontramos diversas figuras que ilustram muito bem essa categoria: sábios anciãos, idosas senhoras da nobreza, coronéis do sertão... Se, por outro lado, voltarmos nossa atenção ao nosso cotidiano, alguns desses empreendedores podem ser facilmente encontrados entre as pessoas muito populares em nossos meios de comunicação de massa: às vezes na figura de líderes religiosos que carregam as bandeiras de seus grupos particulares em horários e canais específicos, às vezes como apresentadores/comentaristas daqueles programas apresentados ao público como jornalísticos (sempre presentes na programação cotidiana das emissoras de rádio e televisão), às vezes através de pessoas bem sucedidas em suas carreiras e projetos que, simplesmente apresentam seu estilo de viver (de se vestir, de cuidar da saúde, etc.) como exemplo de uma vida perfeita. Munidas de certo talento dramático, essas pessoas transformam cada fato apresentado num exemplo de sucesso, de felicidade e até de vitória numa “disputa do bem contra o mal”. Não é de se estranhar, então, que personalidades assim, revestidas em auras de seriedade, honestidade e disposição para a luta, consigam influenciar o restante do grupo de maneira decisiva, a ponto de até angariar votos para eleger parentes, amigos ou às vezes a si próprios, para cargos políticos.

Em resumo, tornam-se empreendedores morais pessoas que, na prática, já possuem algum destaque dentro de um grupo social (seja por prestígio ou por uma situação econômica que se destaca em relação a posição dos demais), e que na percepção de conflitos entre os valores do grupo e determinadas situações vivenciadas por elas, tomam a iniciativa para propor a criação de regras especificas. Essa iniciativa sempre tem como motivação algum tipo de vantagem que o empreendedor pode vir a ter com a efetiva aplicação da regra, mas surge daí a necessidade da criação de todo um sistema de imposição dessas regras (agora consideradas benéficas a todos os integrantes do grupo), com o objetivo de observar, analisar e apontar situações e/ou pessoas infratoras e, num segundo estágio (quando se mostra conveniente e/ou necessário) punir aqueles que foram apontados, ou nas palavras de Becker, rotulados como infratores.

Estes empreendedores morais sentem a necessidade de que grande parte das pessoas de seu grupo social reconheça e apoie sua posição. Um primeiro passo nesse sentido é sua

própria condição social: “eles acrescentam ao poder que extraem da legitimidade de sua posição moral o poder que extraem de sua posição superior na sociedade” (BECKER, 2008, p. 155) e com isso suas propostas tornam-se mais convincentes e aumentam as chances de sucesso de sua cruzada moral. Assim, sob esse tipo de influência e com o passar do tempo, interpretações pessoais sobre a aplicação dos valores comuns ao grupo, recebem o reconhecimento de todos os integrantes e passam a ser percebidas como espontâneas, ou aproveitando a explicação de Berger acerca de objetivações no início deste capítulo – como dados do mundo natural.

Aqui vale destacar a importância do papel exercido pelos meios de comunicação, nos seus mais diferentes suportes, para o sucesso dessa empreitada: no papel de “grandes produtores e difusores de informação e conhecimento” (GUERRA, p.133), sempre influenciados (direta ou indiretamente) pelos que detêm o poder político e/ou econômico, esses meios colaboram para que essas interpretações sejam conhecidas e aceitas por todo o conjunto da sociedade. Lembrando que os veículos de comunicação de massa consideram sem interesse aquilo é ordinário, cotidiano ao grupo – o espetacular, o excepcional, o extraordinário é o que vai garantir a audiência desejada pelos anunciantes e patrocinadores.

Como em todo sistema econômico, mas de maneira original e mais requintada, a mídia produz, oferece e vende uma mercadoria ao público, ao consumidor, levando em conta o apetite, manifestado precisamente pelo volume de seu consumo (JOSAPHAT, 2006, p. 92).

Nessa busca pelo espetáculo muitas vezes a realidade é mostrada através de lentes que distorcem19 sua imagem de acordo com interesses específicos, causando nos espectadores (ou leitores) impressões que muitas vezes não correspondem à verdade dos fatos. Este tratamento ocorre, segundo Patrick Champagne, porque os fatos que geram notícias

“não são todos igualmente ‘mediáticos’, e os que o são sofrem inevitavelmente um certo número de deformações a partir do momento em que são tratados pela mídia, porque, longe de se limitar a registrá-los, o tratamento jornalístico fá-los experimentar um verdadeiro trabalho de construção, que depende muito amplamente dos interesses próprios deste setor de atividade.” (CHAMPAGNE, 2011, p.63)

19. Stanley Cohen descreve a distorção como uma das características do modo de agir da mídia no tratamento de episódios que retratam desvios, a saber: a manipulação de modos e estilos de apresentação das matérias e às vezes o uso do exagero de determinados aspectos do fato (cf. GUERRA, 2002, p. 135).

São construções assim, muitas vezes a serviço de uma cruzada moral, que são responsáveis pela disseminação de ideias que consideram todos os desvios como se fossem iguais, atos/comportamentos de mesma gravidade. Desconsiderar, em cada caso, a “natureza do ato” (BECKER, 2008, p. 26) pode ter como consequência a atribuição de rótulos indevidos a indivíduos e, às vezes, até a todo um grupo social.