A Web é uma das possibilidades da Internet. A Rede Mundial de Computadores nasceu, em 1969, de uma experiência militar americana, a Arpanet (Advanced Research Projects
Agency), que tinha como objetivo descentralizar informações estratégicas do Pentágono
no período da Guerra Fria, pós Segunda Guerra Mundial. Só mais tarde surgiu o termo Internet, que vem de INTERaction ou INTERconexion Between Computers Network. Significa que é uma tecnologia que coloca em rede, redes de computadores. É a Rede das redes, que usa, hoje, o sistema de telefonia, cabos de fibra ótica, satélites, microondas etc.49. Como lembra Santaella, esta tecnologia precisa ser entendida como uma grande
44BULIK, Linda e TORQUATO, Ricardo Cassiolato. Jornalismo Digital: a forma in forma o conteúdo da matéria. IN: Comunicação Veredas/Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Marília: Editora Unimar, 2005. 45 PINHO, J.B. Jornalismo na Internet: planejamento e produção da informação on-line. São Paulo: Summus Editorial,
2003.
46 FERRARI, Pollyana. Jornalismo Digital. São Paulo: Editora Contexto, 2003.
47 CANAVILHAS, João. Do Jornalismo Online ao Webjornalismo: formação para mudança. 2006. BOCC. Disponível em
www.bocc.ubi.pt. Acesso em 28 set 2005.
48 CANAVILHAS apud MIELNICZUK, Luciana. Sistematizando Alguns Conhecimentos sobre Jornalismo na Web. IN:
MACHADO, Elias e PALÁCIOS, Marcos (Org.). Modelos de Jornalismo Digital. Salvador: Edições GJOL; Calandra, 2003.
49 PINHO, J.B. Jornalismo na Internet: planejamento e produção da informação on-line. São Paulo: Summus Editorial,
teia sem bordas nem centros, composta de milhares de sub-redes, conectadas por espinhas dorsais, que se conectam por meio de protocolos, acionados por programas50.
A idéia da Arpanet era, enfim, que as informações militares estratégicas fossem quebradas em blocos, em diferentes sistemas informatizados, para que a invasão a um deles não comprometesse todo o conjunto de dados. O plano foi alojar os diferentes blocos em universidades americanas. Mas há um detalhe que vai fazer surgir a Internet que conhecemos hoje: uma mobilização chamada de contracultura. Este movimento colocou em dúvida valores centrais vigentes e instituídos da cultura ocidental. Grupos de intelectuais começaram a questionar o crescimento dos meios de comunicação, que incentivavam o consumo e difudiam normas, gostos e padrões de comportamento. Passaram, então, a se mobilizar com o objetivo de libertar a sociedade das amarras tradicionais. As idéias ganharam uma dimensão universal, aproximando a juventude de todo o globo. A contracultura desenvolveu-se na América Latina, na Europa e, principalmente, nos EUA, onde pessoas buscavam coisas novas, na arte, na música e em todos os aspectos da vida, e isso não foi diferente na Academia. Os pesquisadores e cientistas americanos, que já utilizavam a rede de computadores para trocar informações e disponibilizar descobertas científicas, viram a possibilidade de criar uma enorme teia que pudesse democratizar a produção e a distribuição de conhecimento em todo o mundo. A idéia era que todos pudessem disponibilizar informações neste espaço virtual, uma grande rede sem um centro gerenciador, e esses dados pudessem ser recuperados por quem tivesse interesse. Mas, naquele momento, o acesso à nova tecnologia não era tarefa fácil. Era preciso dominar os códigos da linguagem da informática para entrar em conexão com outros computadores ligados à rede.
Para concretizar este sonho de democratização, os pesquisadores desdobraram a grande rede “dividindo-a” em várias sub-redes, como o correio eletrônico, os chats, as listas de discussão, os bancos de dados e a World Wide Web (Teia do Tamanho do Mundo) ou, simplesmente WWW ou Web. Esta pode ser definida como um ambiente que se pode
“encaixar” numa tela, de superfície luminosa e traduz a codificação numérica binária da linguagem digital em arquivos dos mais diferentes códigos: sonoro, verbal e visual. Estes são feitos de “substâncias” virtuais (números) e físicas (eletricidade, que não se pode ver, mas se pode provar a existência material por meio de experiências sinestésicas). Estes procedimentos de tradução de números em informações (dados) expostos na tela e nos periféricos do computador são possíveis por meio de ferramentas, chamadas de programas ou software. Com eles se tornou possível acessar e trabalhar os dados encontrados num território que ficou conhecido como ciberespaço. Segundo Santaella, este ambiente
[...] consiste de uma realidade multidirecional, artificial ou virtual incorporada à uma rede global, sustentada por computadores que funcionam como meios de geração e acesso. Nessa realidade, cada computador é uma janela, os objetos vistos e ouvidos não são nem físicos nem, necessariamente, representações de objetos físicos, mas têm a forma, caráter e ação de dados, informação pura. É certamente uma realidade que deriva em parte do funcionamento do mundo natural, físico, mas que se constitui de tráfegos de informação produzida pelos empreendimentos humanos em todas as áreas: arte, ciência, negócios e cultura51.
Por meio da Web, o ciberespaço pôde ser vivenciado em telas coloridas, com ícones, fotos e, hoje, vídeos e som, em vez das telas pretas que pediam códigos específicos para recuperar informações, características dos primórdios da Internet.
A World Wide Web é, enfim, a ferramenta definitiva para a popularização do que começa a ser batizado de comunicação digital. Ela trouxe a possibilidade de se transformar bites em texto, fotos, vídeos e sons, numa referência ao ambiente “real”, analógico. Permitiu uma interface amigável, entendendo-se por interface o design dos signos na tela, “o design do suporte [...] que permite simular as percepções humanas”52. As interfaces usam, como “condutores” da leitura, signos que são metáforas dos objetos, das situações e dos ambientes do “mundo real”, aquele que o usuário experiencia no seu
51 Benedikt apud SANTAELLA, Lúcia. Navegar no Ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Paulus,
2004 (Comunicação), p. 40.
dia-a-dia. Em outras palavras, o diálogo entre o homem e o computador é intermediado por signos de diferentes naturezas em um todo lógico, que é a interface53. Ela revela o caráter de ferramenta dos objetos e permite a navegação pela informação54. A Web, enfim, vai ganhar a simpatia do público em geral, não especializado em informática. Está criado, assim, um novo meio de comunicação, que vai abrigar conteúdos de todas as naturezas (jornalística, erótica, de entretenimento...).
A Web funciona a partir de dados que estão acomodados em endereços digitais. Esses endereços (IPs) são registrados em “operadoras” chamadas de provedores. São empresas que possuem licença para mediar a entrega de mensagens nos endereços mais diversos da Teia. O sistema é “acionado” por um tipo de programa chamado de browser, software de simples manuseio. Para colocar conteúdo na WWW, basta que o cidadão possua um domínio, um endereço na Teia, registrado em um dos provedores. Por meio de programas cada vez mais fáceis de utilizar, ele “constrói” seu sítio, seu lugar neste universo e entrega-o à gestão da empresa provedora. Esta, porém, não interfere diretamente no caminho das pessoas que irão visitar os lugares criados na Web. O papel do provedor é de autenticar este endereço, como uma espécie de “mesa telefônica” que encaminha as ligações diretamente para os ramais, sem que uma telefonista precise intervir. Os sítios representam, então, os nós da Teia. Como num grande diagrama, todos estão ligados diretamente entre si, basta acionar seu IP, por meio dos browsers.
Pelas características do próprio suporte (uma tela de computador) e pelas demandas que inspiraram o surgimento da própria Internet, antes mesmo da criação da Web, os dados circulam por este ambiente em forma de “pacotes”, que cabem no espaço de visualização de um monitor. Um sítio não é um sistema compacto de informações digitalizadas, mas um conjunto de vários blocos. Cada um deles é chamado popularmente de página. Este sistema de armazenamento de informações “quebradas” tem o nome de hipertexto. Para navegar entre os diversos pacotes de mensagens é preciso que se acessem os chamados
53 BRAGA, Eduardo Cardoso. A Interatividade e a Construção de Sentido no Ciberespaço. IN: LEÃO, Lúcia (Org.). O Chip e o Caleidoscópio: reflexão sobre as novas mídias. São Paulo: Editora Senac, 2005, p. 126.
54 PFÜTZENREUTER, Edson do Prado. Contribuições para a questão da formação do designer de hipermídia. IN: LEÃO,
links – palavras, ícones, fotos, etc – que são programados para “abrir” as diversas páginas de um sítio.
Figura 1 - Hipertexto Figura 2 - Hipertexto
O hipertexto é um conjunto de lexias (nós) e links, para Landow55, ou de nós e nexos para Santaella56. Os nós são as páginas, o conteúdo, as unidades de informação que podem ser fotos, vídeos, textos, programas explicativos etc., e os links ou nexos, os marcos no caminho da navegação pelo hipertexto. São encarregados pela conexão entre as lexias ou nexos e os verdadeiros responsáveis pela significação no ciberespaço57. Esta natureza hipertextual da Web promove uma nova forma de disponibilização de conteúdos. Uma delas é o webjornalismo.