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TFRS 17 – Yeni Sigorta Sözleşmeleri Standardı

No século XIX, Fortaleza apresentava um sistema de saneamento rudimentar. As técnicas para manter a salubridade eram insuficientes para cidade. De modo que sua higienização era bastante precária, evidenciado o descaso das políticas públicas para isto. Nesse período, já se percebe o desprezo da sociedade fortalezense em relação ao litoral, ao despejar tudo o que se rejeitava na Cidade. Um desses destinos era o Grande Pirambu, o qual passou a ser o principal receptor dos dejetos.

Esta prática referente à limpeza pública e doméstica faz com que a população residente na Capital se encontre face a face com o problema de geração constante de dejetos e do alto índice de mortalidade. Para Brasil (1922) este quadro peculiar denota o descaso de moradores em relação aos dejetos; às práticas rudimentares adotadas na liberação das matérias fecais e dos resíduos domésticos; à aglomeração da população e importação de doentes contagiosos.

O descaso dos moradores relativamente aos dejetos reforça o quadro de insalubridade existente em Fortaleza, evidenciado pelas práticas dos moradores em jogar lixo no quintal, a falta de costume de lavarem suas habitações, associada à carência de água potável para uso pessoal e doméstico são elementos reforçadores de quadro caótico do século XIX,

(...) os detritos orgânicos ou resíduos das casas, sem meios de remoção prontos, são outros tantos agentes de infecção. Os restos de cozinha, as águas servidas, etc., geralmente lançados nos quintais, ficam expostos à decomposição pútrida e não poucas servem de alimentação à criação miúda, de galinácea, etc. (BRASIL, 1922, p. 87).

A higiene doméstica era uma prática rara. Mesmo na moradia dos mais abastados, era possível perceber a sujeira, como comenta Brasil, (1922):

O asseio interno das casas é deficiente, e, na maioria delas, nenhum. Ao pó, depositado pelos ventos, reúnem-se os detritos de todas as procedências, arrastados pelos varredores e depositados em algum canto escuso, quando a vassoura entra em tal processo. Mesmo nas casas mais suntuosas, a falta de serventes domésticos, inteligentes, zelosos ou simplesmente cumpridores de seus deveres, deixa muito a desejar quanto a higiene da habitação (p. 91).

No que se refere a água, ao seu uso pela população local, era retirada das cacimbas, cuja pequena quantidade e utilização inadequada facilitavam a contaminação, que implicava escassez de água potável. O autor assinala que os

(...) quintais das casas de Fortaleza são geralmente de pequena superfície, sendo tomada uma seção para uma cacimba ou parte dela, porque as há pertencentes a duas, três e às vezes a quatro casas. A água geralmente consumida como alimentação provém de poços abertos em quintais ou chácaras, sendo conduzida em baldes desasseados e a toda hora do dia(p. 93).

Essa descrição dos costumes dos habitantes da cidade de Fortaleza do século XIX mostra o quadro da falta de higiene da população em sua moradia.

No tocante às práticas rudimentares adotadas na liberação das matérias fecais e dos resíduos domésticos, concebem-se três formas de esgotamento, conforme apontado por Brasil (1922): o despejo de dejetos nos riachos Pajeú e Jacarecanga; as cloacas fixas, que consistiam em buracos cavados nos quintais para enterrar os dejetos; e as cloacas móveis, que consistiam na utilização de barril chamado cumoa, no qual eram depositados os dejetos para serem lançados ao mar. Ao analisar essa tentativa de livrarem-se dos dejetos, percebo que o destino final dos rejeitos nos três procedimentos era o mar.

A maior parte da população cearense utilizava-se das cloacas fixas. Esta fossa era uma imitação grosseira da fossa francesa. Na França, quando a cloaca estava totalmente cheia, providenciava-se o esgotamento, ou melhor, o despejo (vindaje) feito através de um separador, que retinha a matéria sólida e escoava o

líquido para o esgoto. Em Fortaleza as matérias depositadas nestas fossas jamais eram retiradas, comprometendo o solo e a água dos poços. Cunha apud Brasil (1922, p. 97); assinala que

Infelizmente é este o sistema mais seguido na Fortaleza: consiste em um buraco de um a dois metros de profundidade com um metro de diâmetro; recebe este todas as podridões das casas. Estão expostos, e com repugnância o habitante vê a fermentação das matérias depositadas e respira os gases delas emanados; uma vez cheia a cava, tapa-se com alguns centímetros de terra e abre-se outra a poucos metros de distância. Estas fossas fixes de Fortaleza são eternas, jamais retiram-se as matérias nelas depositadas. Estas, porém encontrando um terreno, como o da Fortaleza, essencialmente permeável por ele infiltrarem-se procurando o ponto mais baixo que é a natural e facilmente encontrado na cacimba. Aí infeccionavam as águas, que o habitante, quando não a bebe, dela serve-se para todo o uso doméstico.

A minoria da população utilizava fossas móveis (denominadas cloacas). Conhecidos como cumoas, eram barris de madeira nos quais a população mais abastada depositava seus dejetos, para posteriormente lançá-los ao mar.

Alguns escritores cearenses descrevem esse tipo de esgotamento, dentre os quais posso citar Adolfo Caminha, A Normalista, onde aponta os sonhos impossíveis e horrorosos de Maria do Carmo com o Romão, um negro musculoso e bêbado que, ao vê-la, largou o barril de imundícies para beijá-la. Este procedimento é descrito, também, pelo historiador Raimundo Girão:

As dejeções das moradias acumulam-se semanas e quinzenas em barris especiais, de forma cônica, chamados cartolas, cumoas ou cambronnes, em memória do herói do derradeiro quadrado da Guarda Imperial de Waterloo, que são retirados e lançados ao mar [...]. O sistema de remoção desses cubos e o seu despejo, quando outras razões não militassem contra a sua adoção, bastaria para comentá-lo, por ser o mais anti-higiênico e incômodo para os infelizes moradores das ruas por onde passava esse cortejo do saneamento tolerado, senão aconselhado por nossa ciência oficial. Os condutores dos barris, recrutados na escória da ínfima dos jornaleiros, pela natureza repugnante do serviço, são outros tantos agentes de infecção da cidade. Imundos, asquerosos, mostram nas suas vestes os traços do ofício. Não raro, por: embriaguez nas ruas, nas quais permanecem dias e dias, apenas cobertos por tênue camada de areia, sem que a autoridade sanitária mande proceder à desinfecção delas (1997, p. 47).

Em crônica singular, Barroso (1989) descreve cena peculiar, quando se refere ao transporte de dejetos em cloacas móveis.

O Romão é um antigo escravo bestializado pela miséria. Imundo, fedorento e sórdido, anda meio curvo, arrimado a um varapau, rosnando sempre nomes feios. Sustenta-se de cachaça e come vísceras cruas que compra ou lhe dão na Feira, misturadas com farinha de mandioca no fundo do seu fétido chapéu de palha de carnaúba. Uma tarde, estou no meu rendoso velocípede no Passeio Público, quando ele passa de cartola à cabeça em frente da Santa Casa rumo à rampa do gasômetro, que leva à praia. De súbito, o apodrecido fundo do barril de imundície cede e afunda, enterrando- se-lhe este pela cabeça até os ombros. A massa horrenda sufoca-o, cobre-o todo e derrama-se pelo chão, empestando a rua. O desgraçado braceja como um cego, enquanto toda a gente foge, sem coragem para socorrê-lo. As Irmãs de Caridade do hospital mandam os jardineiros lhe atirarem alguns baldes de água que o salvam daquela ignóbil situação (p. 110).

O local predominante desses despejos era o litoral oeste.39 O Grande Pirambu tornou-se, assim, local de recepção dos dejetos de parcela da população que utilizava as cumoas.

Quanto aos problemas gerados pela aglomeração da população, Brasil (1922) noticia que os prédios se multiplicavam de preferência as pequenas construções para as classes pobres, quase sempre apertadas, de cômodos exíguos, sem quintais. Estes locais eram construídos pelas vítimas da estiagem que migravam para Fortaleza, constituindo verdadeiros focos de moléstias contagiosas causadas pela ausência de higiene40.

Também Costa (1997) comenta sobre os problemas dessa população, ressaltando que ela se instalava na Cidade mantendo os mesmos costumes do campo e a ausência de uma disciplina urbana e higienista favorecereu o

39 Os moradores que habitavam próximo às margens do córrego de Jacarecanga e do Pajeú despejavam seus dejetos nesses rios, provocando a poluição da água.

40 O Nordeste brasileiro, a partir do século XIX, foi marcado por longos períodos de estiagem, que provocaram a migração e a concentração da população nas cidades, principalmente nas capitais, pois estas ofereciam mais apoio aos “retirantes”, pela proximidade do poder público. Posteriormente, com a Lei de Terras (1850), agrava-se este quadro. A estrutura fundiária concentradora contribui para a expulsão do homem do campo. Os equipamentos também são fatores atraentes, que levaram a população do campo para a cidade. Numa sociedade rural, o surgimento desse fenômeno urbano explica-se pela degradação das condições de vida no campo (COSTA, 1999).

aparecimento de doenças e o aumento das taxas de mortalidade. A autora ainda assinala que a

(...) população que vem do campo não tem os traços de comportamento, os modos e usos próprios do citadino. Pode-se dizer que seria rústica e às vezes mesmo rude em contraposição à urbana. A sua relação com o espaço é diferente. Tenta reproduzir na cidade sua vida no campo, nos seus pequenos quintais ou mesmo nas ruas, pois não estava acostumada a separação entre espaço público e privado. [...] Mantinha hortas, fruteiras, criava galinhas, porcos e até vacas soltas pela cidade e arredores. Seu modo de vida entrava em choque com o padrão urbano. Dessa forma, essa população que chega tem que ser “civilizada”, urbanizada, para aprender, ou melhor, para adaptar-se ao modo de vida urbana (p. 12).

A solução encontrada para disciplinar esses novos habitantes foi a criação, pela gestão pública, de leis que regulamentavam este comportamento nas áreas urbanas por meio dos Códigos de Postura impostos desde o início do século XIX41.

Para agravar a situação dos moradores da Cidade, constata-se nesse período o aumento do número de óbitos nas estatísticas realizadas na Cidade, causada pela vinda de doentes contagiosos de outros estadosà procura da cura em Fortaleza.

Nestes relatórios eram freqüentes as referências a salubridade do clima cearense, da cidade de Fortaleza, construída sobre terreno arenoso (dunas), onde os ventos alísios do sudeste varriam da cidade os miasmas e a refrescavam. Esta característica atraiu muitos tuberculosos do Norte e outras regiões do Brasil, transmitindo a doença para a população local. A salubridade só era prejudicada nos períodos de secas que geralmente eram acompanhadas de epidemias. (COSTA, 1997, p. 10).

Em função dos aspectos indicados anteriormente, Fortaleza incorpora, entre 1850 e 1860, as reformas sanitárias (seguindo o modelo da Medicina urbana francesa e inglesa) ao processo de remodelação e aformoseamento da Cidade.

41 A preocupação com a disciplina do espaço é antiga em Fortaleza, diz Costa (1999): “quando o Ceará torna-se província independente de Pernambuco (1799), sob a administração de primeiro arruador Manuel Francisco da Silva, [...]. Os presidentes e legisladores elaboram leis visando à ordenação do espaço e ao comportamento dos citadinos, o que podemos observar através dos planos e plantas de expansão da cidade, na legislação e em documentos” (p. 8).

Nesse novo contexto higiênico e de progresso em que a Capital se inseriu, pode-se perceber várias transformações no ambiente urbano.