3. DAVALAR VE SORUŞTURMALAR
3.2. SİYASİ PARTİ ÜYE VE YÖNETİCİLERİNİN YARGILANDIĞI DAVALAR
Até aqui tratamos apenas do que se costuma denominar imprensa feminina. Contudo, para entendermos como se configurava o periodismo dirigido à mulher, há que estabelecer uma diferença entre imprensa feminina e imprensa feminista.
A distinção entre imprensa feminina e imprensa feminista reside no fato de esta última defender, desde seu surgimento, ainda no século XIX, causas femininas como o direito à educação, à profissão e bem mais tarde ao voto. Uma outra particularidade das publicações feministas era que normalmente -mesmo em uma época em que à mulher era vetado o direito de participar de eventos sociais do espaço público -, seus escritos eram produzidos por mulheres, o que era incomum na imprensa feminina, uma vez que, a despeito de algumas mulheres fazerem contribuições, as publicações eram gestadas e produzidas por homens.
De acordo com Buitoni (1990), a imprensa feminista européia nasceu
primeiramente na França, como uma das conseqüências da Revolução Francesa. L‟Athénée
des Dames, surgido logo após a Revolução e encerrado em 1809, teria sido uma das primeiras publicações feministas francesas. O periódico trazia consultório sentimental, mas proporcionava também a suas leitoras textos em que se discutiam problemas femininos como os afeitos à convivência na esfera pública, por exemplo. Curiosamente,
as leitoras do L‟Athénée não concordavam com suas redatoras e lhes escreviam afirmando
que a resignação seria a melhor solução para suas dificuldades. Essa opinião das leitoras francesas revela, aliás, uma das maiores dificuldades com que as primeiras feministas tiveram que lidar: a resistência e a acomodação das próprias mulheres que, civilizadas que eram, não viam vantagens em reivindicar seus direitos ou, até mesmo, não acreditavam que poderiam, por sua própria condição feminina, requerer algo além do que já lhe tinha sido determinado pela sociedade misógina da qual faziam parte e com a qual elas terminavam, curiosamente, contribuindo.
Não só a imprensa francesa, mas também a italiana e a alemã foram profícuas na publicação de periódicos feministas. Durante o século XIX, vários foram os jornais que debateram causas femininas. No entanto, o grande destaque da imprensa feminina/feminista, na Europa, surgiu apenas na transição dos séculos XIX e XX. Inteiramente redigido e editado por mulheres, nasceu em 1897 o La fronde, um diário publicado por Marguerite Durand, jovem atriz da comédia francesa, convertida à causa feminista.
La fronde inovou até mesmo em relação a outros segmentos da imprensa periódica. O jornal de Mme Durand continha muitas editorias ( o que não era comum, à época); trazia uma folha suplementar em que a cada dia se publicava uma seção diferente: na segunda-feira, correspondentes estrangeiros, na terça, serviços sociais; na quarta, novas descobertas científicas, na quinta, esportes; na sexta, receitas práticas de economia doméstica; no sábado, educação; e no domingo, correspondência (BUITONI, 1990). Atribui-se também ao periódico a criação do termo puericultura que, algum tempo após sua divulgação, foi adotado mundialmente. O jornal circulou primeiramente até 1905 e depois entre 1926 e 1928.
Um dos motivos do surgimento de periódicos feministas, não só no Brasil como na Europa e nos EUA, foi a necessidade de lutar por direitos da mulher. As mulheres no século XIX lutavam pelo direito à educação, à profissão e ao voto. A luta pelo direito à educação confirmava o controle de afetos femininos, visto que a educação feminina era reivindicada primordialmente para que a mulher pudesse melhor desempenhar seus papéis sociais de mãe, esposa, dona-de-casa e educadora. Ela deveria, então, ser educada, na escola, para cuidar bem da casa e do marido e saber educar a prole. Da educação formal derivaria o direito à profissão que, como vimos em 2.3, terminava por constituir extensões das tarefas da esfera do privado, tal como a docência e a enfermagem. O direito ao voto, por sua vez, permitiria à mulher ultrapassar os limites do lar e participar da vida pública. Essa última reivindicação só começou a fazer parte da luta feminina no final do século XIX, e, no Brasil, só foi obteve êxito em 1932.
Entre as publicações feministas no Brasil, ainda no século XIX, destaca-se como o precursor do segmento o Jornal das Senhoras100, fundado, em 1852, pela jornalista e
dramaturga argentina Joana Paula Manso de Noronha101. A jornalista, mesmo sem se
100 Sodré (1999), contando a história da imprensa no Brasil numa perspectiva eminentemente masculina, cita pouquíssimos periódicos dirigidos à mulher e, no caso do Jornal das Senhoras, não alude ao fato de a publicação ser um marco no periodismo feminino. A referência ao Jornal das Senhoras é feita laconicamente e como editora é citada apenas Violante Ataliba Ximenes de Bivar e Velasco, primeira jornalista brasileira, que substituiu Joana Paula na direção do Jornal das Senhoras, seis meses após a criação do periódico. A julgar pela perspectiva de Sodré, a história da imprensa brasileira, curiosamente, teria sido construída apenas por homens.
101 Joana Paula Manso de Noronha (1819–1875) nasceu em Buenos Aires, foi professora, jornalista, dramaturga e romancista. Mudou-se com sua família para o Brasil, onde se destacou como jornalista, inicialmente em Pelotas e depois no Rio de Janeiro, cidade em que colaborou em vários periódicos e
autodenominar feminista, lutou bravamente pelas causas das mulheres. Sua principal meta foi promover a educação feminina. Embora o Jornal das Senhoras trouxesse assuntos como moda, literatura, belas-artes, teatro, crítica - temas que à primeira vista não diferenciavam o periódico de outros que já circulavam no Rio de Janeiro imperial, a peculiaridade da publicação se configurava principalmente por ser o primeiro jornal brasileiro dirigido por uma mulher. No editorial que inaugurou a publicação – cujo subtítulo era Modas, literatura,belas artes e crítica, Joana afirma que “entre outras coisas, o que a motivava era a vontade e o desejo de propagar a ilustração, e cooperar com todas as sua forças para o melhoramento social e para a emancipação moral da mulher.” (apud MUZART, 2003, p. 4). Ainda de acordo com Muzart (op.cit., p. 5), essa atitude teria rompido com a imprensa tradicional e haveria, por outro lado, criado um canal para as reivindicações das mulheres, principalmente o periódico teria se tornado um “impulsionador de instrução, de educação, de mudanças de atitudes, de idéias.” (p. 5)
O Jornal da Senhoras foi publicado até 1855. Após essa data, houve um hiato na publicação de periódicos dirigidos (por mulheres) à mulher. Apenas em 1862, surgiu O belo sexo, um jornal dominical, fundado por Júlia Albuquerque Sandy Aguiar, no Rio de Janeiro. A publicação contava com colaboradoras em vários estados brasileiros. Com duração de apenas um ano, em 1875, surgiu O sexo feminino, fundado e dirigido por Francisca Senhorinha Motta Diniz. Senhorinha contava com a colaboração das próprias filhas para a escritura do periódico.
Em 1888, em São Paulo, foi publicado o primeiro jornal feminino de repercussão social: A Família. O periódico foi fundado por Josefina Álvares de Azevedo (irmã do poeta Álvares de Azevedo). Em 1889, Josefina mudou-se para o Rio de Janeiro e o jornal passou a ser editado na Corte. O objetivo inicial do periódico era “facilitar às mães de família uma leitura amena que as iniciasse nos deveres de esposa e mãe”. A partir de sua publicação na capital da República, acrescentou-se mais um objetivo ao periódico, o de advogar pela causa da emancipação da mulher (COELHO, 2005, p.5) . Acompanhando as principais demandas femininas da época, A Família implementou uma campanha pelo
fundou o Jornal das Senhoras, em 1852. Em 1854, voltou à Argentina e lá ajudou na criação de bibliotecas e escolas públicas, além de apoiar a emancipação da mulher (SOUTO-MAIOR, 1996).
sufragismo feminino e reivindicou a igualdade entre homens e mulheres prometida pela recém-implantada República.
Em 1897, ano em que foi suspensa a publicação de A Família, começou a ser publicada, em São Paulo, a revista A Mensageira – “Revista feminina dedicada à mulher brasileira”. Nessa revista, muitas autoras consagradas, à época, foram colaboradoras. Entre elas estavam a própria Josefina Azevedo, Zalina Rolim, Anália Franco e Júlia Lopes Almeida, autora de inúmeras obras literárias, sobre quem já tecemos considerações em 2.4.
Conforme já afirmamos, a trajetória feminina não pode ser vista linearmente. Sendo assim, apesar de o controle de pulsões exercido pela própria sociedade já ter se transformado em autocontrole, no que diz respeito a papéis e funções femininas, isto é, apesar de as mulheres já terem sido educadas para o lar, surgiam vozes destoantes e que - mesmo elas próprias experimentando o controle de condutas -, afoitamente discordavam da estabilidade das configurações sociais. Por isso mesmo, a imprensa feminista do século XIX apresentava contradições típicas do período histórico vivido pelas mulheres que ousavam levantar a voz a favor das demandas femininas. Desse modo, muitas das atrevidas moças e senhoras que escreviam sobre direitos experimentavam, por outro lado, o paradoxo de resignarem-se com lugares ocupados no lar e com obrigações ligadas à família, como prescrevia a civilidade feminina.
Essa condição contraditória explica, por exemplo, o fato de algumas publicações, mesmo se apresentando como feministas, conterem textos em que se teciam críticas ferrenhas às lutas femininas. É o que se pode observar no trecho a seguir, assinado por J. V. Almeida, publicado na coluna reservada aos escritores, em A Mensageira, em 15 de novembro de 1897, no 8º aniversário da República:
Nem mulher que vota, nem mulher que mata! Nem Luisa Michel,102 nem Carlota Corday!103...Parece-me que é mais lituosa do que risonha a data que hoje se comemora. Ainda se não conta um decênio da proclamação da República e dir-se-ia que um século transcorreu já, tão cruciantes agonias constringem a
102 Mulher símbolo da resistência comunista na França, propagandista e militante do anarquismo no século XIX.
103 Girondina que assassinou Jean-Paul Marat, homem responsável por inúmeras execuções durante a revolução francesa, inclusive a da rainha e dos nobres cortesãos.
lama nacional![...] em menos de dez anos de novo regime, o coração das brasileiras patriotas se tem compungido, ante cenas da mais requintada barbaria![...] Não quero aqui resvalar para o terreno escorregadio e integrado da política...Detesto mulher que vota, como detesto mulher que mata...Meu ideal é Cornélia, mãe dos Grachos!104... abomino por igual a Luisa Michel e a Carlota Corday!...105 (apud COELHO, 2005, p.5-6, grifos nossos)
Como se pode ver pelo trecho em destaque, o autor alude explicitamente à civilidade feminina, a qual, no dizer de Nobert Elias, como já afirmamos em 2.1, corresponderia ao controle de condutas e afetos. No caso da opinião em análise, a mulher que mata [como o fez Carlota Corday] não se civilizou, assim como a mulher que vota
[pelo que lutou Luisa Michel]. Esta última cometeria o “crime” de não ser disciplinada o
suficiente para não deixar de querer exercer um direito que, na sociedade misógina do século XIX, não poderia ser seu: o direito de votar. O ideal de civilidade feminina, por sua vez, é reafirmado na alusão ao modelo de virtude de Cordélia, mulher que representaria o ideal de mulher na sociedade brasileira do final do século XIX.
Mesmo apresentando contradições típicas da condição feminina de seu tempo e desagradando aqueles que viam na mulher um ser socialmente passivo, o travo da imprensa feminista prestou grande serviço às lutas sociais da mulher. Vejamos agora a outra face da imprensa dirigida à mulher: a docilidade da imprensa feminina.