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A sociedade riopardense introduziu os imigrantes italianos em seu contexto a partir dos anos de 1880, modificando todo o funcionamento das fazendas e da produção. Segundo Thomas Holloway, a presença dos italianos afetou as relações de trabalho. Inicialmente, os escravos eram um investimento em bens vendáveis e não recebiam salário. Com a chegada dos imigrantes, foi necessário descobrir o valor a ser pago pelas atividades. Os fazendeiros calcularam essa quantia a partir dos gastos que

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Nos registros da Câmara de São José do Rio Pardo consta que Honório Luiz Dias tinha uma venda em sua fazenda que, provavelmente, funcionava como uma das formas de submissão do empregado, caracterizando-se por uma das peculiaridades do mandonismo, o controle do acesso ao mercado.

tiveram com a vinda desses trabalhadores, como as passagens, a moradia e o uso da terra. Ao final da colheita, pouco sobrava para as famílias italianas. Em alguns lugares, os trabalhadores conseguiram desvincular o ganho à safra, o que acarretou em perdas para os cafeicultores.133

Como os imigrantes chegaram e com eles vieram as mudanças para a sociedade riopardense, optamos por conhecer o que esses italianos falavam acerca da experiência brasileira, através de textos, cartas e memórias, além dos registros de batismo, casamento e óbito e dos estatutos e livro de atas da Sociedade de Mutuo Socorro XX de Setembro134. A maior parte do material de memorialistas foi coletada e publicada por Rodolpho Del Guerra e remete à primeira metade do século XX. Eles contam, principalmente por meio de fotos, a trajetória das famílias de São José do Rio Pardo originárias da Itália, tendo como pano de fundo a história da cidade.135 As obras de Del Guerra foram úteis por reproduzirem fontes primárias e fornecerem informações, principalmente, sobre imigrantes que viviam no distrito sede de São José do Rio Pardo.

Os italianos começaram a chegar a São José do Rio Pardo em meados dos anos de 1880, momento em que a localidade ainda não havia se tornado vila, mas já apresentava grande aumento populacional e da produção cafeeira. Eram famílias inteiras que chegaram trazidas pelos cafeicultores e foram colocadas para morarem em colônias na zona rural. “As casas são de madeira, mas muito bem feitas, com quatro quartos,

cozinha e forno. Elas são baixas, cobertas de telhas de barro vermelho.”136

O cotidiano girava em torno dos cafezais, com a plantação de novos pés, a limpa dos pés já crescidos e dos corredores e a colheita e secagem dos frutos.

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HOLLOWAY, Thomas H. Imigrantes para o café: café e sociedade em São Paulo, 1886-1934. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

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O nome em italiano é Società di Mutuo Soccorso XX de Settembre (tradução nossa).

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DEL GUERRA, Rodolpho José. No ventre da terra mãe (São José do Rio Pardo). São José do Rio Pardo, SP: Graf-Center, 2001; ______. A São José, Nostra Nuova Storia. São Paulo: Grass, 1999 e ______. O décimo terceiro. S.S. da Grama, SP: Grass, 2007.

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Conviviam escravos, italianos e sitiantes contratados para as empreitadas da colheita, que aconteciam nos meses de maio, junho, julho e agosto. Nas casas dos cafeicultores, as empregadas italianas, convivendo com as mucamas cativas, modificavam a culinária dos brasileiros, acrescentando gradativamente novas receitas aos cardápios e, ao mesmo tempo, aprendendo as tradições da cozinha local, com características africanas, portuguesas e indígenas.

Os registros de nascimento e casamento acusam a presença de nomes de origem italiana. O primeiro registro de casamento de um italiano encontrado nos livros da cúria de São João da Boa Vista data de 6 de agosto de 1887 e é um matrimônio entre uma brasileira e um italiano. Ele, Francisco Santori, natural de Massa-Carrara e ela, Anna Maria da Conceição, de Lorena. A moça era filha ilegítima de Maria da Conceição e ele, filho de Luiz Santori e Angelica Pyroni. Como testemunha, um brasileiro e um italiano: Dr. Antônio Candido Rodrigues e Atilio Colli. A primeira testemunha era engenheiro militar, foi diretor de obras públicas entre 1882 e 1883, deputado estadual em 1884-85 pelo Partido Liberal, Secretário de Agricultura do governo paulista em 1900-01 e senador por São Paulo. O segundo era italiano, mas não encontramos mais informações sobre ele. Há mais dois registros do sobrenome Colli nos casamentos, mas não há referência a Atílio, assim, não temos como saber os motivos da escolha dos padrinhos.137 A partir dos anos de 1890, a maioria dos registros é de italianos e observamos que a maioria dos padrinhos faz parte do mesmo grupo, indicando a união dos imigrantes entre si.

Os italianos em São José do Rio Pardo podem ser divididos em dois grupos, aqueles que moravam no campo, nas colônias das fazendas cafeeiras, e os que

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Rodolpho Del Guerra cita um registro de casamento anterior ao que encontramos, um casamento de dois italianos em 16 de abril de 1887, mas não cita a fonte. DEL GUERRA, Rodolpho. A chegada dos

italianos no Brasil e em São José do Rio Pardo. Disponível em <http://www.saojoseonline.

viviam na cidade e se dedicavam a atividades comerciais e de serviços, como marceneiros, sapateiros, comerciantes, etc. Havia uma preocupação dos italianos da cidade para com os das fazendas, e os primeiros se predispuseram a proteger os segundos por meio de uma sociedade de ajuda mútua. Como eles vieram com uma forte cultura associativa, fundaram a Sociedade de Mútuo Socorro XX de setembro. Essa associação era uma mútua que funcionava como um seguro. Os sócios faziam um fundo com contribuições mensais e quando um deles precisava de apoio, a sociedade cobria as despesas. Ela foi fundada em 1886, com a reunião de 50 italianos que tinham o interesse proteger seus conterrâneos das dificuldades de vida de imigrante e das crueldades dos fazendeiros. Os membros eram, então, os italianos da cidade e os das colônias eram protegidos por eles.138 Quando havia alguma denúncia de maus tratos ou desrespeito aos empregados por parte dos proprietários das fazendas, os colonos denunciavam o patrão na sociedade, que chamava o fazendeiro para esclarecer os fatos. Segundo Cláudia Viscardi, “é inegável que o movimento associativo mutualista foi composto, sobretudo,

por trabalhadores – assalariados ou não – que por não serem ricos, precisavam garantir a sua sobrevivência e a de seus familiares em momentos de infortúnio.”139

As discussões em torno do mutualismo se referem à relação das mútuas com a ideia de formação de classe e da criação dos sindicatos, na tentativa de desmentir a afirmação de que as associações eram sociedades anteriores aos sindicatos. Os estudiosos tendem a definir o que é uma mútua diferenciando-a das sociedades beneficentes e dos sindicatos.140 No caso da sociedade italiana riopardense, ela tem um

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SOCIEDADE DE MUTUO SOCORRO XX DE SETEMBRO. Livro da fundação ano 1886. Arquivo do Centro Cultural Ítalo-Brasileiro. São José do Rio Pardo.

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VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. Estratégias populares de sobrevivência: o mutualismo no Rio de Janeiro republicano. Revista Brasileira de História, vol. 29, nº 58, 2009, p. 291-315.

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JESUS, Ronaldo Pereira de. Mutualismo e Desenvolvimento Econômico no Brasil do século XIX.

caráter beneficente, mas em nada se aproxima de um sindicato, apesar de mediar as relações entre patrões e empregados.

Tânia R. de Luca estuda o mutualismo na Província de São Paulo, nas cidade de Santos e na capital, entre o final do século XIX e início do XX. Sua abordagem tenta provar que as sociedades mutualistas foram constituídas, em sua maioria, após a abolição e estimuladas pelo desenvolvimento econômico trazido pela cafeicultura.141 A mútua de São José foi fundada em 1886, extrapolando os estudos realizados pela a autora.

Viscardi faz um apanhado historiográfico do mutualismo e identifica os estudos realizados sobre o tema, as fontes utilizadas por eles e as questões mais relevantes discutidas. Uma das características observadas pela autora é a existência das mútuas de caráter étnico, que reunia pessoas de um mesmo grupo étnico142, como é o caso da mútua italiana, mas isso não define as associações, já que elas ocorriam em diversas modalidades, como profissões, local de moradia e etnia.

Em São José do Rio Pardo, alguns fazendeiros eram sócios beneméritos da Sociedade de Mútuo Socorro XX de Setembro e, coincidentemente, quase todos eram republicanos que participaram da revolta de 11 de agosto de 1889. Eram sócios beneméritos e republicanos Ananias Barbosa, Honório Luiz Dias, major José Antônio de Lima, Dr. José da Costa Machado e Souza e Manoel Corrêa de Sousa Lima. O major José Antônio de Lima era padrinho da Sociedade de Mútuo Socorro XX de Setembro e incentivou a banda dos italianos a tocar a Marselhesa, provocando os liberais. Ele, como padrinho, agiu em função dos seus interesses, mantendo a relação paternalista e mandonista do sistema, e os italianos aceitaram, ao mesmo tempo demonstrando que faziam escolhas por livre vontade. A direção da associação questionou a escolha dos

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LUCA, Tânia R. de. O sonho do futuro assegurado: o mutualismo em São Paulo. São Paulo: Contexto; Brasília: CNPq, 1990.

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músicos da banda e se certificou de que isso não ocorreria mais, em função de uma isenção política da mútua.

Viscardi afirma que era comum a presença de “sócios ilustres” nas associações, o que “implicava no fortalecimento de relações paternalistas ou

verticalizadas”.143 O italiano Enrico Dal Lago compara com o paternalismo no sul dos Estados Unidos e no sul da Itália no século XIX. Sobre o paternalismo no território da antiga Duas Sicílias, afirma

No Mezzodiorno, por sua vez, as atitudes e comportamentos paternalistas estavam relacionados às ideias progressistas de muitos agrônomos, terratenentes e membros ilustrados da elite do século XIX, convencidos de que o tratamento justo dos trabalhadores, e das classes inferiores em geral, era econômica e moralmente viável.144

A partir do trabalho de Dal Lago podemos supor que os italianos já conheciam a conduta paternalista com seus patrões na Itália e a reproduziram no Brasil com os fazendeiros, acostumados à mesma postura desde a escravidão. Em São José do Rio Pardo, a presença de cafeicultores na sociedade mutual era, provavelmente, uma maneira de diminuir ou amenizar os conflitos entre os colonos e seus patrões, o que poderia representar uma forma de manutenção do paternalismo mencionado por Viscardi no Brasil e por Dal Lago na Itália. Podemos observar também que, desses sócios beneméritos, a maioria era de republicanos, líderes da revolta que ocorreu na cidade.

Em ata da assembleia geral ordinária do dia 26 de junho de 1889, o presidente da mútua, Leonardo Define, afirmou que os associados deveriam ser

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VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. O estudo do mutualismo: algumas considerações historiográficas e metodológicas . Revista Mundos do Trabalho, vol. 2, n. 4, agosto-dezembro de 2010, p. 23-39.

144 DAL LAGO, Enrico. “

Patriarcalismo e paternalismo no sul dos estados unidos Antebellum e no mezzogiorno italiano oitocentista: uma comparação entre proprietários de escravos e terratenentes”.

apartidários e a política da sociedade era a paz.145 Essa postura indica a tentativa de manutenção das relações paternalistas com os patrões independente das preferências políticas que eles tivessem. Define tentava manter uma postura apartidária como líder da mutual, mas exercia sua opinião ao escrever para o jornal e se declarar ofendido pela afirmação do presidente da província paulista, Couto de Magalhães, que desmereceu os italianos, após a participação deles na revolta republicana. 146

Por fim, podemos concluir que a sociedade não tinha definição política e não autorizava seus membros a participar de afiliações partidárias. Por outro lado, a presidência não controlava o que cada indivíduo pensava ou como cada um agia fora do âmbito da mútua. Apesar de oficialmente a associação não se posicionar, seus sócios tinham ideias muito precisas de suas opções políticas e se situavam na sociedade riopardense.

Diante disso, a presença italiana em São José do Rio Pardo trouxe mudanças na vida cotidiana, nos aspectos social, econômico e político. No primeiro, uma nova cultura, com diferentes costumes, passava a conviver com os brasileiros e sua diversidade. No segundo, a mão de obra italiana amenizava os problemas da lavoura cafeeira, que absorvia os novos grupos populacionais que chegavam. Enquanto isso, os fazendeiros descobriam novas formas de lidar com o elemento estranho – o empregado - aprendendo como pagar os salários e refazendo as relações de poderio.

No terceiro aspecto, os italianos participaram da vida política da cidade em dois momentos: com a criação da mútua e na participação na revolta. A mutual intercedia em nome dos conterrâneos das colônias e estabelecia lideranças políticas

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Essa ata ocorreu pós o incidente do duelo entre as bandas da sociedade italiana, que tocava a marselhesa, e a banda da cidade, tocando o hino nacional. Isso se deu no dia da inauguração da pedra fundamental da sociedade, coincidindo com a comitiva de campanha de um candidato liberal que acabava de chegar a São José do Rio Pardo. SOCIEDADE DE MUTUO SOCORRO XX DE SETEMBRO. Livro

da fundação ano 1886. Arquivo do Centro Cultural Ítalo-Brasileiro. São José do Rio Pardo, p. 124-5. 146DEFINE, Leonardo. “São José do Rio Pardo”, Seção Livre, Diário Popular, São Paulo, 27 set 1889,

imigrantes no contexto da cidade. O envolvimento com a revolta republicana se deu em dois momentos, com a opção por tocar a marselhesa pelas ruas da cidade na inauguração da pedra fundamental da sociedade, afrontando os liberais e fomentando o conflito, e na composição dos 300 ou 400 homens que enfrentaram os praças na madrugada do dia 11 de agosto de 1889. Por fim, sugerimos que a participação italiana nos conflitos e no episódio republicano se deu pelo envolvimento desses imigrantes com as ideias republicanas e por sua concordância em lutar contra os liberais e os praças.

Benzer Belgeler