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Segundo Höppe (2002), o conforto térmico pode ser compreendido dentro de três abordagens distintas, mas interdependentes. A primeira delas revela o seu caráter subjetivo. Nela, o conforto térmico é considerado “[...] uma condição de pensamento que expressa satisfação com o meio térmico” (ASHRAE, 2004).

De acordo com essa definição, para que um meio seja considerado termicamente aceitável é necessário que uma percentagem específica de ocupantes o considere como aceitável (SINGH; MAHAPATRA; ATREYA, 2007). Segundo ASHRAE (2004), pelo menos, 80% das pessoas não devem expressar insatisfação.

A segunda abordagem adota uma visão termofisiológica do conforto e baseia-se no comportamento dos termorreceptores presentes na pele e no hipotálamo. Nesse sentido, o conforto é definido como a taxa mínima de sinais nervosos. Intimamente relacionado a esta, o autor identifica um terceiro ponto de vista, onde para que haja conforto térmico é necessário que o corpo humano esteja em equilíbrio com o meio. Nesse caso, o conforto é alcançado quando não há nem acúmulo nem perda excessiva de calor (FANGER, 1970 apud EPSTEIN; MORAN, 2006).

Esse equilíbrio significa que o organismo está em neutralidade térmica com o meio; entretanto, Lamberts et al. (2011) afirmam que apesar de ser uma condição necessária ao estado de conforto, sozinha, a neutralidade térmica não é suficiente para dizer se uma pessoa está realmente em conforto térmico.

Parsons (2006) associa o estado de conforto à neutralidade da sensação térmica e, dessa forma, incorpora às respostas fisiológicas involuntárias o caráter subjetivo do conforto térmico, a sensação térmica. Esta, por sua vez, revela, verbalmente, a maneira como as reações fisiológicas são interpretadas pelo ser humano.

Como apresentado na Figura 5, a resposta verbal é graduada de acordo com a sensação de frio ou calor, tendo ao centro uma condição neutra. As extremidades representam situações de sofrimento que são atingidas quando a temperatura da pele é inferior a 15°C ou superior a 45°C (GIVONI, 1976; ANDRADE, 2003a; ASHRAE, 2004) e próximo à neutralidade térmica, as distinções entre os termos sensação, desconforto e descontentamento são mínimas (AULICIEMS, 1981).

Figura 5 - Escala de sensação térmica.

Fonte: Parsons (2006).

Por ser uma avaliação individual, as respostas fisiológicas e sensoriais variam com cada ser humano, mas também podem variar com a própria pessoa em diferentes períodos de tempo (HUMPHREYS; HANCOCK, 2007).

Givoni (1976) define conforto térmico como o estado de ausência de irritação e desconforto devido ao calor ou frio, não devendo ser confundido com balanço térmico visto que este pode ser atingido mesmo sob condições de desconforto através da ativação dos mecanismos termorreguladores. O autor identifica, além da sensação térmica, uma segunda resposta sensorial, a perspiração sensível. É aplicável somente a condições quentes e está associada à área úmida da pele. A escala de avaliação usada em vários estudos psicológicos é apresentada no Quadro 2.

Quadro 2 - Escala de perspiração sensível.

Nível Caracterização do nível de umidade 0 1 2 3 4 5 6

Testa e corpo seco

Pele pegajosa, mas a umidade é invisível Umidade visível

Testa e corpo úmidos (suor cobrindo a superfície e formação de gotas) Roupas parcialmente molhadas

Roupas quase completamente molhadas Roupas encharcadas e suor pingando Fonte: Givoni (1976).

Para Frota e Schiffer (2001), o organismo humano experimenta a sensação de conforto térmico quando, sem recorrer a nenhum mecanismo de termorregulação, a perda para o ambiente do calor produzido pelo metabolismo é compatível com a atividade desenvolvida pelo ser humano.

Spagnolo e De Dear (2003) definem conforto como algo sutil, onde os detalhes de percepção são delicadamente graduados. Assim, conceitualmente, eles referem-se ao meio

Muito Frio (Sofrimento) Frio Muito Fresco Fresco Neutro Tépido Ligeiramente Quente Quente Muito Quente (Sofrimento)

térmico humano como um conjunto de zonas concêntricas com a preferência térmica ao centro, a qual é defendida por uma ampla banda de condições termicamente confortáveis, divididas em diferentes níveis de condições térmicas (aceitável, desconfortável, moderadamente estressante, estressante e meio térmico perigoso).

Segundo Auliciems (1981), até recentemente, as condições de conforto têm sido referenciadas como “[…] aquelas sob as quais uma pessoa pode manter um balanço normal entre produção e perda de calor a uma temperatura do corpo normal e sem transpiração”. Essa definição assume um relacionamento entre aquecimento ambiental, resposta termorreguladora, sensação térmica e nível de conforto assumido, conforme apresentado no Quadro 3.

Quadro 3 - Relações assumidas em pesquisas tradicionais de conforto térmico.

Aquecimento ambiental Resposta

termorreguladora Sensação térmica

Nível de conforto assumido Mais quente que neutro

Aproximadamente neutro Neutro

Aproximadamente neutro Mais frio que neutro

Transpiração Vaso-dilatação Mínimo Vaso-contrição Termogênese Quente – Calor Levemente quente Nenhum Levemente frio Fresco - Frio Inaceitável Aceitável Máximo Aceitável Inaceitável Fonte: Auliciems (1981).

Mas, de acordo com o autor, existe uma discrepância prática entre os modelos fisiológicos disponíveis para explicar a transmissão de estímulos térmicos e suas verbalizações subjetivas e as respostas comportamentais, pois a interpretação subjetiva de um estímulo físico está baseada em experiências e circunstâncias pessoais que não estão presentes nos modelos físico-fisiológicos sob os quais o conforto térmico é normalmente baseado.

Diante do exposto é possível ver que a questão não é tão simples e que existem diversos fatores interagindo entre si. Segundo Auliciems (1982), as informações sensoriais são processadas mentalmente e passam por um ajuste psicológico, o qual não se refere à adaptação genética identificada por Roberts (1982), mas, busca a satisfação térmica e incorpora, na sua definição, parâmetros humanos. Em conjunto, representam uma oportunidade adaptativa, onde a própria pessoa procura se ajustar ao meio ou alterar o ambiente às suas necessidades (AULICIEMS, 1982; NIKOLOPOULOU; BAKER; STEEMERS, 2001; HUMPHREYS; NICOL, 2002; NIKOLOPOULOU; STEEMERS, 2003; KNEZ; THORSSON, 2006; NIKOLOPOULOU; LYKOUDIS, 2006; LAMBERTS et al., 2011).

Na Figura 6, por meio do esquema de como os mecanismos de termorregulação fisiológicos e psicológicos se interligam, Auliciems (1982) mostra a necessidade de incorporar os diversos processos de controle psicológico. Diferentemente do que acontece na maioria dos estudos laboratoriais, a avaliação é baseada em um afeto térmico e não somente na sensação térmica. Da mesma forma, a descrição do conforto vai além das respostas fisiológicas, pois se considera também a percepção ambiental para que se expresse o nível de satisfação com o meio.

Figura 6 - Controle psicológico da termorregulação.

Fonte: Auliciems (1982). TERMORREGULAÇÃO COMPORTAMENTAL TERMOPREFERENDUM SATISFAÇÃO EXPECTATIVA TÉRMICA AFETO TÉRMICO desconforto desconforto geral local sensação térmica TERMORREGULAÇÃO FISIOLÓGICA MEIO TÉRMICO efetivo cognitivo afetivo discriminatório n ív e l d e in te g raç ão a lter a çã o micro climá tica d eter mina n tes clim á ti co -cu lt u ra is CONTROLE PSICOLÓGICO presente passado

Nesse processo, uma vez que a cognição é introduzida, as experiências passadas e expectativas também devem ser consideradas como referência, pois influenciam o nível de satisfação. Tais experiências estão relacionadas tanto com o meio climático natural quanto com o meio tecno-cultural e são chamadas de determinantes climático-culturais.

O controle psicológico é estabelecido com base no voto efetivo para o meio térmico selecionado, denominado thermopreferendum o que resultará na implementação de respostas comportamentais específicas.

Dessa forma, as repostas fisiológicas e sensoriais refletem o esforço imposto ao corpo para mantê-lo em equilíbrio com o meio, determinando também as condições de conforto. Na próxima seção, por meio da experiência relatada por diversos autores em estudos laboratoriais e de campo, procura-se descrever dois dos principais modelos de sensação térmica.

Benzer Belgeler