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O Ensino Superior é responsável por parte substantiva da produção científica, tecnológica e cultural, que qualifica e diferencia a inserção internacional dos diferentes países nas condições de globalização do mundo contemporâneo (UNESCO, 2009).

A Conferência Mundial sobre Educação Superior, realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) em 2009 em Paris, considerou que o ensino superior é um bem público de responsabilidade de todos os governos. Constitui- se, assim, um imperativo estratégico para todos os níveis de ensino por desempenhar um papel fundamental na pesquisa, inovação e criatividade nas sociedades, cabendo-lhe garantir a democratização do acesso para todos, aprimorar a qualidade acadêmica e engajar-se na luta por justiça social e democracia (UNESCO, 2009).

Para Chauí (2003), a universidade brasileira concebe-se como uma instituição republicana, pública e laica, tornando-se também uma instituição social inseparável da ideia de democracia e de democratização do saber, concebida como constitutiva da cidadania pela necessidade das lutas sociais e políticas a partir das revoluções sociais.

Segundo a autora, por ser uma instituição social diferenciada e definida por sua autonomia intelectual, a universidade pode relacionar-se com o todo da sociedade e com o Estado de maneira conflituosa. Ou seja, podem ocorrer divisões internas entre os que são favoráveis e os que são contrários à maneira como a sociedade de classes e o Estado reforçam a divisão e a exclusão sociais, impedem a concretização republicana da instituição universitária e suas possibilidades democráticas (CHAUÍ, 2003).

É no sentido de ser uma instituição social que a universidade deve apresentar, além de relevância acadêmico-científica a relevância social. Ou seja, com o dever de ser

culturalmente engajada e comprometida com a solução dos problemas da sociedade, como: a superação da pobreza crônica, o fim do analfabetismo, a geração de alternativas econômicas, entre outros (SILVA, 2011).

Como espaço de disseminação de conhecimentos e de valores humanos com alcance ao maior número de pessoas, a universidade deve, pois, contemplar a inclusão social como um dos seus pilares fundamentais, possibilitando que todos usufruam de seu direito à educação.

Nesse contexto, é inegável que as discussões sobre inclusão no ensino superior perpassam pelo papel exercido pelas instituições de ensino no que tange a sua responsabilidade social. Ou seja, é preciso avaliar se o seu compromisso enquanto órgão público excede a produção e disseminação do conhecimento, abrangendo também o seu dever para com os grupos sociais.

Para Volpi (1996), não se pode negar o fato de que a produção de conhecimento é uma das principais funções da universidade. Porém, a despeito da destinação social desse conhecimento, a autora fala que essa contribuição não se deve limitar a formação de recursos humanos adequadamente qualificados, mas também que esses acadêmicos sejam capazes de responder às expectativas sociais nele depositadas. Que concretize o compromisso estabelecido não só com ele, mas com a sociedade como um todo, num explícito comprometimento e interação com o entorno social onde se situa.

Assim, para otimizar o cumprimento da sua função social, Mosquera (1990) apud Volpi (1996) situa que é imprescindível que a universidade não se descuide da formação integral dos acadêmicos e que essa formação vá mais além da competência técnica, mas sim que resgate o compromisso com o humano. Ou seja, que busque a síntese do profissional com o ser humano que há nele, numa perspectiva de educação de valores, capaz de propiciar-lhe um posicionamento ético para assumir seu papel numa sociedade em constantes modificações. Quanto aos dispositivos legais, o entendimento de responsabilidade social na educação superior se consubstancia, prioritariamente, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) n° 9.394/96 e a Lei n° 10.861/04 (BRASIL, 2013b).

A LDB n° 9.394/96 explicita como finalidades da educação superior, dentre outras, em seu Capítulo IV. Art. 43 incisos VI e VII:

VI – estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade; VII- promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição (BRASIL, 1996a).

Outro documento é a Lei nº 10.861/04, que trata do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES). O SINAES visa a produção de indicadores de qualidade e um sistema de informações que orienta os processos de regulação e supervisão da educação superior. Este processo ocorre de forma sistemática e permanente através do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) e das avaliações in loco realizadas pelas comissões de especialistas. Com esses dados, o MEC passa a orientar quanto à melhoria da qualidade dos cursos e das IES, garantindo a transparência das informações sobre a qualidade da educação superior a toda sociedade. Em seu Art. 1º - § 1º da referida lei está explícita, entre as suas finalidades:

a melhoria da qualidade da educação superior, a orientação da expansão da sua oferta, o aumento permanente da sua eficácia institucional e efetividade acadêmica e social e, especialmente, a promoção do aprofundamento dos compromissos e responsabilidades sociais das instituições de educação superior, por meio da valorização de sua missão pública, da promoção dos valores democráticos, do respeito à diferença e à diversidade, da afirmação da autonomia e da identidade institucional (BRASIL, 2004b).

Podem-se citar ainda as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação em Direitos Humanos – Parecer CNE/Conselho Pleno-CP n° 8/2012 que, sobre a Educação em Direitos Humanos nas IES, evidencia a responsabilidade dessas instituições com a formação de cidadãos éticos, comprometidos com a construção da paz, da defesa dos direitos humanos e dos valores da democracia, além da responsabilidade de gerar conhecimento mundial buscando atender aos atuais desafios dos direitos humanos, como a erradicação da pobreza, do preconceito e da discriminação (BRASIL, 2012a).

Não alheia a função social da educação superior, a própria Constituição Federal de 1988, traz como eixo estruturante para o ensino superior em seu artigo 207, a articulação ensino-pesquisa-extensão. Carvalho (2007) afirma que é devido a necessidade de despertar nos profissionais em formação a consciência de sua responsabilidade social na construção de um projeto democrático de sociedade.

E não há como construir uma sociedade mais democrática, justa e solidária sem uma educação pautada pela construção da autonomia, pela inclusão e pelo respeito à diversidade (BRASIL, 2007a).

Esses princípios também foram contemplados pela Lei Nº 13.005, de 25 de junho de 2014 que aprova o Plano Nacional de Educação (PNE) para o decênio 2014-2024. São

promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação” (BRASIL,

2014a).

Ao aprofundar a discussão sobre o direito de todos à educação e realizar recomendações legais da educação inclusiva no ensino superior considerando seus pressupostos legais e conceituais, o documento orientador para as equipes de avaliação do SINAES, define como uma IES socialmente responsável aquela que:

identifica as potencialidades e vulnerabilidades sociais, econômicas e culturais, de sua realidade local e global a fim de promover a inclusão plena; estabelece metas e organiza estratégias para o enfrentamento e superação das fragilidades constatadas; pratica a intersetorialidade e a transversalidade da educação especial; reconhece a necessidade de mudança cultural e investe no desenvolvimento de ações de formação continuada para a inclusão, envolvendo os professores e toda a comunidade acadêmica; e promove acessibilidade, em seu sentido pleno, não só aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, mas aos professores, funcionários e à população que frequenta a instituição e se beneficia de alguma forma de seus serviços (BRASIL, 2013b, p.12).

Sendo assim, os espaços educacionais devem atender aos princípios constitucionais de educação para todos, não podendo excluir nenhuma pessoa em razão de sua origem, raça, sexo, cor, idade, deficiência ou qualquer outro condicionante que a coloque em condição de vulnerabilidade social, impulsionando a adoção dos princípios da inclusão em oposição ao segregacionismo e à discriminação (BRASIL, 20013b).

De fato, esse se constitui como um importante desafio tanto às políticas econômicas e sociais quanto às políticas educacionais perante a tensão entre a indispensável competição e o respeito pela igualdade. Pois, o imperativo da competição impele um grande número de responsáveis a esquecer da missão que consiste em fornecer a cada ser humano os meios para realizar todas as suas potencialidades. Dessa forma, é preciso conciliar a competição incen- tivadora com a cooperação fortificante e com a solidariedade que promove a união entre todos. Especialmente no campo educacional é preciso considerar esse desafio e encarar a educação como um trunfo indispensável para que a humanidade tenha a possibilidade de progredir na consolidação dos ideais da paz, da liberdade e da justiça social (UNESCO, 2010).

Benzer Belgeler