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A teologia evangélica, da qual nos referimos anteriormente, e a palavra de Deus perfazem para Barth uma unidade indissolúvel. Para explicar essa unidade entre teologia e palavra, Barth considera inicialmente o próprio vocábulo “teologia” que já contém o termo logos. Teologia é

logia, lógica, logística fundamentalmente possibilitada e definida pelo Theos. Para Barth, não

há como negar que o significado de logos é “palavra”. Necessariamente a palavra é a primeira das definições para circunscrever o lugar da teologia. Não há nenhuma teologia autêntica, e menos ainda uma teologia evangélica, sem o evento desta palavra247. Essa palavra que regula a teologia é a palavra de Deus. Assim, o lugar no qual a teologia se acha colocada e ao qual precisa voltar dia após dia se acha bem defronte a essa palavra. A palavra de Deus é a palavra que Deus falou, fala e falará em meio aos seres humanos – a todos os seres humanos -, quer seja ouvido, quer não o seja. É por meio desta palavra que Deus revela seu agir no horizonte de sua aliança com o ser humano; revela também seu poder e sua majestade como senhor e juiz do ser humano. Mas, é também esta mesma palavra de Deus que revela o ser humano como criatura mantida e salva por sua graça. Neste sentido, a palavra de Deus trás em si duplo sentido: Deus como Deus do ser humano e o ser humano como ser humano de Deus248. Nesta

palavra de Deus (Bíblia) encontramos palavras humanas. Porém, toda a palavra humana não passa de ana-logia humana; o testemunho que encontramos na palavra (Bíblia), ele mesmo não é a revelação da palavra de Deus, trata-se apenas do seu testemunho249. Para Barth o testemunho bíblico contém em si uma limitação indubitável, pois, o testemunho da revelação não é simples e diretamente idêntico à revelação propriamente dita. Mas é justamente aí que Barth fala da unidade indissolúvel entre palavra divina e palavra humana. Para ele, “onde a palavra de Deus é um evento ( ereigns ), revelação e Bíblia são de fato, uma só coisa, palavra por palavra”250. Por meio deste conceito Barth criticou duramente a doutrina da inspiração

verbal da Bíblia. Para ele, a Bíblia não é a palavra de Deus como ensinam a tradição católica romana e o neo-protestantismo. O perigo deste ensinamento está precisamente no fato de que –

247 BARTH, Karl. Introdução à teologia evangélica. São Leopoldo, Sinodal, 2001, 6ª edição, p.18 248 Idem, p.19.

249 BARTH, Karl. Church Dogmatics. 1,II. Edinburgh, T&T. Clark, 1956, p.463 250 Idem, p.127

sendo a Bíblia a palavra de Deus – e conseqüentemente exposta à inquirição da razão humana, acabará debaixo do controle e poder humanos. Esse conceito tornou-se comum no pensamento racionalista251. Barth, contrariando tal conceito, parte da idéia de que a revelação é ato

exclusivo de Deus, e essa presença revelatória se dá por meio do – testimonium internum

Spiritus Sancti – Só assim é possível entender em que nível a Bíblia e a palavra de Deus podem

ser indiretamente identificadas252. Ao falar desta dependência do Espírito Santo para apreender o testemunho da revelação bíblica, Barth, age semelhante ao reformador João Calvino. Neste particular, sendo a palavra de Deus (Bíblia) o lugar da teologia, então, a sua tarefa não é primeiramente interpretar, explicar, tornar inteligível tal palavra; antes, a sua tarefa será a de

confirmar e anunciar essa palavra, que antecede qualquer interpretação, como palavra que foi

falada e ouvida253. Desta forma, a exegese teológica é uma tarefa histórico-gramatical como qualquer outra, só que o exegeta teológico em princípio não se coloca acima do texto com sua ideologia filosófica, mas abaixo do texto, na expectativa de que esse texto seja um testemunho de revelação. “Lida e interpretada dentro dessa expectativa, a Bíblia, nas mãos dos pais da igreja, dos reformadores e de inúmeros intérpretes modestos foi e sempre de novo veio a ser o livro do testemunho e concomitantemente da revelação em si”254. A rigor, a teologia evangélica deverá seguir o mesmo exemplo.

Outro ponto preponderante na unidade indissolúvel entre palavra humana e palavra de Deus, para Barth, é a noção de evento histórico. Para Barth, a Bíblia reivindica, em seu relato de revelação, relatar história; se refere sempre a evento único, ocorrido num determinado lugar e tempo. Entretanto, os eventos que a Bíblia retrata possuem dois lados, o humano e o divino; e por isso esses eventos não são historiche Geschichte (história histórica), uma vez que estão fora do alcance de toda observação e registros históricos, e não podem ser descritos por nossas palavras e conceitos comuns255. Muitos teólogos e exegetas partiram para a idéia de “mito” presente nos textos bíblicos; por exemplo, como vimos anteriormente, Reimarus, Harnack e Bultmann, trilharam esse caminho. Mas Barth, apesar de reconhecer a impossibilidade de reconstrução histórica dos eventos bíblicos, não admite a idéia do mito. Pois o mito não

251 BARTH, Karl. Church Dogmatics. 1,II, p.368. Citado por Godoy na revista teológica RTL.op.cit.p.13. 252 SOBRINHO, Antonio, Godoy. In: Revista Teológica Londrinense. Londrina, UNIFIL, 2001, p.14, Artigo: A

Autoridade da Escritura em Karl Barth e Rudolf Bultmann.

253 BARTH, Karl. Introdução à teologia evangélica.op.cit.p.18. 254 BARTH, Karl. Dádiva e Louvor. op.cit.p.198.

255 BARTH, Karl. Church Dogmatics. op.cit.III,1,pp.80-81. Citado por Godoy na revista teológica

concerne à história, à realidade histórica, mas somente dá a entender a descrição de verdade geral ou princípio. “Mito, de fato, significa a exposição – trazida em forma narrativa, mas vindicando ser verdade em si mesma, independentemente de tempo e lugar – de certo relacionamento básico da existência humana que sempre existe em toda parte256”. O termo que Barth utiliza para descrever as obras divinas é “saga (lenda)”. Para ele, “a Bíblia é levada a falar também em forma de saga precisamente porque seu objeto e sua origem são o que eles são, ou seja, não somente históricos mas também francamente não-históricos”257. Barth chama a nossa atenção para o fato de que saga é como um quadro elaborado poeticamente, simbolizando elementos pré-históricos sujeitos às limitações temporais e espaciais”258. Com essa idéia de saga, Barth introduz nova forma de interpretar a revelação bíblica. Pois, se ele seguisse pelo caminho comum de que a Bíblia é a palavra de Deus, cairia simplesmente no erro de admitir a infalibilidade bíblica; e, segundo Barth,, admitir a infalibilidade da Bíblia significa admitir que o homem tem o domínio da palavra de Deus. Para Barth, cada vez que transformamos a palavra de Deus numa palavra bíblica infalível do homem, nós resistimos ao que nunca deveríamos resistir, i.e, a verdade do milagre que homens falíveis proclamam a palavra de Deus, e portanto, resistimos a soberania da graça. Disse Barth:

Se os profetas e apóstolos não são homens reais, falíveis, mesmo em seu ofício, mesmo quando eles falam e escrevem sobre a revelação de Deus, então não é um milagre que eles proclamam a palavra de Deus. Mas se não é um milagre, como pode ser que eles falem a palavra de Deus? Nós participamos neste milagre, o milagre da graça de Deus aos pecadores, e não o milagre vazio das palavras humanas259.

Ao manifestar este milagre da graça de Deus, neste mesmo instante a Escritura pode ser referida como a palavra de Deus e, então, nesta situação, dizer que a Escritura é a palavra de Deus é fazer uma declaração analítica, fundamentada somente em sua repetição e interpretação, e não em sua derivação de lógica. Portanto, Barth afirmou freqüentemente que o reconhecimento da autoridade da Escritura é assunto de “confissão”, porque “se não estamos pensando em desistir da fé, temos que crer no milagre da graça”260. Ao fugirmos disso corremos o risco de cair no erro da infalibilidade papal romana e no erro não menos infalível da autoridade da auto-consciência e consciência histórica do homem como propôs a teologia

256 BARTH, Karl. I,2,p.376. Idem.p.14. 257 BARTH, Karl. III,1,p.82. Ibidem.p.15.

258 BARTH, Karl. Church Dogmatics.op.cit.III,1,p.81. Citado por Godoy na RTL.op.cit.p.15 259 BARTH, Karl. Church Dogmatics. I,2,529-530. Idem.p.15

liberal. Finalmente, relembramos que o lugar da teologia, segundo Karl Barth, é a palavra de

Deus revelada a testemunhas auriculares e oculares. Como vimos, não há teologia evangélica

fora ou acima desta palavra. É nesta palavra que se manifesta o logos divino e este é o criador da teologia. Lembramos também que a tarefa da teologia é anunciar e confirmar esta palavra, antes mesmo de qualquer interpretação. Esta definição do lugar e tarefa da teologia se aproxima da afirmação de Calvino de que o “pregador” é como “boca de Deus”261 a anunciar o milagre da graça divina. Barth ainda afirmava que o primeiro passo do teólogo deve ser a oração. Com isso, podemos perceber que a ana-logia fidei da qual Barth tanto falou aponta para a idéia da dependência exclusiva do testimonium internum Spiritus Sancti. No próximo tópico analisarei a doutrina da criação segundo o conceito teológico de Karl Barth.

Benzer Belgeler