“A pessoa sente fé até na gente que está com aquela farda”. (Geraldo Antônio da Silva, pesquisa de campo, 2012)
A festa de Nossa Senhora do Rosário acontece todos os anos em Estrela do Indaiá no fim de semana próximo ao dia 15 de agosto, dia de comemoração da santa na cidade e feriado municipal. Seu cronograma de atividades se divide em quatro dias festivos, com início na quinta-feira e término no domingo, organizadas e mantidas segundo regulamento feito pela Associação da Congada de Nossa Senhora do Rosário da Paróquia de São Sebastião de Estrela do Indaiá.
A festa do Rosário na cidade é composta de duas partes, sendo uma de conteúdo religioso e a outra de conteúdo profano. As atividades se dividem em um espaço aberto, em frente à Igreja do Rosário, numa constituição sagrada através da apresentação dos ternos e da missa no começo da noite, e profana com a montagem de barraquinhas e o forró que diverte
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os visitantes após a realização dos rituais (figura 21, p. 149). O quadro abaixo revela a composição espacial da Festa de Nossa Senhora do Rosário.
Quadro 2: Composição espacial da Festa de Nossa Senhora do Rosário.
Fonte: Elaborada pela autora. Pesquisa de campo, 2011. Igreja do Rosário Espaço do forró Som mecânico Barracas de alvenaria Banheiros Casas Arquibancada
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Como dito no capítulo 3 dessa dissertação, o congado é uma manifestação artística e religiosa, vinculada ao louvor dos santos protetores dos escravos: São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário. No entanto, conforme Costa (2006), “foi a aparição de Nossa Senhora do Rosário que instaurou e estruturou as comemorações atualmente marcadas pela participação dos ternos”, sendo este evento mítico, “situado no tempo do cativeiro, que orienta a organização das festas, ditando os aspectos necessários à atualização da raiz e à manutenção de seus significados primordiais”. A partir de então, instaurou-se a realização de um reinado que em todo o país é responsável pela conformação da festa de Nossa Senhora do Rosário como um todo (COSTA, 2006, p. 58). Neste sentido, os festejos do Rosário em Estrela do Indaiá se estruturam, portanto, pelo encontro de seus ternos que, por ocasião do evento, atualiza os mitos de origem ligados às histórias dos congos de linha oficial, como ressaltado no capítulo anterior.
De maneira geral, o reinado é formado pelas seguintes hierarquias: rei e rainha perpétua, reis e rainhas temporários, príncipes, princesas, bordão, bordoneta, princesa da varinha de prata, além da juíza da bandeira, todos com funções específicas a cada posição
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durante o festejo. Os reis perpétuos, como o próprio nome já diz, ocupam posições vitalícias na festa enquanto que as demais, em Estrela do Indaiá, são substituídas todos os anos, obedecendo a uma lista de espera organizada pela Associação de Congadeiros, com as pessoas interessadas. Estas pessoas são, por sua vez, responsáveis pela organização do festejo, no que diz respeito à comida distribuída na festa e são conhecidos como festeiros, realizando tais atividades em função de uma promessa ou de graças recebidas. No entanto, essas posições e papéis dentro do congado podem variar de cidade para cidade, “estruturando as funções de seus reis e rainhas segundo as necessidades particulares do lugar” (COSTA, 2006, p. 58).
O reinado, durante os dias de festa, encontra-se imiscuído aos momentos rituais do evento que, em Estrela, variam conforme o dia. No primeiro dia de festa, na quinta-feira à tarde, começam as primeiras manifestações dos rituais de congado com a Cavalhada, que se trata de um encontro de cavaleiros, congadeiros e não congadeiros que em seus cavalos enfeitados, brincam de derrubar cestas de balas de um arco de bambu com uma espécie de vara de madeira, similar às usadas nos campeonatos de justas medievais (uma espécie de lutas entre cavaleiros com título de nobreza). Historicamente falando, de acordo com Priore, as cavalhadas ou cavalarias como também são conhecidas, são reminescências destas justas, “a que vieram somar-se a celebração dramatizada das lutas entre cristãos e mouros, com embaixadas, desafios e raptos de princesas constituindo exercícios de destreza militar na forma de jogos e divertimentos” (figuras 22 e 23, p. 151). Esta brincadeira de derrubar as cestas em Estrela é também herança do “jogo das argolinhas que aparece entre os desafios dos cavaleiros, praticado na colônia desde o século XVI” (PRIORE, 2000, p. 60).
Pendendo de um arco ou poste enfeitado – é Câmara Cascudo quem conta – normalmente executado nestas ocasiões, colocavam-se aros metálicos suspensos a um cordel esticado que os cavaleiros a galope deviam tentar tirar com a ponta da lança. Era costume oferecê-las as damas que retribuíam amarrando fitas à lança do contendor, mas na colônia oferecia-se aos membros do Senado da Câmara ou ao Capitão-Mor da vila (CARDIM apud PRIORE, 2000, p. 60).
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Figura 22: Cavalhada.Cavaleiros se preparam para cavalhada. Foto: Larissa Moura, 2011.
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Após a euforia das derrubadas de cestas que animam principalmente as crianças que invadem o local da cavalhada para pegar as balas, acontece a primeira missa e as primeiras apresentações das guardas de congado, ainda sem farda, complementando o momento mais importante da festa, o levantamento do mastro. Este ritual abre oficialmente os cultos em homenagem aos santos de devoção daquele ano, que todo enfeitado pelo bordão e bordoneta, serve aos fiéis que colocam pedidos no local em que vai ser erguido para a busca de graças, mas pode servir também para a concretização de maus agouros caso um fiel mal intencionado consiga colocar ali o seu pedido. Por sua vez, para que isso não ocorra, alguns componentes da associação vigiam o local do erguimento do mastro, resguardando a integridade deste ritual para a concretização de apenas bons pedidos (figura 24, p. 153).
No Brasil, o ritual de soerguimento do mastro tem sua origem ligada à Europa do Antigo Regime e “marcava, sobretudo, as comemorações de São João, Santo Antônio e São Pedro”. De acordo com Priore, “outras tradições caras à cultura popular faziam-se igualmente presentes nesse momento”, como a busca por honras votivas e súplicas, a prática de cultos ligados à natureza e o entretenimento lúdico, “servindo como pau de sebo para as brincadeiras que se seguiam às cerimônias oficiais na praça em que estava plantado” (PRIORE, 2000, p. 34). Na Bahia do século XVIII um mastro foi levantado “por ocasião das celebrações oferecidas pelo natalício do primogênito do Conde de Vila Verde e em Pernambuco, na mesma época, foi a vez “dos pardos da Irmandade de Nossa Senhora do Livramento festejar São Gonçalo com uma festa na qual o soerguimento do mastro foi também um momento solene” (PRIORE, 2000, p. 33).
Em Estrela do Indaiá, o levantamento do mastro simboliza o ritual mais importante da festa, pois é ele, com a bandeira de Nossa Senhora, que possui a função mágica de proteção dos congadeiros, realização de pedidos e concretização de votos feitos. Os fiéis acreditam tanto neste poder que todos querem tocá-lo, retirar um pedaço de fita que o enfeita para guardar em proteção, celebrar o reinado de Nossa Senhora do Rosário, fazer promessas e cumprir graças. Trata-se de um ritual belíssimo em que pude presenciar os diversos ternos dançando e cantando em volta do mastro, enquanto que uma chuva de fogos cobria o céu da cidade, abrindo oficialmente os festejos do rosário de 2011.
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Após a realização destes primeiros rituais, a missa, o erguimento do mastro e a apresentação das guardas de congado, tem início a festa profana com as barraquinhas que vendem comida e bebida aos seus participantes e com o forró que alegra a todos, ou melhor, a quase todos que gostam das duas ou de apenas essa parte do festejo. No último ano, essa combinação causou problemas entre os barraqueiros que alugam da Associação de Congadeiros as barracas de alvenaria, e o padre da cidade que queria acabar com a parte não religiosa da festa. Entretanto, apesar das ameaças em deixar os festejos por parte do padre, os barraqueiros conseguiram um acordo para a continuação do forró e das barracas, fato que ainda causa certa inquietação quando o assunto é a festa do rosário de 2012. 33
Na sexta feira as atividades dos ternos começam logo cedo com o café da manhã na casa dos festeiros. Os ternos se encontram na Igreja do Rosário para o sorteio realizado pela diretoria da festa, das casas em que farão as refeições daquele dia e dali se direcionam para as
33 De acordo com Mary Del Priore (2000), as festas religiosas e p ofa as desde o pe íodo olo ial de fato, a i ha ju tas . De a o do o Mello Mo aes apud PRIORE, a úsi a sa a das festas eligiosas misturava-se normalmente com ritmos populares portugueses e espanhóis, numa mostra de que os territórios e t e o sa o e o p ofa o, o popula e o e udito o estava esta ele idos . De a o do o Jos Fe ei a Ca ato apud PRIORE, , tais dive ti e tos se dei a a le ta e te i o po a po u pode oso si etis o das aças e fus o o pe íodo olo ial (PRIORE, 2000, p. 19).
Figura 24: Congadeiros no momento do soerguimento do mastro. Bandeiras e refes levantados em louvor aos santos de proteção. Foto: Larissa Moura, 2011.
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residências sorteadas. São três refeições oferecidas por dia, café da manhã, almoço e café da tarde, e cada casa recebe de dois a três ternos por refeição, sendo que cada casa é responsável por uma das três. Durante o percurso entre as residências, eles andam pela cidade dançando e cantando, parando na frente das casas dos festeiros para homenageá-los, realizando coreografias, abençoando com a bandeira de Nossa Senhora a todos por que passam. Os festeiros, por sua vez, em cada refeição e a cada dia de festa, dedicam a fartura do alimento oferecido a um dos santos de devoção sendo a sexta-feira dedicada a São Benedito; o sábado a Santa Efigênia e o domingo a Nossa Senhora do Rosário que é considerada, dentro do congado de Estrela, a coroa maior (figura 25).
Figura 25: Congo Pena Verde reza e agradece a refeição oferecida pelo festeiro Leonardo Tobias, ao centro.
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No sábado, os rituais se repetem; de dia os congadeiros fazem as refeições nas casas dos festeiros daquele ano (figura 26) e de noite se apresentam em frente a igreja do Rosário, em que cada terno possui coreografias e músicas próprias que podem variar no decorrer da festa. Todos os dias também, antes da apresentação dos ternos, ocorre a missa do Rosário no palco montado em frente a igreja para que mais pessoas possam acompanhar as bênçãos do padre (figura 27, p. 156). Logo após a missa acontece o forró e a liberação das barraquinhas para o entretenimento de congadeiros, não congadeiros, festeiros e visitantes. No entanto, é importante lembrar que aos congadeiros é aconselhável, por parte dos capitães e da associação, a ingestão de bebida alcoólica somente após os rituais do Rosário, de preferência, após a retirada da farda, o que simboliza o respeito e o compromisso por parte deles com a tradição. 34
34 De a o do o Botelho, a
s procissões faziam parte das comemorações das irmandades. Desde a Idade Média, em Portugal, como em outras partes da Europa, as festas em homenagem aos santos católicos desdobravam-se em procissões, missas, cânticos e músicas. Algumas procissões com representações teatrais e atores de folias seguiam o cortejo festivo BOTELHO, , p. 118).
Figura 26: Congadeiros do Catupé agradecem a refeição oferecida pela festeira Maria Daluz, (de costas com a bandeira). Foto: Larissa Moura, 2011
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No domingo, ocorre o encerramento da festa com a participação de ternos de congados visitantes das cidades próximas que se unem aos ternos de Estrela do Indaiá na homenagem aos santos de devoção. Na parte da manhã, os ternos se reúnem na Igreja do Rosário para a retirada das imagens dos santos de devoção para a Igreja Matriz, onde se reúnem e partem para as últimas visitas aos festeiros de 2011. Após as visitas às casas dos festeiros, todos os ternos se reúnem na Igreja Matriz da cidade, novamente, enquanto os congos de linhagem buscam os festeiros daquele ano em suas casas para que todos se reúnam para a procissão (figura 28 a 44). Os ternos Moçambique, Catupé e Penacho são, por sua vez, responsáveis pelas guias das imagens dos santos, Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito durante o cortejo. Após a passagem pela Igreja Matriz, os ternos se direcionam para a Igreja do Rosário conduzindo as coroas e os festeiros para a finalização dos rituais. Durante a última missa, ocorre a entrega das coroas para os festeiros do ano seguinte, as apresentações das
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guardas de congado e o descimento do mastro, momento solene que simboliza oficialmente o encerramento da festa do rosário de Estrela do Indaiá daquele ano. 35
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As procissões faziam parte das comemorações das irmandades. Desde a Idade Média, em Portugal, como em outras partes da Europa, as festas em homenagem aos santos católicos desdobravam-se em procissões, missas, cânticos e músicas. Algumas procissões com representações teatrais e atores de folias seguiam o cortejo festivo (BOTELHO, 2009: 118).
Figura 28: Congadeiros e fiéis reunidos próximo a Igreja Matriz para a procissão de encerramento. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 29: Congo Moçambique. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
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Figura 30: Congo Real Penacho. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 31: Estrela de Ouro. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 32: Caixinha de Bombacho. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
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Figura 33: Congo Catupé. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 34: Terno visitante. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 35: Terno visitante. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
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Figura 36: Congo Marujo. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 37: Congo Pena Verde. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 38: Contra Dança. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
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Figura 39: Congo Sereno. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 40: Congo Real Penacho. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 41: Catupé. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
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Figura 42: Congo Penacho e Moçambique conduzem as imagens de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 43: Catupé conduz a imagem de Santa Efigênia. Procissão. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 44: Fiel toca a imagem da santa na Igreja do Rosário. Foto: Larissa Moura, 2011.
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7.2- As funções na festa
Os festejos do Rosário de Estrela do Indaiá são organizados por pessoas que exercem determinados cargos e funções para que tudo possa ser realizado da melhor forma possível. Os cargos se dividem em administrativos e de comando exercidos pelos capitães, suplentes, dançantes, presidente, tesoureiro, capitão-mor, padre, dentre outros, além daqueles que são fundamentados pela história e possuem uma credibilidade proporcionada pela interpretação de personagens míticos, como no caso dos reis e rainhas, príncipes e princesas. Outros cargos e funções são ainda exercidos pela juíza da bandeira, bordão e bordoneta, e pela princesa da varinha de prata.
A Associação da Congada de Nossa Senhora do Rosário de Estrela do Indaiá é responsável por delimitar essas funções e garantir o cumprimento delas por parte de seus membros. Ela é formada por uma comissão constituída de membros associados, membros simpatizantes e beneméritos que compõem os conselhos diretor e fiscal, a coordenadoria e a comissão de apoio, cada qual responsável por uma determinada função:
1. O conselho diretor, constituído de presidente, secretário, tesoureiro, assistente religioso com os respectivos suplentes, e vice-presidente, é responsável pelas funções administrativas e diretivas da associação.
2. O conselho fiscal, constituído de três sócios efetivos e três suplentes, é responsável por fiscalizar e assessorar a diretoria no exercício da administração.
3. A coordenadoria, constituída de sócios e/ou beneméritos, é responsável pela coordenação nas áreas religiosas, culturais e sociais.
4. A comissão de apoio, constituída de membros beneméritos, voluntária e gratuitamente assessora a diretoria prestando serviços à associação e à comunidade.
No que diz respeito às funções dentro dos ternos, os capitães são os mais importantes, pois são eles que organizam o terno e zelam para o cumprimento da tradição entre os dançantes. Eles devem manter a ordem, zelar pela união, pela disciplina e, principalmente, pelo respeito religioso dentro do grupo e exigir que as regras firmadas pela Associação sejam cumpridas, da mesma forma em que podem punir um dançante que não esteja agindo de acordo com as suas atribuições. Para tanto, o capitão conta com o auxílio do suplente que no
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decorrer da festa acompanha e fiscaliza o seu terno no cumprimento das normas e regulamentos pré-estabelecidos.
Ser capitão não é só um status, é uma responsabilidade imensa que as vezes você tem que esquecer que é filha, esposa, irmã, patrão ou empregado e largar o que estiver fazendo para exercer esta função, porque ser capitão não acaba no domingo da festa quando se desce o mastro, é o ano todo, esteja dormindo ou acordado. Logo, quem estiver disposto a isso e a defender o Rosário de Maria, pode ser capitão (Entrevista, Claudilâine Silva Rocha, pesquisa de campo, janeiro de 2012).
Junto com o capitão, nós suplentes coordenamos o corte, ajudamos a organizar os ensaios endireitando para fazer uma boa demonstração a Nossa Mãe, além disso, ajudamos a incumbir as tradições, normas da festa, zelando a bandeira e a fé em Nossa Senhora (Entrevista Jeissiana de Oliveira Silva, pesquisa de campo, janeiro de 2012). 36
À rainha perpétua, figura central nas comemorações do congado, cabe a função de zelar e ajudar na construção da festa, podendo ser esta ajuda, algumas vezes, de cunho material (figura 45, p. 165). Esta maior centralidade na festa, por sua vez, se deve ao fato, segundo Patrícia Costa, de a rainha representar Nossa Senhora. De acordo com a autora, a rainha perpétua, assim como a santa, “é mãe e em momentos rituais deve acolher os congadeiros e os festeiros”, caso seja necessário suprir a ausência de alguma refeição, por exemplo. Dessa maneira, ela contribui para a união de todos os congadeiros, sócios e demais membros da festa, em torno das obrigações e objetivos comuns referenciados pela associação (COSTA, 2006).
Aos festeiros, reis, rainhas, príncipes e princesas (membros beneméritos da associação) (figura 46, 47, 48 e 49, p.165/166) cabem oferecer as refeições aos ternos e visitantes durante os dias da festa, podendo sê-lo feito mediante pedido, sujeito a lista de espera, realizado no ano anterior. De acordo com a presidente da Associação, a senhora Ágata Maria, os pedidos são aceitos mediante o número de vagas para a festa do próximo ano.
A gente não agenda festeiro mais pra mais de um ano. Porque antigamente o pessoal agendava e o quê que acontecia, os outros não tinham oportunidade, porque, por exemplo, você dava seu nome, colocava seu nome no caderno e tornava a colocar pro outro ano. E aconteceu um fato, a cunhada do capitão Geraldo Antônio morreu sem pagar uma promessa devido a isso, porque todo ano que ela tentava já estava cheio. Então o que
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o padre fez, pra dar oportunidade pra todo mundo, ele fez isso. Então você vai pra fila como qualquer um, vai lá e dá seu nome (Entrevista Ágata Maria de Oliveira Silva, pesquisa de campo, dezembro de 2011).
Figura 45: Reis Perpétuos. Foto: Larissa Moura, 2011.
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Figura 47: Rei e rainha de 2011. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 48: Reis de 2011. Foto: Larissa Moura, 2011.
Figura 49: Rainha de 2011. Foto: Larissa Moura, 2011.
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