Dentre os muitos estudos que estudaram o desenvolvimento como um processo que se realiza por meio de etapas, destaca-se a tese defendida por W.W. Rostow em sua obra “Os Estágios do Crescimento Econômico”, de 1959.
Utilizando uma perspectiva histórica, em sua tese, Rostow constatou que as economias, no seu processo de desenvolvimento, passam de um estágio da economia tradicional até um nível extremo de alto consumo em massa. Segundo ele, esse processo envolve cinco estágios: 1) a sociedade tradicional; 2) as pré-condições para o arranco; 3) o arranco; 4) a marcha para a maturidade; 5) a era do consumo em massa.
O primeiro estágio, denominado de “sociedade tradicional”, caracteriza-se por uma estrutura que se expande dentro de funções de produção bastante limitadas, na qual predomina uma economia baseada em atividades de subsistência e onde uma proporção substancial de seus recursos é destinada à agricultura, a qual se traduz na sua mais importante atividade econômica. A produção é caracterizada por ser intensiva em trabalho, verificando-se uma utilização de limitadas quantidades de capital, cuja forma de alocação é determinada majoritariamente pelos tradicionais métodos de produção, com a prevalência de técnicas rotineiras, refletindo-se em um nível de produtividade também limitado.
Este tipo de sociedade, segundo Furtado (1987, p.140 e 141), não se caracteriza necessariamente por uma situação estática: sua população pode aumentar e novas formas de produção, inclusive a manufatura pode desenvolver-se. Entretanto, essas mudanças são extremamente lentas. Nesse estágio, pode até ocorrer algum crescimento extensivo, entretanto, mantendo o volume de produção per capita em nível bastante inferior ao que seria possível obter com o uso de tecnologia mais avançada. Além disso, a estrutura social tende a apresentar grande rigidez, sendo limitada a mobilidade social, com a estrutura do poder político controlada pela classe de proprietários de terra.
A etapa seguinte, denominada de “as precondições para o arranco” ou a decolagem, seria mais uma fase de transição, na qual são estabelecidas as bases para a transformação econômica da sociedade, o subseqüente crescimento da renda e o alcance do desenvolvimento auto-sustentado. Nesta etapa, deve-se construir um eficaz estado político nacional em contraposição aos interesses regionais e locais e o surgimento de novos tipos de empresários dispostos a liderarem novas iniciativas, enquanto as instituições econômicas se modificam.
Ao abordarem a tese de Rostow, tanto Leite (1983, p. 127 a 134) como Furtado, apresentam duas circunstâncias que podem ser mencionadas como exemplos da criação de condições para o arranco. A primeira delas se refere ao caso da Europa Ocidental, mais particularmente da Grã-Bretanha, no fim do século XVIII e início do século XIX, onde prevaleceram, para a decolada, fatores endógenos, tais como condições geográficas favoráveis; disponibilidades de recursos naturais; a influência, nos processos de produção, de
uma ciência experimental de avanço; as possibilidades de comércio externo; e estruturas políticas e sociais apropriadas. No que concerne às demais economias, a transição seria desencadeada por pressões exógenas, provenientes de economias mais desenvolvidas.
Nesta etapa, segundo Rostow, a predominância da agricultura cede lugar a outros setores mais modernos da economia, ao mesmo tempo em que desempenha ainda múltipla função: suprir as necessidades de alimentos para o rápido crescimento demográfico, fortalecer a demanda por produtos manufaturados, decorrente da expansão industrial, e fornecer recursos para investimentos nos outros setores modernos da economia.
Por causa da natureza desta etapa, tornam-se necessários fortes investimentos sociais de infra-estrutura, sobretudo, em transportes e comunicações, para os quais o Estado, tem de aportar elevada proporção dos recursos necessários. Além disso, o principal problema, nesta fase, não é aumentar apenas a taxa de investimentos, mas obter um crescimento da renda suficiente para permitir o desenvolvimento auto-sustentado.
O terceiro estágio, o arranco ou a decolada, seria o mais crucial, pois representa modificações quantitativas tanto nas estruturas econômicas como nas formas de comportamento. Rostow considera que ela exige que se reúnam as seguintes condições, que são interdependentes: a) a elevação da taxa de investimento produtivo, que passaria, por exemplo, de 5% ou menos para 10% da renda nacional; b) a criação de um ou vários setores de indústria de transformação com taxa de expansão elevada; e c) a existência ou a rápida instituição de um aparelho político e social com base no qual se possa explorar as tendências à expansão no setor moderno e as possibilidades de realizar economias na compra de produtos estrangeiros, transformando o crescimento em fenômeno durável. Ele liga o começo dessa decolagem a um impulso brusco, mais ou menos exógeno ao sistema econômico.
Com relação a este impulso, explica Furtado, ele pode ter origem no plano político, como seria o caso de uma revolução que modifique o equilíbrio do sistema de poder e permita a substituição de certos grupos tradicionais por outros mais progressistas; também ela pode ter origem no plano técnico, no plano das relações internacionais, etc. O fator exógeno seria mais o de um agente catalisador que intervém no momento oportuno.
Já a quarta fase, o caminho para a maturidade, seria uma simples continuação da decolagem e corresponderia a um período de 40 anos após o término da etapa anterior. É a etapa em que o país passa a dominar a tecnologia mais avançada em disponibilidade e pode produzir praticamente tudo o que decidir fabricar, pois a tecnologia e os fatores institucionais não constituem mais elementos de impedimento que não sejam removíveis. Neste estágio, estima Rostow, devem ser investidos de 10% a 20% da renda nacional, continuamente, de
modo que o ritmo de crescimento ultrapasse o aumento da população, elevando o incremento “per capita” da renda.
Nesse sentido, o desenvolvimento econômico também se torna evidente, em Rostow, por meio das transformações da estrutura da economia, de modo que o setor agrícola perde posição em relação à indústria e serviços, que passam a concentrar a maior parte da renda e do emprego. Como resultado dessas modificações, a economia começa a substituir por produção local o que antes era importado, ao passo que também amplia as exportações de produtos manufaturados para o exterior. Neste estágio, a renda per capita sobe a níveis cada vez mais elevados, com a economia se tornando não só desenvolvida, como o processo de crescimento se revela auto-sustentado.
Por fim, se inicia a quinta e última etapa: a era do consumo em massa. Nesta fase, quando as dificuldades tecnológicas foram superadas e uma grande parte da população adquiriu alto nível de renda, os setores líderes da economia se dedicam à produção de bens duráveis, de maior elasticidade-renda. Assim, em tais circunstancias, os consumidores ultrapassaram os limites da satisfação das necessidades de consumo básico e que as sociedades ocidentais, mediante processos políticos, passam a atribuir recursos cada vez maiores à assistência social. Em outras palavras, é o surto do estado de bem-estar.
Neste estágio, acrescenta Furtado, com a grande acumulação de riqueza, que então tem lugar, abrem-se aos países importantes opções. Segundo ele, a riqueza pode ser utilizada tanto como base de uma política de poder e influência externa, como para edificação de um Estado-providência, ou ainda para financiar uma rápida expansão do consumo em grande escala.