• Sonuç bulunamadı

Short History of Erzurum Veterinary Control Institute and its Existing Position

Se o passado nos chega deformado, o presente deságua em nossas vidas de forma incompleta. Alguns vivem isso como um drama. E partem em corrida nervosa à procura daquilo que chamam a nossa identidade. [...] Outros acreditam que a afirmação de sua identidade nasce da ne- gação da identidade dos outros. O certo é que a afirmação do que somos está baseada em inúmeros equívocos.

Mia Couto109

E

m A história ou a leitura do tempo, Chartier faz um balanço sobre algumas questões que, nas últimas décadas, apareceram, muitas vezes, sob o clichê “crise da história”. Como não poderia deixar de ser, há um tópico a respeito das diferenças entre história e memória. Enquanto a memória é tratada como produção vinculada às demandas existenciais das comunidades, a história é inscrita na ordem de uma reflexão crítica “universalmente aceitável”.110

Em seu parecer, as distâncias entre história e memória foram medidas com maior clareza com a publicação do livro de Paul Ricoeur

A história, a memória, o esquecimento. De fato, esta é uma obra de

109 COUTO, Mia. Pensatempos: textos de opinião. Lisboa: Editorial Caminho, 2005, p. 14. 110CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p. 24.

referência, destinada a permanecer por muito tempo no ranking das notas de rodapé. Por outro lado, não deixa de ser significativo perguntar-se sobre a eleição desse divisor de águas. Antes de Ricoeur, a distinção entre história e memória já havia sido posta e reposta, como se percebe, por exemplo, na abordagem de Pierre Nora.

Suspeita diante da história, a memória é tratada por Nora como objeto de estudo. É por isso que ele adverte: “não se celebra mais a nação, mas se estudam suas celebrações”.111 Os “lugares de memória”

existem porque, no mundo contemporâneo, não há mais a rede mnemô- nica que havia nas sociedades tradicionais. Sem essa memória vivida no cotidiano, os processos de modernização criaram lugares para lembrar, já que o próprio existir em sociedade não carrega mais a potência da re- cordação coletiva e compartilhada. Daí o excesso recordativo, identifi- cado como característica de um mundo fragmentado, perdido e em busca de um sentido para o tempo. Os “lugares de memória” são, portanto, “rituais de uma sociedade sem ritual; sacralizações passageiras numa sociedade que dessacraliza”.112 No Brasil, como em outras partes do

mundo, o termo fez sucesso e passou a ser usado não mais como recurso teórico, mas como solução conceitual para explicar museus, monu- mentos, arquivos, comemorações. Ora, nem é preciso dizer que a po- tência analítica da proposta entrou em declínio, na medida em que passou a frequentar explicações institucionais de variadas maneiras. Ignorou-se que Nora não pretendia criar uma teoria universal.

De qualquer modo, salta aos olhos a segurança de Chartier quando proclama a independência da história. Isso, ao meu ver, não vem apenas por um suposto aperfeiçoamento de técnicas ou teorias, mas por meio de tensões constituídas pelo lugar que o termo memória vem ocupando no mundo contemporâneo. A “defesa da memória” as- sumiu proporções tão inesperadas que o tema passou a ser tratado de outra maneira. Tornou-se tarefa da teoria da história “desnaturalizar” o valor positivo da memória, não simplesmente como reação de um cor-

111 NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, 1993, p. 9.

TENTAÇÃO DO TEMPO: a máquina museológica na fabricação do passado 91

porativismo disciplinar, mas para estudar as vias pelas quais se foram constituindo certas necessidades ou certas demandas que passaram a se apresentar na qualidade de valores imprescindíveis.

Chartier avalia que a nossa conexão com o passado “está amea- çada pela forte tentação de criar histórias imaginadas ou imaginárias [...]”. Daí vem a necessidade de estabelecer a reflexão sobre as condi- ções que dão à escrita da história um poder de estruturar explicações e “representações” em torno da “realidade que foi”: “[...] essa reflexão participa do longo processo de emancipação da história com respeito à memória e com respeito à fábula, também verossímil”.113

“A necessidade de afirmação ou de justificação de identidades construídas ou reconstruídas, e que não são todas nacionais, costuma inspirar uma reescrita do passado que deforma, esquece ou oculta as contribuições do saber histórico controlado”.114 Controlado, nesse sen-

tido, significa metodicamente pesquisado, com base em discussões teo- ricamente orientadas e debates sobre a ética dos que produzem saberes sobre o pretérito. Mas não é proposta apenas lançar a história contra a memória. O que se quer passa por uma postura bem mais complexa diante do desvio mnemônico realizado como parte integrante de muitos movimentos sociais: “Esse desvio, impulsionado por reivindicações frequentemente muito legítimas, justifica totalmente a reflexão episte- mológica em torno de critérios de validação aplicáveis à ‘operação his- toriográfica’ em seus diferentes momentos”.115

A referência ao termo “operação historiográica” tem, nesse sen- tido, um valor central. Há, em toda obra de Chartier, uma declarada iliação a Michel de Certeau, uma apropriação rigorosa e, ao mesmo tempo, afetiva, em um movimento criativo e propositivo. Não se pode dizer o mesmo sobre a obra de Paul Ricoeur, mas, a respeito de seu livro há pouco citado, a situação assemelha-se: Certeau emerge como base coniável para se pensar as tramas envolvidas na escrita da his- tória. Reiro-me a isso de maneira mais detalhada porque é em

113 CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo..., p. 31. 114 CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo..., p. 30. 115 CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo..., p. 30.

Certeau, penso eu, que a teoria da história encontrou mais força para se tornar passível de investidas historiográicas, tornando-se, também, objeto de crítica.

Seria uma tarefa longa inventariar as posições que, nas últimas décadas, fazem essas fronteiras entre história e memória, com argumen- tos mais ou menos semelhantes. Cito, apenas como exemplo, Jean-Pierre Rioux, em seu texto sobre a moda da “emoção patrimonial”, que dá exis- tência ao “self-service da celebração”: “É verdade que a memória sem- pre foi imperiosa e provocadora. Mas hoje ela desnuda e trespassa mais do que nunca. Causa também arrepios, jogando alternadamente com a nostalgia e a inquietação”.116 Seguindo a argumentação de Pierre Nora,

Rioux tenta mostrar que, apesar da rede de seduções, não há união pos- sível entre os procedimentos do saber histórico e a produção social das memórias: “colocar esta incompatibilidade de humor entre ilha e mãe, entre Clio e Mnemósina, é um primeiro dever para o historiador”.117

O livro de Beatriz Sarlo Tempo Passado, inexplicavelmente au- sente da bibliografia de Chartier, é certamente uma leitura que tem lastro e abertura para nutrir a renovação dos debates. Sua argumentação gira em torno do perigo que reside na supervalorização de relatos dos oprimidos por ditaduras recentes. E o que estaria em perigo? A própria história, em seu intuito de fazer pensar historicamente. Logo se vê que esse é um livro corajoso, sobretudo porque mexe em algo demasiadamente delicado: a memória dos torturados. Seu destemor concentra-se precisamente em afirmar que a história é um conhecimento necessário e indispensável. A autora não faz concessões às conveniências das políticas acadêmicas: “o espaço de liberdade intelectual se defende até mesmo diante das melhores intenções”.118 O olhar é certeiro, e o alvo é o clã dos intelectuais. Como

pensadora atuante, ela sabe que a sobrevivência da intelectualidade nos dias atuais passa pelo exercício de cortar a própria carne.

116 RIOUX, Jean-Pierre. A memória coletiva. In: RIOUX, Jean-Pierre ; Sirinelli, Jean- François. Para uma história cultural. Lisboa: Editorial Estampa, 1998, p. 307.

117 RIOUX, Jean-Pierre. A memória coletiva..., 1998, p. 307.

118 SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007, p. 20.

TENTAÇÃO DO TEMPO: a máquina museológica na fabricação do passado 93

Não há, portanto, separação entre produção de saber e lugar onde se produz. O lugar da história hoje, penso eu, está em situação inconcili- ável com a memória. Nesse sentido, é preciso saber que “não há equiva- lência entre o direito de lembrar e a afirmação de uma verdade da lem- brança; tampouco o dever de memória obriga a aceitar essa equivalência”.119 Ora, há nessa observação de Beatriz Sarlo uma crítica à volta do valor absoluto do documento. Documento que, nesse enraiza- mento ontológico da memória, aparece não somente como uma fonte au- têntica, mas como o próprio conhecimento. Ou pior: passa a funcionar na qualidade de critério da autenticidade a respeito do pretérito. Em outros termos, aquilo que deveria ser objeto de interpretação histórica transforma- se no próprio ato de conhecer, como se o passado fosse algo revelado.

A partir da diferença entre o individual e o específico (Paul Ricoeur), Beatriz Sarlo adverte sobre “o primado do detalhe”, que costuma ser ma- nipulado como fonte de “credibilidade da narrativa”. Assim, caberia ao juízo crítico o trabalho com o específico e não propriamente com indiví- duos (ou grupos), supostamente portadores do inquestionável: “O especí- fico histórico é o que pode compor a intriga, não como simples detalhe verossímil, mas como traço significativo; não é uma expansão descritiva da intriga, mas um elemento constitutivo submetido à lógica”.120

Os museus, nesse caso, tornar-se-iam lugares de ensino de história na medida em que a memória fosse tratada como fonte de conhecimento e não simplesmente como algo já conhecido. É claro que não dá para eli- minar a memória, isso seria como esvaziar o ser humano, tirar-lhe a con- dição de ser cultural. Também não dá, como ressalta Fernando Catroga, para desligar todos os fios entre memória e história, assim como é impos- sível entender que a história está livre das armadilhas mnemônicas.121

Mas, se um museu pretende ser educativo, necessariamente deve existir o cultivo da crítica historicamente fundamentada. Afinal, não se trata apenas de promover o reconhecimento, mas o próprio conhecimento, que inco- moda na medida em que conhecer não é confirmar o que se sabe.

119 SARLO, Beatriz. Tempo passado..., p. 44. 120 SARLO, Beatriz. Tempo passado..., p. 51.

Tempo Passado, explica Beatriz Sarlo, inspira-se em uma ob-

servação de Susan Sontag: “Talvez se atribua valor demais à me- mória e valor insuficiente ao pensamento”. Mas, nada é tão simples assim. Ao concluir que “é mais importante entender do que lem- brar”, a autora adverte que, para entender, “é preciso lembrar”.122

No final das contas, está se compondo não uma condenação à me- mória, mas uma reflexão sobre a defesa da memória, aquela defesa que só sabe se defender, sobre a qual não se pode exercer o pensa- mento e através da qual o poder repressivo exerce controle, nas ins- tituições ou nas relações cotidianas.

Nessa mesma direção, não se deve confundir tema de estudo com defesa de um tema. Pensar que estudar os índios é defender os índios é a mesma coisa que imaginar que estudar o nazismo é defender o nazismo. Aliás, nunca é demais repetir que a qualidade de uma pesquisa não se mensura pelo tema, e sim pela articulação entre problema, teoria, métodos e fontes. Articulação, vale destacar, que se torna densa na medida em que é criadora e criatura da reflexão crítica, feita na liberdade e para a liberdade de se pensar sobre as relações entre passado, presente e futuro. Essas no- ções, tão elementares para quem pesquisa com critérios e compromisso com o saber, precisam ser evidenciadas não somente no ato de pesquisar, mas também quando são observadas as maneiras pelas quais as políticas públicas partem em defesa do dito “patrimônio histórico” ou de outras categorias naturalizadas pela repetição das assessorias de imprensa.

Sendo assim, o debate sobre o conhecimento da história, em salas de aula ou em museus, não deveria amenizar a diferença entre história e memória. Mesmo com as muitas semelhanças, uma não se confunde com a outra. O conhecimento histórico pressupõe um tra- balho teoricamente orientado e constantemente submetido a crité- rios publicamente discutidos e constantemente passíveis de crítica e autocrítica. A memória é algo muito mais abrangente, vincula-se ao modo pelo qual as culturas fazem relações entre passado, pre- sente e futuro. Enquanto a história criou o hábito de pensar sobre

TENTAÇÃO DO TEMPO: a máquina museológica na fabricação do passado 95

suas fontes e suas considerações, a memória encarrega-se de lem- brar, com a crença de trazer ao presente o que se passou ou ainda se passa, a partir de certos valores que podem, ou não, reivindicar va- lidade universal. A história, sobretudo nas últimas décadas, trata a memória como objeto de estudo, como fonte para reflexões sobre o modo pelo qual as sociedades lembram, como documento sobre o papel das recordações nas várias dimensões da vida cotidiana, como a religião, a política, a família, a festa etc. O contrário não se dá, ou seja, a memória não estuda a história, assim como a saúde não es- tuda a medicina. Desse modo, cabe perguntar sobre as responsabi- lidades da história diante da memória.

Transformada em bandeira de luta, em salas de aula e nas cha- madas “instituições culturais”, a atual “defesa da memória” vem ge- rando uma confusão que deve ser melhor discutida. Refiro-me à volta de narrativas que identificam o passado com a “testemunha”, com base na própria legitimidade da memória. Urge, então, o debate sobre a chamada “diversidade da memória”, que, em princípio, não tem (ou não deveria ter) relação de semelhança com escrita da história. Depois do século XX, pelo menos uma conclusão parece ser mais ou menos consensual entre os teóricos: a história não é escrita com o intuito de exibir as variações mnemônicas, e sim no vínculo inegoci- ável com problematizações sobre as relações que o presente estabe- lece com o passado, incluindo aí as maneiras de lembrar socialmente compartilhadas, em jogos de acordos e disputas.

O tempo mudou, mudando também a contagem do tempo. Nas últimas décadas, e por muitos meios, “identidade”, “memória” e “etnia” transformaram-se em palavras de ordem. Repito: de ordem. O que antes parecia ser em benefício da reflexão historicamente fundamentada vem se transformando, muitas vezes, em selo de qualidade para projetos ofi- ciais (ou alternativos) supostamente participativos. O passado passa a ser “resgatado” para servir de alimento aos movimentos de “reconstrução de identidades” e “valorização étnica”.

E, sobre isso, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de História têm motivado uma prática pedagógica que ainda não conse- guiu se livrar de antigos estereótipos, sobretudo no que se refere às

confusões entre defesa da memória e defesa da história. Cito, então, um trecho do PCN para o Ensino Médio, que tem gerado repercussões di- dáticas explicitamente hesitantes a respeito do caráter crítico da escrita da história diante dos documentos:

Um compromisso fundamental da História encontra-se na sua relação com a Memória, livrando as novas gerações da “amnésia social” que compromete a constituição de suas identidades indi- viduais e coletivas.

O direito à memória faz parte da cidadania cultural e revela a ne- cessidade de debates sobre o conceito de preservação das obras humanas. A constituição do Patrimônio Cultural e sua impor- tância para a formação de uma memória social e nacional sem exclusões e discriminações é uma abordagem necessária a ser realizada com os educandos, situando-os nos “lugares de me- mória”, construídos pela sociedade e pelos poderes constituídos, que estabelecem o que deve ser preservado e relembrado e o que deve ser silenciado e “esquecido”.123

Há aí uma ambiguidade: o ensino de história deve livrar as novas gerações da “amnésia social” e, ao mesmo tempo, deve tratar os “lu- gares de memória” no sentido crítico. Em geral, o que se vê é a escolha do professor pela primeira opção. O que prevalece é o direito à me- mória e não o direito à história. Ou melhor: o que predomina é a con- fusão entre esses direitos, transformando a história em acúmulo de me- mória ou dando à memória a qualidade de história verdadeira.

123 BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica.

Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio: ciências humanas e suas tecnologias. Brasília: MEC, 1999, p. 54.