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C. İNSAN

1. SEVGİLİ

O indivíduo soberano, “senhor do livre arbítrio”, que responde por si, diz Nietzsche, é o último e mais maduro fruto da moralidade de costume, cujo cruel trabalho pré- histórico nele encontra justificativa e sentido. Entretanto, se o produto livre nasce da coerção tirânica e prolongada, se o primeiro representa um fim para a qual a segunda é um meio, isso não quer dizer que o processo tivesse em si mesmo uma finalidade, ou seja, que a coerção se exercesse com o objetivo, consciente ou inconsciente, de produzir liberdade; é apenas a posteriori que se torna possível tal interpretação. Somente por uma invenção do próprio homem, por uma criação de sentido que ele mesmo produz, pode-se colocar o “indivíduo soberano” como o produto final de um processo desprovido em si mesmo de qualquer finalidade transcendente, que não visa tampouco um progresso, entendido como busca de uma determinada meta através de meios economicamente racionais. “A humanidade não representa um desenvolvimento rumo ao melhor ou mais forte ou mais elevado, tal como hoje se acredita. O progresso é meramente uma ideia moderna, ou seja, uma ideia errônea...Não há qualquer relação necessária entre evolução e elevação, intensificação, fortalecimento” (AC, 4). A conservação da espécie humana não é uma meta oculta nos desígnios da natureza, e sim o resultado, provisório e instável, de uma certa forma de alinhamento das vontades de poder em jogo no que chamamos de evolução.

Nessa ótica, as leis às quais nos submetemos não possuem em si mesmas uma legitimidade intrínseca, nem se fundamentam em nada que a possua; não imitam ou reproduzem alguma ordem que lhes seja exterior; não se inspiram em nenhum modelo divino ou natural. Contudo, se os conteúdos das leis não são determinados por essa ordem, não portando em si mesmos nenhuma necessidade, é necessário à cultura o seguimento de alguma lei, a obediência em alguma direção.

A própria arte não permanece isenta dessa exigência. A produção artística não é, como querem alguns, pura liberdade e inspiração, mas trabalho exigente e disciplinado: já em Humano, demasiadamente humano, Nietzsche, criticando o naturalismo na arte, contrapõe-lhe o exemplo da rigorosa coerção que se impuseram os dramaturgos franceses, na obediência, aparentemente absurda, a certas regras do drama. “Assim se aprende aos poucos a caminhar com graça, mesmo nas estreitas pontes que ligam abismos vertiginosos...Aí se vê como gradualmente as cadeias se tornam mais frouxas, até parecerem abandonadas: tal aparência é o resultado maior de uma evolução necessária da arte” (HDH, 221). A mesma metáfora ressurge em O andarilho e sua

sombra, onde o artista é aquele que obedece não só às coerções herdadas da tradição,

mas inventa outras, novas, para si mesmo _ e, “dançando acorrentado”, dá aos demais a ilusão de leveza e facilidade (AS, 140). Na forma artística, a leveza e a graça não consistem em romper as cadeias, e sim em torná-las invisíveis, produzindo uma aparência de liberdade que se confunde com a liberdade mesma. Ora, dessa forma, a maior severidade equivale à maior arbitrariedade, posto que a rigorosa limitação que se impõe o artista é a necessidade de limite, não importando tanto se o limite consiste nisto ou naquilo.

Por conseguinte, existe algo de essencialmente arbitrário em toda lei. Em Humano,

demasiadamente humano, os conceitos de bom e mau são relacionados à obediência ou

não a uma tradição que não possui em si mesma nenhum fundamento racional. Em

Aurora, numa percepção que nos parece particularmente importante, Nietzsche faz ver

que, no âmbito da moralidade dos costumes, a autoridade da tradição se exerce pelo simples fato de ordenar, e não de ordenar o que é útil. “A moralidade não é outra coisa (e portanto não mais!) que a obediência a costumes, não importa quais sejam” (A,9). Dada a inexistência de leis cuja origem se possa reportar a qualquer ordenação pré- existente no mundo, as formas de arranjo social comportam a obediência a um elemento que, nada possuindo de útil ou legítimo em si mesmo, é, em última análise, arbitrário.

Assim, Nietzsche observa a existência de costumes cujo único propósito parece ser assegurar a própria moral _ “determinações penosas e no fundo supérfluas”, como aquelas que ordenam aos Kanchadalas, sob pena de morte, nunca raspar a neve dos sapatos com uma faca. Aqui, o que importa não é o conteúdo do costume, mas a necessidade de observar algum costume, para “reforçar a grande norma com a qual tem início a civilização” (A, 16). Daí a estupidez de toda tradição, que deve obediência inexorável a algo que não tem nenhum valor em si, mas apenas em sua própria forma de ordem ou imperativo.

No aforismo 188 de Além do bem e do mal, Nietzsche reafirma a importância da obediência à “tirania de leis arbitrárias” nas mais elevadas produções humanas. Ainda que toda moral seja um pouco de tirania contra a natureza e mesmo contra a razão, seria impossível uma outra moral que proibisse toda espécie de tirania e desrazão. “O essencial e inestimável em toda moral é o fato de ela ser uma demorada coerção”. Isso vale não só para a moral, mas para a arte, o pensamento, ou qualquer outra esfera da atividade humana, segundo leis cujo caráter arbitrário se pode apontar. Contudo, “...tudo o que há e houve de liberdade, finura, dança, arrojo e segurança magistral sobre a terra....desenvolveu-se apenas graças à tirania de tais leis arbitrárias”. O “natural” reside nisso, e não na suposta liberdade do “laissez aller”. Da educação do espírito através de uma “extrema e grandiosa estupidez”, com violência e um espantoso dispêndio de força, deriva a própria racionalidade do intelecto.

Aquilo que se obtém através do adestramento rigoroso, da obediência a essas leis arbitrárias, possui valor, seja qual for a esfera de atividade humana em que se desenvolva: o funâmbulo que se compara a um bicho amestrado por pancadas será, por ter feito do perigo o seu ofício, enterrado pelas mãos de Zaratustra. Contudo, se o homem é esta corda entre o animal e o além-do-homem, para transpô-la não basta o amestramento do funâmbulo, mas requer-se o desejo de superar-se a si mesmo. Como entender tal superação? Zaratustra, ele mesmo, é o produto do treinamento tirânico que a cultura impôs a todos os homens _ e o além-do-homem também o será. Da mesma forma, como vimos, a andadeira do ideal ascético propiciou à filosofia seus primeiros passos. Por conseguinte, a superação do homem, exigindo a ruptura com a vingança e o ressentimento presentes no devir humano e, portanto, a auto-supressão da moral, é todavia, fruto da estupidez e arbitrariedade da moral.

Interessa-nos examinar tais concepções, interrogando-as quanto ao traçado de um projeto de cultura ou civilização em Nietzsche. Sendo inerente a toda formação social um elemento tirânico ou arbitrário que o indivíduo frequentemente volta contra si mesmo, sendo a tirania de leis arbitrárias indispensável para toda superação humana _ como pensaria Nietzsche, ou como pode ajudar-nos a pensar, uma cultura na qual este elemento, não podendo ser extinto nem devendo ser denegado, pudesse transmutar-se em algo de mais elevado? Como pensar um “espírito livre” para o qual a disciplina de si, embora rigorosa, pudesse dispensar o torturante aguilhão da culpa?

Benzer Belgeler