Em seu início, a Psicologia, tal como proposta por Wundt, tinha por objetivo, talvez exageradamente para a época, a constituição dessa disciplina como ciência autônoma. Apresentava como meta quebrar a visão de psicologia enquanto ciência da mente ou da alma, baseada em pressupostos metafísicos, que não contemplavam as possibilidades da experiência como um conjunto de variáveis e processos interligados, passíveis de observação e experimentação. (JACO-VILELA; FERREIRA; PORTUGAL, 2005). Wundt propôs, assim, duas psicologias: uma psicologia experimental, voltada para o indivíduo, e outra psicologia social, denominada por ele de Psicologia dos Povos, cada uma com uma estrutura específica, evidenciando assim, desde os primórdios, uma preocupação com a construção de uma psicologia que contemplasse homem e sociedade, baseada na experimentação e observação.
De acordo com Bock (2001), a proposta dicotômica de Wundt acerca do homem e da sociedade, na busca pela compreensão do fenômeno psicológico, foi um desafio colocado para seus sucessores, que penderam ora para um lado, ora para o outro, em suas propostas teóricas. A compreensão do fenômeno psicológico, apesar de passar por muitas transformações desde as propostas positivistas e idealistas, permaneceu incompleta por pressupor uma regularidade na constituição do homem, muitas vezes com idéias apriosísticas que nada tinham de relação com a constituição processual do humano em interação com outros homens e destes com a sociedade.
Esta concepção do fenômeno psicológico que contemplava a dicotomia homem- sociedade começou a ser repensada com a apropriação, pela psicologia, do método, teoria e filosofia do materialismo histórico e dialético. Assim, a psicologia começa a considerar as particularidades do homem e da sociedade, vistos como dialeticamente constituídos em um processo em que se criam contradições que articulam e impulsionam esse movimento constante de constituição recíproca. Nessa ótica, um não é sem o outro e, portanto, não há como pensá-los separadamente: o homem é compreendido como um ser ativo e social e a sociedade, como uma produção histórica e cultural da humanidade. (BOCK, 2001).
O conceito de materialidade fundamenta, assim, essa crítica à psicologia na medida em que considera as contradições presentes no movimento de produção da sociedade pelos homens e dos homens pela sociedade, via trabalho material e intelectual. A história é constituinte e constituída na e por estas contradições. A psicologia sócio-histórica, compartilhando desses pressupostos, aponta que o fenômeno psicológico é uma produção humana, construída e desenvolvida ao longo do processo histórico de constituição da
sociedade e da cultura. Nesse sentido, rompe com visões que apontam o fenômeno psicológico como algo natural.
A compreensão do fenômeno psicológico do homem requer, pois, a compreensão da história e da sociedade. Nessa medida, os fenômenos psicológicos não podem ser entendidos como algo “interno”, inato dos indivíduos. Não podem ser abstratamente concebidos e nem resultado de uma relação de causa e efeito. Eles são constituídos na e pela relação humana em sociedade. Nessa medida, cultura, política e economia não são fenômenos externos ao homem, distantes do fenômeno psicológico, pois mundos culturais, políticos, econômicos e psicológicos se desenvolvem recíproca e simultaneamente, de maneira indissociável, historicamente. (BOCK, 2001).
Na perspectiva materialista histórica e dialética, as instituições escolares são espaços da mediação, que (re) produzem tanto o sujeito como a sociedade. No entanto, como elas também geram contradições pela apropriação do saber, abrem-se nas escolas espaços para os homens se transformarem e transformarem seu entorno. Dessa forma, os processos educacionais envolvem também as relações sociais, políticas e culturais próprias de sua sociedade, de maneira que o fenômeno psicológico do aprender e, igualmente, da “dificuldade de aprender” deve ser compreendido nesta perspectiva. As “dificuldades de aprendizagem” são também multideterminadas, tendendo a se concretizar, ou seja, a aparecer, na escola e no decorrer das atividades escolares. Convém, portanto, compreender melhor essas multideterminações, bem como as contradições que ensejam.
É ainda muito recente o status da Psicologia da Educação enquanto prática profissional, uma vez que só foi reconhecida como profissão na década de 1940, quando as idéia psicológicas eram muito distintas das de hoje em dia. Surgia o psicólogo escolar, entendido como um profissional direcionado a resolver os problemas de aprendizagem dos alunos. (MEIRA, 2000). Atualmente, é possível a identificação de diferentes termos empregados para denominar esta área de atuação – Psicologia Escolar, Psicologia da Educação ou Psicologia Educacional.
Estas denominações foram elaboradas ao longo do processo de consolidação desta área de atuação de formas antagônicas. Meira (2000) aponta este problema ao mencionar que foi se construindo a idéia de que a Psicologia Escolar estaria voltada para questões de ordem prática a Psicologia da Educação ou Educacional, para as questões teóricas. Essa compreensão, segundo a autora, expressa uma possível relação dicotômica entre ações voltadas ora para construção do conhecimento teórico, ora para a atuação prática, reduzindo a atividade profissional a uma ou a outra, como se ambas não fizessem parte de um mesmo movimento.
De acordo com Tanamachi (2000):
“A necessidade de superação desses reducionismos que têm caracterizado a trajetória percorrida pela Psicologia em suas relações com a Educação, a necessidade de buscar concepções mais abrangentes de Psicologia e de Educação e também de considerar o conjunto de atribuições que lhe são próprias são as principais tendências apontadas pelo grupo de autores que têm participado do movimento de crítica à Psicologia Escolar”. (2000, p. 79).
Assim, o conceito de “Psicologia da Educação/ Escolar/Educacional” define a área de atuação do psicólogo na esfera educacional. Esta se configura de forma multideterminada, dentro e fora das escolas, contemplando o fenômeno educativo e a presença da intenção de ensinar qualquer indivíduo em qualquer ambiente. Consideram-se tanto as possibilidades de atuação na produção teórica quanto as de atuação profissional prática. Para que ambas sejam consideradas de forma indissociável, aponta-se como fundamental o conhecimento das idéias de Vygotski, que contempla a materialidade, a dialeticidade e a história como categorias fundamentais a serem consideradas na superação das visões dicotômicas do fenômeno psicológico. Tal proposta apóia-se no método e na filosofia do materialismo histórico e dialético. Dessa forma, a compreensão da psicologia da educação/educacional/escolar e, portanto, de psicologia sócio-histórica, contempla as categorias citadas acima, na tentativa de definir a natureza dos fenômenos psicológicos. (BOCK, 2001).
Considerando a multideterminação das dificuldades apresentadas por alguns alunos na relação ensino e aprendizagem, os esforços da Psicologia da Educação devem caminhar no sentido focar a interação que se dá em torno do saber, buscando a apropriação de novos conhecimentos e, consequentemente, as transformações recíprocas que se passam nos sujeitos interagentes.
Porém, é preciso contrapor-se à visão, bastante limitada, da prática profissional autoritária e unilateral, baseada no modelo de educação e escola bancária denunciado por Freire (1987), onde o professor é o detentor do saber e, portanto, aquele que ensina, o transmite e deposita, e o aluno é aquele que participa do processo, somente para absorver passivamente o saber escolar. Tal como se entende, a aprendizagem é um fenômeno multideterminado e o professor, nessa medida, não pode ser o único responsável pela aprendizagem (seja ela bem sucedida ou não) de seus alunos. A atividade docente não se desvincula das condições materiais de vida de professores e de alunos, bem como das instituições de ensino e da sociedade, quando se espera que ela atenda à finalidade política da
ação docente e, em última instância, da educação: o compromisso com uma formação sólida, crítica e consistente, por parte das gerações futuras.
Cabe, ainda, ao psicólogo que se vincula ao campo da educação, tanto quanto aos demais profissionais, receberem, com diz Severino (2001), uma formação ampla e consistente, que lhe permita entender e situar a atividade docente e a relação ensino- aprendizagem nas condições objetivas da escola, de sua localidade e da sociedade mais ampla, encontrando caminhos que possam levar à formação de sujeitos mais críticos e envolvidos com seu mundo físico e social. Para tanto, a desmistificação da idéia de que os alunos são incapazes de aprender, que chegam à sala de aula sem conhecimentos prévios e com carências de toda ordem que impedem a aprendizagem, é urgente e necessária. O foco dado às diferenças individuais, sem consideração das condições objetivas que as constituem, aponta uma proposta de Psicologia da Educação excludente e seletiva, que privilegia um aluno abstrato, idealizado e proposto pela sociedade capitalista, que apregoa a idéia de que as possibilidades de desenvolvimento estão dadas a todos. Nessa situação, o aluno real, em sua concretude, seu modo de vida e história pessoal, não é considerado.