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Objetiva-se, nesta subseção, apresentar o entendimento deste trabalho sobre o conceito de transição. Prestar esse esclarecimento auxilia a compreensão das estruturas defensivas construídas ou reformadas em Portugal, no período entre os séculos XV e XVI, que estão representadas no Livro das fortalezas, de Duarte de Armas. Esse conceito presta-se para pensar as transformações por que Portugal passou durante o reinado de D. Manuel I, com transições na política, fronteiras, arquitetura, forma de fazer a guerra, cultura, etc. Dá-se continuidade ao texto com a uma primeira caracterização das estruturas da arquitetura militar de transição.
3.2.1 Transição enquanto conceito
Rui Cunha Martins (2012, p. 43) define que normalmente se percebe um período de
transição como um momento entre paradigmas, dessa forma, “empurrando para o futuro o momento da consumação daquilo que é suposto chegar”. Parte-se do principio de que se está
vivenciando apenas o desenvolver de um processo que tem um fim ou meta projetados. A transição comporta uma combinação tensa entre resistência e confluência, entre
permanência/conservação e inovação/modificação. Um “[...] acoplamento tendencial entre fenômenos e inspirações compreensivas de raiz e direção diversa” (MARTINS, 2012, p.
43, grifo nosso). A transição, embora comporte a tensão da permanência e a influência da alteração, por si só, é o novo, é a transformação, um período com suas características, de lógica e duração próprias, configurando-se bem mais do que um simples entre momentos, desprovido de relevância ou especificidades.
O período definido pelos historiadores como Idade Média serviu, durante séculos, como exemplo dessa delimitação de tempo cuja principal característica é servir de ponte para algo melhor, para algo definitivamente concluído. A terminologia inventada por Petrarca e os
humanistas italianos do século XIV – medium tempus ou media tempora – constituiu-se como conceito desvalorizante. Medium literalmente como “tempo intermediário”, que ocupa um
espaço entre “[...] dois cumes da civilização – a Antiguidade Clássica e o Renascimento – um
período de transição medieval” (AMALVI, 2006, p. 538, grifo nosso).
No século XVI, foi elaborado o conceito de Idade Média, ou melhor, o preconceito sobre um tempo impuro e contaminado, que não passava de um hiato, um intervalo, que seria varrido pelo Renascimento (FRANCO JR., 2006). No século XVII, Christoph Cellarius (Keller) publicou uma história do mediumaevum, não utilizando a expressão medium tempus, como de hábito. No caso, aevum, “a época”, substituía tempus “o tempo”. A noção de período, ou seja, espaço de tempo circunscrito possibilitou a perspectiva de uma história periodizante, que se organiza em rupturas. Com o historiador da arte e civilização, Jakob Burckhardt, no século XIX, estabeleceu-se a teoria da ruptura, que, jogando com a antítese, opõe definitivamente o Renascimento (Moderno) ao Medieval. De acordo com essa proposta, os períodos estão separados e sucedem-se em uma lógica de progresso, com um sentido sempre apontando para o melhor (LE GOFF, 2008).
Ao contrapor esse pensamento, Le Goff (2008), em sua obra Uma longa Idade Média, apresenta que as rupturas são raras e opta pelo conceito de permanências, de continuidades, de transições contínuas. Configurando um período medieval dinâmico, com diversas reformas e renascimentos, com processos socioculturais diferentes em regiões distintas, mas, principalmente, com uma lógica e funcionamento próprios, negando a visão da Idade Média como uma antessala da Modernidade, ou porta dos fundos da Antiguidade. O autor identifica a influência da Antiguidade até o final do Medievo (ou, o que pode ser considerado como esse final, dentro de diferentes cronologias propostas pela historiografia), bem como a influência do Medievo ao longo de todo período da, assim definida, Modernidade.
A transição não pode ser compreendida, por exemplo, como um período existente entre o Medieval e o Moderno. A condição transicional não está entre paradigmas, mas se define pela simultaneidade de paradigmas (MARTINS, 2012) como a arquitetura, arte, política, cultura (dentre tantas outras) que apresentam concomitantemente características medievais e modernas. Da mesma forma, a transição, enquanto novidade, não está relacionada à sucessividade, que utiliza o conceito de superação, no qual o novo suplanta e toma o lugar
do antigo. O novo da transição é perfeitamente compatível com a “[...] concomitância, que
matricialmente dissonantes num mesmo momento” (MARTINS, 2012, p. 45). Não se trata
apenas de acumular, somar ou sobrepor, mas ligar, relacionar e conectar, o que permite observar a transição a partir de uma perspectiva complexa, pois não se trata de uma linearidade, na qual o que prevalece é a substituição; mas a simultaneidade, em que ocorre a
concomitância e/ou a relação entre paradigmas de diferentes temporalidades. “O que haveria
de complexo na mera substituição de uma coisa por outra?” (MARTINS, 2012, p. 46).
Compreende-se complexidade, nesse momento, a partir do pensamento de Edgar Morin (2008), a quem os princípios de redução e separabilidade, que isolam, individualizam e simplificam, são substituídos pela indissociabilidade, que propõe uma via de aproximação, diálogo e relação. Da mesma forma, o Principio Dialógico, de Morin (2008), permite elucidar a lógica da transição. Segundo o autor, o pensamento dialógico é composto por lógicas distintas, que associam termos complementários e antagônicos, permitindo a manutenção da
“dualidade no seio da unidade” (MORIN, 2008, p. 107). Esse princípio possibilita a percepção
da presença de questões, aparentemente contraditórias como complementares. As lógicas dos castelos medievais e das fortalezas modernas; do debuxo e do desenho; da raya e da fronteira; as lógicas da pirobalística e da neurobalística; do encerramento do reino e da expansão ultramarina; dos senhorios e do Estado... lógicas opostas, contraditórias, integradas e complementares, coabitam na complexa transição da primeira década do século XVI português.
José D’Assunção Barros (2009, p. 568), define o período de transição como “[...] uma
espécie de granulação, onde é difícil dizer onde termina um mundo e se inicia o outro”. As desconstruções e as reconstruções de antigos elementos, concomitantemente as construções e o estabelecimento de novos, geram uma realidade plena de ambiguidades, mas que se ajustam e relacionam-se em uma coerência própria; logo, desagregação e reconstituição simultânea de noções que geram o novo.
3.2.2 A caracterização das estruturas da arquitetura militar de transição
A reflexão sobre o conceito de transição presta-se para o estudo da arquitetura militar de transição em Portugal. Dentro dos estudos de castelologia portuguesa, em linhas gerais, existem alguns estilos construtivos, que podem ser situados cronologicamente: Castelos Roqueiros (séc. IX – X), Condais (séc. X – XI), Românicos (XI – XIII), Góticos (XIII – XV)
e Transição (XV – XVI, nesse caso – castelo/fortaleza)122. A análise estrutural dessas construções militares possibilita identificar uma grande sobreposição e permanência de características de estilos, ao longo dos séculos (SANTOS, 2012).
A muralha externa, quadrada ou retangular, que cerca um recinto fortificado principal, surgida nos castelos Condais, manteve-se como edificação fundamental no Românico. A inovação da torre de menagem, surgida no Românico constituiu-se como a solução arquitetônica mais valorizada no Gótico. No final da primeira década do século XVI, as fortificações portuguesas encontravam-se impregnadas do estilo das fortificações góticas medievais. Dessa forma, pode-se considerar que o estilo de transição, que perdurou da segunda metade do século XV até a segunda metade do século XVI, possibilitou a
persistência, a “sobrevivência”, da raiz da arquitetura militar medieval em pleno período, dito, “moderno”. Somente com a imposição definitiva da fortaleza abaluartada (também chamada
de Vauban ou estrelada), no século XVII, o estilo de transição foi completamente superado e o castelo gótico finalmente deixou de influenciar a arquitetura militar portuguesa (SANTOS, 2012).
A fortaleza (não mais o castelo) atendia a lógica e a proposta radicalmente diferentes das que foram produzidas durante séculos na arquitetura militar medieval. O principal fator dessa profunda transformação foi o aperfeiçoamento, cada vez maior, das armas de fogo, que ao longo de um período de, aproximadamente, cento e cinquenta anos, modificou por completo a forma de pensar e de fazer a guerra (CRUXEN, 2009; 2012).
Levando-se em consideração o acima exposto, a linearidade e a simples substituição por superação não demonstra ser plausível para pensar a arquitetura militar de transição. A concomitância e a permanência de estilos que interagem e, dessa forma, reconstroem suas características, demonstra ser o formato mais adequado. O estilo de fortificar da transição, embora se encontre em um processo de (re)combinação de paradigmas de diferentes épocas, expressando a tensão entre a permanência e a inovação, não deve ser compreendido, nessa
perspectiva, somente como um “estar entre”. A condição de transitoriedade, mesmo
apontando para a identificação da sobreposição e da relação entre características de diferentes períodos, deve ser percebida como um recorte próprio, com sua lógica, especificidades e duração.
122 A nomenclatura correta para as construções da arquitetura militar do século XVII passa a ser fortaleza, e não
A transição na arquitetura militar não se apresentou da mesma forma em toda Europa e nos territórios ultramarinos, dominados pelos reinos ibéricos. Caracterizou-se por um
processo diversificado, com variantes próprias, sobre o qual cada região teve “[...] uma história diferente para contar e uma cronologia específica” (DUARTE, 2003, p. 361) embora se possam identificar “tendências”, as quais não tiveram difusão e uniformidade simultânea
no continente europeu (MORA-FIGUEROA, 1996). Necessidades, situações político- econômicas e teatros de guerra diferentes geraram formas e etapas distintas de transição. O acesso às novas tecnologias e aos conhecimentos sobre arte e arquitetura, que circulavam entre os séculos XV e XVI, e, principalmente, como essas inovações foram recebidas, interpretadas e reprocessadas, gerou um quadro variado em relação à passagem do castelo medieval à fortaleza moderna (CAPMANY, 2004).
Rafael Moreira (1989, p.91) define “estilo de transição” como o longo período experimental de quase um século, desde as primeiras soluções pontuais de improviso123, até
ao estabelecimento de um novo tipo de fortificação. O sistema abaluartado, baseado no estudo sistemático de construções em ângulos agudos e com a maximização da capacidade de produzir fogo cruzado (fogo flanqueante), substituiu, em definitivo, os castelos medievais e as fortificações de transição.
A introdução de uma nova tecnologia de artilharia, no teatro de guerra ibérico, em finais do século XIV, constituiu o fator decisivo para a lenta transformação das estruturas castelares góticas. Trata-se da utilização da força da expansão dos gases da pólvora em combustão para arremesso de projéteis – a pirobalística. A relação dialética que se estabeleceu entre as antigas estruturas defensivas medievais e a nova tormentaria pirobalística permite compreender melhor as características arquitetônicas das fortificações representadas no Livro das fortalezas.
A partir desse momento, passa-se a uma contextualização e trajetória da introdução das armas de fogo na Península Ibérica; sua utilização em Portugal (nos séculos XV a XVI) e a importância definitiva que desempenharam na constituição da arquitetura militar de transição.
123 Entenda-se: abaixamento das torres, reforço das bases das muralhas, acréscimo de obras externas para suporte