Para efeito de uma caracterização dos participantes de nosso estudo, focalizamos uma apresentação geral, que comporta uma breve trajetória dos trabalhadores entrevistados e sua inserção no acampamento.
As pessoas participantes da etapa de entrevista constituem-se de 16 trabalhadores acampados, sete mulheres e nove homens, com idades entre 15 e 54 anos, sendo um dos trabalhadores o militante do MST que reside no acampamento e uma trabalhadora, sua companheira. Em maioria (14), os entrevistados moram no acampamento com sua família - companheiro(a) e filhos(as), os demais (02) moram sozinhos em suas barracas.
Do total de entrevistados, 14 trabalhadores são oriundos de imóveis rurais de outros municípios do Rio Grande do Norte, basicamente da cidade de Taipu e Ceará- Mirim. Os demais (dois) são, respectivamente, da sede do município de Pureza e de Taipu.
Essa origem dos trabalhadores atesta uma predominância dos mesmos com a atividade rural e, portanto, uma série de vínculos socioculturais e econômicos que tal atividade inscreve, a exemplo da descontinuidade natural do processo produtivo (Silva, 2001), impelindo-os a uma rotatividade de local de habitação e de relações de trabalho, haja visto não serem proprietários de terra.
Tal origem indica, ainda, uma identificação com as atividades e com um modo de vida rural. As associações de idéias com a palavra acampamento estão estreitamente ligadas ao desejo de um vínculo não só econômico, mas cultural, social e subjetivo com a posse da terra, seu uso e sua sucessão hereditária:
Tabela II: Associação de idéias - N. (trabalhador acampado, 36 anos).
PALAVRA ASSOCIAÇÃO
Acampamento x “Ganhar um pedaço de chão”; x “Trabalhar”;
x “Plantar feijão, roça, milho”.
Tabela III: Associação de idéias - A. (trabalhador acampado, 23 anos).
PALAVRA ASSOCIAÇÃO
Acampamento x “Luta.” “Trabalhar para os outros não temfuturo”; x Esperar a liberação para trabalhar na terra; x Luta para o futuro da família.
Tabela IV: Associação de idéias - A. (trabalhador acampado, 54 anos).
PALAVRA ASSOCIAÇÃO
Acampamento x Trabalhar para sustentar a família;x Ser feliz, melhorar de vida.
Quanto ao nível de escolaridade, quatro informantes estão escolarizados entre o primeiro e o segundo ciclo do ensino fundamental e dois estão na faixa do terceiro e quarto ciclo do ensino fundamental. Entretanto, quase metade (sete) pode ser tida como não-alfabetizada, não teve acesso à escola ou o tiveram de forma precária ( a despeito de ter funcionado uma turma de alfabetização do PRONERA no acampamento). Esse dado reflete as altas taxas de analfabetismo no campo onde, historicamente, se teve uma educação de baixa qualidade, com um modelo de funcionamento predominantemente urbano (Gonçalves e Galvão, 1998).
Quanto à renda dos trabalhadores, aqui considerada a quantia de dinheiro adquirida por meio do trabalho alugado e ajuda de parentes externos, em um único caso atingiu-se mais de um salário mínimo.33 Os demais estão inferiores a esta margem (aqueles que possuem inscrição em programas federais), ou bem abaixo desse valor.34
Para tentarmos recuperar a trajetória de vida dos entrevistados, optamos por um recorte tendo em vista sua relação de trabalho predominante no período anterior ao acampamento. Tal recorte se justifica, para nós, por duas razões:
x Uma, de caráter teórico, registra a conotação que o trabalho tem assumido em vários estudos que destacam sua processualidade em função do desenvolvimento e transformações do capitalismo, especialmente no campo (Silva, 2001), como também de o mesmo poder ser abordado como um dispositivo de subjetivação que informa a vida dos indivíduos (Nardi, 2001). No caso dos trabalhadores acampados, a relação com o trabalho apareceu com um componente subjetivo crucial que orientou sua inserção na luta pela terra.
x A segunda, de caráter empírico, foi-nos apontada pelos próprios entrevistados que, ao serem por nós indagados sobre como eram suas vidas antes do acampamento, responderam, quase que uníssono, a partir do tipo de trabalho que exerciam.
Desse modo, pudemos caracterizar os entrevistados em três subgrupos.35 São eles:
x SUBGRUPO I: apresenta como elemento aglutinador a forma de trabalho alugado e é composto por nove entrevistados.
33 O salário-mínimo de R$ 180,00.
34Esse dado não é confiável em função da impossibilidade de se afirmar a quantidade de dias trabalhados.
Devido ainda, a sazonalidade do processo produtivo no campo, algumas épocas demandam mais trabalho que outras.
35 Isso não implica uma homogeneização dos subgrupos, uma vez que seus membros tiveram relações de
trabalho encontradas nos demais subgrupos. Estamos considerando o tipo de relação de trabalho predominante.
x SUBGRUPO II: destaca o trabalho assalariado no campo, mais especificamente numa usina de cana-de-açúcar do município de Ceará-Mirim. É composto por dois entrevistados.
x SUBGRUPO III: composto por quatro informantes, caracteriza-se por uma maior mobilidade migratória, em função de busca de trabalho. As formas de trabalho se destacam por uma alternância entre atividades agrícolas e não-agrícolas (trabalho alugado, arrendamento, construção civil, etc.).
No que concerne a essas subdivisões em função das relações de trabalho, podemos deduzir uma matriz comum dessas relações e suas alterações ao longo do tempo, que culminou com a inserção desses trabalhadores num movimento social de luta pela terra.
Essa matriz, poderíamos dizer, trata-se da maneira pela qual o capitalismo vem se desenvolvendo e se transformando, inclusive na agricultura moderna (Silva, 2001), especialmente a partir de meados do século passado.
Assim, o acampamento pode ser apreendido como um campo de força que busca resistir ao desalojamento e à perda do vínculo econômico e sócio-cultural com a terra, provocados por tais transformações.
No caso do SUBGRUPO I, podemos situar a gênese do trabalho alugado a partir daquilo que se efetivou com o processo de modernização do campo brasileiro. Conforme visto em seção anterior, esse modelo de modernização conservadora empurrou os pequenos produtores para as periferias dos centros urbanos e os que ficaram no campo se submeteram a condições extremamente precárias de reprodução social.
O trabalho alugado representa essa precariedade na medida em que não garante proteções sociais, apresenta baixa remuneração e descontinuidade em função do ciclo
natural da produção. Seu ponto central de queixa para os trabalhadores acampados diz respeito ao fato de ser um trabalho alheio, para outro, no qual o trabalhador não consegue de nada se apropriar, ficando seu trabalho em função, basicamente, dos mínimos de sua sobrevivência.
Essa modalidade de trabalho já se constituiu em objeto de estudo no campo da Psicologia Social. Velôso (1996) buscou investigar a representação social do trabalho alugado para pequenos produtores de um assentamento rural no Estado da Paraíba e buscou analisar/identificar os mecanismos de resistência a tal modalidade de trabalho.
Como resultado de sua investigação, distinguiu o trabalho “para si” como da ordem da precisão, da sobrevivência, do dever moral, no entanto da liberdade. Já o trabalho alugado é representado como um atributo de preguiçoso, algo ruim, uma obrigação, um receber ordens de outros, onde está presente o sentimento de vigilância.
Esses resultados se aproximam dos atributos negativos do trabalho alugado também destacados pelos nossos entrevistados. Foi nesse contexto, portanto, que os trabalhadores investigados inscreveram o acampamento como uma possibilidade de conquista de uma autonomia ausente no trabalho alugado.
Ao serem indagados pelo motivo de terem vindo para o acampamento, os trabalhadores, em sua grande maioria, justificaram a busca por um pedaço de terra para si e sua família em que pudesse trabalhar e morar de forma autônoma:
DIÁLOGO 01 (M., trabalhador acampado, 26 anos)
J.: É... M., é... como era tua vida antes daqui do acampamento?
M.: Minha vida era trabalhar na agricultura. Eu comecei a trabalhar tinha 14 prá 15 anos já, aí com 18 anos eu arranjei uma parceira prá mim, aí já que eu não tenho profissão nenhuma, minha profissão é agricultura mesmo, aí eu parti prá sem-terra prá um dia ganhar um pedaço de terra e ter pros meus filhos, n/é?... Pros meus filho. Quem sabe um dia, né?
M.: Nas fazenda dos latifundiários, mendigando dia de serviço prá aqui, prá acolá, às vez de ir num canto e não tinha, aí arranjava noutro, e assim levei até hoje.
J.: Trabalhava por diária? M.: Por diária.
J.: É o que chama de trabalho alugado? M.: Trabalho alugado, é.
J.: O que é que tu acha desse tipo de trabalho?
M.: É uma exploração muito grande. É isso aí. A gente que trabalha, se ganha trinta reais por semana, se na outra semana não trabalhar, ele passa a semana de fome. Aí, o “caba” se preocupa, é. Trabalha uma semana, (trecho não compreendido) na semana que vem vai ter de novo, aí é complicado. Aí, o “caba” tá aqui hoje prá um dia ter sua terra, ter sua comida, prá não se preocupar em tá trabalhando por diária nem certa, também, incerta, n/é? Certa não é, aqui prá acolá. Complicado.
J.: Por que foi que você veio pro acampamento?
M.: Porque ... Eu acho que...tem muita gente que não dá valor o, o pedaço de terra que ganha. Eu, se eu, se eu conseguir ganhar meu pedaço de terra, eu vou saber, eu acho, eu acho não, eu sei que eu vou dar muito valor porque eu acho que é muito importante para um pai de família findar o resto da vida no que é seu, sossegado, tendo que chegar o dia “deu”, da pessoa, n/é?..., falecer, n/é? Deixa pros seus filho, n/é?..., já deixa um sossego a mais pros filhos, prá mulher do cara. Acho que é isso!
DIÁLOGO 02 (A., trabalhador acampado, 54 anos).
J.: Seu A., como era a vida do senhor antes do acampamento? Antes do senhor vim aqui pro acampamento, como era a vida do senhor?
A.: Trabalhar alugado, trabalhar alugado pra dar de comer a oito filho, trabalhava um dia aqui, outro acolá, acolá, acolá. Profissão não tinha, minha profissão era trabalhar rural, né? No campo.
J.: Como é o trabalho alugado?
A.: Alugado? Pronto, a pessoa chegar, chega um patrão rico, né? -“Fulano, vamo fazer isso assim, assim. Eu lhe pago tanto.” Aí, eu vou, né? Tou precisando, vou trabalhar pra ganhar aquele dia de serviço.
J.: O que o senhor acha desse tipo de trabalho?
A.: Muito fraco... muito fraco. (Etr: Fraco como?) Porque a gente só ganha um dia de serviço daqui pra acolá, quer dizer que a gente não tem emprego certo. Quer dizer, se eu passar, eu passo a semana todinha, não importa, trabalha um dia de serviço, dois. Quer dizer, que aqui e ali, não vai dar pra substituir a minha família, né? Trabalho a semana toda, aí, tá certo, né? mas quando trabalha um dia ou dois, aí, não dá, né?.
J.: É. Por que foi que o senhor veio aqui pro acampamento?
A.: Eu vim aqui pro acampamento, é... com esperança de melhorar a minha vida. Porque se eu ganhar essa terra, nós ganhar essa terra, aí, então, eu tenho fé em
Deus que melhora a minha vida, porque logo tem onde eu trabalhar, tem onde eu plantar minha roça, né? E... eu tou pensando que melhora a vida, se eu ganhar a terra eu melhoro a minha vida.
Podemos destacar o acampamento, por meio da fala desses trabalhadores, como uma negativa ao modelo de precarização ou (des)organização do trabalho proposto pelo capital, na medida em que buscam uma alternativa, via ocupação e conquista da terra, de um não-aprisionamento a tal regime de precariedade, tendo como referência o modelo da agricultura familiar, por meio do tripé: terra, trabalho e família. São justamente estes eixos que sofreram, com o avanço do capital, um forte processo de desterritorialização.
Paradoxalmente, uma das principais fontes de renda das famílias acampadas trata-se do próprio trabalho alugado. No entanto, no contexto do acampamento, o que percebemos em algumas falas é que os seus atributos negativos são descritos quando relacionados a experiências passadas com essa modalidade de trabalho:
DIÁLOGO 01 (P., trabalhador acampado, 40 anos)
J.: O que tem de diferente quando o senhor não morava aqui no acampamento para hoje?
P.: Tem muita coisa diferente, que lá onde eu tava, morava, morava no terreno de uma sogra minha, aí trabalhava pros outro e aqui num trabalho prá ninguém. Trabalho só num pedacinho de terra36 “mode” prá mim me manter mesmo. Aí tem muita diferença, porque não quero trabalhar pros outros. Quero trabalhar prá mim.
No entanto, embora o senhor P. não realize mais o trabalho alugado, constatamos, nas observações de campo, que seus dois filhos o fazem em propriedades próximas ao acampamento, conseguindo garantir a maior renda encontrada entre as famílias . Ao comentarmos sobre esta constatação em conversa informal posteriormente,
36 O pedaço de terra que o senhor P. se refere é a pequena faixa de terra da propriedade que fica entre as
com o entrevistado, o mesmo afirmou que mediante a conquista do assentamento, eles iriam trabalhar só para a família.
Assim, em termos da realização atual do trabalho alugado, há um entendimento de que, para além de sua negatividade, funciona como uma forma de passagem, uma ponte que se extinguirá quando do acesso à terra.
Tal contradição pode ser entendida se tomarmos o trabalho alugado realizado atualmente como sendo uma forma de resistir na área, de dar continuidade ao projeto de conquista da terra. Há um consenso de que, conquistada a terra, todos se voltarão a trabalhar para si e não mais para outros, trazendo, segundo os mesmos, a autonomia tão sonhada, o lugar de morada e a garantia do futuro da família.
Certeau (1996) aponta que diante dos sistemas totalitários e suas modalidades de imposição de determinados produtos (aqui, consideramos o trabalho alugado), os grupos sociais estão na posição de ressignificá-los, fazendo-o de modo astucioso, silencioso e disperso. Conforme o autor, trata-se da “construção de frases próprias com um vocabulário e uma sintaxe recebidos” (p. 40). O trabalho alugado que emerge com o processo de precarização das relações de trabalho no campo é, por assim dizer, empregado como um modo de viabilizar o projeto desses trabalhadores acampados.
Podemos, seguidamente, contextualizar o SUBGRUPO II, a partir do enfoque do trabalho assalariado em âmbito rural. O assalariamento no campo, especialmente nas usinas de cana, surgiu de um lado, conforme Garcia Jr. (1983), em decorrência de várias lutas dos trabalhadores para garantirem a aplicação da legislação trabalhista que regulava a relação trabalhador-proprietário, remuneração em salário mínimo e descanso.
Com a crescente falência das usinas de cana no nordeste brasileiro e com a introdução de maquinário no processo produtivo, ficou liberada de trabalho uma grande
quantidade de trabalhadores que, apesar de terem garantido alguns direitos sociais, faltavam-lhes o trabalho e, em muitos casos, tais garantias não foram respeitadas:
DIÁLOGO 01 (Js., trabalhador acampado, 34 anos). J.: E na usina, você trabalhava de quê?
Js.: Eu trabalhava... Logo no começo, eu trabalhava na agricultura, cortando cana, limpando mato, negócio assim. Aí, depois que eu passei pro trabalho de borracheiro, eu não sabia, me levaram pra lá pra garagem, comecei a trabalhar com um cara lá que já sabia, me ensinou, eu aprendi, trabalhei. Quando eu saí, já saí já... sabendo já.
J.: Aí, porque foi que você saiu da usina?
Js.: Rapaz, eu sai porque mesmo chegou o tempo de... como é que se diz?... O serviço lá já tava no final da moagem, e o homem já tinha vendido as máquinas quase e tudo, aí, não tava precisando de muita gente, né? Pra trabalho. Já tava terminando a moagem, aí, ele foi, dispensou. Dispensou eu, dispensou um bocado lá. Aí, até hoje, ainda tenho dinheiro pra receber lá, o FGTS, tudo, trabalhei um anos... como é... onze anos e seis mês. Aí, pagaram seiscentos e quarenta nas contas, e tá o resto lá, o FGTS, eu tenho que resolver isso aí.
Já o SUBGRUPO III faz parte de um contexto que vem se agravando nos últimos anos. Trata-se de um crescente e assustador número de pessoas que, desqualificadas profissionalmente, não consegue estabelecer vínculos estáveis de trabalho. Representam, mais do que nunca, o contingente que se produziu com o avanço do capitalismo, que exige padrões de qualificação impossíveis para os mesmos. O caráter migratório desse subgrupo é uma marca comum aos seus membros.
Já vimos que tal migração deu-se em função da modernização conservadora do campo que excluiu a agricultura familiar de seu projeto político. Destituídos das condições de sua reprodução social, os trabalhadores iniciaram um crescente processo migratório em direção aos centros urbanos, a outras propriedades, submetendo-se a condições bastante precárias de existência:
J.: Seu V., como era a vida do senhor antes do acampamento?
V.: Minha vida antes do acampamento, eu vendia besterinha, inventava um negócio de trocado, uma transa, sabe? Besterinha, coisa pouca. Trabalhar, também, trabalhava braçal, pesado, trabalhar, de... às vez pegava um empregozinho, às vez ficava trabalhando mesmo doente. Era, a minha vida era assim antes do acampamento, viu? Toda vida eu batalhei.
Na fala de uma trabalhadora entrevistada, percebemos o esforço que a mesma empreendeu para reaproximar seus filhos de si, uma vez que ambos estavam em regiões diferenciadas em função da busca por trabalho e vivendo em condições bastante precárias. Escolheu, para tanto, o acampamento Garavelo II como local de reaproximação, onde mora, juntamente com os filhos em barracas vizinhas. Entendemos seu esforço como uma busca pelo resgate dos laços familiares alterados pela migração:
DIÁLOGO 01 (D., trabalhadora acampada, 54 anos)
J.: Como foi que a senhora ficou sabendo do acampamento?
D.: Daqui?... Porque quando... eu morava ali no Silveira aí eu passava aqui e via o povo fazendo as barraca, aí quando disseram “- vai sair a terra”, aí muita gente dizia: “- vai nada !” Aí, eu digo: eu vou pra lá fazer uma barraca, pronto, aí os menino, I. (filho da entrevistada) morava lá em Dom Marcolino, aí I. tava lá aperreado que lá era difícil, era não, é difícil d’água e esquisito e deixava T. (nora da entrevistada) sozinha prá arranjar, trabalhar prá comprar o comer dos menino. Aí um dia fui lá, cheguei, os bichinho tudo com fome, eu digo: - “I., eu vou arranjar um canto prá tu”. Ele disse: – “Aonde?” – “Lá”. Aí, falei com um compadre meu numa casa que tem lá, ele me arrumou. Eu digo: “- sabe aonde tu arranja um canto? É lá, lá nos sem-terra. Aí ele disse: “- é mesmo?” Aí eu vim, falei com o menino aqui, o menino disse: - pode ir buscar. Aí, falei com o prefeito, arranjei o carro, fui buscar ele, aí depois foi M. (filho da entrevistada). Eu digo: - “M., sabe de ... onde tu vai ? Vamos buscar tu que... que... que vai ficar no acampamento que é melhor. Vocës indo prá lá, tá mais fácil d’eu vim, n/é?”. Que aí, falamos com D., arranjemos o carro, trouxemos, aí, quando ele... tava bem com três meses que M. tava aqui, aí, eu vim embora prá aqui.
Assim, o acampamento pode ser apreendido como uma forma de resistência coletiva ao processo de espacialização efetuado pelo capitalismo no campo, acenando com uma ruptura em relação a uma modelização dominante do território e almejando a terra de trabalho e de morada.