2. OCAK - HAZİRAN 2015 DÖNEMİ BÜTÇE UYGULAMA SONUÇLARI
2.1. Bütçe Giderleri
2.1.5. Sermaye Giderleri
A linha até agora apresentada pelos livros do Tito sempre vão na mesma direção, de cristãos se aproximando do marxismo pelos mais variados motivos, porém no próximo acontece justamente o contrário, pois se trata de um comunista que abandonou a filosofia de Karl Marx e Friedrich Engels para seguir Jesus Cristo. Nesse sentido não e a toa que se chama Itinerário de Marx a Cristo: o caminho de Damasco de Ignace Lepp. 247
A partir da titulação entendemos que se faz uma relação direta entre a tradição cristã que afirma ter sido São Paulo, o pagão perseguidor de cristãos, se convertido ao cristianismo durante uma viagem pela estrada de Damasco, oportunidade em que o próprio Jesus Cristo teria aparecido em forma de luz e lhe perguntado quais os motivos que o levavam a perseguir tão implacavelmente os cristãos?
Para Ignace Lepp, militante da Juventude Comunista e do PC Francês, as viagens que marcarão sua transformação em direção ao Cristianismo se deram na antiga União Soviética, onde esteve algumas vezes a partir de 1925. Porém foi somente na última delas nos anos trinta que o militante francês se decepcionou com o regime. Durante a tensão no qual Ignace Lepp constatou em seus camaradas soviéticos que “Para eles o “socialismo” deixava de ser uma aspiração do coração”, Tito nada escreveu apesar de ter sublinhado umas poucas frases. A participação de sua escrita só aconteceu exclusivamente, durante o capítulo Os dogmas de minha fé, poucas vezes, três no total.
Vamos iniciar pelo subitem Materialismo histórico e metafísico onde estão os fundamentos essenciais dos criadores do marxismo. Sobre a questão, destacou: “Nenhuma palavra é proferida com maior repugnância por um marxista do que: idealismo”. E após um breve comentário do autor sobre sua juventude quando como todo bom comunista do seu tempo misturava todos os filósofos que colocassem as idéias acima da matéria, sublinhou:
“que admitissem o absoluto acima da contingência, ou que explicassem o universo à partir de um princípio transcendente. Além disso o idealismo não podia ser, em qualquer de suas formas, se não uma filosofia reacionária e, conseqüentemente falsa. Só o materialismo era, a nosso ver, progressista, e portanto, verdadeiro”. 248
247 LEPP, Ignace. Itinerário de Marx a Cristo: o caminho de Damasco. 2ª edição. Belo
Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Editora Agir. 1960.
Mais uma vez Tito demonstra seu entendimento e intimidade com os paradigmas marxistas ao participar das discussões ao escrever “Domínio da razão”. Em seguida em outro subitem, As infraestruturas econômicas, depois de várias observações de Ignace Lepp sobre a organização sócio-econômica de cada época histórica, além das suas contradições que levariam a sua superação, comentou: “Caridade e fraternidade inconsciente”.
Entendo que nestas observações do Frei Tito aparecem os dois vetores que alimentaram suas escolhas políticas, ou seja, de um lado o recentíssimo Marxismo adquirido principalmente nos estabelecimentos de ensino que freqüentou, do outro o Cristianismo familiar.
Também utilizo este raciocínio para explicar a opinião final do Frei quando o texto fala na Emulação socialista, e após riscar a observação “Se a luta de classes se alimentava do ódio do adversário, a emulação socialista nutria-se sobretudo da consciência da solidariedade entre todos os membros de uma sociedade finalmente libertada. Cada homem teria apenas uma ambição: a de melhor servir à comunidade comunista”. Disse: “Tese de Lubac”. 249
Agora aconteceu novamente a utilização do catolicismo, já que o pensador lembrado foi um Cardeal da Igreja, Henri de Lubac, defensor intransigente da construção da sociedade baseada no amor ao próximo, pois isso representaria viver nos princípios deixados por Cristo. Tito então enxerga na construção da experiência socialista na URRS algo cristão, o que mostra sua verdadeira intenção, fazer através do não religioso o reino de Deus na Terra.
O último ato do caminho para Damasco após o desencanto com a militância comunista é narrado passo a passo em Luz nas trevas. Neste renascimento algumas Igrejas Protestantes, como a Batista, Metodista, Adventista, Pentescostais, foram procuradas em busca de informações e respostas para seus novos sentimentos. Não ficou em nenhuma porque discordava da valorização da salvação unicamente individual em detrimento do coletivo do coletivo, do seu nacionalismo excessivo, da não preocupação com os homens no meio temporal e do fato delas terem sido fundadas em média mil e seiscentos anos depois de Cristo.
Porém o acaso mais uma vez redirecionaria sua vida fazendo-o cruzar com um Padre Jesuíta, que segundo afirma era dialético. Através das conversas com este sacerdote conheceu o internacionalismo do catolicismo, a Doutrina Social da Igreja com as encíclicas Rerum Novarum (1891) e Quadragesimo Anno (1931).
Mas nada foi mais impactante do que descobrir que K. Marx e F. Engels não foram os únicos que na primeira metade do século XIX que tinham defendido os operários da super exploração capitalista, pois um Bispo da Mogúncia,Von Ketteler também no ano de publicação do Manifesto do Partido Comunista teria dirigido uma campanha em defesa de bons salários e dignidade para os trabalhadores. Além de Albert de Mun e o Cardeal Edward Manning da Grã-Bretanha. 250
Tito não fez nenhum comentário escrito, apenas reutilizou a técnica do risco abaixo da frase para expor sua atenção para com alguns trechos, como a que afirma ser o Sermão da Montanha mais bonito do que o Manifesto Comunista, os comentários sobre o Bispo Von Ketteler, o monarquista Albert de Mun e o Cardeal britânico Edward Manning.
Sublinhou também o momento em que Ignace Lepp mostra a sua saída definitiva da curiosidade para entrar na religião em si, numa espécie de ritual de passagem: “Chegado o momento de passar da sociologia e da história para a religião propriamente dita, o jesuíta me emprestou a Vida de São Francisco de Assis de Joergensen, escritor socialista dinamarquês, convertido ao catolicismo”. 251
O Frei Tito encerrou suas intervenções riscando duas linhas do livro de Ignace Leep que falam de um velho conhecido e admirado seu: “Graças a Henri de Lubac compreendi a noção de catolicidade era aplicável, também, ao comportamento intelectual”. 252
A falta de posicionamentos escritos dificulta em muito uma possível compreensão dos seus sentimentos e compreensões sobre o que estava lendo, talvez estivesse apenas concordando com o autor de o Sermão da Montanha que é realmente mais bonito do que o Manifesto Comunista, ou também descobrindo assim como Ignace Lepp certos teóricos católicos precursores da Doutrina Social da Igreja.
Porém uma coisa é certa, tudo indica que o destaque dado aos trechos que citam Henri de Lubac, somados a biografia de São Francisco de Assis, santo por excelência da renuncia material, preocupação e caridade com o semelhante, demonstram a
250Wilhelm Emmanuel Von Keteller (1811–1877): Bispo católico da cidade de Mogúncia,
capital do Estado da Renânia-Palatinado que fundou no século XIX do Movimento dos Trabalhadores Católicos para reivindicar leis que defendessem a dignidade do proletariado alemão. É considerado um dos precursores da Doutrina Social da Igreja. O Papa Bento XVI na Encíclica Deus caritas est reconheceu seu pioneiro ao citá-lo; Albert de Mun (1841-1914): Católico fervoroso francês, monarquista, político, e membro do Circulo Católico dos Operários e teórico do chamado socialismo cristão; Edward Manning (1808-1892): Cardeal britânico de Westminster ajudou a escrever a Encíclica Rerum Novarum.
251 LEPP, Ignace. Op. Cit. pp. 238 e 248. 252 Ibid. Idem. p. 265.
pretensão de uma rebelião moral teológica em prol dos maios sofridos, esquecidos e humilhados.
8. Documento A técnica da ação da JUC.
Fecho esta exposição sobre a relação entre as leituras e a ação do Tito utilizando- me do documento A técnica da ação, da época em que o futuro Frei ainda era militante da Juventude Estudantil Católica (JEC) do Ceará. Nele perceberemos a tentativa de aproximação com o marxismo para efetivar projetos de outra corrente filosófica, o cristianismo e as discussões que empolgavam setores da sociedade brasileira naquele hiato histórico. 253
O conteúdo é constituído por instruções que visavam criar lideranças jucistas que no futuro agiriam no meio popular, prioridade sintetizada na frase “os líderes não nascem feitos, mas são feitos”. Assim “A formação de líderes deve ser uma preocupação contínua para diversos tipos de movimentos desenvolvendo antes de tudo a capacidade de sentir, compreender e arrastar a ação criadora dos homens de uma dada sociedade”. 254
No processo formador do líder teria um papel importantíssimo o movimento, sendo “a ação como o centro de todo treinamento”, com as seguintes fases que deveriam ser cumpridas na construção das lideranças: primeiro o líder deveria ser um agente da mudança. Depois este cabeça da transformação deveria analisar as forças defensoras e contrárias a modificação, estimulando as primeiras contra as segundas com a liderança inserida numa situação real.
Após a teorização do formar e agir o documento passa a detalhar a realidade brasileira que seria marcada pelos primeiros passos em direção ao desenvolvimento, mais ainda marcada majoritariamente um “angustiante subdesenvolvimento”, situação que exigia mentes esclarecidas que pudessem superá-lo. Mas por sermos um país jovem poderíamos, segundo o documento, não passar por situações difíceis de mentalidade e estruturas mal formadas.
Isso tornava duplo o trabalho das nossas lideranças, em primeiro lugar porque os obrigava a conhecer com profundidade a realidade brasileira, anotando os agentes que possibilitavam a superação deste quadro para não perdermos as oportunidades
253 O Documento se chama A técnica da ação, tendo sido confeccionado pela JUC Regional
São Paulo. Arquidiocese de Ribeirão Preto. Abril/Junho de 1961; Foi-me gentilmente cedido pelo colega do Tito no Liceu do Ceará e também futuro militante do PCBR Walter Pinheiro. Portanto não fazendo parte do acervo do Museu do Ceará.