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6-SERMAYE GİDERLERİ 7-SERMAYE TRANSFERLERİ

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Diferentemente da medicalização da gestaçãob e do parto, que têm sido alvo da atenção médica, há uma lacuna nos cuidados à saúde da mulher puérpera, que envolvem alterações para o binômio mãe-filho, principalmente no que diz respeito às alterações mentais mais freqüentes nessa fase. É interessante citar que a suscetibilidade feminina no puerpério foi observada pelos médicos há séculos atrás. Engel (2001) lembra que de acordo com a perspectiva médica, a realização da maternidade seria capaz de prevenir e curar distúrbios psíquicos relacionados com a fisiologia feminina; mas em afirmação contraditória, os médicos reconheciam a gravidez, o parto e o pós-parto como momentos propícios ao aparecimento de tais distúrbios. A loucura puerperal mereceu uma atenção especial dos alienistas no século XIX, sendo definida como a incapacidade física ou moral da mulher de realizar plenamente os desígnios da maternidade.

Os transtornos psiquiátricos que acometem as mulheres no pós-parto são os famosos vilões para assistência de saúde mental específica a mulheres no ciclo gravídico-puerperal, isso porque as primeiras semanas de puerpério podem

57 representar um período de mudanças, crise e insegurança para toda a família com a chegada de um novo membro. Nesta fase, a capacidade de adaptação da família e os recursos físicos, emocionais e sociais com os quais ela conta para dar suporte à mãe, poderão determinar em grande parte, a promoção da saúde mental da mulher, num período que pode ser vulnerável, afetando, inclusive, o aleitamento materno, por causa do nível de estresse, geralmente elevado devido à demanda emocional e física do puerpério e do parto recente.

Enfatizamos aqui o relacionamento familiar, uma vez que as doenças mentais no puerpério afetam não somente a mulher, mas a família como um todo e especialmente o bebê. Motta, Lucion e Manfro (2005) relatam que filhotes de mamíferos que passaram por privação materna constante apresentam alterações nas estruturas encefálicas, na quantidade das secreções neuro-hormonais e em seus receptores, apontando para achados de alterações no desenvolvimento neurológico, mental e comportamental de crianças que sofreram negligência e maus tratos de mães com depressão pós-parto.

A depressão apresenta incidência e gravidade no pós-parto, mas felizmente os casos de melancolia do pós-parto são muito mais comuns e menos graves. Não podemos deixar de referir também as psicoses pós-parto, não tão incomuns em mulheres que já foram acometidas por algum episódio de transtorno bipolar. Em quaisquer transtornos, as mães apresentam choro fácil, irritabilidade, ansiedade, labilidade emocional e tristeza, enquanto que as exigências com os cuidados ao recém-nascido, incluindo as dificuldades de amamentação e as poucas horas de sono, acabam por contribuir em muito com o mal-estar psíquico da mulher. Isso nos conduz à necessidade de um suporte maior de cuidados durante o puerpério, de preferência domiciliares, não somente para mulheres com risco de transtornos mentais, mas para primíparas, adolescentes e quaisquer mulheres que solicitem essa assistência. Em muitos casos, uma visita domiciliar de um profissional poderia ser suficiente para a detecção precoce dos primeiros sintomas de doença mental. A falta dessa visita e de uma maior monitoração no puerpério é um fator agravante para a incidência de prejuízos na saúde mental de mulheres que deram à luz, podendo resultar em comprometimento do equilíbrio de toda uma família. Apesar dos esforços implementados numa melhor assistência de pré-natal na rede pública – principalmente no PSF –, o puerpério ainda tem sido esquecido pelos profissionais de saúde, especialmente no que diz respeito aos riscos psiquiátricos das mães, como o suicídio provocado por depressão severa, embora o suicídio seja mais

58 freqüente nos homens do que nas mulheres, estudos da American Psychiatric Association (2005) comprovam que a taxa de suicídio pode ser 70 vezes maior do que a média esperada, em mulheres com histórico de hospitalização por doença mental e que deram à luz. Esse risco pode ocorrer não somente no período puerperal, mas até um ano após o parto.

Outros estudos, como os de Oates (2003), mostram que as taxas de suicídio no pós-parto de mulheres inglesas e do país de Gales aumentaram muito a partir dos anos 90, e ao analisar os dados de mortalidade materna do Confidential

Enquiry into Maternal Deaths do Reino Unido entre os anos de 1997 a 1999,

constataram que as doenças psiquiátricas e o suicídio em particular, foram as principais causas de morte materna, sendo o suicídio a causa de 28% das mortes. A maioria dessas mulheres apresentou desordens psiquiátricas no pós-parto e já tinham riscos devido a episódios recorrentes de doenças psiquiátricas em gestações anteriores.

Lara, Acevedo e Berenzon (2004), embasadas na premissa de que a depressão é o problema de saúde mental mais comum e importante na população feminina, justificam a criação de um material educativo voltado para mulheres deprimidas a fim de ajudá-las, dando como exemplo uma cartilha por elas publicada intitulada: “É difícil ser mulher? Um guia sobre depressão”. Apesar dessas afirmativas, não podemos excluir a necessidade de uma ampla investigação sobre a maior incidência de depressão em mulheres do que em homens, principalmente durante o puerpério. Muito além de efeitos hormonais, como a queda do estrogênio, devemos reconhecer que quaisquer eventos existenciais da vida de uma mulher, como crises decorrentes de problemas sociais, afetivos e espirituais, por vezes relacionados com a chegada de um filho, são causadores de estresse e podem deixá-la susceptíveis à tristeza e à depressão situacional, principalmente quando a gravidez foi indesejada.

Ora, o que existe por trás do questionamento: “é difícil ser mulher?”, além da crença estabelecida de que a condição natural feminina implica em „dificuldades‟ capazes de comprometer o equilíbrio mental das mulheres? Os homens não engravidam, não dão à luz, não passam pelo puerpério, não assumem a sobrecarregada função da maternidade, não menstruam, e por estas e outras coisas, a vida para eles é mais fácil. Nesse paradigma científico tão deficiente, precisamos pontuar a verdade que não pode ser calada: a cultura patriarcal, onde o macho domina a fêmea, resultou em desigualdades sociais que prejudicam as mulheres,

59 causando para elas uma vida com maiores demandas, nem sempre justamente compensadas.

Kac et al. (2006), ao estudarem a associação de morbidades psiquiátricas menores em mulheres no pós-parto com desvios no estado nutricional materno, como baixo peso e obesidade, concluíram que os verdadeiros fatores potencialmente associados à probabilidade da ocorrência de morbidades psiquiátricas menores são a baixa renda e a obesidade. É importante citar que as morbidades psiquiátricas – como definidas pelos mesmos autores – são os transtornos comuns e de difícil caracterização, como a tristeza, a ansiedade, a fadiga, a diminuição da concentração, a preocupação somática, a irritabilidade e a insônia. Ou seja, eventos completamente óbvios a serem sentidos por uma mulher no pós-parto, quando enfrenta problemas, não caracterizando uma reação patológica que justifique tornar-se uma morbidade psiquiátrica, com diagnóstico, tratamento e intervenções médicas.

Isso prova que a medicina, especialmente a psiquiátrica, tenta se apropriar de vários os acontecimentos inatos aos seres humanos, até mesmo suas reações psíquicas naturais em momentos de crise. No passado, diferenças como a homossexualidade também eram consideradas doenças psiquiátricas, e hoje as preocupações e as crises por problemas financeiros também são. Criticando essa ocorrência comum da medicalização, Illich (1975) afirma que os objetivos de promover a saúde, a qualidade de vida e a melhora do bem-estar humano não justificam a apropriação do saber médico sobre a vida natural humana, uma vez que não é a medicina que proporciona tais melhoras, mas sim um conjunto de ações coletivas praticadas pela sociedade, que envolvem a economia, a política, a democracia e inúmeros profissionais com seus conhecimentos técnicos, como engenheiros, geógrafos, ecologistas, físicos, etc., além dos da área de saúde.

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Benzer Belgeler