As cantorias de viola nordestinas são feitas com uma dupla de cantadores por vez, mas às vezes mais de uma dupla na noite, tocando viola e cantando repentes, ou seja, versos de improviso. As cantorias estavam presentes em outros eventos já citados, especialmente no Misturando as Poesias, onde eram frequentemente a mais esperada pelo público40.
Em alguns eventos, contudo, a cantoria de viola era explicitamente a atração principal. Nesse caso, a atuação de outros poetas e músicos aparecia no início – como uma abertura para os violeiros – ou no intervalo entre as duplas. Foram principalmente cantorias realizadas no Restaurante Oba Show, organizadas pelo poeta Zé Lima, como a Grande Cantoria, a Cantoria da Vida e a Noite de Cultura Popular.
Houve também uma tentativa de tornar as cantorias mais frequentes e sistemáticas com o projeto Estação do Repente, coordenado por Aldacir de França (que também organiza o Festival de Repente no Mossoró Cidade Junina), realizado pela prefeitura de Mossoró. O projeto consistia na realização de cantorias no último sábado de cada mês, na calçada do
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Na segunda edição do Misturando as Poesias, Nildo da Pedra Branca chamou atenção do público mais de uma vez: “Não vão embora não que tem cantoria”.
prédio da Estação das Artes, trazendo repentistas mossoroenses e outros de renome nacional, com a participação de cordelistas e alunos de escolas públicas (no sentido de incentivar novos talentos). Entretanto, a instabilidade política e a troca de gestão no governo municipal prejudicaram o andamento do projeto41.
As cantorias são realizadas sempre com cantadores que vem de fora, como foi relatado por Eleni, tendo a participação de repentistas conhecidos como Geraldo Amâncio, Moacir Laurentino, Sebastião Dias, Valdir Teles, João Paraibano, Sebastião da Silva, Raulino Silva e Raimundo Caetano. Podemos destacar entre os violeiros locais Zé Ribamar, Raimundo Lira, Alvaci Tavares e Kleber Morais42.
Os eventos dos quais tratamos aqui podem ser considerados cantorias de pé-de- parede, embora possam ser apontadas algumas variações, conforme a definição de Araújo:
Ela [a cantoria de pé-de-parede] ocorre em espaços reduzidos, como salas-de-estar, bares, restaurantes ou pequenos salões. O repentista é convidado a se apresentar a partir de um “trato de cantoria”, ou seja, violeiro e contratante combinam o preço, o tempo de duração, a hospedagem – caso venha de outra cidade –, a refeição, o local e outros detalhes. (ARAÚJO, 2010, p. 34)43
A expressão pé-de- parede refere-se aos cantadores se fixarem logo em frente a uma parede, para que ninguém passe por trás, atrapalhando a concentração. Osório (2006) observou que, nas cantorias realizadas na Casa do Cantador de Brasília, nenhuma mesa é posta também na frente dos cantadores, formando colunas
em cada lado do espaço central onde se situam os violeiros.
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Em 2013, a prefeita eleita Cláudia Regina foi cassada, sendo afastada e reconduzida ao cargo várias vezes, o que causou um clima de instabilidade administrativa na gestão, até a sua substituição definitiva após as eleições complementares ocorridas em maio de 2014.
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Apenas alguns desses cantadores citados foram entrevistados na pesquisa, conforme tabela apresentada anteriormente.
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Segundo Araújo (2010), existem sete tipos de cantorias de viola nordestinas: as de romance, de cego, de pé-de- parede, de praia, de festival, de show e de estúdio.
Imagem 8: Poeta Zé Lima se apresentando na Noite de Cultura Popular, no Restaurante Oba Show.
Contudo, no Restaurante Oba Show, há um vasto salão, com um palco e várias mesas distribuídas pelo ambiente. O espaço de relevo do palco evita que o movimento atrapalhe a concentração do cantador, mas, durante as apresentações, a maior parte dos ouvintes se sentavam em mesas ao redor do palco, de modo que os cantadores ficavam em posição de destaque, mas, ao mesmo tempo, bastante próximos do público, interagindo muito com ele.
Outra característica que diferencia as cantorias do Oba Show das “tradicionais” cantorias de pé-de-parede é o pagamento do cachê. Há, na cantoria, a tradição da bandeja, quando uma bandeja, uma cesta ou um chapéu é utilizado para que o público coloque o dinheiro merecido pelo cantador. É uma tradição, no entanto, que identifica muito a cantoria como uma forma de receber esmola, de modo que, às vezes, os apresentadores fazem o esclarecimento sobre a tradição, mas sentem a necessidade de alertar também para o profissionalismo dos cantadores – comparando o pagamento da bandeja com o de um ingresso ao teatro (OSÓRIO, 2006).
Entre os eventos observados, manteve-se a tradição da bandeja no Misturando as poesias, tanto para a cantoria de viola como para a embolada de coco, e também no Estação do Repente. Neste último, no entanto, é evidente que o apelo à tradição é o principal motivo para a continuidade da prática, já que os cachês dos cantadores de viola eram pagos pela prefeitura. Assim, a “bandeja” era em benefício de alguém, divulgado previamente, como a viúva de algum cantador, ou um antigo colega que passava dificuldade44.
A maior parte das cantorias observadas, no entanto, que aconteceram no Oba Show, não tinham a tradição da bandeja, mas de fato um ingresso – a entrada custava em torno de 20 a 25 reais. No centro do ambiente, também havia sempre uma mesa expondo as obras dos artistas que estavam se apresentando: cordéis, livros, CDs e DVDs.
Seguindo a organização mais utilizada, os violeiros começam sempre pela sextilha – estrofes de seis versos heptassílabos, que tem tema livre. Para Celeste Guimarães, essa é uma forma deles ficarem à vontade e exercitarem a mente. Em seguida, os estilos começam a variar, muitas vezes se obedecendo a motes (versos de uma ou duas linhas com os quais o cantador tem que terminar toda estrofe) escolhidos pelo público. O estilo mais pedido nas cantorias observadas é o galope à beira-mar, mas foram comuns também o voa sabiá, meia quadra, quadrão perguntado e coqueiro da Bahia.
Os temas tratados na cantoria, assim como nos cordéis e nas emboladas de coco, são muito diversos, mas na maioria das vezes tem relação com o contexto local. Para os
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cantadores de fora, por exemplo, é comum arrancar aplausos da plateia falando da cidade em que está. Valdir Teles declarou que Mossoró é uma cidade boa de cantar e os cantadores de fora demonstram muito conhecimento sobre a história da cidade, falando sempre da expulsão de Lampião. O cangaceiro, aliás, é um dos temas mais recorrentes citados pelos poetas, bem como outros personagens famosos do Nordeste, como Luiz Gonzaga e artistas da cultura popular – como Elizeu Ventania e Luiz Campos.
A própria trajetória do cantador serve muitas vezes de inspiração, como mostra a estrofe com a qual Moacir Laurentino inicia o estilo Nos dez de galope na beira do mar com Geraldo Amâncio:
Moacir Laurentino – Eu só viajo, esse é o meu destino Eu canto repente desde criança Para Mossoró e outras vizinhanças Para o paraibano, para o potiguarino Meu nome legítimo pois é Laurentino Paulista a cidade que é meu lugar No velho Nordeste gosto de cantar Porque a viola que é o meu seguimento Na pista invisível do meu pensamento Nos dez de galope na beira do mar
Outras vezes é o próprio evento narrativo do qual emergem os versos que guiam o repentista:
Geraldo Amâncio – Onde tem silêncio eu me apresento Com minha poesia que é sempre matuta E eu muito agradeço ao povo que escuta Os versos que eu canto ao som do instrumento Como o Moacir que possui talento
O nosso trabalho vai continuar
Eu vi uns dois músicos com música sem par Cantou Xavier e depois o Zé Lima
Cuidaram da música e eu canto da rima Cantando galopes na beira do mar
A religião também é um tema corrente, nos repentes, nas conversas e nos comentários que os cantadores fazem para o público. É assim que, demonstrando conhecimento sobre a cidade, alguns repentistas também cantam sobre a padroeira Santa Luzia. Mas na maioria das vezes, essa devoção religiosa aparece na ideia de que eles recebem o dom de improvisar de Deus e que Ele vai inspirá-los.
Geraldo Amâncio – Eu sempre termino bem como começo Que Deus me ajuda quando estou cantando Com esse parceiro me acompanhando
Imagem 9: Nildo da Pedra Branca vestido de cangaceiro.
Tocando viola e dando sucesso
Eu tenho o caminho pra muito progresso Porque tenho um anjo para me ajudar Eu sei que o colega tem sido o meu par Que canta comigo, que versa e não muda E na hora que eu canto um anjo me ajuda Nos dez de galope na beira do mar
Entretanto, a principal característica da cantoria de viola, que mais fascina o público, é o improviso, do qual falaremos mais adiante.