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Serbest Zaman ve Espora Yönelik GörüĢme Bulguları

2. Serbest Zaman ve Pazarlama

3.7. Bulgular

3.7.2 Serbest Zaman ve Espora Yönelik GörüĢme Bulguları

Na presente seção, apresentaremos a relação enunciada acima, analisando uma das mais belas passagens presentes no Discurso sobre a origem da desigualdade: a festa primitiva. Como o próprio texto de Rousseau sugere, uma incipiente comunicação entre as famílias antecede a festa primitiva, da qual nasceu a mais doce das paixões humanas, o amor:

Tudo começa a mudar de aspecto. Até então errando nos bosques, os homens, ao adquirirem situação mais fixa, aproximam-se lentamente e por fim formam, em cada região, uma nação particular, una de costumes e caracteres, não por regulamentos e leis, mas, sim, pelo mesmo gênero de vida e de alimentos e pela influência comum do clima. Uma vizinhança permanente não pode deixar de, afinal, engendrar algumas ligações entre as famílias. Jovens de sexo diferente habitam cabanas vizinhas; o comércio passageiro, exigido pela natureza, logo induz a outro, não menos agradável e mais permanente, pela frequentação mútua. Acostuma-se a considerar os objetos e a fazer comparações; insensivelmente, ideias de mérito e beleza, que produzem sentimentos de preferência. À força de se verem, não podem mais deixar de se verem. Insinua-se na alma um sentimento terno e doce, e, à menor oposição, nasce um furor impetuoso; com o amor surge o ciúme, a discórdia e a mais doce das paixões recebe sacrifícios de sangue

93 No caso das disputas pela fêmea serem ou não funestas à espécie humana em estado de natureza. 94 R

humano.95

Como mostramos no capítulo anterior, a formação das primeiras famílias foi um salto evolutivo para a espécie humana, mas seu impacto tinha um efeito social e psicológico pouco relevante por dois motivos: (i) porque as famílias viviam fechadas e isoladas umas das outras; (ii) porque, embora o homem progredisse intelectual e afetivamente, esse progresso estava associado a um universo de hábitos restritos, ou seja, um universo caracterizado pelo mesmo pai, mesma mãe, os mesmos machos, as mesmas fêmeas, os mesmos objetos, em suma, sempre pelos mesmos hábitos, e nós já sabemos que “dos hábitos não nasce a paixão”. Porém, agora nessa nova situação tudo muda de aspecto; o comércio sexual entre jovens de famílias distintas proporcionou ao homem a observação de objetos novos; a observação de outros seres humanos, a partir dos quais se ativa a faculdade de comparar; esta, por sua vez, associada ao progresso afetivo oriundo das primeiras famílias, proporcionou ideias de mérito e beleza. Essas ideias, adquiridas insensivelmente, tornam-se, portanto, os reguladores da direção e da fixação do desejo, ou seja, a preferência.

Nesse contexto, fica mais clara a distinção feita por Rousseau entre os elementos físicos e os elementos morais no amor:

Comecemos por distinguir, no sentimento do amor, o moral do físico. O físico é esse desejo geral que leva um sexo a unir-se a outro. O moral é o que determina esse desejo e o fixa exclusivamente num só objeto ou que, pelo menos, faz com que tenha por esse objeto preferido um grau bem maior de energia [...] Esse sentimento, baseando-se em certas noções de mérito e beleza, que um selvagem é incapaz de ter, e em comparações que não está em condição de fazer, deve ser quase nulo para ele. Isso porque, posto que seu espírito não pôde engendrar ideias abstratas de regularidade e proporção, seu coração também não é capaz dos sentimentos de admiração e amor que, mesmo sem se perceber, nascem da aplicação dessas ideias.96

Podemos notar nas passagens supracitadas do segundo Discurso, uma genealogia do amor num tom pessimista, pois, se por um lado ele é um sentimento de admiração que supõe ideias abstratas de regularidade e proporção, por outro lado, com ele, nascem também a exclusão, o ciúme, a disputa e a discórdia. Mesmo assim, diríamos ainda que, nessa nova situação, com ideias de mérito e beleza e sentimentos de preferência, a liberdade e a perfectibilidade ganhavam uma nova expressão, ou seja, elas deixavam de se aplicar numa ordem puramente física ou

95 R

OUSSEAU, Segundo Discurso, 1978, p. 263/ O. C., III, p. 169.

96 Ibidem, p. 255/ Ibidem, p. 157-8. Segundo Goldschmidt e Starobinski, a distinção entre o físico e o moral no amor

em Rousseau é uma herança de Buffon. Cf. GOLDSCHMIDT, Anthropologie et politique, 1983, p. 362 ss; STAROBINSKI, Notes et variantes. In Rousseau : O.C., III, p. 1335.

habitual e passavam a se manifestar no mundo humano propriamente dito. Portanto, podemos dizer que a sexualidade também é um campo de exercício da liberdade, onde os seres humanos podem aplicar sua inteligência sobre eles mesmos. Ora, o que é a preferência de escolha senão um ato da liberdade sobre o instinto sexual? E o que seriam das ideias de mérito e beleza sem as faculdades mentais aperfeiçoadas?

A imaginação, que determina tantos prejuízos entre nós, não atinge corações selvagens; cada um recebe o impulso da natureza, entrega-se a ele sem escolha [...]97

Igualmente, encontramos no Emílio:

Assim que suas faculdades virtuais se põem em ação, a imaginação, a mais ativa de todas, desperta e as ultrapassa. É a imaginação que amplia para nós a medida dos possíveis, tanto para o bem quanto para o mal e, por conseguinte, provoca e nutre os desejos com a esperança de satisfazê-los.98

Portanto, a preferência sexual supõe o exercício da liberdade no mundo humano e a aplicação das faculdades mentais (comparação, imaginação e a memória) na regulação do desejo; foi por meio das faculdades que se tornou possível sustentar um desejo na duração e deslocar o homem de seu eterno presente. Com o comércio sexual entre famílias há, portanto, uma verdadeira abertura num duplo sentido: (i) os seres humanos se abrem para uma alteridade sexual numa nova ordem simbólica, cujas novas referências são ideias abstratas de mérito e beleza; e (ii) uma família se abre para outra, o que exige novos meios regulatórios dessa relação.99 Podemos dizer, portanto, que a ligação entre famílias distintas permite um comércio mais proveitoso para a socialização humana. Vejamos como isso se aplica no cenário específico da festa primitiva:

À medida que as ideias e os sentimentos se sucedem, que o espírito e o coração entram em atividade, o gênero humano continua a domesticar-se, as ligações se estendem e os laços se apertam. Os homens habituaram-se a reunir-se diante das cabanas ou em torno de uma árvore grande; o canto e a dança, verdadeiros filhos do amor e do lazer, tornaram-se a distração, ou melhor, a ocupação dos homens e das mulheres ociosos e agrupados. Cada um começou a olhar os outros e a desejar ser ele próprio olhado, passando assim a estima pública a ter um preço. Aquele que cantava ou dançava melhor, o mais belo, o mais forte, o mais astuto ou o mais eloquente, passou a ser o mais considerado, e foi esse o primeiro passo tanto para desigualdade quanto para o vício; dessas primeiras preferências nasceram, de um lado, a vaidade e o desprezo, e, de outro a vergonha e a inveja.100

Essa bela passagem nos mostra que a necessidade sexual e as paixões sociais oriundas

97 Ibidem, p. 256/ Ibidem, p. 158. 98 R

OUSSEAU, Emílio, 1995, p. 70-71/ O.C., IV, p. 304.

99 Referimos-nos aqui ao casamento e a interdição do incesto, tema que Rousseau trata de passagem no Ensaio e que

abordaremos na seção seguinte.

100 R

dela são elementos fundamentais nos quais Rousseau pode articular um momento importante de sua história hipotética. Poderíamos dizer que estamos diante mesmo da gênese de paixões “sócio- sexuais”. É evidente que Rousseau, nesse trecho, ainda não está tratando da desigualdade de riquezas, objeto específico desse Discurso, mas sim das primeiras desigualdades consensuais “que apenas têm existência na estima dos homens, mas que conduz para essa estima bens reais que nós não obteríamos sem ela.”101 Portanto, essas primeiras diferenças de caracteres, se ainda não são as desigualdades sociais propriamente ditas, elas, no entanto, farão parte do jogo de causas que, ulteriormente, acentuam as desigualdades sociais.

Retomemos os passos de Rousseau no trecho supracitado: “as ideias (idées) e sentimentos (sentiments) se sucedem, o espírito (esprit) e o coração (coeur) entram em atividade.” Ou seja, como já apontamos no primeiro capítulo, há uma íntima relação entre o desenvolvimento das necessidades, das paixões e do entendimento. Parece-nos mais claro agora que, entre as necessidades e paixões humanas, a sexualidade é também um campo que oferece as condições para o progresso do entendimento, a partir do qual a liberdade e perfectibilidade podem se desvirtualizar no seio de relações humanas. Portanto, é pela via da sexualidade, aquela que comporta uma necessidade ambivalente, que o homem domestica a si mesmo a partir do outro. Apprivoiser (domesticar) vem do latim vulgar apprivitiare, tem o radical privus e que significa particular, próprio, especial. Mais especificamente, apprivoiser significa tornar privado em oposição à livre e selvagem.102 Certamente, Rousseau tinha domínio semântico dessa palavra e concordaria com a oposição à palavra selvagem; porém, ele discordaria da ideia de opor a domesticação à liberdade. Como vimos, para Rousseau, a liberdade é uma característica metafísica do homem, antes mesmo do entendimento, de modo que “renunciar à liberdade [seria] renunciar à qualidade de homem.”103 Por esse motivo, Rousseau facilmente diria que a domesticação de si mesmo é antes uma expressão da liberdade humana do que sua supressão.

Podemos notar também que a festa primitiva, por ser uma ocasião propícia ao exercício da liberdade numa verdadeira alteridade sexual, é também o momento para o nascimento das artes como o canto e a dança, “os verdadeiros filhos do amor e do lazer”, e aqui se torna mais inteligível uma passagem da educação estética de Emílio no final de sua adolescência: “É principalmente no comércio entre os dois sexos que o gosto, bom ou mau, se

101 R

OUSSEAU, O.C., III, p. 530, tradução nossa.

102 Cf. D

AUZAT,Dictionnaire etimologique de la langue francaise. Paris, Librairie Larousse: 1938, p. 43.

103 R

forma; sua cultura é um efeito necessário do objetivo dessa sociedade.”104 Portanto, a arte e o bom gosto encerram também uma relação com o comércio entre os sexos. Já o dissemos em algum momento neste texto, que uma vez começada a sociedade, o sexo nunca mais é mera perpetuação da espécie, ele se torna uma expansão do eu para outro, um ato que envolve a liberdade, a arte, a moral e a política. Nesta seção pretendemos destacar a relação entre o comércio sexual e o nascimento das paixões e, consequentemente, da moralidade. Não se trata, evidentemente, de fazer do sexo um “articulador universal” na filosofia de Rousseau; mas sim de, a partir de uma leitura que privilegie esse tema, lançar luz sobre possíveis relações entre a sexualidade e outros aspectos importantes para o desenvolvimento da sociabilidade.105

Pois bem, na festa primitiva, “cada um começou a olhar os outros e a desejar ser ele próprio olhado”.106 Foi nessa “via de mão dupla” do olhar que a estima pública passou a ter um preço, pois não bastava mais desejar o outro, mas sim desejar ser também o desejo do outro. Entretanto, na coletividade há uma pluralidade de desejos e, muitas vezes, o desejo de ser desejado só se realiza pela emulação, quando não pela dissimulação, assim, “o mais astuto ou o mais eloquente passou a ser o mais considerado”. Entre os preferidos, nasceram a vaidade e o desprezo, isto é, a supervalorização de si e a repulsa pelo outro. E, entre os excluídos, nasceram a vergonha e a inveja, ou seja, a censura de si e o desejo de parecer ser o outro.

Como bem assimila Starobinski, a festa primitiva é a ocasião da troca de olhares, na qual faz nascer a consciência da diferença individual e o desejo orgulhoso de ser preferido: a unanimidade se perde na cerimônia que parecia celebrar.107 Portanto, a comunhão proposta pela festa possuía imediatamente as condições de sua própria corrupção. Já para Bernardi e Bachofen, o papel que o desejo sexual não podia desempenhar na formação do laço social volta no sentimento amoroso no seu desenvolvimento; o desejo de se fazer valer e o medo do desprezo, generalizações da rivalidade amorosa, são nesse primeiro estado de socialização às vezes origens da “civilidade” e às vezes de violências interpessoais.108 Entendemos que a festa primitiva representa uma mudança radical no modo de ser do homem, no qual a construção do parecer e do

104 R

OUSSEAU, Emílio, 1995, p. 470 / O. C., IV, p. 673.

105 É importante frisar que o processo de desnaturação do homem, segundo Rousseau, é amplo e complexo; nosso

estudo não poderia senão fazer um recorte conveniente à nossa leitura. Mas advertimos que, evidentemente, existem outros elementos, que outras interpretações poderiam explorar e que não destacaremos aqui.

106 R

OUSSEAU, Segundo Discurso, 1978, p. 263/O.C., III, p. 169.

107 S

TAROBINSKI, Notes et variantes. In : ROUSSEAU, O. C., III, p. 1344.

108 B

representar, a partir das paixões socialmente cultivadas, torna-se um novo parâmetro para a conduta da vida, donde sua relação com a moral e os costumes:

Assim que os homens começaram a apreciar-se mutuamente e se lhes formou no espírito a ideia de consideração, cada um pretendeu ter direito a ela e a ninguém foi mais possível deixar de tê-la impunemente. Saíram daí os primeiros deveres de civilidade, mesmo entre os selvagens, e por isso toda afronta voluntária tornou-se um ultraje porque, junto com o mal que resulta da injúria ao ofendido, este nela via o desprezo pela sua pessoa, frequentemente mais insuportável do que o próprio mal.109

Evidentemente, nesse estágio não se trata mais de necessidade sexual pura nem de paixões de cunho exclusivamente sexual. Entretanto, pela análise dos textos de Rousseau, não se pode negar que haja uma relação entre as mutações da sexualidade humana e o desenvolvimento da moralidade. Com efeito, para Rousseau, entre as necessidades de alimentação, reprodução e sono, a necessidade sexual parece, inicialmente, apresentar uma perspectiva moral mais significativa: o sexo necessariamente envolve o outro.

Portanto, a partir da alteridade sexual na festa primitiva, os homens trocaram os primeiros olhares não mais apenas de um ponto vista físico, mas também moral. Com a moralidade se imiscuindo nas relações humanas, os homens aprenderam a se considerar mutuamente, isto é, ponderaram-se, mediram-se uns pelos outros, avaliaram cuidadosamente os caracteres e a conduta; aprenderam a julgar merecedores de boa ou má estima e se descobriram, reciprocamente, julgados por boa ou má estima. Assim, mostra-nos Rousseau, nasceram os “deveres de civilidade” e a consideração pelo outro e, ao mesmo tempo, o mal virtual da ofensa possivelmente recebida. Ora, não é essa a diferença básica entre o amor-próprio e o amor de si tanto em sua natureza quanto em seus efeitos enunciada por Rousseau na famosa nota “O”? “O amor-próprio não passa de um sentimento relativo, factício”, “nascido na sociedade, que leva cada indivíduo a fazer mais caso de si mesmo do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que mutuamente se causam e que constitui a fonte da honra”. [E] “como é o desprezo ou a intenção de prejudicar e não o mal que constitui a ofensa, homens que não sabem apreciar-se ou comparar-se podem infligir violências mútuas, quando disso lhes advém alguma vantagem, sem jamais se ofenderem reciprocamente.”

Dito isso, parecem-nos agora mais claras as relações possíveis entre os sentimentos oriundos do comércio sexual e a gênese da moralidade que apontamos no início dessa seção. O cenário no qual podemos identificar tais relações foi a festa primitiva no segundo Discurso; por

109 R

ela também fica mais explícita a relação paradoxal que a necessidade sexual mantém com as necessidades restritamente físicas e com as necessidades que vêm da opinião. Segundo Goldschmidt, Rousseau não menciona a expressão “amor-próprio” no trecho da festa primitiva porque já havia mencionado na nota precedente (a nota “O”) como o sentimento oposto ao estado de natureza e ao amor de si. Porém, continua o comentador, o pensamento antitético de Rousseau acompanha um pensamento histórico que, nesse trecho, abranda essa oposição e mostra os graus de desenvolvimento para o estado civil.110 Em suma, no contexto da relação necessidade-paixão, parece-nos que a passagem da paixão primitiva fundamental, o amor de si, para a paixão social por excelência, o amor-próprio, pode ser compreendida por uma mediação executada por necessidades e paixões de cunho sexual, algo que pode ser denominado como “amor-moral” por oposição ao que denominamos anteriormente como “amor-físico”. Metaforicamente, poderíamos dizer que o homem foi imbuído de amor de si para festa primitiva e retornou de lá travestido com a máscara do amor-próprio.