2.2.6.5. Normas aplicáveis às Instituições Financeiras
Conforme apresentado na primeira parte deste trabalho, o cronograma do BACEN para a convergência às normas internacionais difere da CVM, em função dos estudos de impactos que tais mudanças poderiam acarretar no mercado financeiro.
De acordo com o FAQ do BACEN em relação às funções do Banco Central do Brasil (2009):
A estabilidade, a eficiência e o desenvolvimento do sistema financeiro requerem esquemas de normas e procedimentos apropriados e sua observância. Em muitos casos, a supervisão das instituições financeiras é responsabilidade direta e exclusiva do Banco Central; em outros casos, pertence à alçada de organismos independentes. Não obstante, em nenhum caso a fiscalização é totalmente exógena ao Banco Central, a quem cabe elaborar normas para o funcionamento do sistema financeiro e ser o prestamista de última instância (FAQ BACEN, 2009).
Dessa forma, antes que as normas sejam aprovadas pelo BACEN, este avalia a complexidade da adoção das normas pelas instituições financeiras supervisionadas do ponto de vista de sistemas, de controles internos e inclusive os de impactos na gestão do capital (acordo de Basileia), que são medidos por meio das demonstrações financeiras da instituição.
Ainda de acordo com o FAQ do BACEN (2009), além do capital mínimo exigido para a entrada no mercado, os bancos podem ser obrigados a manter certas relações entre capital, ativos e passivos. As metodologias utilizadas para apurar os coeficientes de solvência ou de adequação do capital, também conhecido por índice de Basileia e ainda índices de liquidez, tomam por base, os números contábeis globais, além de outros fatores como reconhecer os diferenciais de risco entre distintas classes de ativos mediante ponderações. Avaliar corretamente a qualidade dos ativos das instituições financeiras é uma das funções mais complexas e importantes da supervisão do sistema financeiro.
Na estrutura do SFN, o CMN é o órgão deliberativo máximo, sendo o presidente do BACEN um dos integrantes. No escopo de suas atribuições, o CMN estabelece as políticas e os regulamentos básicos que dirigem o funcionamento do mercado financeiro e as atividades das instituições financeiras, e fundamenta suas decisões nas recomendações apresentadas pelo BACEN.
As decisões do CMN são implantadas por meio de Resoluções, tornadas públicas pelo BACEN e assinadas pelo seu presidente. As Circulares, emitidas pela diretoria do BACEN, regulamentam as Resoluções. Cartas-Circulares e comunicados são de responsabilidade dos departamentos do BACEN e regulamentam os aspectos operacionais das Resoluções e Circulares editadas.
A atividade de supervisão, por sua vez, desenvolve-se de modo direto – vistoria nas instituições para verificar sua solidez e observância dos aspectos legais e regulamentares das operações, registros e controles – e de modo indireto – quando ocorre internamente, com uso das informações prestadas pelas instituições ao BACEN, utilizando-se da fixação prévia de parâmetros operacionais e de desempenho.
Nesse contexto, antes de promover quaisquer mudanças nas normas contábeis, o BACEN precisa capacitar o pessoal interno para que este esteja apto a acompanhar e supervisionar as ações que são tomadas pelas instituições financeiras.
Nesse sentido, o DENOR23 ressaltou que uma das preocupações do regulador é adequar o prazo para adaptação e treinamento tanto do pessoal interno quanto dos preparadores das demonstrações contábeis. Outra preocupação é quanto aos custos incorridos em função das mudanças nas normas (sistemas, treinamentos, priorização de mudanças regulatórios em relação a outros projetos da instituição, entre outros).
Sendo assim, o BACEN fará uma uniformização gradual às normas internacionais.
A primeira etapa iniciou-se em 2006, pelo Comunicado n.º 14.259, com meta estipulada para convergência em 2010:
Dentro do horizonte do projeto, inclusive na fase de diagnóstico, o Banco Central do Brasil, a exemplo do que já vem desenvolvendo nos últimos anos, adotará os procedimentos necessários para atingir os objetivos de convergência, de modo a que as normas para a implementação em 2010 sejam editadas com a maior brevidade possível.
Por meio da Resolução n.º 3.786 de 2009, o BACEN cumpre essa meta e torna obrigatória a elaboração e publicação de demonstrações contábeis
23
consolidadas em IFRS, para as instituições financeiras, a partir de 31 de dezembro de 2010.
Art.1º As instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil, constituídas sob a forma de companhia aberta ou que sejam obrigadas a constituir comitê de auditoria nos termos da regulamentação em vigor, devem, a partir da data-base de 31 de dezembro de 2010, elaborar e divulgar anualmente demonstrações contábeis consolidadas adotando o padrão contábil internacional, de acordo com os pronunciamentos emitidos pelo International Accounting Standards Board (IASB), traduzidos para a língua portuguesa por entidade brasileira credenciada pela International Accounting Standards Committee Foundation (IASC Foundation).
Parágrafo único. O disposto no caput também se aplica à instituição constituída sob a forma de companhia fechada, líder de conglomerado integrado por instituição constituída sob a forma de companhia aberta.
As instituições que se enquadram nas características estipuladas pelas normas elaboraram, a partir do exercício findo em 31 de dezembro de 2010, demonstrações contábeis consolidadas, integralmente, de acordo com as normas do IASB, traduzidas para o português por entidade credenciada (Ibracon). As demais entidades brasileiras, no entanto, utilizam-se dos pronunciamentos do CPC.
As demais instituições que não foram englobadas no escopo da Resolução nº 3.786 de 2009 também participaram do processo de convergência, uma vez que o BACEN aprovou, através de emissão de normativo próprio, os CPCs 01 Redução ao Valor Recuperável de Ativos, 03 Demonstração dos Fluxos de Caixa, 05 Divulgação sobre Partes Relacionadas e 25 Provisões, Passivos Contingentes e Ativos Contingentes (vide Quadro 3 Lista de Pronunciamentos Aprovados pelo BACEN em 31/12/2010).
Nesse contexto, as instituições financeiras que não estavam obrigadas a seguir a Resolução n.º 3.786 de 2009 devem estar em conformidade com o que determina os normativos que regem a consolidação das demonstrações contábeis das instituições financeiras autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil, relacionados a seguir:
A Circular n.º 1.273 de 1987, que consolida o COSIF, e contempla na seção 21 Consolidação Operacional das Demonstrações Financeiras as seguintes definições:
21.1.1 - A consolidação operacional das demonstrações financeiras resulta da utilização de técnica apropriada que visa apurar informações contábeis de duas ou mais instituições integrantes de conglomerado financeiro, como se em conjunto representassem uma única entidade.
21.1.2 – Conceitua-se como conglomerado, para fins de atendimento ao disposto nesta seção, o conjunto de entidades financeiras vinculadas diretamente ou não, por participação acionária ou por controle operacional efetivo, caracterizado pela administração ou gerência comum, ou pela atuação no mercado sob a mesma marca ou nome comercial.
Resolução n.º 2.723, de 31 de maio de 2000 e alterações dadas pela Resolução n.º 2.743, de 28 de junho de 2000.
Essas Resoluções determinam procedimentos de participação societária por parte de instituições financeiras e regulamenta a elaboração das demonstrações contábeis consolidadas para todas as instituições supervisionadas pelo BACEN, que detenham, direta ou indiretamente, isoladamente ou em conjunto com outros sócios, inclusive em função da existência de acordos de votos, direitos de sócio que lhes assegurem, isolada ou cumulativamente (Resolução n.º 2.723, art. 3º, I/IV; Resolução n.º 2.743, art. 1º):
a) preponderância nas deliberações sociais;
b) poder de eleger ou destituir a maioria dos administradores;
c) controle operacional efetivo, caracterizado pela administração ou gerência comum; e
d) controle societário representado pelo somatório das participações detidas pela instituição, independentemente do percentual, com as de titularidade de seus administradores, controladores e empresas ligadas, bem como aquelas adquiridas, direta ou indiretamente, por intermédio de fundos de investimento.
O parágrafo 1º da Resolução n.º 2.743 determina ainda que, na elaboração das demonstrações de forma consolidada, devem ser incluídas, ainda que não haja participação societária, as instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil, vinculadas por controle operacional efetivo, caracterizado pela administração ou gerência comum ou pela atuação no mercado sob a mesma marca ou nome comercial.
COSIF 1.11.2 e Resolução n.º 3.619 de 30 de setembro de 2008.
Traz o conceito de coligada como sendo investimentos no país ou no exterior onde a investidora participa com 20% ou mais do capital votante ou detém influência
De acordo com o COSIF, os investimentos em sociedades coligadas devem ser apurados pelo método de equivalência patrimonial e devem abranger períodos uniformes.
As informações dos investimentos em coligadas devem estar descritas em notas explicativas.
Circular BACEN n.º 2.984, de 15 de junho de 2000.
Determina o envio ao BACEN do documento CADOC 4050 com posição contábil mensal (balancete) do CONEF.
O CONEF é um relatório consubstanciado pelo COSIF 1.32, que estabelece a consolidação das demonstrações financeiras incluindo a participação em empresas de qualquer ramo de atividades, localizada no país ou no exterior, em que a investida detenha direta ou indiretamente (por meio de outras controladas) isoladamente ou em conjunto com outros sócios, direitos que lhe assegurem: (i) preponderância nas deliberações sociais; (ii) o poder de eleger ou destituir a maioria dos administradores; (iii) o controle operacional efetivo, caracterizado pela administração ou gerência comum; (iv) o controle societário.
Segundo o Diagnóstico da Convergência às Normas Internacionais24, o
CONEF exige que haja participação acionária ao se referir “às participações em empresas”.
Verifica-se que as instituições financeiras que participam do CONEF e que se enquadram na Resolução nº 3.786 de 2009 foram por força de Lei obrigadas a elaborar a demonstração contábil individual, a demonstração contábil do conglomerado financeiro, a demonstração contábil do CONEF e as demonstrações contábeis consolidadas de acordo com os padrões contábeis internacionais (IFRS).
Resolução n.º 3.750 de 30 de junho de 2009.
Estabelece critérios e condições para a divulgação, em notas explicativas, de informações sobre partes relacionadas por instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo BACEN, de acordo com o Pronunciamento CPC 05.
Este trabalho busca demonstrar que, ainda com a nova literatura contábil trazida pelo CPC 36(R2), um grupo econômico de entidades sob o controle da
24 Diagnóstico da Convergência às Normas Internacionais para o IAS 27, emitido em 2006, disponível em
controladora, formado por entidade de capital aberto, fechado, ou sociedade limitada, passaram a ter a obrigatoriedade de divulgar demonstrações financeiras consolidadas, exceto se os requerimentos permitidos pelo parágrafo 10 do CPC 36 (R2) forem atendidos, há um grupo de empresas que não estão obrigadas a elaborar e divulgar demonstrações contábeis consolidadas. Trata-se de grupos econômicos formados por entidades cuja controladora está localizada no exterior, sem elo societário entre as entidades no Brasil.