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2.5 İskemi Reperfüzyon Hasarı

2.5.1 Serbest Oksijen Radikalleri

Nenhum assunto ocupou maior atenção dos homens do Império naqueles últimos anos de regime monárquico do que o sistema servil. A escravidão era a contradição mais essencial da sociedade brasileira, uma vez que a sua autoimagem, projetada pelas velhas elites, especialmente sobre os vizinhos, traziam no Império a ideia de civilização e luzes. O fim da Guerra do Paraguai trouxe uma nova fase nas questões abolicionistas, e sua luta contra “o cancro que roía as entranhas da sociedade brasileira”, como bem definiu José Bonifácio. (CARVALHO, 2007, p.130)

Desde a Guerra de Secessão Americana, o Imperador já havia demonstrado interesse em resolver a questão escravista, ao menos sobre os filhos de escravos nascidos no Brasil. A tese sustentada pelos defensores da alternativa gradual de eliminação da mão-de-obra escrava residia no argumento de que controlando e eliminando a vinda de novos cativos para o Brasil, com a posterior iniciativa do ‘Ventre Livre’, a prática se erradicaria naturalmente. Seria uma forma de conter os movimentos abolicionistas que passaram a cada vez mais encampar a sua luta no cenário político Imperial.

Para a diplomacia era grande o desafio. A pressão vinha de importantes setores da opinião pública interna, além das pressões externas originadas especialmente pela Inglaterra e no final da década de 1880 da Santa Sé. Incapaz de evitar as consequências da manutenção da escravidão, coube à diplomacia o papel naquelas duas décadas de potencializar qualquer avanço rumo à abolição e ao mesmo tempo trabalhar para garantir que não faltasse mão- de-obra. Em mais um caso, a face Universalista externa deveria agir para garantir e solucionar as demandas internas.

Por ocasião da promulgação da lei de reforma servil, pela Lei nº2040 de 28 de Setembro de 1871, a ‘Lei do Ventre Livre’31, o Império recebeu diversas

congratulações por parte das legações estrangeiras e consulados, que felicitaram por haver adotado uma tão importante reforma econômica e social, algo que “não podia deixar de ser acolhida com satisfação pelas nações civilizadas”. Aproveitando a oportunidade, as legações brasileiras na Europa e na América manifestaram a satisfação que causou ao Império a realização de uma medida tão importante para o futuro do Brasil. (RRNE, 1871, p.28)

Foram muitas as trocas de ofícios e notas oficiais congratulando o Império pelo avanço na emancipação, demonstrando a pluralidade das relações do Brasil naquele momento. Dentro os principais foram: a Santa Sé, Portugal, Estados Unidos, França, Rússia, Alemanha, Itália, Bélgica, Áustria, Espanha, Peru, Uruguai, Chile, Argentina, Países Baixos, Suécia, Noruega, Baviera, Dinamarca, Suíça e Bolívia.

O conteúdo pouco variou entre elas, que de forma sintética se mostravam extremamente alegres com a iniciativa do país estar lidando com tamanho problema. A Legação portuguesa, por exemplo, felicitou o Império por ser “de agora em diante livres todos os que nascerem nas terras de Santa Cruz”, e dessa forma elevando o país no conceito de “todos os povos cultos”.32 O

representante alemão, Hermann Haupt, ressaltou o fato de o Brasil ter resolvido pacificamente e espontaneamente uma questão, que “tem custado a outros países rios de sangue e profundos abalos”.33 O encarregado Thomaz Clement

Cobbold, da Grã-Bretanha, ressaltava que a promulgação daquela lei contribuiria para fortalecer os laços de amizade entre os dois povos, em clara alusão à histórica requisição britânica para que o Império acabasse com a instituição

31 Art.1º - Os filhos da mulher escrava, que nasceram no Império desde a data desta lei, serão

considerados de condição livre. Lei nº2040 de 28 de Setembro de 1871.

32 Nota de S. Magestade Fidelissima de Portugal ao Governo Imperial, 28/08/1871. 33 Nota da Legação da Alemanha ao Governo Imperial, 30/09/1871, RRNE, 1871.

escravocrata.34 (RRNE, 1871, Anexo I, p.402-412) O governo Imperial fez questão de responder a todos com o agradecimento devido e trabalhou para potencializar o prestígio externo conquistado com essa medida.

Internamente, não obstante, a Lei do Ventre Livre mostrava-se tacanha perto das pretensões dos abolicionistas e setores da sociedade favoráveis a abolição imediata. As maiores críticas versavam sobre seu dispositivo legal que respeitava o princípio de inviolabilidade do domínio do senhor sobre o escravo, além de efetivamente ter proporcionado um avanço questionável. (NABUCO, 2000, p.3-6) Após período de apatia sobre o assunto, o movimento abolicionista fundou em setembro de 1880 a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, com participação ativa de Joaquim Nabuco, que faria dessa a maior luta de sua vida.

O declínio da população escrava, apesar de ainda não estar emancipada como gostariam os grupos abolicionistas, era perceptível. Em 1874, a população escrava no Brasil era de 1.540.829; em 1884 eram 1.240.806, e em 1887, ou seja, nos últimos momentos antes da abolição, a população era de 723.419. O aumento dos preços dos escravos e a falta que sentiam as áreas cafeeiras da região Sudeste, especialmente São Paulo, de mão-de-obra para a produção rural fizeram com quem houvesse uma procura enorme por alternativas além da escravista. Ainda assim, contrariando o movimento geral de praticamente todas as regiões brasileiras, São Paulo passou a usar cada vez mais desse tipo de força de trabalho, sendo que no período de 1874, com 80.000 escravos, a província passa a 107.329 pouco antes da Lei Aurea. (REIS, 2000, p.91)

A sensação geral de que a manutenção da escravidão seria temporária e que a solução de trazer escravos de outras regiões do país era apenas paliativa, levaram os fazendeiros de café e seus representantes no governo a pensar seriamente a partir dos anos 1870 e 1880 em uma alternativa viável para a agricultura do Império. A preferência notória sempre foi pela mão-de-obra europeia, especialmente pelos laços civilizatórios e pelas teses carregadas de um

grande componente racista, onde predominaria a ideia de transformar a população negra em branca por meio da imigração. Não era essa a primeira iniciativa, sendo que elas remontam desde os primeiros anos do Império, contudo, por conta da distância, da língua e o caráter exótico, o potencial imigrante não se sentia tentado a se aventurar no Brasil.

Apesar das dificuldades, a crise europeia e a mudança nas matrizes econômicas auxiliou o Império na recepção de estrangeiros a procura de uma melhor oportunidade de vida. O grande problema é que a quantidade de imigrantes ainda era incipiente para compensar as dificuldades em substituir a mão-de-obra escrava, e até a década de 1880, São Paulo, o maior polo de necessidade de braços para a lavoura, só havia recebido algumas centenas de imigrantes ao ano. (IBGE, 1960)

A Repartição dos Negócios Estrangeiros foi mobilizada para auxiliar na empreitada. Em 1872, o regulamento consular preocupado com a atração cada vez mais necessária de imigrantes e recomendava que os Cônsules se esmerassem em indagar se havia “pobres robustos, trabalhadores e diligentes no serviço, entre criados de servir, lavradores, ferreiros, carpinteiros, pedreiros e mais ofícios mecânicos dispostos a emigrar.” (CASTRO, 2009, p.146)

As grandes dificuldades não paravam por ai. Teve a diplomacia Imperial de lidar com inúmeros casos problemáticos que comprometeriam a já complicada imigração ao Brasil. Em um deles, a Legação alemã, por nota de 28 de Abril de 1872, protestou contra o fato de um padre católico ter casado duas mulheres alemãs da colônia de Santa Leopoldina mesmo sabendo que elas eram casadas com protestantes. O assunto foi levado ao Conselho de Estado e seu parecer foi: Primeiro - Que o sacerdote católico, pelo fato de conferir matrimônio, violou os cânones aceitos no Brasil, e, além disso, incorreu em criminalidade, não podendo, contudo, ser processado senão por queixa dos ofendidos; Segundo - Que as ditas alemãs cometeram poligamia, e podiam ser processadas mediante ação pública ou particular; Terceiro - Convinha chamar atenção aos bispos brasileiros para os inconvenientes de ordem pública, que poderiam acarretar fatos

semelhantes, comprometendo inclusive a imigração alemã ao Brasil. (RRNE, 1873, p.45-46)

Outros problemas se seguiram. Em agosto de 1875, uma circular do Governo da França publicou um ato proibindo a imigração para o Brasil, por necessidade de proteger seus cidadãos contra abusos de alguns agentes de colonização. Poucos colonos franceses vinham ao Brasil, sendo a questão de importância moral, e talvez por isso muito maior do que parecesse à primeira vista. O problema aumentou quando em setembro de 1875 o Governo Italiano também tomou a mesma medida. A legação em Roma foi instruída a interceder sobre o caso e recebeu a resposta do que a imigração era livre, mas a medida era destinada apenas a impedir abusos por parte de agentes de imigração. Pouco depois houve mudança de ministério na Itália, e o novo Ministro do Interior expediu outra circular, substituindo a primeira por uma série de dispositivos para prevenir abusos, mas respeitando o direito de imigração a todos os italianos.

Entre esses e outros problemas, o relativo insucesso na atração de imigrantes europeus durou até a abolição da escravidão, incitando o Governo Imperial a considerar a importação de força de trabalho chinesa. A prática não era nova, já que naquela mesma época os Estados Unidos faziam uso do mesmo expediente, os chamados coolies, trazidos para a construção das grandes linhas ferroviárias que deviam unir as duas costas. Na América do Sul a prática não era novidade, uma vez que o Peru também havia recorrido a essa saída. Pelo porto de Callao, entre 1850 e 1874, haviam entrado no país um total de 87.952 trabalhadores chineses, mais de um quarto dos quais, 25.303, chegaram ao país no biênio de 1871-1872. (BONILLA, 2001, p.556-557)

Em 1880, ao custo de 120 contos de réis especialmente alocados na ocasião, decidiu-se enviar uma missão diplomática especial à China. (ALMEIDA, 2001, p.364) Na esfera interna, longos foram os debates sobre o assunto. O alto custo da missão à China e as disputas acerca da imigração levaram a apaixonados debates nas tribunas parlamentares. O grande adversário da proposta era Joaquim Nabuco, e mais tarde, Alfredo d’Escragnolle Taunay, sendo

o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Antônio Moreira de Barros, o principal defensor da empreitada.

A oposição à imigração chinesa contava com algumas das maiores inteligências da época, que souberam combatê-la com grande veemência, dissuadindo as diversas vozes no confronto de ideias do Parlamento. Os argumentos eram de várias naturezas: políticos, econômicos, históricos, biológicos e até mesmo racistas. (CERVO, 1981, p.178-180) Em um dos momentos de maior exaltação, na sessão do dia 3 de Setembro de 1879, Nabuco afirma que:

Perguntei em primeiro lugar se os chins eram reclamados pela lavoura e provei que não. A lavoura do Norte não os quer, a lavoura do Sul não os pediu. Mas, sendo os chins reclamados pela lavoura, serão eles convenientes? Não, por muitos motivos: etnologicamente, porque vêm criar um conflito de raças e degradar as existentes no país; economicamente, porque não resolvem o problema da falta de braços; moralmente, porque vêm introduzir na nossa sociedade essa lepra de vícios que infesta todas as cidades onde a imigração chinesa se estabelece; politicamente, afinal, porque, em vez de ser a libertação do trabalho, não é senão o prolongamento, como até disse o nobre ministro, do triste nível moral que a caracteriza e a continuação ao mesmo tempo da escravidão. (NABUCO, 2010, p.241)

Nabuco após uma série de antagonismos nos discursos, ao mesmo tempo exalta e rebaixa os povos asiáticos, apelando às leis da evolução das espécies, e conclui que se viessem os chineses, aos poucos iriam dominar a civilização ocidental, transformando-a em uma civilização imóvel e asiática. O medo de que a lógica de escravidão se reconstituísse também estava na sua tese, uma vez que vários chineses que foram para Cuba, Peru e Hong Kong tinham contratos que se assemelhavam ao sistema escravista. Moreira Barros foi à tribuna e refutou as ideias de Nabuco, que por vezes subiu a tribuna para defender-se. Ainda assim, o crédito para a viagem foi aprovado, mesmo sob fortes protestos de vários setores políticos.

Com os valores disponíveis para a viagem, a delegação estava incumbida de propor, negociar e concluir um tratado de amizade, comércio e

navegação com a China. Além disso, havendo possibilidade, se atentasse também a demanda crescente por imigrantes de trabalhadores agrícolas, cada vez mais escassos depois das últimas reformas no trabalho escravo. Para este fim foram nomeados em caráter de enviados extraordinários o ministro plenipotenciário Eduardo Callado, então ministro residente no Paraguai, e o Chefe de Divisão Arthur Silveira da Motta.

Um primeiro acordo com a China foi firmado em 5 de Setembro de 1880, que os brasileiros aceitariam, se não fosse possível realizar mais algumas alterações. A tentativa que se fazer novas negociações foi bem sucedida em quase todos os pontos submetidos à revisão, e o novo tratado então foi aprovado e assinado em 3 de outubro de 1880, pelo representante brasileiro Callado. Estava prevista a promulgação para alguns meses após ter sido assinado e aceito, uma vez que por conta da grande distância, a demora tornava-se inevitável. Na segunda fase da negociação, o governo pode corresponder-se com o representante brasileiro pelo telégrafo.

O tratado foi finalmente promulgado pelo decreto nº8651 de 24 de Agosto de 188235 e tinha como os principais artigos: 1º Tratado afirmava que haveria paz perpétua e amizade entre os Impérios do Brasil e da China, além de estar livre de um para outro o transito de súditos, inclusive para residência; 2º Para facilitar as relações dos dois Estados, ficaram acertados que se julgasse conveniente, os dois poderiam trocar nas respectivas capitais representantes diplomáticos, gozando dos dois lados de todas as prerrogativas, isenções e imunidades concedidas aos agentes diplomáticos; 3º A troca de consulados para os portos e cidades mais importantes também estaria resguardada; 4º e 5º O trânsito e o comércio poderiam ser efetuados por súditos dos dois países, conforme regras pré-estabelecidas; 6º Os súditos e navios mercantes das duas nações contratantes ficariam sujeiras, nos portos abertos da outra, aos

35 Tratado de amizade, commercio e navegação celebrada entre o Brazil e a China em 03/10/1881

regulamentos comerciais em vigor, ou que pudesse vir a vigorar. (RRNE, 1882, Anexo I, p. 41-52)

Além disso, os súditos dos dois países não seriam obrigados a pagar imposto de importação ou exportação mais elevada do que pagavam os súditos da nação mais favorecida; Artigo 7º Os navios de guerra de cada um dos dois Estados seriam admitidos nos portos do outro, e seriam tratados no mesmo pé que os da nação mais favorecida. Os comandantes dos navios de guerra brasileiros, na China, tratariam em pé de igualdade com as autoridades locais; 9º Os brasileiros na China que tivessem qualquer motivo de queixa contra algum chinês, deveriam se dirigir-se ao cônsul brasileiro. Se um chinês tivesse alguma reclamação contra um brasileiro na China, deveria o cônsul brasileiro ouvi-lo e esforçar-se por fazê-los chegar a um acordo amigável. 10º Os súditos brasileiros, na China, que cometessem algum crime contra súditos chineses, seriam presos pela autoridade consular e punidos pelas leis brasileiras. Os súditos chineses que fossem culpados de um ato contra brasileiros na China, seriam presos e punidos pelas autoridades chinesas. Em regra geral, todo o processo civil ou criminal na China, deveria ser julgado em conformidade com as leis e pelas autoridades da nação a que pertencia o réu acusado. Se, na China, qualquer súdito chinês fosse autor ou cumplice contra algum súdito brasileiro, a autoridade chinesa informaria o fato a autoridade consular brasileira e ambas nomeariam agentes para a captura dos criminosos, os quais não poderiam ser protegidos ou ocultados. 13º Os súditos chineses no Brasil teriam livre acesso aos tribunais e justiça, ficando sobre as regras brasileiras, e gozariam dos direitos e privilégios da nação mais favorecida. (RRNE, 1882, Anexo I, p. 41-52)

O Brasil fazia seu tratado desigual, típico do período e extremamente semelhante àqueles que as potências centrais impunham a diversos Estados ao redor do mundo, conforme foi mencionado na introdução. O episódio, um dos mais coloridos e interessantes do período, deixa com contornos claros as justificas para o argumento do sentido Universalista da conduta internacional.

O grande objetivo da negociação, que era a introdução de trabalhadores no Brasil em benefício da agricultura não foi alcançado diretamente. Apesar dos esforços dos representantes brasileiros, houve grande resistência do Governo Chinês, contudo, havia fé na capacidade do artigo 1º do tratado, que versava sobre a capacidade dos súditos dos dois países contratantes poderem ir de um Estado para outro residir, pudesse indiretamente ter o efeito esperado.

Ainda assim, a imigração pretendida não foi alcançada, sendo considerada a missão um total fracasso para uma parcela dos deputados. Não se pode, porém, atribuir total perda de tempo à missão brasileira na China, uma vez que à resistência se deu por conta dos líderes chineses estarem àquela altura sensibilizados com as campanhas de difamação contra os seus imigrantes. Por isso, tomaram a defesa de seus súditos e não aceitaram o acordo, apesar de ter conseguido garantir a abertura dos portos brasileiros ao comércio e a imigração voluntária chinesa. (CERVO,1981, p.184-187) A imigração chinesa foi apenas esporádica nos momentos derradeiros do Império, ainda que a imigração europeia, especialmente portuguesa, italiana e alemã tenham aumentado substancialmente.

Por fim, ainda faltava dar o último golpe na escravidão e destruir a instituição escravista. Durante esse período, o Imperador teve de viajar à Europa para tratamento médico, e em 1887, deixou a regência para sua filha Isabel. Notoriamente favorável à abolição e uma católica fervorosa, fizeram com que Joaquim Nabuco, um dos mais notáveis abolicionistas, políticos do Império e ferrenho opositor da mão-de-obra chinesa, fosse por intermédio de amigos em Londres visitar o Papa Leão XIII e solicitar uma Encíclica36 de condenação à

escravidão.

Nabuco sempre lastimou a neutralidade do clero perante a escravidão. A sua esperança, e do partido abolicionista, só reacenderam quando por ocasião do jubileu de Leão XIII, a Igreja publicou cartas convidando os seus diocesanos a

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oferecer como dádiva ao Santo Padre cartas de liberdade aos escravos. Ele sabia que recorrer ao Papa inspiraria mais do que qualquer outra coisa a Princesa Isabel a realizar o projeto de finalmente acabar com a instituição escravista, além de considerar legítimo o uso da opinião pública mundial como arma contra esta. Com cartas de apresentação assinadas pelo cardeal Manning, obtidas por seus colegas da Anti-Slavery Society e Mr. Lilly, da União Católica Inglesa, foi recepcionado pelo Pontífice. (NABUCO, 1963, p.222-224)

Em seu diário do dia 10 de Fevereiro de 1888, Nabuco escreveu:

Hoje, o Papa recebeu-me em audiência particular e conversou cerca de uma hora comigo, prometendo-me publicar brevemente a sua Encíclica aos bispos brasileiros contra a escravidão (...) Não vi a mínima vacilação no seu espírito a respeito do modo de pronunciar-se na questão. Interrogou-me sobre as disposições do governo, dos partidos, da família Imperial, dizendo mais de uma vez: ‘Quando o Papa falar, [os católicos] hão de obedecer’(NABUCO, 2006, p.258)

Leão XIII prometeu que publicaria a Encíclica o mais breve possível, mas Nabuco esperava que fosse divulgado antes da abertura do Parlamento Imperial em Maio, o que não se concretizou por pressões de Cotegipe junto ao Vaticano. Apesar de tentar ao máximo protelar a publicação do conteúdo da Encíclica, seu conhecimento se tornou público e contribuiu para a abolição da escravidão, pela Lei Áurea de 13 de maio 1888.

A Princesa Izabel explicitava a importância do momento para a história do país na Fala do Trono, em 3 de Maio de 1888:

Quando o próprio interesse privado vem espontaneamente colaborar para que o Brasil se desfaça da infeliz herança, que as necessidades da lavoura haviam mantido confio que não hesitareis em apagar do direito pátrio a única exceção que nele figura em antagonismo com o espirito cristão e liberal das nossas instituições. Mediantes providências que acautelem a ordem na transformação do trabalho, apressem pela imigração o povoamento do país, facilitem as comunicações, utilizem as terras devolutas, desenvolvam o crédito agrícola e a aviventem a indústria nacional, pode-se asseverar que a produção sempre crescente, tomará forte impulso e nos habilitará a chegar mais rapidamente aos nossos auspiciosos destinos.(FALAS DO TRONO, 1977, p. 504)

Terminada a escravidão, a grande maioria dos imigrantes, 60% em 1888/1889, eram de italianos em São Paulo, que colhia os benefícios por estar desde a metade da década de 1880 subsidiando as passagens. O Censo de 1890 mostrava uma população de 22% de estrangeiros em São Paulo, a maior parte de italianos, usados em grande escala na produção do café. Assim, os anos finais do

Benzer Belgeler