Goiabeiras corresponde à fase mais recente de expansão populacional da orla marítima oeste. A partir da organização da população que em ações espontâneas ocupou a área por necessidade de moradia surgiram aos poucos e com a ajuda de órgãos não governamentais e governamentais conjuntos populacionais, uma tímida tentativa de planejamento urbano, que deu ao bairro ao longo dos anos um perfil mais ou menos ordenado. Pode se ter uma ideia de como ocorreu a ocupação nessa área e como foi organizada através de uma pesquisa promovida em 1994 pela ONG CEARAH PERIFERIA24
que na época atuava em Fortaleza em parceria com duas ONGs estrangeiras da França e da Alemanha e de documentos do arquivo do MDVGA a associação da comunidade de Goiabeiras o Movimento em Defesa da Vida dos Moradores de Goiabeiras e Adjacências (MDVGA).
A ocupação dos terrenos que hoje formam a comunidade de Goiabeiras remonta ao ano 1986 e é consequência do excesso de chuvas ocorrido no final de 1985 e da seca em 1986 que fez “milhares de famílias abandonarem suas terras e fugir para Fortaleza” (arquivo MDVGA, 1995) e que deixou outras já residentes na cidade desabrigadas, pessoas provindas dos arredores que vivem em situação precária e desumana por causa das enchentes e se organizam em busca de uma solução. Uma congregação de irmãs que atua na área (Filhas de São Vicente de Paula) incentiva e apóia as famílias na sua organização, a Defesa Civil ajuda com alimentos. Junto às pessoas iniciam a luta pela terra e saem em busca de um terreno adequado para abrigar-se, encontrando-o quase no final da Leste-Oeste. A data dois de janeiro de 1986 marca o dia da ocupação do território pelos desabrigados, retirantes da seca e vítimas das enchentes, que logo erguem barracas de lona para assegurar a posse dos terrenos.
Sem alternativa de moradia, o objetivo principal das pessoas é conseguir a desapropriação do terreno ocupado. Vários órgãos governamentais são contatados pelas
24 O Centro de Estudos, Articulação e Referência sobre Assentamentos Humanos – CEARAH Periferia – é uma organização não governamental sem fins lucrativos, criada em 1991, que atua principalmente em Fortaleza e Região Metropolitana (CE-Brasil). Filiado à Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e membro do Conselho Nacional das Cidades. Seu principal objetivo é o apoio ao Movimento Popular Urbano em suas lutas, visando a melhoria das condições de vida nos assentamentos humanos por meio do desenvolvimento e fortalecimento de ações coletivas no âmbito da habitação, geração de renda e capacitação de lideranças comunitárias. Considera como temas orientadores de sua ação o meio ambiente, as relações de gênero e raça e a economia popular. Para a realização de seus projetos, o CEARAH Periferia conta com uma equipe multidisciplinar formada por sociólogos, assistentes sociais, pedagogos, arquitetos e pesquisadores populares. http://www.cearahperiferia.org.br/pagina-exemplo/, acessado em 2014.
famílias em busca de respostas. Manifestações e caminhadas são promovidas e as pessoas passam dias inteiros aguardando serem atendidos passando fome e todo tipo de privações.
Encontros são promovidos pela Arquidiocese de Fortaleza juntando órgãos governamentais e não governamentais, Igreja católica, bancos e desabrigados em busca de uma solução. A então prefeita de Fortaleza, Maria Luiza (PT), visita a área e logo depois promove a desapropriação da área. A Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza assume o pagamento da desapropriação realizada, porque a Prefeitura está passando por dificuldades financeiras. Através de uma campanha no exterior o então bispo de Fortaleza, Dom Aloísio Lorscheider, junto à Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza e a Cáritas suíça, consegue recursos para a construção de 198 casas a serem construídas no terreno já ocupado na praia das Goiabeiras.
Parte da praia de Goiabeiras foi então ocupada por uma duzentas famílias que montaram ali suas barracas de lona e papelão. Em 1987 a Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza iniciou um processo de conscientização e organização dessas famílias. Um ano depois foi celebrada uma primeira vitória: a construção de um conjunto habitacional de 198 casas de alvenaria. As famílias beneficiadas construíram suas próprias casas com a ajuda das Cáritas européias, a Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza adquiriu o material de construção e a Prefeitura Municipal de Fortaleza assumiu o acompanhamento técnico e jurídico. Durante e depois do mutirão, porém, surgiram mais centenas de casebres de plástico, taipa ou papelão para abrigar famílias sem teto. Por isso sobrou quase nada da praia de Goiabeiras. Hoje a área de Goiabeiras prece uma grande favela (Projeto solicitando recursos para a construção de uma capela na comunidade de Goiabeiras, arquivo MDVGA1995).
Em uma pesquisa realizada em 1995 o MDVGA, que recolhe dados sobre a história da ocupação através de depoimentos dos moradores da área, lembra o sofrimento vivido pelos ocupantes do acampamento da futura comunidade de Goiabeiras.
A vida nas barracas de lona é lembrada como um período de muito sofrimento. Maria Silva conta que as famílias passavam, praticamente, o dia todo do lado de fora das barracas devido ser quente e abafado e que só entravam nas barracas o tempo necessário para organizar uma refeição. Além do calor, enfrentam o problema da falta de segurança e o sofrimento das crianças como fome, doenças, maus tratos etc. (Diário de campo MDVGA, 1995)
Dona Adelaide, moradora da Barra do Ceará que reside no local desde 1975, anterior às ocupações ocorridas, lembra do tempo em que os ocupantes puderam deixar as tendas e se tornaram donos de casas:
Estes ocupantes sofreram bastante debaixo de barracas de lona, fome e bicho de pé, até que chegasse um filho de Deus que comprasse o terreno. Ai chegou a época da Prefeita Maria Luiza que desapropriou as terras, mas não pagou. Então foi assinado novo contrato e a Cáritas da Suíça pagou. A população começou a construir casas
em mutirão e em 1987, eles ocuparam as casas. Até hoje eles ainda sofrem com a falta de água, calçamento, esgoto e emprego. (Entrevista MDVGA, 1995)
No início de 1987 após tanta luta é iniciada a construção das casas em mutirão. São construídas 186 casas que se tornam o conjunto “Vila Nova” que mais tarde levará o nome de comunidade das Goiabeiras25. Em 1988 o conjunto conta com uma creche
comunitária e duas associações em conflito entre si.
Quatro anos após a ocupação os moradores reclamam a falta de segurança e o aumento da violência. Chegam alguns postes de iluminação pública, mas continua faltando energia em muitas ruas. A COELCE corta muitas ligações clandestinas. O acesso à água de poço se torna fácil. Surge uma escolinha comunitária não registrada. O primeiro salão comunitário é construído pela Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza.
Em 1991 os moradores ainda reclamam de falta de saneamento básico, de coleta de lixo, de água tratada, de pavimentação, das enchentes e do acúmulo de doenças provocado por essa precariedade. Nesse ano também é construído o primeiro chafariz na Rua da Alegria.
Em 1992 chegam os primeiros telefones comunitários e a coleta de lixo organizada. Os correios aceitam oficialmente os nomes das ruas. A Comunidade Eclesial de Base (CEB) São Pedro de Goiabeiras, constrói a casa de encontro, o “Amanhecer”, lugar que serve para as atividades e reuniões da comunidade e para a celebração de missas que antes aconteciam na rua. É criada a “Área Pastoral da Barra do Ceará”26, pela Igreja católica com o
padre morando na comunidade, um conjunto de seis capelas que existem em comunidades adjacentes entre elas Goiabeiras.
O ano de 1993 é marcado por uma grande seca e lembrado como o ano no qual muitos poços secaram, a Prefeitura mandava carros de pipa e o estado distribuía feijão. No dia sete de setembro a Área Pastoral da Barra do Ceará organiza a “Caminhada da Panela Vazia”, onde uma multidão de pessoas saiu manifestando contra a fome e o desemprego, levando panelas vazias e batendo nelas com colheres. Nessa época ainda existem muitas moradias precárias, sem água, sem energia e ruas sem drenagem e pavimentação como na duna que abriga até os dias de hoje uma favela.
25 Nome dado ao lugar pelo fato de antigamente essa árvore ocupar grande parte da área, segundo depoimentos de moradores da área.
26 Uma Área Pastoral é uma organização funcional e pastoral de algumas comunidades eclesiais de base numa determinada área que supera o centralismo da estrutura paroquial tradicional e que respeita e fortalece a especificidade e a autonomia de cada comunidade membro. A Área Pastoral da Barra do Ceará era composta por seis comunidades que a partir de 2011 se tornaram uma paróquia com estrutura centralista tradicional.
Figura 01: A marcha pela panela vazia encontra ouvido na mídia. Fonte: Arquivo MDVGA, 1993.
Em 1994 surge o Movimento em Defesa da Vida de Goiabeiras e Adjacências, associação de moradores da comunidade de São Pedro-Goiabeiras27, que traz o treinamento de
agentes de educação para futuros projetos de alfabetização de adultos financiados pela Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza. Ocorre a primeira vacinação na casa de encontros, consegue-se cursos profissionalizantes pelo PROGER, é elaborado um projeto de Farmácia Viva financiado pela Cáritas Regional. No dia sete de setembro a Área Pastoral organiza mais uma caminhada desta vez o tema é “Contra a impunidade em defesa da vida”. Nos dias 21 – 24 de setembro acontece o “Seminário Ambiental da Barra do Ceará” promovido por multiplicadores dos cursos de Entidades Comunitárias da área, capacitados dentro do programa SANEAR – Componente da Educação Ambiental, com a finalidade de estudar e aprofundar as questões ambientais da Barra e principalmente dos projetos do Governo para a
27 Uma das seis Comunidade Eclesial de Base que junto à outras cinco capelas formavam até pouco tempo a “Área Pastoral da Barra do Ceará” recentemente transformada em paróquia.
área. O MDVGA, entre outras organizações, se destaca pela sua presença permanente nas sessões do evento, assim como nos debates.
Através do MDVGA que assume o papel de elo entre a comunidade órgãos governamentais e não governamentais a comunidade consegue direitos básicos como rede de água e esgoto, projetos de educação e capacitação e cursos profissionalizantes. O MDVGA já representou a comunidade em inúmeros encontros e debates sobre o planejamento urbano e decisões políticas voltadas para a política habitacional e ambiental.