Como mencionamos, há pontos de vistas distintos sobre o que venha a ser a consciência fonológica. A princípio, pensava-se que ela correspondia à capacidade de reconhecimento dos sons que representavam a fala. Hoje, porém, está claro que essa habilidade de reconhecimento dos sons, é apenas uma das habilidades que compõem a consciência fonológica, esta, por sua vez, pode ser definida como um conjunto de habilidades que vão desde a sensibilidade de rimas ao reconhecimento dos fonemas. Na literatura específica, encontramos algumas definições que merecem destaque, para Moojen (2011, p. 10), “consciência fonológica é a capacidade de refletir sobre os sons da fala e manipulá-los”, a autora defende que a consciência fonológica consiste na consciência de sílabas, rimas, aliterações ou unidades intrassilábicas (ataque e rima) e fonemas. De acordo com ela, a consciência fonológica não deve ser entendida como uma entidade única, já que envolve um conjunto de habilidades que podem ser avaliadas e também desenvolvidas, através de atividades de reflexão e manipulação dos elementos sonoros da fala.
Apesar de haver divergências entre pesquisadores que estudam a consciência fonológica, especialmente no que se refere às relações existentes entre as habilidades que a compõem e a aquisição da leitura, como veremos (adiante), parece unânime entre eles o atributo
“conjunto” de habilidades. Múltiplas capacidades que se complementam de forma a contribuir
para uma tomada de consciência acerca das diferentes partes que compõem as palavras. Carvalho (2003, p.20) define a consciência fonológica como “a habilidade em refletir sobre e manipular as subunidades da língua oral, os fonemas, sílabas e palavras”. Para Alves (2012, p. 31), “a consciência fonológica envolve um entendimento deliberado acerca dos diversos modos
como a língua oral pode ser dividida em componentes menores e então manipulada”. O referido
autor salienta que a consciência fonológica é uma forma de reflexão, uma vez que corresponde ao conhecimento deliberado das unidades que compõem as palavras e da forma como esses elementos se organizam. Além disso, a consciência fonológica permite a manipulação das unidades sonoras, das quais podemos destacar o apagamento, a substituição, a inserção, entre outras habilidades que podem ser treinadas a partir de tarefas específicas de manipulação dos constituintes sonoros das palavras.
De acordo com Moojen (2011, p.11), “a aprendizagem do sistema alfabético da leitura e da escrita pressupõe a capacidade de reconhecer, decompor, compor e manipular os
sons da fala, o que corresponde à consciência fonológica”. Sobre a importância dos
conhecimentos fonológicos para a aquisição do sistema alfabético, Scliar-Cabral (2003) considera que o próprio sistema alfabético já pressupõe uma intuição fonológica, pois, bem ou mal os fonemas são representados pelas letras. A autora também destaca o caráter contínuo das representações dos fonemas e grafemas, na constituição das palavras, tanto na formação quanto na percepção das mesmas.
Esse caráter contínuo referido por Scliar-Cabral (2003), no que se refere à apropriação dos mecanismos linguísticos, também é apontado por Carvalho (2003, p. 41) que baseado na concepção de Poersch (1998), afirma que a consciência linguística se desenvolve ao longo de um processo continuum de conscientização, tal processo inicia-se nos primeiros anos da infância a começar por uma consciência nula, quando a criança começa empregar os mecanismos linguísticos para se comunicar, mas ainda não é capaz de refletir sobre os mesmos. Em seguida, perpassa por um nível de pré-consciência, em que já consegue fazer algumas analogias, comparações, ou seja, demonstra certa sensibilidade aos mecanismos linguísticos, entretanto, não consegue explicitá-los claramente. Por conseguinte, chega à consciência plena. Esta, por sua vez, caracteriza-se pela capacidade de reflexão, explicitação e produção consciente e intencional dos mecanismos linguísticos. Em relação à consciência fonológica, que é um dos níveis de consciência linguística, Carvalho (2003) aponta que
Ao investigarmos o desenvolvimento da consciência linguística ao nível fonológico (a consciência fonológica), esta será considerada nesses dois níveis de consciência: o nível da pré-consciência correspondente à sensibilidade fonológica (PréCons); e o nível da consciência plena relacionado à consciência fonológica plena (ConsPl) (CARVALHO, 2003, p.32).
É necessário destacar, que o estudo realizado por esse autor investigou alunos do jardim à primeira série do ensino fundamental, portanto, no grupo de pesquisa, certamente, havia alunos que ainda se encontravam no nível da pré-consciência. Embora concordemos com
o autor sobre tais níveis, por tratarmos, nesta pesquisa, somente de alunos de 5º ano, nosso foco foi a consciência fonológica no seu nível pleno, uma vez que acreditamos que todos os alunos já estavam nesse nível de conscientização, embora não dominassem algumas habilidades específicas.
Sobre a consciência fonológica no nível pleno, Carvalho (2003) informa que nesse nível, a linguagem passa a ser monitorada e, por conta disso, é possível fazer declarações explícitas sobre a própria linguagem, o que convencionamos chamar de metalinguagem, ou seja, uma linguagem sobre a própria linguagem. Isso ocorre por exemplo, quando a criança é capaz de formular declarações sobre a quantidade de sílabas ou fonemas de uma palavra, quando é capaz de identificar palavras que comecem ou terminem com o mesmo som, dentre outras habilidades.
Também merece destaque a classificação da consciência fonológica, segundo a ótica de Morais (1991), que diferencia consciência fonológica holística de consciência fonológica analítica. A primeira corresponderia a uma visão mais ampla dos mecanismos linguísticos. Nesse nível de consciência, os alunos classificariam as palavras de acordo com as similaridades, sem necessariamente realizar tarefas de segmentação. De posse de uma consciência analítica, os alunos já serão capazes de ir além da classificação por similaridade, pois conseguem, por exemplo, segmentar e representar os diversos componentes das palavras. Para Alves (2012, p. 32), “a consciência fonológica se caracteriza por uma grande gama de habilidades que, justamente por serem distintas e por envolverem unidades linguísticas também diferenciadas, revelam-se em momentos específicos da maturação das crianças”. Este autor também aponta para um contínuo da consciência fonológica, no qual pode ser identificada, primeiramente, a sensibilidade às rimas das palavras, em seguida a consciência da sílaba, depois a consciência das unidades intrassilábicas e, por fim, no outro extremo, a consciência fonêmica.
A sensibilidade às rimas das palavras, por ser uma habilidade relacionada a um nível mais holístico da consciência fonológica, e como mencionado anteriormente, tratamos do nível de consciência analítica, conforme Morais (1991) ou nas palavras de Carvalho (2003), consciência plena, adotamos, neste trabalho, a classificação da consciência fonológica em três níveis: consciência do nível da sílaba, consciência das unidades intrassilábicas e consciência fonêmica, embora saibamos que não há consenso sobre essa classificação.