O primeiro município pesquisado foi São Borja, sendo que o início desse processo se deu com a apresentação da proposta de estudo para os(as) profissionais do CREAS (coordenador(a), Assistente Social e psicólogos(as) no dia 18 de outubro de 2012. A partir daí, foram agendadas as primeiras visitas ao CREAS para a realização da pesquisa documental, ou seja, pesquisa nos documentos profissionais elaborados a partir do atendimento e acompanhamento dos casos de exploração sexual, como por exemplo: estudos sociais, relatórios de atendimento, relatórios psicológicos, prontuário social, ficha de anamnese, ofícios, boletins de ocorrência, relatórios do Conselho Tutelar, entre outros que se encontravam nas pastas das vítimas e familiares em atendimento ou que já haviam sido atendidas pelo CREAS desde o ano de 2010.
A leitura e registro das informações disponíveis nestes documentos, considerando o Roteiro de Análise documental iniciaram em 07 de novembro de 2012 e estendeu-se até março de 2013. A segunda etapa da coleta de dados consistiu na realização das entrevistas com os(as) profissionais do CREAS, sendo que estas ocorreram nos dias 19 de dezembro de 2012 e 25 e 26 de fevereiro de 2013. No que diz respeito à realização de entrevistas com adolescentes vítimas de exploração sexual, esta etapa não foi possível de realizar, tendo em vista que os/as adolescentes mantinham frequência irregular ou não compareciam nos atendimentos. Com relação ao não comparecimento de adolescentes nos atendimentos, profissionais destacam ser esta uma das dificuldades encontradas para a efetivação dos objetivos previstos pelo serviço, aspecto este que será melhor evidenciado posteriormente.
Como é possível observar, a coleta de dados no referido município levou praticamente quatro meses para ser concluída, o que não se justifica por dificuldades de agenda com a instituição. Esta, pelo contrário, sempre se demonstrou bastante disponível e interessada pela pesquisa. As dificuldades decorreram sim, dos limites encontrados pela pesquisadora no sentido de conciliar as demandas de trabalho junto a Universidade onde a mesma é docente com as demandas do processo de doutoramento.
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Para a realização da pesquisa documental, os(as) profissionais do CREAS inicialmente separaram todos os documentos referentes às situações de exploração sexual de adolescentes considerando o período compreendido entre os anos de 2010 e 2012, totalizando 14 casos. Estes estavam guardados em envelopes, sendo que alguns estavam ainda separados em dois envelopes distintos: os que haviam sido elaborados pela(o) Assistente Social e os que haviam sido elaborados pela(o) psicóloga(o)49. Com relação a isso, destaca-se a importância das instituições garantirem um espaço e condições adequadas para o arquivamento dos documentos profissionais elaborados a partir das demandas atendidas. Como é indicado nos Parâmetros para Atuação de Assistentes Sociais na Política de Assistência Social, sobre as condições físicas e técnicas de exercício profissional, “alguns procedimentos exigem a garantia de espaço para atendimentos individuais e coletivos, bem como local adequado para a guarda de prontuários e documentos pertinentes ao atendimento aos/às usuários/as” (CFESS, 2011, p. 32).
No que se refere à coleta de dados no município de Itaqui, esta iniciou em julho de 2013 e encerrou-se em setembro de 2013. O primeiro contato com o CREAS ocorreu em 15 de julho, quando se apresentou para a instituição a proposta do estudo, seus objetivos e metodologia. Neste mesmo dia foi realizada a primeira entrevista com um(a) dos(as) profissionais da instituição. As outras duas entrevistas com profissionais ocorreram em 03 de agosto de 2013 e em 04 de setembro de 2013 Nesta última data também foi realizada a pesquisa documental e a entrevista com uma adolescente atendida pela instituição.
Com relação à pesquisa documental, foi disponibilizada a documentação de três (03) adolescentes. Destes, uma situação referia-se à adolescente que foi entrevistada nesse mesmo dia (as informações serão trazidas posteriormente), outro que se tratava de uma adolescente de 14 anos de idade e que estava abrigada há cerca de 5 anos, não sendo evidenciado nenhuma informação sobre suspeita ou confirmação de exploração sexual e por fim, o terceiro caso, de uma menina que também foi abrigada no período de seus 8 e 9 anos de idade. Nos documentos analisados não constava informações de sua idade, nem mesmo de sua família. As informações registradas nos documentos sinalizavam apenas as razões do
49 Os documentos consistiram especialmente em Prontuários Sociais, Anamneses e relatórios
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abrigamento da adolescente, que consistiam em: infrequência escolar, sexualidade precoce e exploração sexual. Consta também histórico de abuso sexual sofrido por familiares e que a adolescente possui algum tipo de transtorno necessitando de tratamento psiquiátrico.
Diante do exposto, destaca-se que a pesquisa documental realizada no CREAS do município de Itaqui ficou comprometida e diante disso foi verificada a possibilidade de fazer a leitura dos relatórios mensais de atendimentos realizados pelo CREAS e enviados ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS), com o objetivo de identificar se haviam casos de exploração sexual registrados nos mesmos. Neste relatório, dentre as várias informações solicitadas, consta um bloco que se refere às situações de violência ou violações atendidas no PAEFI. Em relação a crianças e adolescentes, são solicitadas informações quantitativas sobre: vítimas de violência intrafamiliar (física ou psicológica), vítimas de abuso sexual, vítimas de exploração sexual, vítimas de negligência ou abandono. Tal consulta foi permitida e pode-se então identificar as seguintes informações considerando o período compreendido entre os anos de 2010 e 2013. Referente ao ano de 2010 não foi identificado nenhum relatório. No ano de 2011 foram localizados quatro (04) relatórios, no ano de 2012 oito (08) e em 2013 foram localizados seis (06) relatórios. Ao fazer a leitura dos dezoito (18) relatórios mensais, identificou-se que apenas no mês de maio de 2013 havia um caso de exploração sexual registrado, sendo a vítima do sexo feminino e com idade compreendida entre os 13 e 17 anos.
Com base nestas primeiras considerações acerca do processo de coleta de dados nos CREAS de São Borja e de Itaqui, pode-se destacar de um modo geral, especialmente em relação à pesquisa documental, que esta ficou um pouco prejudicada em virtude da inexistência de documentação e/ou de sua não localização, bem como da falta de maiores informações nos documentos disponibilizados para leitura e análise. Com relação à inexistência ou a não localização dos documentos elaborados a partir do atendimento das demandas de exploração sexual, esta informação resulta das observações realizadas quando da organização dos profissionais para disponibilizar a documentação para a pesquisa.
Sobre a falta de informações nos documentos analisados, observou-se, também de um modo geral, que não havia uma sistemática de registros dos
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atendimentos realizados as vítimas e seus familiares que pudessem dar visibilidade a novas informações e percepções quanto à demanda atendida, como por exemplo, sua suspeita ou confirmação, o processo de revelação por parte da vítima e/ou de familiares sobre a violência ocorrida. Além disso, informações que permitissem uma melhor contextualização e caracterização das situações de exploração sexual eram limitadas ou inexistentes.
No que diz respeito ao cotidiano de trabalho de um profissional Assistente Social, “a documentação tem a importante tarefa de oferecer subsídios para a análise e a intervenção [...] na realidade. É parte da sistematização de dados para o desenvolvimento teórico-prático profissional” (MARCONSIN, 2013, p. 65). Para a mesma autora,
[...] documentar não é um “roteiro de papéis a serem preenchidos e organizados”, não é simplesmente o ato de obter, passar e registrar informações, é mais que isso, é relacionar e interpretar diversos dados e fatos, é refletir para agir, é relacionar-se com o conhecimento, é parte da produção do conhecimento. Quando a documentação, mesmo aquela mais rotineira, tiver um tratamento técnico, documentar torna-se um exercício reflexivo e interpretativo sistemático importante (MARCONSIN, 2013, p. 70).
Além disso, é preciso considerar que assim como os profissionais entram numa determinada instituição para realizar o seu trabalho, eles saem e são substituídos por outros. Estes minimamente precisam ter acesso às informações sobre os usuários atendidos, sobre o trabalho já desenvolvido, sobre encaminhamentos realizados, entre outros, que permitam a continuidade do trabalho.
Devido às limitações encontradas na pesquisa documental, criou-se a expectativa de que a entrevista com os/as profissionais poderia contribuir no sentido de evidenciar maiores informações sobre as situações analisadas a partir dos documentos disponibilizados. No entanto, isso também não foi possível, pois grande parte dos casos analisados tinha sido atendido e acompanhado por profissionais que não trabalhavam mais na instituição. Como poderá ser observado no próximo item, a maioria dos(das) profissionais que atualmente estão vinculadas ao CREAS, iniciaram o seu trabalho recentemente.
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