Imagem 3 - Fiandeira Irlandesa, 1902 - Detroit Publishing Co. [Public domain], FONTE:Wikimedia Commons. Disponível em: <https://www.pinterest.com/morgana70/spinning-wheel/>
A PREPARAÇÃO DA TECELÃ: REFLEXÕES POR CAMADAS DE PENSAMENTOS
Primeira camada de pensamento: o sentido do tema de pesquisa
Desde criança eu guardara um segredo. Lembro, de primeiras lembranças, este segredo que não tinha nome. E eu pensava ser segredo porque não falava com ninguém sobre isso. E que crescera comigo, e ficava do tamanho que eu ficava, quanto mais eu crescia. Continuava sempre sem nome. Mas permanecia em crescimento comigo.
Levei trinta anos para eu desvelar, a mim mesma, o meu próprio segredo. Que continuava sem nome. Cheguei aos quarenta anos, tendo um pouco mais de clareza sobre ele. E foi aos quarenta e tantos, que ele desenhou-se, com toda a força, na minha frente.
Meu segredo, desvelo aqui, agora, em letras, quando tu me lês: a percepção marcante e profunda de “acompanhar as pessoas com olhar de encantamento”. As pessoas sempre me
comoveram. Seus movimentos, suas falas, suas forças. Suas forças, mais do que suas falas e
seus movimentos. Ficava, horas e horas, ouvindo relatos, histórias e quase lendas, entre os mais velhos, acerca dos nossos antepassados, de uma bisavó Ana Luiza, uma entre tantas, história que em plena revolução de 1923, escondeu seus dois filhos pequenos, dentro de um caixão de lenha, quando chegaram os farroupilhas. Histórias mais antigas, mais jovens, anciãs ou contemporâneas traziam figuras fortes das famílias, marcadas mais por superações do que por perdas irreversíveis. Encantava-me com os contadores dessas histórias, sempre à beira de um fogo de fogão a lenha ou fogo de chão, lá nos confins de Alegrete, ou em rodas, com um fogareiro atiçando as brasas das lembranças, e os filhos em volta. E eu, em transe. E o que mais ficava, nas minhas lembranças, era a força daquelas pessoas das histórias. Depois, incontáveis vezes quando via meu pai descarregar, de caminhões, dezenas de sacos de batatas de 80kg para levá-las a um galpão, nas suas costas, "boleando os sacos”, como se referia, e como menina comportada que não podia ir se misturar com os meninos naqueles movimentos de trabalho, eu ficava, ali, plantada num banquinho, no pátio, olhando meu pai ter forças. Olhando meu pai com força. Olhando meu pai buscando suas forças, lembro de seus olhos. Seus olhos ou quase se fechavam fazendo forças ou pareciam dilatar, fazendo forças, que vinham de dentro, as forças. E os músculos do pescoço, esses são inesquecíveis a mim: veias e músculos apareciam, dilatados, dando seu máximo, buscando os elementos de dentro do organismo para serem cúmplices daquela força gigantesca que eu presenciava, encantada. Encanta-me lembrar até hoje, dessas cenas. Eu continuava sem nome para aquilo e para todas
as madrugadas que minha mãe, costurando para fora, ajudava meu pai a sustentar uma família com cinco filhos. Eu ficava encantada, olhando para ela dia inteiro na máquina, mais noite inteira. Eu dormia com o barulho da sua preta máquina de ferro, de costuras de tecidos e de vida, em meus ouvidos. Todos iam dormir. Ela costurava nossos sonos e habitava nossos sonhos. Dormia três, quatro horas por noite, quando dormia. E no outro dia, lá estava ela, amanhecendo a família, com o café pronto, filhos banhados indo para a Escola, sorriso no rosto sempre, e a paz, a paz dela que era admirável, nas suas andanças pela casa. Pacífica maneira de buscar forças.
Assim fui crescendo, sempre pensando as pessoas, olhando para elas com uma atenção que até eu considerava um pouco para além. Fui me tecendo nessas pessoas. Fui crescendo tecida por essas forças humanas.
Precisei completar quase trinta anos de trabalho para entender tudo isso. E dar nome ao que aprendi, ainda no Curso Normal, a chamar de "capacidade", conceito que depois de alguns anos, precisei rever, com postura crítica e política. Iniciei uma série de estudos que ajudaram-me a compreender que “capacidade”, assim como “competências e habilidades” não era bem do que tratava minha busca insistente dos sentidos da força humana e sua energia vital.
Eu chamo hoje, “o meu segredo da infância”, de Potência Humana. E que veio crescendo junto comigo, virando adolescente, jovem, adulto e adulto maduro qual um fruto que aguarda seu momento de ser colhido. Vim caminhando na vida, ora conseguindo frequentar a academia, ora não, e a curiosidade epistemológica sobre esse tema continuava ali, nunca intacta, porque sempre se reorganizando, de alguma maneira. Pelos livros, que nem foram tantos os encontrados que abordam a potência deste lugar que pretendo – mesmo assim, ia ao encontro daquilo que desconfiava, que me acenava, jamais tendo medo de buscar o que não sabia. Fui desejando também, cada vez mais estudar a Potência Humana pelas próprias circunstâncias de minha vida profissional, em que deparei-me, não raras vezes, em labirintos pedagógicos, cujos enigmas sempre acabava resolvendo, percebo, muito pela aposta em reconhecer as potências dos sujeitos e a devolução potente com que os mesmos se esforçavam e se desdobravam. E que fortaleciam, sobremaneira, algumas ideias que eu amadurecia sobre a potencialidade dos sujeitos. Eis-me aqui, assim, então: pesquisadora da Potência Humana, sob a inspiração de uma vida inteira e com a colaboração de Humberto Maturana, de Edgar Morin, Paulo Freire e demais autores que, na sequência farão-se presentes na delimitação desses estudos teóricos.
desejados, para reunir os conceituais que forjam a Autopoiese, pela Escola Matrística, de Humberto Maturana, a Bioantropoética, pela Escola do Pensamento Complexo e a Autonomia, pelo Sistema Freire, e que, de maneira entrelaçadas, possam pensar a Potência Humana como elemento vital possível de ser acessado por todos os sujeitos, a qual vitaliza suas próprias vidas e ressignifica seus próprios viveres, trazendo à tona, sim, a discussão imprescindível da criação de si e da potência de si, da produção da ética da vida que sustenta nossas humanidades e nutre essas mesmas vidas e esses mesmos existires. Reúno, por ora, estudos, experiências, traços pedagógicos vivenciados com professores que têm desejado elaborar e viver, sistemicamente, processos educativos para com as infâncias e juventudes que habitam a sua Escola, de maneira que toda a potência dessa comunidade seja revelada, reconhecida e aproveitada como força de pensar, de propor, de refletir, de fazer, de construir movimentos no mundo, que façam realmente a diferença no mundo da escola, no mundo da vida e em seus próprios mundos.
Pensar a Escola como um centro de culturas, construtora de conhecimentos que promove a humanidade, a alteridade, a solidariedade, e que possa, em seu compromisso político, nutrir processos de desenvolvimento humano por meio da ampliação das consciências e das reflexões sobre as próprias potencialidades do ser, é pensar algo muito possível, o inédito-viável freireano, que constitui-se muito pela Autonomia Reflexiva. Como movimentos circulares espiralados e sistêmicas e complexas alfabetizações de mundo que os sujeitos históricos com quem tramamos relações de aprendências e ensinâncias foram vivendo e tecendo, esse estudo e pesquisa colaborativa viveu-se, embrionariamente, na E.M.E.F Erna Würth, na Comunidade de Guajuviras, Canoas, Região Metropolitana de Porto Alegre, desde setembro de 2013 a setembro de 2014, perfazendo um ano letivo de produções coletivas pensantes sobre a Potência Humana. Nesse tempo e nesse espaço, estivemos todos e todas, estudando elementos de três escolas científicas distintas, tecendo temas de estudos, que, ao serem enredados e tecidos, neles enredamo-nos e tecemo-nos, constituindo interdependências e isolamentos, complementariedades e antagonismos; passamos por várias camadas de pensamentos, por muitas tecituras, muitos enlaces e desenlaces. Com o tempo, mais já transcorrido, fomos tornando-nos indivisíveis, elaboramos um todo de convivências respeitosas, absolutamente necessário em um processo educativo que tem se desejado construtor de aprendizagens significativas, sustentáveis e autônomas.
Entendendo-se a Escola como uma complexa rede que se tece, coletivamente, em processos infindáveis de sentidos e imaginários, de subjetividades e identidades, claro fica, nesse estudo, a possibilidade concreta de ser construída uma Pedagogia Poiética, tecida por
produções, experiências, reflexões e traços pedagógicos poiéticos, provocada por conversações intensas sobre a potência das pessoas, das crianças, dos jovens e dos adultos que habitam a escola – o que desdobra a possibilidade da defesa da tese “Toda a natureza é
potente, tudo o que é vivo é potente, todos os seres humanos são potentes, todas as humanidades são potentes e existem numa potência nutrida por reorganizações orgânicas- biológicas-culturais, sistema complexo que trama-se e desenvolve-se numa perspectiva bioantropoética, permeadas ambas, por exercícios de organização de identidades e autorias, liberdades e autonomias, por conversações, por reflexões. Assim sendo, todos os coletivos podem se reorganizar, porque são potentes. Sendo potentes, podem produzir convivências, aprendências e ensinâncias, saberes, relações e experiências dessa mesma potência ou do desdobramento de outras potências a serem criadas."
Se toda a natureza viva é potente e os humanos são potentes, é a escola, nas suas vivências e experiências com crianças e jovens, os quais são altamente potentes, tão potente quanto. Pode ela produzir uma Pedagogia com traços poiéticos, inspirados pela Autopoiese, Bioantropoética e Autonomia, gestando uma Pedagogia da Potência Humana pela própria potência de repensar-se, de reorientar-se, de reorganizar-se, a partir da decisão política de seus educadores, tecidas com seus estudantes. Pode ela promover a humanização da comunidade aprendente. Pode ela construir uma Pedagogia-composição, uma Pedagogia-relação, uma Pedagogia-articulação.
Nesse estudo, fomos sendo atravessados por muitas maneiras de produzirmos conhecimentos no cotidiano da Escola, por muitas metodologias, por muitas percepções, saberes, concepções políticas, escolas científicas. E essas experiências, muitas conversadas e pensadas juntas, foram qualificando nossa construção de coletivo, enquanto grupo de professores que trabalham juntos, em nossos diálogos semanais. Construímos rodas de conversações como pedagogia para nós mesmos. Nem todas as rodas foram tranquilas. Mas essa Pedagogia, reconhecedora da potência dos sujeitos, admite e reconhece as diversidades e adversidades como alquimias ricamente necessárias na oxigenação das produções. Por meio de Conversações, muitas Conversações, estudamos e criamos juntos e juntas as possibilidades de trabalharmos à luz da Potência Humana.
Foi durante uma vida inteira, como professora, que defendi a possibilidade de construirmos práxis pedagógicas que se aproximasse de um pensamento que trouxesse, como
importância e respeito, a potência de cada sujeito, a poiesis Minhas salas de aulas, plenas de
pensamento criativo, autônomo e amoroso, sempre existiram como espaços de experiências onde a Potência das crianças foram sempre respeitadas e dignificadas, exploradas ao máximo
e desafiadas.
Para além de todos esses anos de experiência docente com os pequenos, venho acumulando mais sete anos de estudos de pós-graduação, teóricos-reflexivos, aprofundando as possibilidades de constituir uma prática pedagógica que colabore nos processos educativos e que pense um outro jeito de viver, onde tudo o que seja vivo, seja respeitado e zelado, cuidado e amado. Ei-la, assim, sem formas e fórmulas, mas esboços e traços, desenhos e redesenhos, tal sua provisoriedade e seu compromisso com as diferenças, com a transitoriedade da vida em espaço-tempo e as realidades múltiplas: “Pedagogia Poiética”, como traços e esboços de possibilidades ineditamente viáveis. Nada como proposta enrijecida, esqualidamente ordenada por linhas e diretrizes seguidoras, por funções estabelecidas, por concepções encerradas, por didáticas formatadas, mas uma Pedagogia latente e viva.
São muitas as experiências já vividas por tantos outros milhares de educadores, tantas são as experiências revolucionárias desenvolvidas no mundo inteiro, em comunidades abertas, em comunidades aprendentes, em experiências escolarizadas ou desescolarizadas, sob nomes variados, com referências teórico-práticas aproximadas, que sabemos, é possível, assume-se viável. Entre tantas, a Pedagogia Poiética coloca-se como mais uma possibilidade para os espaços educativos formais ou não-formais poderem experimentar a construção de uma educação orientada pelo reconhecimento da Potência Humana, em sua fonte e em sua foz, em seus enlaces e em seus toldos armados, tecidos por muitos artesãos e muitas artesãs, todos e todas potentes. Enriquecida pela autonomia e autoria dos sujeitos, pelas potências que lhes habitam, pelos seus múltiplos olhares, pelo consenso ou discenso dos seus pensamentos convergentes ou divergentes, organizam democraticamente, pela livre expressão e pelo direito de exercitar a ludicidade e a beleza de criar que existe na reflexão e na potência das conversações e das relações dialógicas.
O sentido desse estudo é pensar uma Pedagogia da Potência com quem é corajosamente amoroso, em tempos tão capitalistas e agressivamente competitivos. Com quem é politicamente sensível, que acredita na potência do outro, na ética como horizonte do bem viver, na autonomia como iniciação à verdadeira liberdade, na alteridade como reconhecimento do legítimo outro, no amor como princípio de manutenção da vida, na leitura consciente de mundo como meio de gerar novos mundos. O sentido dessa pesquisa é pensar sobre um novo jeito de produzir vida na Escola com quem já está pensando isso e com quem deseja pensar sobre isso. A proposta da Pedagogia Poiética, orientada pela valorização e reconhecimento da Potência Humana, é um aceno para educadores atrevidamente livres de
amarras e preconceitos, para educadores politicamente comprometidos com a justiça social e com os direitos humanos, para educadores que compreendam o conhecimento como produção de sentido de vida, transitório e em metamorfoses permanentes.
Importante colocar que esse estudo colaborativo deseja existir para as escolas e educadores e educadoras que, estando a repensar suas maneiras de conceber e realizar suas práticas pedagógicas, tenham sido tocados e tocadas pela necessidade de rever suas maneiras de produzir o que vêm produzindo, de pensar o que vêm pensando sobre aprendências e ensinâncias. Ele deseja existir para colaborar com quem já trabalha ou pensa em trabalhar em uma Escola alegre, autônoma, sustentável e produtora de fraternidade, que respeite todas as gentes, como expressa Paulo Freire, com todas as suas histórias e com todas as suas
potências.
Finalmente, esse estudo-pesquisa colaborativa deseja encontrar-se com sujeitos educadores inquietos, que não temem inventar e reinventar, considerando sempre as potências dos sujeitos com que produzem; deseja encontrar-se com profissionais da educação que construiram-se arrojados e apaixonados por Educação. Também para os que estão construindo-se como verdadeiros defensores das humanidades, diante das lutas contra tudo que reduz e nega as dignidades.
Esse estudo cria sentido ao encontrar-se com professores, de espaços formais ou informais, de experiências educativas escolarizadas ou desescolarizadas, que são transgressoramente apaixonados pelo que fazem e conscientemente livres, a ponto de compreenderem a função social e política da Educação e a sua própria potência, de perceberem a autopoiética da própria Pedagogia, que gera a si, com todos e todas e nutre, fraternalmente, o mundo. Com o mesmo espírito dessa fraternidade, justifico esse estudo.
2ª camada de pensamentos: pensar o aproveitamento da experiência humana num momento planetário de desperdício e de coisificação do humano, a partir da própria Potência Humana, com olhar político-crítico, junto com Boaventura de Souza Santos
Sabemos, como conhecimento empírico que nos acena diariamente, que não desenvolvemos nossa Potência Humana em toda a sua plenitude. Sabemos que ainda nos exigimos, de maneira geral, bem aquém do que poderíamos nos explorar e nos desenvolver. Do ponto de vista do conhecimento científico, já usufruímos de inúmeras pesquisas que apontam-nos a potência existente nos sujeitos humanos e do quanto ela é pouco explorada.
Condicionamo-nos a nos desenvolvermos parcialmente e os condicionamentos são muitos. Questões culturais, tomadas de decisões e escolhas, desconhecimento de nossas próprias forças, políticas do mundo desumanizador e coisificante em que vivemos, concepções de ser, de vida e de mundo que acabamos construindo, entre outros condicionamentos, assim vamos, desperdiçando nossas próprias experiências e nossas potências, desperdiçando nossas próprias possibilidades e riquezas, perdendo nossos sonhos vida afora e minimizando nossas perspectivas. Esse é um olhar que tem acompanhado-me: do quanto a sociedade em que vivemos orienta-nos para a reprodução, para a submissão, para a despotencialização, porque submetida a alguns deuses, submete-nos a todos e a todas. Orienta-nos para o desperdício da experiência.
Sendo a Potência Humana e as maneiras como elas organizam-se e desorganizam-se elemento de minha preocupação há tantos anos, claro que pensar no desperdício dessa Potência também passa a ser uma das minhas insistentes reflexões. Assim, da primeira camada de pensamentos que questiona-me sobre o sentido desse trabalho, surge como continuidade de pensamento, essa segunda camada, que trata do olhar político sobre as existências humanas e do quanto as políticas da vida não asseguram o desenvolvimento dessas humanas possibilidades.
Desejo tratar aqui da violência que isso significa, quando o Estado fragiliza os direitos humanos, não reconhecendo os direito ao desenvolvimento da pessoa humana. Boaventura de Souza Santos trata desse tema com muita clareza política, sendo um dos sociólogos mais engajados com a reorganização da emancipação humana. E será, com ele, que dialogaremos, nessa camada de pensamentos.
Em sua obra “Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social”(2007), Boaventura de Souza Santos, trata da Sociologia das Ausências, que evoca reflexões sobre as monoculturas do saber e sua mercantilidade, dos tempos lineares que vivemos que açoitam nossas potências e subjetividades, da educação dominadora e conservadora que prende-nos a modelos que há muito não nos servem minimamente como referências, da mercantilização da produção humana, tendo como regulador um mercado perverso que se sustenta sobre a exploração humana, minimizando as suas potências, desconstituindo tudo o que não se adapta a ele, sob a tutela de um projeto de globalização injusto, de uma mídia comprometida com os mais ricos e poderosos e uma racionalidade mercadológica agressiva que “coisifica” as humanidades, desperdiçando a vida, na sua potência e na sua essência. Evoca-nos a pensar que a Sociologia, como um dos campos científicos que observa a sociedade e anuncia e denuncia suas injustiças e desigualdades, em sua potência também mutilada, tem curvado-se,
como as demais ciências humanas e sociais, diante desse onipotente Deus-mercado, que regula a vida do mundo e submete, todos e todas, a desenvolverem-se diante de suas necessidades lucrativas e mercantilizadoras como denunciam, também, muitos outros intelectuais desse campo.
Boaventura de Souza Santos propõe discutirmos alguns desses processos sociais na perspectiva da Sociologia das Ausências, que mostra que o que não existe é produzido como impossível de existir e essa ausência subtrai a riqueza do presente. Explica o autor, sobre a Sociologia das Ausências, em seu olhar ampliado e militante:
“A Sociologia das Ausências é um procedimento transgressivo, uma sociologia insurgente para tentar mostrar que o que não existe é produzido ativamente como não existente, como uma alternativa não crível, como uma alternativa descartável, invisível à realidade hegemônica do mundo. E é isso o que produz a contradição do presente, o que diminui a riqueza do presente. Como se produzem as ausências?”(2011, p. 28-29)
Diante da compreensão de que não existe uma única maneira das ausências serem produzidas, o autor levanta cinco modos de produção que colaboram, efetivamente, nessa produção de ausências.
O primeiro modo de produção trata-se da monocultura do saber e do rigor, que atribui ao saber científico o saber produzido com rigor e critérios de validez. Para Boaventura, essa monocultura reduz o presente, empobrece a dinâmica da vida, como bem coloca:
“Essa monocultura reduz de imediato, contrai o presente, porque elimina muita realidade que fica de fora das concepções científicas da sociedade, porque há práticas sociais que estão baseadas em conhecimentos populares, conhecimentos indígenas, conhecimentos camponeses, conhecimentos urbanos, mas que não são avaliados como importantes ou rigorosos. E, como tal, todas as práticas sociais que se organizam segundo esse tipo de conhecimentos não são críveis, não existem, não são visíveis. Essa monocultura do rigor baseia-se, desde a expansão européia, em