A professora Maria Amélia é uma das educadoras pioneiras no bairro Olho d´Água, bairro vizinho do Horto Florestal, onde estava situada o ICM, que se correspondia com a direção da escola. Fundadora e diretora da Escola José Mário Barbosa, professora Amélia mantinha
uma parceria com o diretor do ICM, padre Vale. Ela ensinava o catecismo aos meninos do ICM e padre Vale ia celebrar missas e a eucaristia para os meninos da escola José Mário Barbosa. Ambos cultivavam uma grande amizade.
A professora Amélia iniciou um curso pelo Estado do Ceará para lecionar como professora leiga. Ao mesmo tempo sendo diretora da escola que fundou, costumava receber merenda escolar em Fortaleza, no bairro São Gerardo. As dificuldades para levar essa merenda para o Maracanaú eram grandes, visto que a escola não possuía transporte próprio. Obrigava- se a pegar um táxi ou trazer as provisões nas gavetas dos ônibus. Apiedando-se das dificuldades financeiras e de alimentação porque passava a escola de menores em meados da década de 1960, professora Amélia sugeriu ao padre Vale, então diretor do ICM, para trazer merenda para os menores, que segundo a educadora, nesse tempo passava de 700 alunos internados. A princípio, padre Vale titubeou, dizendo que não sabia ao certo se a ideia seria boa e que não estava com tempo para essa ação. A insistência da professora devia-se ao fato do ICM possuir um caminhão e, se padre Vale tivesse interesse em buscar os alimentos, poderia ajudá-la. Além disso, professora Amélia não achava justo trazer merenda apenas para seus alunos do Maranguape e os alunos do ICM não terem o que comer. Uma mão lavaria a outra.
Professora Amélia lamentou que a escola tenha fechado e tenha sido enjeitada pela política educacional do governo do Estado. Segundo ela, a comunidade local sentiu muito o encerramento das atividades com os menores. Além do mais, a escola foi saqueada por vândalos e ladrões, que levavam as máquinas e móveis da escola. Lamuria-se pelo fato do governo estadual sequer ter contratado vigilantes para preservar o patrimônio da escola.
Com o fechamento da escola, parte da comunidade local também ficou desempregada, pois o ICM empregava muitas pessoas da vizinhança no engenho, no sítio e nas oficinas da escola. Alunos da comunidade perdera a oportunidade de estudar próximo de casa, uma vez que o ICM também atendia garotos da comunidade local. Muitas professoras de outras cidades tiveram de pedir remanejamento para outras escolas.
De acordo com a opinião da professora Amélia, a escola deixou um legado imenso para a coletividade local, pois mesmo depois de fechada, cada funcionário teve direito de ficar com suas casas. Segundo a professora Amélia, a maioria dessas casas não foram vendidas. Lembrou-se de seu vizinho, “Compadre Chico”, que foi funcionário da escola, com sua morte, os oito filhos herdeiros, construíram suas casas nos terrenos e vivem ainda hoje com suas famílias.
A professora também comentou sobre as mudanças com a implantação da FEBEMCE no ICM. Houve, segundo ela, uma mudança abrupta. A escola perdera aquele vínculo com a comunidade. Os funcionários eram todos de Fortaleza. E a população local passou a ter medo dos menores que vinham estudar na FEBEMCE.
Começamos a ter medo porque vinham meninos ruins, delinquentes. Diferente dos meninos do Carneiro de Mendonça, que eram mais órfãos e de rua. Mas com o funcionamento da FEBEMCE, chegavam alguns meninos que cometiam crimes pelo interior e o povo da comunidade não ficou nada satisfeito porque já se sabia que os meninos da FEBEMCE não era coisa boa. Houve uma certa rejeição desses meninos pela comunidade. Mas, eu mesma nunca sofri nada desses meninos.
Em sua breve narrativa, a docente disse que ao pensar no ICM emerge um sentimento de tristeza, pois quando ver o 14º Batalhão da Polícia, que segundo ela não serve para nada na comunidade local, ela fica muito triste. É uma instituição do Estado que não influi e nem contribui para o desenvolvimento local do bairro. Acha um absurdo que o ICM tenha sido ocupado pela polícia e que ninguém mais pensou em instalar uma escola que volte a beneficiar a comunidade.
Asseverando que a escola não era fechada em torno dela mesmo, lembrou-se das missas que toda a comunidade participava, assim como das quermesses. Mas, não apenas essa relação religiosa. Ela mesma já estudou nos espaços do ICM, quando fez um curso para ser professora leiga em 1967. No entanto, guarda até hoje um sentimento negativo em relação ao diretor da escola padre Vale. Pois sendo professora de Maranguape com um péssimo salário, chegou a pedir ao padre uma oportunidade para lecionar no ICM. Mas, segundo ela, o sacerdote não lhe concedeu essa oportunidade. Sobre esse episódio, narrou o seguinte:
O irmão de padre Vale veio na minha casa e me disse que seria ofertado um curso para professoras no ICM. – Maria Amélia, tá chegando gente de todo canto. Vai ter um curso para professores. Então, eu fui bater na escola de menores e procurei o padre Vale disse para ele: -padre Vale, como é que o senhor faz uma coisa dessa comigo? O senhor sabendo que eu tenho poucos recursos, apenas esse empreguinho da Prefeitura de Maranguape. Vai haver um curso para aperfeiçoar professores leigos. Era-se os tempos do governador Virgílio Távora, que dizia que ele não assinava um contrato para professora leiga nem que a mão dele secasse. Compadecendo-se de mim, disse que ia falar com sua irmã Mirtes Holanda, a coordenadora do curso, para conseguir uma vaga para mim. Assim, eu consegui fazer o curso pedagógico de cinco meses na escola de menores.
Por ser um curso de tempo integral, estudava até o turno da noite, concluindo as atividades para serem entregues no outro dia. O ICM acolheu bem as cursistas e servindo-lhes almoço e jantar. Muito dinâmico, padre Vale dava palestra e aulas de português para as futuras
professoras. Segundo a docente, era um tempo muito divertido em que suas colegas arranjavam namorados do centro de Maracanaú, que vinham tocar violão na escola. Ao concluir o curso, já estava com o contrato de professora do Estado, com um salário muito baixo. Recebia pagamento uma ou duas vezes por ano. Segundo a professora Amélia, conseguia viver como professora graças à ajuda de seu pai e ao emprego da Prefeitura de Maranguape.
Na versão da professora Maria Amélia, o padre Vale saiu do ICM por causa de um relacionamento amoroso com uma das empregadas domésticas que seus familiares convidaram para lhe ajudar, logo que assumiu a direção da escola. Era uma empregada mais velha e outra jovem. Mas ninguém comentava nada na comunidade local. Segundo a professora Amélia, somente ela sabia os segredos de padre Vale. “Ele era santo para todo o mundo!” Segundo relatou a professora Maria Amélia, o primeiro vigário de Maracanaú, padre Vale, tentou fugir desse relacionamento várias vezes. Foi embora para o Maranhão e para outros Estados, mas a jovem sempre lhe perseguia fazendo ameaças de abrir a boca e contar tudo para as pessoas. Acabou se relacionando com a mais jovem, com quem acabou se casando e tendo uma filha, quando saiu do ICM.
Abaixo vemos onde morou padre Vale, ao lado do Instituto Carneiro de Mendonça e de outras residências de ex-funcionários da escola, ocupada atualmente por irmãs da Congregação de Santa Elizabeth.
Imagem 45 – Ao fundo, casa onde morou Pe. José Holanda do Vale
A convite do vigário, costumava fazer a prestação de contas da merenda da escola, pois Padre Vale considerava uma atividade muito difícil. Além disso, o diretor lhe pedia para preparar o cardápio da escola, que dispunha do “leite do padre”, da aveia, açúcar, arroz, dentre outros alimentos.
Eu tinha de inventar da minha cabeça o cardápio todinho para prestar conta daquela merenda. Eu vinha para a escola de menores, ficando às vezes, até o jantar, outras vezes até onze ou doze horas da noite. Quando eu terminava o trabalho, ele mandava o motorista me deixar em casa em um jipinho que ele tinha. Era uma prestação muito cansativa, pois era toda feita à mão. Sorte que eu já tinha prática de fazer a prestação da merenda da minha escola. Apesar de ser pouco, mas o modelo era o mesmo para fazer o cardápio. Eu aproveitava o modelo da Prefeitura de Maranguape para mim e para a escola de menores. Ainda sobre esse trabalho voluntário no ICM, a educadora disse que nesse tempo eram pouco mais de setecentos alunos, mas padre Vale registrava sempre a mais na rua Pereira Filgueiras em Fortaleza porque ele queria que tivesse sobras para os meninos do ICM.