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SEKİZİNCİ BÖLÜM: ARA DÖNEM FAALİYET RAPORU

A pesquisa a que me propus objetivava refletir acerca das apreensões da condicionalidade da educação. Deste modo, ao me debruçar sobre o universo do cotidiano de cinco famílias beneficiárias do PBF, evidenciei a ―naturalização‖ da prática da frequência escolar. Apreendida como uma ajuda ou incentivo, a prática da frequência escolar está para além da manutenção do valor monetário do PBF, transferido às famílias mensalmente. As famílias confiam na educação formal, como o meio mais próximo do seu universo, para superarem a situação de pobreza. O discurso socialmente construído e disseminado da importância da educação formal é introjetado por todas as cinco famílias. Estas cumprem a condicionalidade no anseio da manutenção da renda mensal, mas antes, apresentam o desejo de que seus filhos possam ascender socialmente. A frequência escolar é incentivada para a conclusão ―dos estudos‖, pela esperança de que com o diploma de ensino médio, os filhos possam ter melhores oportunidades de inclusão no mercado de trabalho, o que parece ser a verdadeira apreensão da condicionalidade da educação por tais famílias.

Com 12 anos de instituição, o PBF divide opiniões acerca da efetividade da contrapartida, muitas vezes entendida como uma ―penalidade‖. O Estado institui a condicionalidade com o objetivo de reforçar o direito social ao acesso à educação entendido como meio de superação da situação de pobreza. Enxergando a pobreza como consequência da baixa renda, por causa da baixa escolaridade, o Estado acredita que através do controle da frequência escolar, contribuirá para a superação dessa condição social, associada à transferência de renda mensal que fornece subsídio as famílias, evitando a preterição da escolarização pela realização de atividades remuneradas precocemente. Porém, junto às famílias, pude evidenciar que a pobreza não se limita somente à carência de renda.

Acredito que o indicador de rendo utilizado pelo Estado para selecionar as famílias do PBF seja insuficiente para definir a situação de muitas necessidades enfrentadas cotidianamente. Junto às cinco famílias pesquisadas no CSM, ainda que a renda monetária tenha proporcionado mudanças substantivas e estruturais, como foi discutido nos capítulos anteriores, as dificuldades vivenciadas pela ausência de serviços básicos ainda são bastante corriqueiras. Ou seja, a situação de pobreza das cinco famílias não se apresenta apenas na falta de uma renda regular, mas também, na falta de condições básicas para uma vida saudável, na humilhação e vergonha que sofrem pelo lugar que ocupam na sociedade.

Contudo, entendo que a situação de pobreza deve ser enfrentada não somente pela exigência da condicionalidade educacional, reiterando o discurso social da educação como remédio a todos os males da sociedade. Ainda que o Estado se faça presente no fornecimento de poder aquisitivo às famílias beneficiárias, a pobreza deve ser superada com políticas efetivas de oferta dos serviços elementares para uma vida digna, como saneamento básico, atendimento médico e odontológico, urbanização, ainda muito ausentes no cotidiano das famílias do CSM. Hoje, há a possibilidade de mapear as necessidades básicas das famílias pobres, por meio do cruzamento de dados no CadÚnico. Considero o CadÚnico como ferramenta muito eficaz, capaz de mapear as famílias por meio de relatórios precisos, bem como as comunidades que vivem em condições de ausência de serviços básicos, apesar de ser pouco utilizado pelo Estado. Enquanto gestora do PBF em Lima Duarte – MG, evidenciei muitas das funções do CadÚnico, como a de informar se a água da residência é tratada, se há instalações hidráulicas e elétricas no domicílio, o tipo de material utilizado na construção da casa, além de muitos outros dados referentes à residência dos integrantes das famílias beneficiárias. Esses dados podem contribuir para a efetivação de políticas de urbanização, de saúde, de capacitação profissional e muitas outras.

O objetivo aqui não foi o de avaliar o impacto da condicionalidade na vida dos beneficiários, foi o de demonstrar o que a condicionalidade significa para as famílias. Foi evidenciado que há a valorização da educação formal dos filhos, presente no contexto de cada uma das famílias. Porém, as práticas desenvolvidas para a continuidade da formação escolar dos estudantes são realizadas de diferentes formas em cada uma das famílias. Dentre as famílias acompanhadas, a família Silva é a que vive mais intensamente as consequências da pobreza. Junto a esta família, mesmo que Valéria reproduzisse o discurso da valorização da educação dos filhos, evidenciei que a prática da frequência escolar voltava-se mais para a manutenção do benefício financeiro, pois esta é a única renda regular da família. Nos quase dois anos de acompanhamento a esta família, apenas a filha mais velha progrediu de série escolar.

Em contraponto está à família Farias, a que menos configura a situação de pobreza e dispõe do benefício para custear o curso profissional da filha. Com uma casa com estruturas mais adequadas, com água encanada, instalações elétricas regulares e uma dieta com mais variedade de alimentos, a família investe o dinheiro do benefício no futuro da filha. Já a família Silva utiliza o dinheiro prioritariamente na aquisição da alimentação para os integrantes da família, vivenciando necessariamente o ―hoje‖, em detrimento do futuro.

Nas famílias pesquisadas, a crença na educação formal dos filhos como meio de ascensão social parece esta associada à trajetória de privação ao acesso à formação escolar dos pais e mães, como consequência da situação de pobreza vivenciada. O discurso social do valor da educação formal na trajetória dos sujeitos já se fazia presente no senso comum dos antepassados das famílias pesquisadas. Sem condições para investir no estudo escolar dos filhos, já que a busca pela sobrevivência apresentava-se como prioridade familiar, a educação formal pairava como um sonho de uma vida diferente, por meio da renda de um trabalho capaz de suprir as privações dos mínimos básicos.

Os pais e mães dessas famílias buscam estratégias para que os filhos/estudantes concluam as atividades escolares, principalmente aqueles em séries iniciais, para que possam desenvolver o ―gosto pelos estudos‖ dar continuidade ao cumprimento da condicionalidade e obter sucesso educacional, o que, para eles, representa a conclusão do ensino médio. A frequência escolar dos filhos das famílias acompanhadas é uma prática que envolve toda a família. As tarefas domésticas, as refeições, as brincadeiras das crianças e os horários de dormir e do despertar dos integrantes de todas as cinco famílias são todos condicionados às idas e vindas dos filhos às suas respectivas escolas. A escola, para essas famílias, também dispõe de um complemento da dieta dos estudantes, com a merenda fornecida pelo refeitório.

A valorização da educação como uma ponte para a melhora de vida também é ressaltada pelos integrantes (professores e gestores) das escolas do CSM. Porém, criticam o PBF por não atrelar o rendimento escolar à condicionalidade. Assim como o Estado e as famílias, os professores também acreditam que a educação formal possa transformar as vidas dos beneficiários do PBF. Na visão dos professores, a condicionalidade é praticada pelas famílias com a única intenção de manter o benefício financeiro recebido, sem considerar o valor real da prática da frequência escolar, que é o aprendizado.

Os dados mostraram, porém, que a frequência escolar é incentivada para além do medo da perda do valor financeiro recebido através do PBF. As famílias desenvolvem estratégias para a manutenção dos filhos na escola. Contudo, o rendimento escolar nem sempre é devidamente visado, principalmente junto à família Silva. Os professores das escolas percebem os baixos níveis de rendimento dos alunos das famílias beneficiárias como efeito da falta de campanhas de conscientização por parte do Estado quanto à importância da educação formal para crianças e jovens de famílias pobres. Acredito que a valorização da educação na vida do indivíduo é produto de uma construção social, que está presente não apenas nas concepções das cinco famílias pesquisadas, mas em muitas outras famílias brasileiras.

Os docentes das escolas do CSM interpretam a repetência dos alunos beneficiários do PBF como consequência de falta de comprometimento, falta de foco, de visão de futuro. Eles responsabilizam os pais e os próprios estudantes pela ausência de perspectiva escolar. Assim como muitos brasileiros, parecem não considerar a trajetória familiar e os fatores sociais como condicionantes no desenvolvimento cognitivo do educando. Aquilo que os professores consideram ―falta de comprometimento do aluno‖, falta de interesse, pode estar relacionado à falta de perspectiva de aplicabilidade das disciplinas que são ministradas na instituição à sua vida real, no contexto do CSM.

Mesmo que a condicionalidade seja alvo de muitas críticas, por não incluir o rendimento escolar também como obrigatoriedade, penso que a prática da frequência escolar de crianças e adolescentes das famílias pobres seja um meio de inseri-las em um ambiente de sociabilidade, fornecendo a possibilidade de desenvolvimento de suas capacidades. Entendo que tudo de objetivo que for feito para contribuir a favor da realidade social, é legitimo. O significado da conclusão dos estudos demonstra, principalmente, para as mães, uma esperança de que os filhos possam superar com mais facilidade as dificuldades que são enfrentadas cotidianamente. Dificuldades essas que são materiais, de bens e serviços ausentes no CSM, mas também subjetivas, advindas do estigma social imposto pela condição de pobreza, da humilhação, fatores que lhes impedem de ter uma vida saudável, com o mínimo de estima para a vivência do bem estar.

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