O contrato estipulava que os terrenos reverteriam para a posse da Câmara com todas as benfeitorias, entretanto realizadas e sem direito a qualquer indemnização, caso lhe fosse dado destino ou utilização que não fosse a prática de modalidades desportivas ou de diversões devidamente autorizadas pelos estatutos ou pelas leis em vigor.
O Vitória registou os terrenos em seu nome em novembro de 1967. Mas do respetivo registo não consta, anormalmente, a referida cláusula. Assim, face ao registo, o Vitória é um pleno proprietário, que pode dispor dos terrenos como entender.
Dos terrenos doados com restrições, vendeu entretanto, o Vitória 20 lotes, por preços que vão desde 160 a 800 contos. Num deles já está edificado um prédio e há dois em construção. Alguns dos lotes estão implantados numa zona de proteção ao Liceu Nacional, na qual não podia haver qualquer urbanização, porquanto destinados a zona verde.
Nos termos do contrato, a Câmara poderia fazer reverter a si, imediatamente, os terrenos ilicitamente vendidos. Mas a Comissão Administrativa encontra-se perante um processo em que estão em conflito interesses de bastante peso: De um lado, temos o Vitória, conjunto de setubalenses e de pessoas profundamente arreigadas à cidade, sinceramente interessadas em que Setúbal caminhe na vanguarda de um verdadeiro desporto com «D» grande, mas tais pessoas não se confundem com as direções do clube. De outro lado, temos os interesses do Município conjunto de pessoas sócias ou não do Vitória.
Perante este antagonismo, a Comissão Administrativa propôs e o Ministério da Administração Interna concordou, que sejam os munícipes a decidir.
bilita a compreensão clara das intenções deste órgão e do que estava verdadeira- mente em causa. Nessa reunião, Odete Santos informou que pretendia ler um comunicado dirigido à população do concelho mas que “desejava precedê-lo de alguns comentários”.
Nesses esclarecimentos iniciais, conforme consta da referida ata, declarou que “a reação está a utilizar processos mais inteligentes do que os usados antes do 28 de Setembro, usando processos que surpreendiam o povo desprevenido, como por exemplo dirigindo ataques contra as Comissões Administrativas e os Partidos Democráticos”.
A vereadora referiu ainda que “a Comissão Administrativa recebera uma carta da Comissão de Trabalhadores na qual a mesma Comissão se insurge contra a ad- missão de uma telefonista. Esclareceu que se trata de um lugar que só poderá ser ocupado por uma pessoa que mereça a confiança da Comissão, por proporcionar a escuta de conversações que depois poderão ser comunicadas a elementos rea- cionários, havendo ainda hoje pontos-chave dos serviços camarários, ocupados por elementos que não merecem confiança política, mas a Comissão mercê de uma legislação muito débil não pode efetuar o saneamento devido.
Neste momento, porém, em que o país entra numa fase mais democrática é ne- cessário que a Comissão Administrativa tenha o apoio da população e por isso, entende dever anunciar que se entrará numa via eficaz de saneamento”22. Depois desta explicação prévia, Odete Santos lê o comunicado que será distribuí- do à população. No fundamental o comunicado pretende explicar o saneamento dos dois elementos da CT e a legitimidade da ação da CA que apenas pretende opor-se a uma conspiração reacionária contra as conquistas democráticas inicia- das a 25 de Abril.
No mesmo documento, desvaloriza a composição da Comissão de Trabalhadores: “Não é uma dita Comissão de Trabalhadores que tem à sua frente chefes de servi- ço, que se poderá opor com ameaças à força da democracia e, neste caso, à Câma- ra que se apoia na população”.
O comunicado faz também uma ameaça aos trabalhadores que não colaborem com a CA: “A Câmara Municipal não é como dantes. Está e quer estar ao serviço do povo. Os funcionários camarários terão de compreendê-lo e terão uma esco- lha a fazer: ou se põem ao serviço do povo e para tal apoiam com o seu trabalho honesto a Câmara, ou terão de ser afastados por não se integrarem no espírito do vinte e cinco de Abril. O saneamento impõe-se e é inadiável”23.
Face à exposição apresentada por Odete Santos, os vereadores aprovarão por unanimidade que “fossem suspensos do exercício das suas funções com direito aos vencimentos inerentes aos seus cargos os seguintes funcionários municipais: Álvaro Batista Guerreiro e Fernando Caldeira Marques da Costa”.
22 Ata da reunião da Comissão Administrativa de 17 de fevereiro de 1975.
23 Comunicado à População lido pela vereadora Odete Santos e transcrito na Ata da reunião da Comissão Administrativa de 17 de fevereiro de 1975.
Comunicado da Comissão de Trabalhadores da Câmara Municipal de Setúbal
Constata-se que com frequência está a ser admitido pessoal para os Serviços desta Câmara sem serem necessários.
Algum desse pessoal admitido é oriundo de fora do concelho, isto quando se começa já a desenhar uma crise de desemprego no concelho de Setúbal.
A culminar o processo atrás descrito, verificou-se no passado dia 12.2.75, a admissão de uma telefonista.
Verifica-se mais uma vez:
1º - O elemento admitido não reside no concelho de Setúbal; 2º - Não há necessidade da admissão de um telefonista;
3º - O elemento não estava inscrito para admissão para qualquer serviço desta Câmara Municipal; 4º - O elemento não é especializado na tarefa que lhe foi cometida.
Assim, a Comissão representativa dos trabalhadores desta Câmara, analisando os pontos anteriores, e tendo em consideração que:
1º - Há pessoal a prestar serviço nesta Câmara Municipal, que pode sem prejuízo dos serviços a que está adstrito, que bem poderia desempenhar a função de telefonista.
2º - Que o Decreto-Lei nº 576/74 - art.º 4º, proíbe a admissão de pessoal, a não ser especializado e com autorização superior.
3º - Que há pessoas inscritas do concelho de Setúbal, que estão devidamente inscritas para admis- são nos diversos serviços da Câmara Municipal de Setúbal, algumas das quais são familiares de atuais trabalhadores municipais.
Julga,
– Que a Comissão Administrativa agiu precipitadamente prejudicando os munícipes do concelho, não procurando, como lhe compete, dar satisfação à sua justa pretensão de emprego;
– Que a Comissão Administrativa prejudicou os trabalhadores que servem atualmente este Municí- pio, e que pretendem uma justa promoção;
– Que os serviços ficaram prejudicados, pela admissão de pessoal não qualificado para o desempe- nho do lugar;
– Que a prepotência de não fazer o recrutamento do pessoal através das inscrições existentes, é altamente atentatória dos direitos de quem pretende trabalhar, e prejudica a dignidade dos trabalhadores da Câmara Municipal de Setúbal e especialmente os da Secção de pessoal. Assim:
Entende esta Comissão de Representantes dos Trabalhadores (C.R.T) que a Comissão Administrativa reveja imediatamente a posição assumida, reparando perante os munícipes em geral e os trabalha- dores municipais, em particular, o erro que estava a ser cometido.
Chama-se a atenção que, como já foi estabelecido anteriormente, não pode a Comissão Administra- tiva deliberar sobre assuntos relativos a pessoal, sem o acordo da C.R.T., que para isso recebeu mandato dos trabalhadores.
Caso não sejam satisfeitas estas justas pretensões, será este assunto submetido à Assembleia Geral dos Trabalhadores, que naturalmente tomará as decisões que se impuserem para seu desagravo. A Comissão de Representantes dos Trabalhadores
Juntamente ao saneamento dos membros da CT a Câmara afasta mais dois fun- cionários por terem ligações com a PIDE, fazendo crer que estavam todos envol- vidos nas “manobras reacionárias em curso”24.
Esta posição da Câmara irá desencadear uma onda de indignação por parte de dezenas de trabalhadores da CMS, que se solidarizam e apoiam os membros da CT saneados. A Câmara será ocupada, pressionando a CA para que revogue a sus- pensão dos membros da CT.
Rodrigues Lobo recorda as dificuldades vividas nesse dia: “A Câmara Municipal é invadida por muitas centenas de manifestantes, com propósitos altamente agres- sivos para com os elementos da Comissão Administrativa, acompanhados de ameaças de morte e incitamentos a que fossem lançados pelas janelas. Natural- mente que nem todos os presentes estavam do mesmo lado, o que refreou essas intenções, não deixando, no entanto, de terem sido cortadas ligações telefónicas”25.
Foram chamados, para acudir à CA, o Comandante do Regimento de Infantaria 11, o comandante da PSP e o Governador Civil. A situação de impasse prolongar- -se-á durante todo o dia e durante toda a noite. Os trabalhadores da Câmara não desarmam e exigem a readmissão dos elementos da CT afastados. O Governador Civil terá um papel de mediador. Depois de várias horas de negociação, às 6 da madrugada, a CA aceita a readmissão dos dois elementos da CT e compromete-se a redigir um comunicado em que esclarece que os dois elementos da Comissão de Trabalhadores afastados, Marques da Costa e Álvaro Guerreiro, “não tinham qualquer ligação com os outros dois, na altura saneados por ligações a organis- mos fascistas”.
Por sua vez os trabalhadores decidem abandonar o edifício, terminando a ocupa- ção da Câmara.
Nesta confrontação os trabalhadores da Câmara contarão com o apoio do Secre- tariado dos Trabalhadores da Administração Local do Distrito de Setúbal, e tam- bém de comissões de trabalhadores de outros municípios.
O conflito foi lido como uma ação de elementos do Partido Socialista, que consi- deravam ser necessário lutar contra o controle absoluto do PCP na Câmara. Orlando Barros, militante socialista e trabalhador da Câmara, recorda estes acon- tecimentos: “Participei na tomada do edifício em protesto contra a decisão da Comissão Administrativa, de contratar uma telefonista. Não estava em causa a pessoa ou a necessidade dela, mas sim os receios que muitos trabalhadores ti- nham de que esta fosse mais uma tentativa de colocar na Câmara ainda mais pes- soas ligadas ao PCP. Devido a pequenos episódios que vinham ocorrendo desde o 25 de Abril, e quase diariamente, as pessoas tomavam noção de que a estrutura da
24 Arquivo Municipal de Setúbal. Ata da reunião da Comissão Administrativa, de 17 de fevereiro de 1975.
25 Francisco Lobo, Histórias de Setúbal, edição URAP – União de Resistentes Antifascistas Portu- gueses, Setúbal, 2008, p. 24.
À POPULAÇÃO DO CONCELHO
Integrado na campanha reacionária que cada vez mais nitidamente se desenha no sentido de contrariar as conquistas democráticas iniciadas no 25 de Abril, alguns funcionários não saneados vêm escrever à Comissão Administrativa da Câmara uma carta provocatória alegando pretensas ofensas do direito dos trabalhadores.
Estes indivíduos tentam opor-se à admissão de uma telefonista de confiança da Câmara, procurando assim continuar a sabotar esta Comissão no seu trabalho em prol da população do concelho.
Pois que é de tal que se trata:
– Já que a lei de saneamento tem sido inoperante para afastar os elementos fascistas instalados entes do 25 de Abril em muitas das autarquias pelo país fora, estes sabotadores, amparados pelas campa- nhas da reação e dos seus aliados, têm vindo a sabotar todo o trabalho válido das Comissões instala- das à frente das Câmaras no início da Revolução em curso.
Esta sabotagem, no que nos toca, reveste, entre outros, os seguintes aspetos:
– mau tratamento do público, atitudes sobranceiras, comentários em desabono do Governo Provisório, no sentido de criar um ambiente desfavorável à democratização e de criar a ideia de que «continua tudo como dantes, ou pior».
– escuta telefónica das conversações de trabalho dos responsáveis da Câmara, interferências e mesmo corte das ligações.
Independentemente das medidas de saneamento a tomar, desde já assiste o direito a esta Câmara de admitir pessoal da sua confiança para o bom andamento do trabalho em prol da população e sempre que se torne necessário.
Não é uma dita Comissão de Trabalhadores, que tem à sua frente Chefes de Serviços, que se poderá opor, com ameaças, à força da democracia e, neste caso, à Câmara que se apoia na população. A Câmara Municipal não é como dantes. Está e quer estar ao serviço do povo.
Os funcionários camarários terão de compreendê-lo e terão uma escolha a fazer: ou se põem ao serviço do povo e para tal apoiam com o seu trabalho honesto a Câmara, ou terão de ser afastados por não se integrarem no espírito do 25 de Abril.
O saneamento impõe-se e é inadiável. A sua ineficácia que se tem verificado até hoje, deve-se a uma falta na legislação que só a luta popular ombro a ombro com o MFA e a partir do 28 de Setembro permitirá modificar e confiamos que será em breve publicada nova legislação.
Entretanto continuam na administração pública no nosso país indivíduos afectos ao regime fascista e que são hoje lacaios da reação, como por exemplo elementos ligados com a ex-PIDE-DGS, componen- tes das pseudo-comissões de recenseamento do anterior regime e ainda elementos da ex-ANP. Sabemos que a população se queixa e se insurge contra este estado de coisas. Nas Assembleias de moradores muitas vezes têm surgido opiniões, sugestões e propostas para uma real modificação das relações da Câmara com o público.
Assim, a Câmara vê-se na obrigação de tomar as medidas que considerar necessárias para que a sabotagem não continue, e está firmemente decidida a exigir um rápido e completo saneamento, por forma a que fiquem ao serviço do concelho apenas aqueles que se integram no espírito do Portugal Novo, que com firmeza se consolida.
A reação não passará mesmo que com as vestes de Democracia.
A Comissão Administrativa da Câmara confia no Povo que saberá desmascarar os falsos democratas, que cortará o passo à reação erguendo barreiras a cada esquina por um PORTUGAL LIVRE E DEMOCRÁTICO. Sessão pública da Câmara Municipal de Setúbal, 17 de fevereiro de 1975.