Eu cato papel, mas não gosto... Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando...” (JESUS, Carolina Maria de. 2000, p.30)
Os tempos nunca foram tão bons, mas teve um momento em que eles pioraram, junto com a falta de dinheiro, vinha também a vergonha, a vergonha pelo erro do meu pai, mas também, principalmente pela sua incapacidade de dar a volta por cima. O relato que se segue é referente a causa da volta da nossa família a Juazeiro.
Era um dia qualquer de julho do ano de 2000, um dia que se fazia importante por ser o dia da minha ida a Juazeiro, estávamos nas férias escolares e eu costumava ir a Juazeiro todas as férias, daquela vez, iria de carona, com tia Horaci (irmã da minha mãe), que estava de passagem por Fortaleza visitando seus filhos que faziam universidade aqui.
54 Figura 8 - Reunião de família, minha primeira comunhão.
Fonte: Arquivo da pesquisadora..
Figura 9 - Fotografia, registro da formatura do ensino fundamental do meu irmão Acácio.
Fonte: Arquivo da pesquisadora.
Naquela sexta-feira, meu pai iria almoçar em casa, um almoço especial, já que a minha tia almoçaria conosco e depois me levaria para seu apartamento, pois viajaríamos na madrugada. Nos dias anteriores haviam ocorrido várias brigas em nossa casa, não devido especificamente a falta de dinheiro, mas principalmente ao uso que meu pai fazia dele. Ultimamente meu pai vivia uma boa situação financeira, estava trabalhando para uma empresa conceituada do ramo bancário, que prestava assistência aos bancos 24h e, além disto,
55 havia montado uma empresa de prestação de serviços de manutenção e montagem de máquinas e computadores de grande porte, para indústrias e hospitais.
Contudo era o seu vício, o álcool que nos impedia de alçar a estabilidade desejada. O álcool sempre esteve presente na vida de meu pai, durante a infância lembro-me que meu pai nunca chegava em casa no inicio da noite como os outros pais, ele sempre parava no bar, antes de chegar em casa, por muitas vezes ia procurar meu pai nos bares do bairro onde residíamos para que ele me pagasse algum lanche. No fim de semana bebia quase que initerruptamente, trabalhava no sábado pela manhã, as vezes, cumpria alguma tarefa de casa, fazer compras ou concertar algo que estivesse necessitando de reparo e logo depois começava a beber. No domingo pela manhã, começava beber junto com a exibição na tv da Fórmula 1, era o som da tv ou mesmo do Amado Batista que ele tanto gostava que me acordava no domingo, e nesta hora meu pais já estava com um copo na mão. Na tarde de domingo era estádio de futebol ou acompanhar o jogo pelo rádio ou televisão, a companheira certa era a cerveja, os amigos
Morávamos em uma boa casa, ampla e bem situada, num bairro de classe média, estudávamos em uma boa escola de bairro, fazíamos cursos, tínhamos computador em casa e outros equipamentos que na época denotavam boas condições financeiras, mas não havia estabilidade. Meu pai fazia grandes festas em nossa casa, almoços que duravam o fim de semana todo.
Naquela semana a temática das discussões era dinheiro para eu viajar. No fim da manhã, meu pai chegou, a casa já estava cheia com meus tios e primos, foi um almoço alegre e bem servido como era de costume em nossa casa e no final do almoço meu pai se despediu de mim e me entregou o dinheiro destinado a minhas férias. Logo depois do almoço segui para o apartamento da minha tia e no final da tarde percebi um movimento diferente na casa.
Meus tios saíram apressadamente e no jornal televisivo já noticiava a prisão de meu pai, que teria realizado um golpe bancário ao reter um saque em um caixa eletrônico 24h, empresa para a qual ele trabalhava.
Meu pai ficou preso um fim de semana, como réu primário teve direito a defesa em liberdade, perdeu o emprego e a credibilidade, o caso teve um repercussão em nosso bairro, nos ciclos de amizades e de trabalho. Na semana seguinte nossa mãe resolveu voltar a morar em Juazeiro do Norte, num primeiro momento nosso pai nos acompanhou. Seguiram-se meses de grande instabilidade, nossa família dividida entre as casas de parentes, uma mudança drástica de rotina, a separação dos amigos, a mudança de escola e principalmente um pai devastado pelo alcoolismo e pela vergonha que não conseguia reerguer-se.
56 Fomos residir num bairro pobre de Juazeiro em uma casa construída pela nossa mãe a partir da renda proveniente das faxinas que realizou a vida toda e das ajudas de sua família branca. Meu pai resistiu a ideia de morar na “favela”, era como ele se referia ao bairro em que fomos morar em Juazeiro do Norte e separado da minha mãe, foi residir com a minha avó paterna. Não conseguindo readaptar-se a Juazeiro optou por voltar a Fortaleza e iniciar sua peregrinação pela casa de parentes, amigos, clínicas de desintoxicação... Peregrinação que se perpetua até hoje, agora sob os meus cuidados.
Foi na separação de nossos pais que vivemos o pior momento financeiro de nossas vidas, foi quando fomos pela primeira vez frequentar escolas públicas. E neste momento, morando na periferia da cidade, frequentando escolas públicas e até vendendo bombons em casa para pagar o transporte para a escola, sentíamo-nos, mais uma vez distintos dos nossos vizinhos e colegas de escolas, que agora compartilhavam conosco da questão racial, sendo a maioria negros e afrodescendentes, mas, distinguiam-se pelas suas experiências de vida, já que só experimentaram àquelas duras condições de moradia, transporte, trabalho e existência por toda a vida e que devido a estas condições de existência não conseguiam vislumbrar outra possibilidade de vida. Enquanto nós nos encontrávamos motivados pelo sentimento de superação daquela situação e pela necessidade de voltar a participar dos nossos antigos grupos sociais, que apesar do racismo, compartilhavam conosco de ideais, projetos e vivências, grupos sociais brancos, que apenas nos acolhiam dada a nossa antiga situação financeira.