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BÖLÜM 3: SEÇME METĐNLER

3.5. Roman

Refletindo sobre o pensamento de Vicentino (2014) compreendemos que nosso olhar para o passado, muda mediante as transformações que ocorrem no presente. Essa assertiva se baseia no caráter dinâmico da história que nos indica o risco em restringir o conhecimento diante de um primeiro mapeamento.

São os recortes temáticos que vão dando visibilidade a pesquisas, abordagens e descobertas que proporcionam a interpretação das experiências humanas respaldadas em diversos tipos de registro. Nossos argumentos necessitam ter por base fontes históricas que constituam as evidências que formam uma “pluralidade de pontos de vista” em torno do passado, consequentemente, diversas “falas” que significam fontes informativas assinaladas em discursos orais e escritos.

Em Vicentino (2014) fica claro que “as fontes não falam por si” nem revelam uma verdade acabada, necessitam ser interrogadas a partir do contexto que as insere. A revelação de distintas respostas a partir dessa pluralidade de evidências é que nos impele a reescrever e reinterpretar o passado.

Aslinhas que se entrecruzam são partes e fragmentos que não nos permitem conhecer uma imagem completa, porém, conduzem à extraordinária atividade de desvendar concepções e interesses que se tornam visíveis na filtragem a que o pesquisador submete as fontes para leitura do passado.

Sob o prisma de que “ao recordar podemos viver novamente”, priorizamos, também, na nossa pesquisa, a escrita a partir da memória. Uma história matizada pelo entrecruzamento de depoimentos, recordações e dados biográficos que dão vida às falas entrecortadas pela emoção de lembrar e pela satisfação de ser entrevistado. Num misto de valorização e certeza que a história será contada e/ou recontada para não ser esquecida.

Pensando assim, compreendemos que rever conceitos não é fácil, principalmente quandosetratadeconcepçõesenraizadase postuladas pela ciência. Dessa forma, ao considerar que, historicamente os documentos escritos se petrificaram enquanto fontes verdadeiras acreditamos na necessidade em acolher a oralidade em resultado à memória como elemento fidedigno da produção historiográfica.

A investigação impregnada da memória que reúne recordações que atravessam a barreira do tempo permanecendo vivas no que faz sentido para um grupo social. Vão se estabelecendo relações que superam o pessoal para se inserir no universo social que as preenche. É nesta perspectiva positiva e desafiante que compreendemos a produção

historiográfica que tem a memória como recurso de interpretação, formadora de identidades, compositora de evidências na reconstrução do passado.

A pós-modernidade apresenta a possibilidade de inserir na produção historiográfica temas até então refutados pela cobrança de cientificidade. Ser diferente já não é mais sinônimo de contestação é sinal de uma história a mais que precisa ser contada. É evidência de uma memória que não pode cair no esquecimento, ao contrário precisa ser revivida para naturalmente se fazer história. Logo, constituída de conceitos, sentimentos e marcas do historiador que se faz mais um sujeito nessa construção.

A explicação se dá, assim, na historicidade, enquanto movimento, que resulta da temporalidade via buscas cotidianas do homem e perpassando pelas dimensões do passado, presente e futuro. É importante destacar que esse processo não acontece de forma sucessiva, mas dialeticamente dependente em suas causas e consequências.

É certo que no retorno ao passado evidenciam-se marcas que remetem à perspectiva de entrelaçar histórias, pessoas, identidades e contextos. Visando conhecer o que foi vivido ao mesmo tempo em que se vive o presente, priorizando a valorização da historicidade, a reverência, a contribuição dos vários agentes históricos e a preservação das lembranças individuais e reconhecer que esse retorno induz ao futuro, não imobiliza, dá sentido a novas buscas e interpretações. Para Cambi (1999, p. 35):

O ‘fazer história’ – exercido ainda nesta forma não-ideológica, débile polimorfa - representa um momento central da atividade cultural e dotado de uma função específica e essencial. A história é o exercício da memória realizado para compreender o presente e para nele ler as possibilidades do futuro, mesmo que seja de um futuro a construir, a escolher, a tornar possível. Mas é justamente a atividade da memória, a focalização do passado que anima o presente e o condiciona, como também o reconhecimento das suas possibilidades sufocadas ou distantes ou interrompidas, e portanto das expectativas que se projetam do passado-presente para o futuro, que estabelece o horizonte de sentido de nossa ação, de nossas escolhas.

Trata-se, pois, de uma trajetória que no presente se interroga para no passado encontrar evidências impelidas da memória que grita pelo futuro em forma de experiência e conhecimento. Reinventando o passado, os fatos são resgatados sem perder de vista a temporalidade que os insere.

Partindo do entrelaçamento entre representantes de setores mais hierarquizados da sociedade e as salas de aulas onde atuavam os preceptores de Juazeiro do Norte-CE encontramos os espaços nos quais foram inscritas as elaborações culturais, reveladoras das posições sociais também definidas como identidade.

estes tem sentido. O que permanece vivo na consciência e atravessa o tempo e o espaço a partir de uma seleção que permite uma complementaridade entreamemóriaquesacralizaea história que desacraliza. A análise histórica acolhe a memória assim como o esquecimento. Envolve, ainda, o que não foi dito pelo medo de dizer ou pelo silêncio que se fez na angústia do que foi vivido.

Entendemos, pois, que história e memória se completam, mas não têm o mesmo significado. Memória e história não se confundem. Enquanto a primeira aponta para a conservação de informações, a última elege a análise e a crítica para compreender os acontecimentos determinantes da transformação social.

Nesta perspectiva, memória e história não se confundem. Enquanto a primeira aponta para a conservação de informações, a última elege a análise e a crítica para compreender os acontecimentos determinantes da transformação social. Ao considerar que a memória é viva tomamos por parâmetro a seguinte ideia de Freire (1992, p. 33):

Carregamos conosco a memória de muitas tramas, o corpo molhado de nossa história, de nossa cultura; a memória às vezes difusa, às vezes nítida, clara, de ruas, da infância, da adolescência, a lembrança de algo distante que, de repente, se destaca límpido diante de nós, em nós [...].

O estudo da verdade histórica está intimamente ligado ao presente, pois nele se mostram vivificadas as experiências coletivas que se traduzem em um conjunto de representações. É claro que não se trata de retomar o passado em todas as suas marcas e dimensões, uma vez que não se pode repeti-lo, mas, segundo Almeida (2011) é possível reconstruí-lo a partir da interpretação do presente e de suas representações mediante a fala dos depoentes.

Vale dizer que a história de um lugar é o palco das manifestações culturais onde atuam os grupos formadores de comunidades. É o espaço de publicação da memória através de suas representações, valores, tradições, resistências, etc. Valida o processo de construção social dos indivíduos na fantástica experiência de coletividade notoriamente fomentando elementos de identificação entre esses grupos.

Tomando o pensamento de Ecléa Bosi (1998 apud SOARES; MINUZZI; MACIEL, 2011, p. 132) acreditamos que “a memória transcende o próprio indivíduo, ou seja, demonstra aspectos da família, das instituições, dos grupos de convívio, da classe social, etc.”. Reconstruir, pois, a memória é permitir ao indivíduo a compreensão do processo sociocultural e do percurso temporal dos quais faz parte.

seu discípulo ao ler o depoimento da ex-aluna Amália Xavier de Oliveira (2001, p. 289) sobre sua preceptora Isabel Montezuma da Luz:

Era a fada, cuja varinha de condão era representada pela Carta de ABC, a tabuada, os 5 livros de Felisberto de Carvalho, para as mais adiantadas; um pedaço de algodãozinho de fio aberto, linha vermelha e agulha para os trabalhos manuais e, finalmente, mandapolão (morim) para desfiar e fazer labirinto.

Isso se dá, certamente, na visão de Martins (2005, p. 6), pelo entendimento de que: [...] a melhor maneira para se captar a realidade é aquela que possibilita ao pesquisador colocar-se no lugar do outro, apreendendo os fenômenos pela visão dos pesquisadores. A preocupação essencial da investigação refere-se aos significados que as pessoas atribuem aos fenômenos. O desafio imposto ao pesquisador é então, captar os universos simbólicos tendo em vista o entendimento dos mesmos.

Ou, ainda, no cuidado percebido na produção do cartão natalino recebido pelo ex- aluno Luiz Eduardo Gondim de suas professoras na Escola Particular de sua preceptora Dona Toinha:

Imagem 3 – Cartão de Natal recebido pelo ex-aluno Luiz Eduardo Gondim em 1971

Fonte: Arquivo do Profa. Valba Gondim.

Nesse sentido, ao encontrarmos a história da educação de Juazeiro do Norte-CE (1930-1940) vamos escrevê-la através das práticas docentes de seus primeiros preceptores contadas pelos seus ex-alunos.