Dois dos pioneiros a estudarem as culturas da ilha do Marajó foram os norte- americanos Betty Meggers e Clifford Evans, nos anos 50 do século XX. As suas descrições dos modos de instalação, das práticas funerárias e rituais continuam a ser uma referência para o estudo dessas culturas. É igualmente da sua autoria a ideia de que tanto o povoamento da ilha como o desenvolvimento das suas tecnologias tinham tido origem nos Andes, hipótese que veio sendo contraditada por diversos investigadores e possui actualmente escassa influência no meio científico. A migração era apontada para os séculos IV-V, com um declínio que teria ocorrido no período posterior ao desenvolvimento da cerâmica da fase Marajoara, devido aos constrangimentos ecológicos da ilha. Esta ideia assinala uma das grandes polémicas na arqueologia amazónica, e que se relaciona com a comparação permanente das sociedades desta zona da Ámerica com as ditas grandes civilizações dos Andes50.
Os debates sobre a origem dessas sociedades relacionam-se com outras questões, não menos polémicas, de complexidade e determinismo ecológico, tendo sido as sociedades amazónicas muitas vezes associadas a um desenvolvimento "menos complexo", justificado por limitações de natureza ecológica. Em 1957, Meggers e Evans realizam investigações no sítio d’ "Os Camutins" (em 20 tesos diferentes), nomeadamente no teso de Camutins, designado por "J-15 Mound 1". Os arqueólogos terão identificado uma sepultura e nove cerâmicas funerárias tapadas, testemunhos das práticas de enterramentos secundários e de cremação. Os utensílios estavam concentrados numa mesma área e reconheceram-se três esqueletos feminino, sendo os restantes masculinos. Estavam acompanhados por oferendas, designadamente tangas e loiça de pequena dimensão, com grande diversidade de formas, dimensões e decorações. Registe-se também a presença de três objectos líticos, interpretáveis à luz da já mencionada hipótese de constituírem testemunhos de trocas comerciais. Sabemos que depois das investigações de Betty Meggers e Clifford Evans, os tesos do sítio d’ "Os Camutins" foram alvos de saque por parte dos proprietários das fazendas São Marcos e Maravilha, tendo vários tesos sido danificados. Em 1976, acabaria por ser vendida ao governo
50 Notamos que a ideia de uma floresta tropical hostil, com povos considerados selvagens e costumes animalescos em oposição ao grande desenvolvimento adquirido pelas populações das terras altas americanas não é inteiramente elaborado a partir da conquista occidental. Sabemos que existe uma concepção nativa desta ideia, relacionada com as tentativas infrutíferas de expansão Inca na mata tropical (FAUSTO, 2000).
do Estado do Pará uma grande colecção da Fazenda São Marcos, assim como outras duas ao Instituto Cultural Banco Santos (SCHANN, 2004: 16).
Os investigadores que mais contestaram as teses difusionistas evocadas anteriormente foram Donald Ward Latrap (1927-1990) e a sua aluna Anna Curtenis Roosevelt. A principal ideia defendida por Lathrap é a de que a agricultura e a cerâmica do Marajó teriam tido origem na própria Amazónia brasileira, tendo em conta que o desenvolvimento da agricultura na Amazónia central tem o seu início estimado em torno de 5000 a.C, e a cerâmica de estilo Barrancóide por volta de 4000 a.C.. Grande defensora da ideia de um desenvolvimento endógeno, Roosevelt afirma, nos anos de 1980, que os vestígios dessas sociedades se encontram nas terras baixas orientais do Brasil, estimando a origem das primeiras cerâmicas por volta de 7000 a.C, consideradas assim as mais antigas do continente. Defende,
concomitantemente, a existência de uma agricultura intensiva do milho (Zea mays),
principalmente em áreas de várzea.
Aproveitemos para evocar a dicotomia polémica que opõe as áreas de várzea e as de terra firme. De facto, as primeiras são consideradas como o lugar de emergência de populações mais complexas pela riqueza dos recursos aquáticos disponíveis e pela fertilidade dos solos. Pelo contrario, as áreas de terra firme foram vistas como o cenário de desenvolvimento de comunidades com modos de vida mais simples51.
A teoria da sedentarização suscitada pela emergência da agricultura está associada também à ideia de uma sedentarização potencializada pelas actividades piscatórias, conceito defendido pelo investigador Robert L. Carneiro. Este autor, aliás, sustenta que se terão utilizado tecnologias de subsistência ligadas ao cultivo da mandioca (Manihot esculenta) (cujo uso na Amazónia se situa entre 8 000 e 6 000 a.C.) e à colheita do fruto do pequi (Caryocar brasiliense).
Uma das principais ideias de Anna Roosevelt é o grande contraste que faz entre sociedades pré-históricas brasileiras organizadas em cacicados e sociedades ameríndias
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Assinalamos uma publicação muito recente sobre este assunto que, através da análise de geóglifos no Alto Púrus, afasta a dicotomia várzea/terra firme: in PÄRSSINEN, Martti; SCHAAN, Denise e RANZI, Alceu (2009)- “Pre-columbian geometric earthworks in the upper Purús: a complex society in western Amazonia”, in
hodiernas, associando às primeiras um desenvolvimento tecnológico superior. Notamos a clara oposição às ideias de Betty Meggers, que propunha que as sociedades antigas e actuais deveriam ser interpretadas de forma semelhante, ignorando completamente as consequências do período de contacto e da colonização portuguesa.
Surge-nos aqui, e na relação entre arqueologia e etnologia, uma importante interrogação. Será que podemos utilizar pesquisas sobre os grupos amazónicos actuais com o objectivo de investigar as sociedades antigas, pré-históricas, ou anteriores ao contacto com a civilização ocidental? Aproveitamos para realçar três grandes problemas no estudo da arqueologia amazónica, que estarão sempre presentes na nossa reflexão sobre a cultura marajoara: a origem, o determinismo ecológico e a continuidade cultural (entre sociedades do passado e do presente). A primeira ideia situa a emergência desses povos numa dicotomia difusionista, assumindo-na como tendo origem na própria ilha, ou como resultado da influencia exercida por populações envolventes. Outro problema é a visão do meio amazónico, que chega a ser por vezes tido como “inferno” ou, por oposição, como um “paraíso verde”, fazendo da fertilidade do solo uma questão central para a compreensão da história dessas populações. Hoje, os investigadores têm tendência a aceitar mais a segunda interpretação, reflectindo sobre o papel central das áreas de várzea na floresta tropical e assumindo-as como “o calcanhar-de-Aquiles daqueles que defendem a existência de uma limitação ambiental estrita na Amazónia” (Fausto, 2000: 30). Surge, por fim, a questão da pertinência ou não da identificação entre as sociedades arqueológicas e as chamadas "sociedades etnográficas", contemporâneas52.
Em 1949, Helen Palmatary publicou uma análise exaustiva das peças marajoara de 20 instituições diferentes53, com um registo arqueográfico bastante completo, sendo que muitas
52 Michael Heckenberger defende a diferença entre sociedades amazónicas do passado e do presente, tomando como argumentos principais a diferença de escala demográfica e, por consequência, a da intensidade da agricultura. Também afirma que o poder dos chefes foi já muito maior. Citando o autor: “A escala actual das economias ameríndias está, portanto, errada, já que o quadro etnográfico deriva intimamente do ponto demográfico mais inferior das populações nativas - talvez o mais baixo em muitos milênios” (2006: 59).
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A autora estudou a colecção do Museu Paraense Emílio Goeldi e a colecção privada do Dr. Carlos Estêvão de Oliveira. Também analisou peças noutras instituições museológicas, nomeadamente no University Museum (Philadelphia), no American Museum of Natural History, no Museum of the American Indian, Heye Fondation (New York), na Brooklyn Museum, no Peabody Museum of Archaeology & Ethnology, Harvard University, no United States Nacional Museum (Washington), no Museu Nacional do Rio de Janeiro, na
delas se encontravam associadas a apenas uma região de origem (embora raramente um teso em concreto). Sabemos que identifica 92 objectos do Pacoval repartidos entre a colecção Oliveira em Recife e o American Museum of Natural History e 53 peças do Rio Camutins, depositadas na University Museum em Pennsylvania. Este trabalho é precioso pela documentação gráfica que apresenta, pois permite estabelecer uma análise comparativa relativamente precisa. Ao longo do presente estudo utilizaremos principalmente os objectos assinalados como provenientes do Pacoval e do rio Camutins.
A esta geração de investigadores também pertence Joanne Magalis Evelyn cuja tese de
doutoramento realizada em 1975 intitula-se: A seriation of some Marajoara painted
antropomorfic urns. A autora efectuou uma seriação baseada numa amostra de cem urnas
funerárias de colecções brasileiras, norte-americanas e europeias (BARRETO, 2008: 125). Os estudos mais recentes sobre as culturas do Marajó foram realizados por Denise Schaan, actualmente professora na Universidade Federal do Pará. Na sua tese de mestrado (1996) analisou igualmente uma colecção museológica decontextualizada: o acervo de Tom Wildi. Esta investigação baseia-se numa metodologia estrutural com ênfase no estudo do material cerâmico como veículo de comunicação socio-cultural. Salientamos a importância que este trabalho pode ter para a nossa própria investigação, a qual também avalia a potencialidade do estudo de uma colecção museológica com os problemas de contextualização inerentes a recolhas de peças sem intervenções arqueológicas científicas.
A dissertação de doutoramento (2004), por seu lado, sustenta-se na análise que efectuou do espólio proveniente das escavações realizadas em dois tesos situados ao longo do rio Camutins: o teso de Camutins (M-1) e o teso de Belém (M-17), igualmente situado na margem baixa do Rio Camutins, do lado oposto de M-1 (Fig.4, Anexo 1). Notamos que reutiliza os dados obtidos por Betty Meggers e Clifford Evans (1957) para as suas análises sobre os enterramentos no teso de Camutins. No entanto, elaborou uma cronologia da construção do teso, que possui uma área de 13, 493 m² e tem 11 m de altura, reconhecendo
colecção Mordini (Barga), no Museo Etnografico Luigi Pigorini (Roma), na University of Arkansas (Fayettetteville), no Alabama Museum of Natural History (Tuscaloosa) e na colecção privada de Mrs. Henry e H. Simpson of High Springs (Florida).
várias etapas54. Parece não ter existido uma correlação entre a função dos tesos e a sua altura, tendo esta mais a ver com o tempo de ocupação que com a importância política do teso (SCHAAN, 2006b). A investigadora propõe para o teso de Camutins uma baliza temporal entre 660 e 995, datas correspondentes ao período "clássico", caracterizado pela prosperidade, multiplicação de cacicados e expansão de uma ideologia religiosa por toda a ilha do Marajó.
A primeira investigação ajudou-nos a entender melhor a componente decorativa de certas peças, à primeira vista abstracta, onde na verdade se identificam "unidades mínimas de significado". O segundo trabalho permitiu-nos determinar a funcionalidade de alguns objectos através da classificação das formas em três categorias funcionais, assim como comprovar a ocorrência de paralelos morfológicos e estilísticos nos sítios e tesos de onde provêem as peças integradas no Museu Nacional de Etnologia.
Por fim, haverá que mencionar o trabalho que conduziu à tese de doutoramento de Cristina Barreto (2008), que aborda os aspectos simbólicos e ideológicos da cerâmica funerária amazónica, apoiando-se principalmente na análise de urnas funerárias marajoara, provenientes da colecção I.C.B.S.-M.A.E 55.