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LE SANDJAK EST TURC (SANCAK TÜRKTÜR) BROŞÜRÜNDE İSKENDERUN SANCAĞ

14 EKİM SEÇİM SONUÇLARI YÜZDESİ

A família é uma das instituições sociais responsáveis pela transmissão da cultura, que atua formando determinados comportamentos no indivíduo, para futuro convívio em sociedade. Fornece às crianças não só instrução de normas éticas e regras sociais, "mas também molda profundamente seu caráter utilizando vias das quais nem sempre ela tem

consciência” (LASCH, 1991, p.25). Ela se encarrega de incutir os valores predominantes,

aceitos socialmente e através dos pais, símbolo do poder e do amor, transmite a memória familiar, a linguagem, visão do mundo, aspirações sociais, modelo de parentesco e casamento. (THOMPSON, 1993, p. 9-10).

Também é uma instituição que possui “um conjunto de normas definindo direitos e obrigações dos membros e limites entre eles e os não-membros”. Ela se situa entre o sexo e poder, por ser resultado de relações sexuais passadas, e ao mesmo tempo, as regulam

“determinando quem pode e quem deve ou não ter relações sexuais com quem.”

(THERBORN, 2006, p. 12).

Concernente, ao protótipo de família patriarcal - formada por núcleo composto de chefe, esposa e filhos legítimos que absorvia membros subsidiários (parentes, filhos ilegítimos, afilhados, amigos, serviçais, agregados e escravos) e incorporava vizinhos, trabalhadores livres e migrantes - teve sua existência restrita a determinadas condições sociais. Ao seu lado, coexistiam outras formas de coabitação conjugal demonstradas por estudos mais recentes (SAMARA, 1986, p. 13), contrapondo-se às posições assumidas por Gilberto Freyre, em Casa grande e senzala, informando a predominância da família patriarcal na sociedade brasileira.

No romance Clara dos Anjos (1956), o narrador apresenta a transição de uma família patriarcal, a que pertencia dona Eugrácia, mãe de Clara dos Anjos, para uma família nuclear. Os Teles de Carvalho, uma família extensa rural, migra para a capital do Império, depois do falecimento do chefe da casa.

Os seus protetores tinham sido abastados; eram descendentes de um alferes de milícias, que tinha terras, para as bandas de São Gonçalo, em Cubandê. Pouco depois da Maioridade, com a morte do chefe da casa, filhos e filhas se transportaram para a Corte, procurando aqueles empregaram-se nas repartições do governo . Um dos irmãos já habitava a capital do Império e era cirurgião do Exército, tendo chegado a cirurgião mor, gozando de grande fama. Para a cidade não trouxeram nenhum escravo. Venderam a

maioria e os de estimação libertaram. Com eles, só vieram os libertos que eram como da família . Pelo tempo do nascimento de Engrácia, havia poucos deles e delas em casa. Só a Babá, sua mãe e um preto ainda estavam sob o teto patriarcal dos Teles de Carvalho (BARRETO, v. V, 1956, p. 87- 88).

O período em que foi situado o êxodo da família data posterior ao que em certa concepção historiográfica denominou-se de Golpe da Maioridade, término da fase regencial (1831-1840), em 29 de julho de 1840, que consistiu na pressão popular sobre o Senado, insuflada pelo Partido Liberal,27 para decretar D. Pedro II maior de idade e proclamá-lo Imperador do Brasil, então com 15 anos de idade. O objetivo da ascensão precoce do príncipe herdeiro ao trono, que se escondia no ato dos liberais, era o atendimento dos interesses desse grupo político, aproveitando-se da inexperiência do monarca.

Em relação à venda de escravos, Freyre demonstrou que eram comuns na época os seus reclames. Havia jornais que traziam uma série de anúncios, comunicados e avisos referentes à venda e fuga de escravos. A venda de escravos pôde se confirmar nos anúncios e indicavam a miscigenação entre os próprios “grupos servis”. Os proprietários estabeleciam comércio de pessoas sob seu jugo, através da imprensa, publicando as suas aptidões de ofício:

“mulatas de bonita figura” .... “próprias para mucamas”; de “mulatinhas” que além de coser “muito bem limpo e depressa” e de saber engomar com perícia, sabiam pentear “uma senhora”; de “mulatas com habilidades”; de “mulatos embarcadiços” e de “cabrinha próprio para pajens” alguns tão

caros que os vendedores concordam em vendê-los a “prazo”; de mulatinhas

não só “recolhidas e honestas” como tão bem educadas para mucamas que sabiam falar francês; de “pardos”; de “acobreados”; de “fulos”; de “cabras”

(FREYRE, 1985, p.59).

Todavia, a afirmação do narrador do romance que os escravos de estimação receberam a alforria, passa uma ideia de benevolência dos senhores proprietários, que por uma motivação humanitária concederam a liberdade espontaneamente. Uma posição plausível a contar com as relações paternalistas de determinados senhores para com os cativos e destes que, consequentemente, buscavam “alargar os seus espaços de sobrevivência através de estratégias de negociação, cumplicidade e, porque não dizer esperteza, nas relações com seus senhores”

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Partido político brasileiro surgido em 1837 e extinto com a Proclamação da República (1889). Ideologicamente defendia os interesses da burguesia comercial e urbana, os ideais do bacharelismo e a reforma de classes. Sem compromisso com os latifundiários e escravocratas. Opunha-se ao Partido Conservador

(LIMA, 2006, p. 131). Ainda nessa pesquisa sobre o movimento de Quebra-Quilos em Campina Grande, este autor constatou que as cartas de alforrias concedidas a pessoas com idade acima de 50 anos de idade chegou a um índice de 24%, superior à suposta média

nacional avaliada em 10%. Para ele, isso demonstra “o pragmatismo de muitos senhores

locais, que após passarem toda uma vida explorando o trabalho de homens e mulheres escravizados, os jogavam ao relento, nas ruas” (LIMA, 2006, p.129).

Na concessão de um benefício como a alforria, as diferenças de cor entre os escravizados tinham implicações práticas, porque crioulos e africanos recebiam tratamento diferenciado dos senhores. Os crioulos viam com mais freqüência a face paternalista dos brancos proprietários, em detrimentos dos africanos. Nessas circunstâncias, o paternalismo

deve ser entendido não como relações escravistas harmoniosas, mas como uma “estratégia de

controle, meio de dominar de forma mais sutil e eficiente. Com menos desgastes e alguma

negociação” (REIS; SILVA, 2005, p. 45).

Concomitante, um aparente pacto de cordialidade entre senhores e escravos não obliterou as resistências e lutas empreendidas por gerações de escravos para a obtenção da liberdade. As táticas que os escravos empreenderam para alcançar a liberdade foram exacerbadas à medida que se aproximava a década de 1880. Os escravos passaram a ter atitudes de resistência e inconformismo com a situação em que se encontravam, visto as agitações que grassaram a Província de São Paulo, com “o avolumar dos crimes, das

sublevações e das fugas de escravos” (MACHADO, 1994, p. 91).

A vinda dos irmãos e irmãs para a corte revela as conseqüências que teve a urbanização e a industrialização na desestruturação da família patriarcal. O desenvolvimento atingido pelo país no segundo império aumentou o fluxo de pessoas que foram para o Rio de Janeiro à procura de trabalho e melhores condições de vida. O contingente populacional dessa província atingia a quantidade de “1.500.000 habitantes, favorecida pela proximidade da corte, [o Rio de Janeiro] levava a dianteira em população e noutros aspectos de desenvolvimento social” (FREYRE, 1985, p. 68).

A família patriarcal, ao agregar um grande número de pessoas em seu meio, incorporava descendentes ilegítimos, que passavam a fazer parte da família com certa tolerância dos filhos reconhecidos legalmente, porém, sem as prerrogativas da herança. É o caso, segundo o narrador, de dona Eugrácia, que estava nessa condição.

Engrácia foi criada com o mimo de filha, como os outros rapazes e raparigas, filhos de antigos escravos, nascidos em casa dos Teles.

Por isso corria, de boca em boca , serem filhos dos varões da casa. O cochicho não era destituído de fundamentos, naquela família, composta de irmãs e irmãos, ainda abastada, que se comprazia, tanto uns com os outras, em tratar filialmente aquela espécie de ingênuos, que viam a luz do dia, pela primeira vez, em sua casa, As senhoras, então, eram de uma meiguice de verdadeiras mães (BARRETO, v. V, 1956, p. 88).

Eugrácia foi criada na situação de igualdade que gozava outros descendentes de escravos, nascidos na casa dos Teles. Sua identidade paterna era uma incógnita para ela mesma, porém não das pessoas próximas da família, que pela intimidade aludiam seu grau de parentesco com os senhores proprietários, espalhando pela localidade o nome de sua paternidade. Por trás do tratamento familiar em que se constituíam as interdependências entre os membros da casa, se escondia um futuro marcado pelos preconceitos causados pela origem social, cor e falta de reconhecimento paterno. Isso também teve conseqüências sobre o destino de Clara dos Anjos.

Como mencionado anteriormente, a família patriarcal teve suas condições de sustentação minadas com as transformações socioeconômicas que a sociedade brasileira passou durante a segunda metade do século XIX. A urbanização, segundo Therborn (2006, p.

41), desafia o poder da autoridade paterna, “pela exibição da heterogeneidade, suas ofertas de opções, na medida em que escapava do controle social.” No Brasil, a cidade do Rio de Janeiro

concentrou grande parte dos recursos financeiros oriundo do comércio internacional e nacional através do porto, juntamente com os excedentes do capital acumulado desde a primeira fase da expansão cafeeira e o excedente de mão de obra proveniente da abolição (HARDMAN; LEONARDI, 1991, p.124). Em decorrência da atividade comercial surge a grande burguesia industrial brasileira. Logo, a industrialização vai alterar as relações intrafamiliares por separar o local de trabalho do lugar de moradia, enfraquecendo o poder paterno (THERBORN, 2006, p. 41).

A família de Clara dos Anjos surge adequada a essa mudança, pois o pai, vindo da cidade de Diamantina, província de Minas Gerais, em companhia de um inglês que lhe trouxera empregado como pajem, terminou por ocupar a função de estafeta, numa repartição pública. Certificou-se aqui a mudança do modelo familiar da geração de dona Eugrácia em relação aos seus descendentes, dos quais Clara foi a única sobrevivente, de uma família patriarcal para uma nuclear. Também necessário se faz uma ressalva a respeito da diferença do sentido do termo patriarcal, utilizado na acepção de modelo de organização familiar até

agora, para de uma conotação empregada pelo exercício do poder masculino no interior da instituição.

É nessa última compreensão que Bourdieu (2003, p. 115) trata da perpetuação das diferenças, através da permanência da economia de bens simbólicos, em que o casamento tem papel fundamental por relativa autonomia dela, apesar “das transformações dos modos de

produção econômica”. Embora a economia da sociedade brasileira tenha sofrido significativas

alterações a partir de meados do século XIX, a família do início do século XX possuía a predominância do poder patriarcal, a ser percebido nos papéis exercidos entre homens e mulheres no seu interior.

É que as duas mulheres, para preparar o café, tinham que retirar, de um dois

fogareiros de carvão vegetal, uma panela do “ajantarado” que aprontavam, a

fim de aquecer o café reclamando; e isto lhes atrasava o jantar.

Enquanto esperavam o café, os três suspendiam o jogo e conversavam um pouco. Marramaque era e sempre havia sido mais ou menos político, a seu modo (BARRETO, v. V, 1956, p.39).

Essa reprodução permanece, não por motivação externa à família, mas pela sua própria concorrência. As mulheres das camadas sociais empobrecidas continuaram com as funções de se responsabilizar pela criação da prole, alimentação e demais atividades caseiras. Para Bourdieu isso acontece porque

é, sem dúvida, à família que cabe o papel principal na reprodução da dominação e da visão masculinas; é na família que se impõe a experiência precoce da divisão sexual do trabalho e da representação legítima dessa divisão, garantida pelo direito e inscrita na linguagem (2003, p.103).

Clara dos Anjos aprendeu em casa a divisão sexual do trabalho com os pais. Ela então com dezessete anos já participava das tarefas domésticas, ajudando a mãe a preparar o jantar ou requentar o café para o pai que jogava com os amigos. Nos seus gestos de aprendizagem não está em questão apenas seu desempenho de futura dona de casa, mas a manutenção de uma ordem de reprodução de bens simbólicos e visão de mundo masculino, que segundo Bourdieu são garantidas pelo direito e inscrito na linguagem. Isso se inscreve através de um

desenvolvimento do habitus de tal maneira no indivíduo que lhe dará impressão de segunda natureza e norteará sua concepção de casamento.

O seu ideal na vida não era adquirir uma personalidade, não era ser ela, mesmo ao lado do pai ou do futuro marido. Era constituir função do pai, enquanto solteira, e do marido, quando casada. Não imaginava as catástrofes imprevistas da vida, que nos empurram, às vezes, para onde nunca sonhamos ter de parar. Não via que, adquirida uma pequena profissão honesta e digna do seu sexo, auxiliaria seus pais e seu marido, quando casada fosse (BARRETO, v. V, 1956, p. 139).

A narração, sobre o que Clara dos Anjos pensava e do que esperava, atingiu o paroxismo de sua negação enquanto ser individual, pela anulação de si em função do pai e do marido depois do casamento. Sua vida representaria um apêndice aos modos de viver das pessoas que povoavam seu mundo masculino, pai e marido. Entretanto abriu-se uma esperança por meio do trabalho, se não de uma existência independente, pelo menos com relativa autonomia da dominação e da visão masculinas, desde que fosse compatível com seu sexo, para aceitação de uma profissão reconhecida socialmente e com a finalidade de auxiliar os pais e o marido.

Entre as profissões que uma jovem pobre poderia exercer estavam aquelas que se caracterizavam em extensões de trabalhos domésticos, já que o emprego em indústria e comércio representava poucas oportunidades para o sexo feminino (CHALHOUB, 2001, p. 204). Dentre as atividades, exceto a prostituição, profissão indigna, que as mulheres pobres desempenhavam, encontravam-se as de lavadeiras, domésticas e vendedoras nas ruas da cidade. Outro tipo de trabalho realizado por mulheres era, “nos subúrbios afastados do centro do Rio, em suas pequenas casas, [...] plantar hortas ou criar uns poucos animais para ajudar no sustento da família” (HAHNER, 2003, p.207). Era o caso de dona Margarida Weber Pestana

que “costurava para fora, bordava, criava galinhas, patos e perus, e mantinha-se serenamente honesta” (BARRETO, v.V, 1956, p.76). Essa atividade de subsistência que ela fazia a

tornava semelhante as demais senhoras suburbanas.

Todavia, em outros aspectos ela, filha de pai alemão com mãe russa, constituía-se no tipo de mulher fora das expectativas impostas pelos discursos médicos da época, que faziam do sexo feminino uma representação de “criatura fraca por natureza,” em que suas principais

(CHALHOUB, 2001, p. 178). Em contraste com essa representação de mulher, numa determinada ocasião, ela apareceu na qualidade de pessoa valente, ao revidar com vigor o assédio do amigo de Cassi Jones, Ataliba Timbó:

O Senhor Ataliba do Timbó deu em certa ocasião em persegui-la ditinhos de amor chulo. Certo dia, ela não teve dúvidas: meteu-lhe o guarda chuva com vigor. À noite, no intuito de defender as suas galinhas da sanha dos ladrões, de quando em quando, abria um postigo, que abrira na janela da cozinha, e fazia fogo de revólver. Era respeitada pela sua coragem, pela sua bondade e pelo rigor de sua viuvez. O Ezequiel seu filho, puxara muito ao pai, Florêncio Pestana, que era mulato, mas tinha os olhos glaucos, translúcidos, de sua mãe meia eslava, meio alemã, olhos tão estranhos - olhos tão estranhos a nós e, sobretudo, ao sangue dominante do pequeno (BARRETO, v.V, 1956, p.76).

Essa mulher fugia dos padrões de feminilidade. Depois da morte do marido, ela assumiu as responsabilidades de provedora de lar e protetora da casa, atribuições reservadas aos homens, ao trabalhar na criação de animais para manter a renda familiar suficiente para educar o filho. Na condição de viúva, não aceitava ser desrespeitada por maliciosos, chegando a reagir com energia aos “ditinhos de amor chulos‟ do malandro Ataliba Timbó. Para defender seu parco patrimônio durante à noite, usava arma de fogo contra os larápios que tentavam furtar seus bichos que ficavam no quintal da casa. Conciliava em sua personalidade a coragem e a bondade, traços que levavam-na ao respeito de todos. Acresce-se as qualidades de benevolente e impávida de que era portadora, a de celibatária, reconhecida na expressão

“rigor de sua viuvez”. Este último aspecto, que formava seu caráter, dava-lhe a reputação de

mulher honrada, sem o qual de pouco valia a bondade e a coragem. Dona Margarida ainda estimulava Clara dos Anjos a exercer o trabalho de bordadeira para atender encomendas externas, apesar do empecilho posto por seu de seu pai inicialmente, Joaquim dos Anjos:

A muito custo, devido às insistências de Dona Margarida, consentira em ajudá-la nos bordados, trabalhos para fora, com o que ia ganhando algum dinheiro . Não que fosse vadia, ao contrário; mas tinha um tolo escrúpulo de ganhar dinheiro por suas próprias mãos. Parecia feio a uma moça ou a uma mulher (BARRETO, v.V, 1956, p. 139).

O motivo da resistência de seu Joaquim dos Anjos ao trabalho de Clara dos Anjos estava na natureza do trabalho manual em que consistia o bordado. Havia um preconceito em relação às atividades manufatureiras, devido ao passado escravista da sociedade brasileira. Todas as carreiras que não fossem puramente intelectuais estavam desqualificadas por sua alusão ao trabalho escravo. Uma pesquisa coordenada por Ianni (2004, p. 92), eqüidistante da publicação do romance e de nossa época atual, realizada em Florianópolis, na década de 1960, identificou esse estereótipo relativo à ocupação que refletia “a valorização na cidade, apresentando o negro como a pessoa que se ajusta melhor ao trabalho físico, braçal e ao

futebol”. Dona Margarida, mulher descendente de imigrantes, diferente dos familiares de

Clara dos Anjos, era insuscetível à discriminação do trabalho manual, ao contrário, era honrada por “ganhar dinheiro por suas próprias mãos”. A autonomia e altivez de dona Margarida contrastavam com os modos de ser da mãe de Clara dos Anjos, dona Eugrácia, em que

O seu temperamento era completamente inerte, passivo. Muito boa, muito honesta, ativa no desempenho dos trabalhos domésticos; entretanto, era incapaz de tomar uma iniciativa em qualquer emergência. Entregava tudo ao marido, que, a bem dizer, era quem dirigia a casa.

Qualquer acontecimento inesperado que lhe surgisse no lar, punha-a tonta e desvairada. Quando ainda tinham a velha preta Babá, que a criara na casa dos seus protetores e antigos senhores de sua avó, talvez um deles, pai dela, ficou Engrácia quase doida, ao ser a velha Babá acometida de um ataque súbito. Não sabia o que fazer (BARRETO, v.V, 1956, p.87).

Em seu perfil, dona Margarida opõe-se sob muitos aspectos ao de dona Eugrácia, que era sem ação e passiva. Dessemelhantes em se tratando de temperamento, ambas tinham em comum a bondade e guardavam os valores morais, eram honestas. Dona Eugrácia era ágil na rotina dos afazeres domésticos, porém não possuía iniciativa diante de ocorrências inusitadas que a vida cotidiana aprontava repentinamente. Sua conduta poderia ser explicada pela educação que recebera desde menina:

Engrácia recebeu boa instrução, para a sua condição e sexo; mas, logo se casou - como em geral acontece com as nossas moças -, tratou de esquecer o que tinha estudado. O seu consórcio com Joaquim, ela o efetuara na idade de 18 anos.

Fosse a educação mimosa que recebera, fôsse uma fatalidade de sua compleição individual, o certo é que, a não ser para os serviços domésticos, Engrácia evitava todo o de esforço de qualquer natureza (BARRETO, v. V, 1956, p. 88).

A educação das mulheres contemplava uma aprendizagem apenas do que as suas necessidades futuramente iriam requerer delas. Devido ao fato de dona Eugrácia pertencer às classes populares, sua instrução poderia ser adstrita ao ensino de corte e costura, pois, ler e escrever lhe valeria pouco no desempenho da função de mãe (ALMEIDA, 2007, p. 112). O dispêndio de energia era compatível com as tarefas de dona de casa e conforme a imposição do cientificismo médico da época, qualquer trabalho extradoméstico das mulheres era visto como desperdício de energia, comprometendo a saúde feminina e, consequentemente, o equilíbrio da sociedade (MATOS, 2003, p. 114).

As mulheres conquistavam o respeito por manterem a honra ilibada, com a moça mantendo-se virgem antes do casamento, a mulher casada cumprindo a fidelidade e a viúva observando o estado celibatário. Enquanto isso, os homens não tinham tanta preocupação em