Como já mencionamos no capítulo 2, para análise dos tipos de modalidade, utilizamos a proposta de Bybee & Pagliuca (1994).
A modalidade orientada para o falante (MOF) predomina levemente na pesquisa, com 58,4%; enquanto que a modalidade orientada para o agente (MOA) se apresenta em 41,6% dos casos. Retomamos aqui os tipos de modalizadores de acordo com Bybee & Pagliuca (1994), já explicitados no capítulo 2 para melhor entendermos as ocorrências encontradas. Dentre as modalidades do tipo (MOA), destacamos as seguintes ocorrências:
(143) A8: Professora eu vi numa música o verbo cry. O que é “cry”?
P: É chorar! Olhe! Vamos analisar esse exemplo aí! O “cry”. Esse verbo não termina em y? Faz o passado igual ao “study”, com –ied. (T599).
(144) P: Agora é com –ed, não é pessoal?Por quê? A5: Não termina em e.
P: Exatamente! Não tem e na forma original do verbo. Você só pode usar -ed. (T596).
(145) A1: Vai Ricardo. P: Ricardo já veio. A2: Eu quero a dois.
P: Deixa primeiro eu chamar alguém. Se não aparecer aí você vem, certo? A3: É eu, né, tia? (PR308).
120 (146) P: Com s é plural e sem s é singular. Mas essas duas palavrinhas aqui, eles são considerados plural irregular. Aqui é um homem, aqui mais de um né! Não tem s, tá observando?
A: Eu acertei!
P: Então vocês têm que aprenderem essa palavrinha aqui tá? Se aparecer com a é singular. Se aparecer com e é plural. Então aqui seria igual à frase cinco, realmente “there
were”. Está se referindo ao a, é singular, está se referindo ao e, é plural. Realmente, “there were”. Item sete. Qual é o item sete? (PR210).
A partir da distinção proposta por Bybee & Pagliuca (1994), entre modalidade orientada para o agente (MOA) e modalidade para o falante (MOF), analisamos o exemplo (143) como sendo MOA, haja vista que o professor enuncia uma regra para um agente indeterminado (impessoal) de como o passado do verbo se faz. Quando o professor opta por usar o verbo fazer na forma faz, implica dizer faz-se. Portanto, faz-se o passado com a supressão do y e a inserção do –ied. Dessa forma, o aluno é obrigado a fazer as alterações para obter a forma correta do verbo em –ed, que, em inglês, é a forma passada. Estamos diante de um enunciado explicativo com utilização de uma forma impessoal básica. Em outras palavras, alguém, que deseja expressar o tempo passado, deve completar a ação predicada.
No que diz respeito ao excerto (144), também orientado para o agente (MOA), temos uma modalização deôntica que objetiva orientar uma conduta. O enunciado explicativo em destaque por meio do auxiliar modal poder na forma pode usar, é reforçado pela marca de asseveração só, e reflete uma regra geral a ser seguida por qualquer agente, usuário da língua, já que o pronome “você” está sendo usado genericamente (não é especificamente o aluno). Assim, não havendo o e na forma original do verbo, o aluno só pode usar uma única forma, que é com –ed. O uso de só, por sua vez, reforça o caráter obrigatório e exclusivo, não sendo possível outra forma.
Em (145), em virtude de o professor estar fazendo a correção do exercício com a turma e para evitar que o mesmo aluno venha até o quadro, quando um dos alunos solicita fazer uma determinada questão, no caso a dois, por meio do verbo querer na forma verbal
quero, o professor primeiro tenta confirmar se aquele aluno já havia respondido. Empregando
o verbo deixar (deixa primeiro eu chamar alguém) entendemos que o professor solicita ao aluno, a permissão que recai sobre o próprio professor. E nesse caso, ocorre a orientação de uma conduta sobre outra pessoa, do aluno sobre o professor, então, MOA.
Tentando apresentar as normas para o plural irregular, em (146), encontramos também uma modalidade orientada para o agente (MOA). O emprego de ter que nos remete à
121 obrigação do uso de “there was” para o singular, se a palavra, no caso do substantivo homem, for com a (“man”). Já no caso de se referir aos homens, forma plural com e (“men”), o uso deve ser de “there were”. Vemos que o professor dita mais uma regra da conduta a ser seguida.
Em um enfoque em que se admite a realização do valor deôntico pelo destinatário, de acordo com Bybee & Pagliuca (1994), assumimos a modalidade orientada para o falante (MOF) como aquela que não anuncia a existência de condições sobre o agente, mas antes permite que um determinado falante imponha tais condições sobre um destinatário. Salientamos que a MOF corresponde basicamente aos atos de fala do tipo diretivos mencionados por Palmer (1986). Inclui os tipos imperativos, exortativos (encorajando alguém), proibitivos, admoestativos (avisos, advertências), por exemplo. Tais tipos encontram-se caracterizados no capítulo 2 da tese. Apresentamos, a seguir, dois exemplos mediante os quais procuramos distinguir MOA e MOF.
(147) A5: É p'ra nota?
P: É. É p'ra entregar. Então façam com bastante calma! (T836).
(148) P: Explica essa da lousa aí professor!
A7: Essa! Você vai completar com o passado simples. (T688).
A manifestação da modalidade orientada para o falante que se apresenta em (147) diz respeito exclusivamente ao imperativo. Tendo em vista que a atividade proposta é para nota, o professor recomenda que o aluno a faça com calma. Assim, temos modalidade do tipo MOF, pois é o professor que impõe as condições sobre o alvo deôntico, nesse caso, os alunos.
Na visão de Verstraete (2004), o uso do modo imperativo corresponde ao uso subjetivo da modalidade deôntica. Se considerarmos a ocorrência em (148), vemos que o emprego de explica é um exemplo claro de comando direto. A ordem, diferente do exemplo (147), agora, parte do aluno. Corresponde à modalidade orientada para o falante (MOF), tal como entendida por Bybee & Pagliuca (1994). Assim, em (148), estamos diante de uma instauração de obrigação; no caso de uma exigência do aluno ao dirigir uma solicitação ao professor.
Ainda corroborando com Bybee & Pagliuca (1994), em que as autoras abrangem sob o rótulo da modalidade orientada para o falante (MOF) os tipos exortativo (o falante está
122 encorajando alguém a agir) e admoestativo (o falante está emitindo um aviso/advertência), vemos que ocorrem tais casos na análise proposta para o que se encontra a seguir:
(149) A3: A língua está dando três nó!
P: Vamo desmanchar! Vamo lá! (PR466).
(150) P: Então vamo ver aí o primeiro parágrafo! (PR255).
Em se tratando do trecho (149), observamos que o aluno, sentindo-se cansado de tanta explicação, comenta que a língua já está dando nó. E o professor, que continua a aula, retruca, por meio da MOF do tipo exortativo, dizendo vamo desmanchar, e assim, estabelecendo uma obrigação. Vamos desmanchar! corresponde ao imperativo, desatemos os nós!. Ocorre também a força da asseveração com a repetição de Vamo lá! O professor é enunciador e fonte, mas também se inclui como alvo deôntico (1ª. pessoa do plural), uma vez que ele dará continuidade à aula.
No exemplo (150), um processo semelhante acontece. O professor encoraja o aluno a voltar o olhar para o texto. No enunciado instrucional em (150), o exortativo serve ao propósito do professor, que é o de estimular o aluno na realização de tarefas. Cabe salientar que, dos 836 casos analisados, 30 se enquadram dentro do tipo exortativo. Portanto, mesmo sugerindo ações imperativas, o professor encontra uma estratégia melhor na condução da aula – a de estimular o aluno nas atividades em lugar de apenas cobrar e impor.