Na abordagem funcionalista, a tipologia textual tem estreita influência no processo tradutório. Começando por Reiss (1996), que desenvolveu estudos a respeito da relação entre tipos textuais e tradução, e chegando a Cristiane Nord, que aprimorou a proposta de Reiss, tem-se hoje a certeza de que ao menos as convenções que dizem respeito aos gêneros textuais são basicamente culturais, o que pode trazer problemas para o processo tradutório. É conveniente frisar que o tipo textual está relacionado à função comunicativa do texto, e os gêneros textuais referem-se às características linguísticas ou convenções.
20“[...] the effect is not only produced by what is said but also by the way in which it is said”. (NORD,
Segundo Reiss (1996), a atitude de expectativa do leitor desencadeada pelas convenções textuais está estreitamente ligada ao processo de compreensão de um texto ou de parte dele: se um leitor toma um mesmo texto como uma crítica ou como uma publicidade, a carga semântica das informações será lida de forma diferente para cada situação, ou seja, o leitor entende o texto de maneira diferente, em cada caso. Por essa razão, pode-se afirmar que as funções as quais as convenções dos tipos textuais desempenham na comunicação influenciam o comportamento do tradutor e determinam, de certa maneira, suas decisões tradutórias. A compreensão de tipo textual proposta por Reiss (1996, p. 177) distingue-se da que é veiculada na linguística textual, pois esta busca se basear “[...] no estudo das particularidades e das distintas modalidades ou possibilidades descritivas dos tipos de texto”21 enquanto àquela interessa “[...] estabelecer uma diferenciação geral abstrata, que preceda à classificação de tipos de texto, com vistas a definir estratégias de tradução gerais para textos distintos: uma classificação segundo as categorias textuais”22 (Ibid.); portanto, na teoria da tradução, os conceitos de tipo textual e categoria textual não competem entre si.
Considerando a intenção comunicativa do emissor, a autora tomou as três funções comunicativas básicas do signo linguístico – representativa, expressiva e apelativa –, propostas pelo psicólogo alemão Bühler, e identificou as três funções básicas dos textos utilizadas para caracterizar as diferentes categorias textuais, consideradas por ela como um fenômeno universal, por existirem em praticamente todas as comunidades. A função informativa proposta por Bühler (quando o emissor pretende transmitir notícias, opiniões, conhecimentos), Reiss (1996) chamou-a de categoria textual informativa; a função expressiva (quando se transmitem conteúdos organizados de maneira artística), chamou-a de categoria textual expressiva e, quando, finalmente, o autor pretende persuadir, induzir o leitor com a função apelativa, Reiss (1996) chamou-a de categoria operativa. Deve, entretanto, ficar claro que a autora não transferiu, simplesmente, a proposta de Bühler dos signos linguísticos para o texto completo, ela adaptou-a, pois, segundo a própria autora:
21
“[...] en el estudio de las particularidades y las distintas modalidades o possibilidades descriptivas de los tipos de texto”. (REISS, 1996, p. 177, grifo da autora)
22
“[...] establecer uma diferenciación textual general abstracta, que preceda a la clasificación de tipos de texto, com vistas a fijar unas estratégias traslativas generales para lós distintos textos: uma clasificación según las categorias textuales”. (Ibid., grifo da autora)
Os princípios válidos para os signos linguísticos de nível inferior (p. ex. as palavras) não podem ser transferidos de modo linear aos signos linguísticos de nível superior (p. ex. o texto), como na semântica, onde a semântica da palavra, da frase e do texto têm que considerar, além de seus respectivos aspectos comuns, os aspectos diferenciadores.23 (REISS, 1996, p. 178) Nord (2008) acrescenta às três funções propostas por Bühler e ajustadas por Reiss (1996) uma quarta categoria tomada de Roman Jakobson: a função fática. Nord propõe subdivisões dessas categorias e focaliza a maneira como são representadas nos textos e sua pertinência em relação aos problemas específicos de tradução. A seguir, apresentamos um breve resumo das funções referencial, expressiva, apelativa e fática, na visão dessa autora.
a) Função referencial (ou representativa, na proposta de Reiss). Essa função diz respeito a objetos e fenômenos do mundo real ou fictício. Divide-se nas subfunções informativa – se o referente em questão é um fato real ou desconhecido do receptor e a função do texto é informar o leitor; metalinguística – se o referente é uma língua ou sua utilização particular, a função do texto pode ser metalinguística, e, se o referente diz respeito a uma instrução, a função é instrutiva, etc... Perceber a função referencial de um texto depende de sua inteligibilidade. Na tradução, o problema ocorre quando leitores-fonte e alvo não possuem o mesmo tipo ou quantidade de informação ao qual o texto faz referência na língua-fonte.
b) Função expressiva: Em Reiss (1996), essa função diz respeito aos aspectos estéticos do texto; já em Nord (1997), a função se refere à atitude do emissor em relação aos objetos e fenômenos do mundo. Ela pode expressar emoções pessoais (subfunção emotiva) ou exprimir uma avaliação (subfunção avaliativa) ou ironia, em todo caso, a função expressiva depende do emissor e nos remonta a ele. A função expressiva tal como articulada no texto de origem deve ser interpretada no contexto do sistema de valor da cultura-fonte. Se ela é articulada explicitamente, por meio de adjetivos avaliativos ou emotivos, por exemplo, o leitor poderá compreendê-la, ainda que não compartilhe da mesma opinião, porém, se a avaliação é feita implicitamente, o leitor poderá ter dificuldades em entendê-la, uma vez que desconhece sobre qual sistema de valores o enunciado foi construído.
23
“Los principios válidos para los signos lingüísticos de rango inferior (p.ej., la palabras) no se pueden transferir de modo lineal a los signos lingüísticos de rango superior (p.ej. el texto), al igual que en la semántica, donde la semántica de la palabra, de la oración y del texto tienen que considerar, además de sus respectivos aspectos comunes, los aspectos diferenciadores”.(REISS, 1996, p. 178)
c) Função apelativa (ou conativa, em Jakobson): Essa função tem o foco voltado para o receptor: seu objetivo é persuadi-lo, levando-o a agir de um modo determinado. Ela pode se realizar de maneira indireta, através de mecanismos linguísticos ou estilísticos, inclusive por meio de outras funções textuais. Em textos traduzidos, a função apelativa deverá ser adaptada, devendo o tradutor buscar empregar expressões próprias às discussões presentes na cultura-fonte sob o risco de fracasso da função.
d) Função fática: Essa função tem por objetivo estabelecer contato entre emissor e receptor. Ela se relaciona com as convenções linguísticas, não linguísticas e mesmo paralinguísticas de uma situação particular, como, por exemplo, falar sobre o tempo, o clima, enfim, estabelecer contato. O cuidado com as convenções nessas situações se faz de extrema importância no âmbito da tradução, uma vez que o convencional em uma cultura não necessariamente o será em outra.
A grandeza em se reconhecer que diferentes funções comunicativas exigem distintas estratégias de tradução traz benefícios para o tradutor funcionalista, que saberá, por exemplo, que, se a finalidade do texto traduzido é preservar a função do texto-fonte, ele deverá adaptar os marcadores de função às normas da cultura-alvo, sob o risco de ver a função do texto-alvo distorcida. Entretanto, apesar de o funcionalismo ter trazido esclarecimentos quanto à relevância da função textual para uma tradução exitosa, algumas críticas ainda pesam: o funcionalismo não respeita o texto original, não se presta à tradução literária e, ainda, é marcado por um relativismo cultural. Porém tais julgamentos são minimizados ou mesmo desfeitos, quando se compreende que a abordagem funcionalista não desconsidera a importância do texto-fonte, não dá total liberdade ao tradutor, nem tampouco busca substituir referências da cultura-fonte em prol do texto-alvo, mas sim procura despertar no tradutor a atenção para determinados aspectos próprios à cultura-alvo contidos no texto de origem para que ele possa basear suas escolhas tradutórias e explicá-las, se necessário.