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Para a escolha do corpus de análise, partiu-se de uma sistematização temporal e editorial. Considera-se que [mesmo que a presença contínua do Brasil na mídia internacional seja anterior à elaboração desta tese, segundo apontado em outro momento, referindo-se a pesquisas precedentes realizadas pela autora e outros pesquisadores] foi a partir das políticas externas internacionais adotadas pelo governo brasileiro, entre os anos 2008 e 2009, que o país passou a figurar internacionalmente como uma nação emergente e, de certo modo, também a posicionar-se como tal no contexto geopolítico mundial148.

Com a observação da constituição de um cenário amplo de publicações sobre o Brasil, conforme descrito, verificou-se que, de 2009 a 2012, o país foi pauta de rotina e tema de reportagens especiais, acompanhando a tendência da imprensa internacional, que também questionava sobre tal posicionamento. Portanto, dentro desse período, buscou-se individualizar um ano que não tenha provocado coberturas extraordinárias que pudessem “mascarar” a atenção ao cotidiano brasileiro, tais como, eventos esportivos mundiais e eleições presidenciais. Seguindo essa lógica, verificou-se que o ano de 2011 apresentava essa característica e, consequentemente, seria o escolhido para a coleta de material documental para a presente pesquisa. Os demais, isto é, 2009 representava a composição de bloco BRIC e o estabelecimento da crise econômica mundial e o seguinte, 2010, a eleição presidencial e Copa do Mundo de Futebol. O ano de 2012 constituiria uma amostra incompleta pelo óbvio motivo da composição do relatório final da tese.

Diante da adoção de um período específico para a coleta dos textos, outros três critérios de classificação se impuseram na eleição do jornal a ser pesquisado. Primeiro, os textos selecionados deveriam ser produzidos por correspondentes/repórteres sediados no Brasil. Assim sendo, apenas Guardian, FT e The Economist se enquadrariam, pois se fazia necessária uma aproximação à biografia desses profissionais, observando também a relação deles com o veículo que representam e com a cultura brasileira, dada a importância que adquire na proposta metodológica indicada. O segundo refere-se ao formato jornalístico e às características editorais. O material a ser analisado deveria ser composto somente por textos do

gênero informativo, excluindo-se, desse modo, aqueles de caráter opinativo [presente em editoriais, blogs ou artigos de colaboradores]. Aliado a isso, afastou-se também a possibilidade de se trabalhar com textos da The Economist por tratar-se de uma revista especializada em economia, com características editoriais e de periodicidade discrepantes. Por motivos semelhantes [listados abaixo], excluiu-se o FT, embora esse seja também um jornal diário, sua cobertura encontra-se significativamente centrada na economia do país e, sobretudo, na atuação de empresas brasileiras no exterior. O terceiro considerava que os textos deveriam ser seguidos de comentários de leitores, isso para dar conta, também, das articulações, previstas no plano teórico-metodológico, conforme questões assentadas neste estudo. Cabe relatar ainda que, nesse momento, a fim de se obter dados concretos sobre a amostra escolhida, realizou-se uma pesquisa preliminar nos acervos do The Guardian e do FT, considerando os mesmos critérios, para verificar a viabilidade de um investimento empírico em um desses jornais.

Desse modo, ocorreu o mapeamento dos jornalistas no Brasil dos referidos veículos e retomou-se a pesquisa documental no database NEXIS UK, empregando como filtros a palavra “Brazil”, o nome do correspondente e o período de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2011. Assim sendo, foram selecionadas todas as reportagens assinadas, publicadas, no período em questão, por Tom Phillips [Guardian] e Samantha Pearson [FT]. Implementou-se, portanto, uma análise preliminar dos títulos [temáticas] e das editorias nas quais os textos foram publicados. Verificou-se, também, a ocorrência ou não de comentários de leitores, nos respectivos sites, bem como a coleta dos mesmos. Por conseguinte, o universo documental a ser analisado foi individualizado, a partir da evidência anual de publicações e, em seguida, da aplicação dos critérios classificatórios apenas descritos.

Destarte a eliminação do FT se confirmou a partir dos dados levantados nesta pesquisa preliminar. Considerando-se os mesmos critérios seletivos, o jornal FT apresentou 160 textos assinados pela Brazil reporter [repórter no Brasil], Samantha Pearson, pelo Brazil

Bureau Chief [Chefe da sucursal brasileira], Joe Leahy, e por inúmeros outros colaboradores

das diversas sucursais espalhadas pelo mundo que, conforme a pauta, são acionados para complementar os textos.

Desse modo, verificou-se que existem muitas matérias conjuntas assinadas por vários repórteres e editores, sendo que as matérias exclusivas e individuais de Samantha Pearson totalizavam 79 textos. Porém, ao se observar essas no FT.com, verificou-se que há um predomínio de matérias publicadas na editoria Companies [Empresas] do menu de acesso do

site, representando quase 50 por cento da amostra. Evidenciou-se também que o Brasil é

Energy, Financials, Industrials, Transport, Retail Consumer – energético, financeiro,

industrial, transporte e consumo, entretanto, por meio de suas grandes corporações, tais como, Vale do Rio Doce, Petrobras, Gerdau, Itaú-Unibanco, Bradesco, Bovespa, Natura, Tam, entre outras; os demais assuntos encontrados são dispostos na editoria World, que separa o mundo por zonas territoriais. Nesse caso, o Brasil enquadra-se em Latin America & Caribbean, cujos textos também versam sobre a economia brasileira em geral, negócios e finanças. Constatou- se ainda textos na editoria Markets [Mercados], cobrindo a participação brasileira em rodadas de negociação, moedas e mercados ações e de países emergentes. Há registros também em

Global Economy, Management e em Special Reports [dois deles já foram objeto de pesquisa

da autora (DALPIAZ, 2011c; 2013, no prelo)]. Com relação à participação do leitor, foram identificados textos com comentários somente nos meses de novembro e dezembro de 2011. Salienta-se, nesse sentido, que a consulta completa aos textos no site somente foi possível mediante a assinatura da versão on-line do veículo, quando então se verificou que os comentários são mantidos por apenas um ano149, tornando, desse modo, a participação dos

leitores, na composição de possível amostra, também discrepante, pois não se teria como observar os temas que, para a audiência, seriam aqueles mais relevantes.

Também, nesse momento da investigação, verificou-se que o The Guardian reunia todas as características necessárias para o desenvolvimento dessa pesquisa, além de realizar uma cobertura generalista. Observou-se, deste modo, que o jornal publicou 65 reportagens específicas sobre o Brasil, em 2011, elaboradas e assinadas exclusivamente pelo correspondente no Rio de Janeiro, Tom Phillips; 56 dessas foram publicadas na editoria World [Mundo]; cinco, na intitulada Environment [Meio Ambiente]; sendo que, em cada uma das editorias – Music,

Travel, Society e TV-and-Radio –, registrou-se a ocorrência de uma matéria.

Vale ressaltar que, de modo geral, os textos publicados na editoria Mundo também abarcam temáticas semelhantes, o que indica ser uma escolha editorial ocasional. Em análise preliminar no site do Guardian Unlimited, as reportagens abordam as seguintes categorias analíticas/temas: território [meio ambiente, recursos naturais, desflorestamento]; sociedade [violência urbana, tráfico de drogas, trabalho escravo, favelas, migração, religião, questões de gênero e raça]; política [governo, economia, obituário de líderes, corrupção]; cultura [bossa nova, jazz, samba, carnaval].

149 Limite esse identificado neste momento de definição do corpus de análise, o FT.com não armazena postagens

de leitores dos anos anteriores e o acesso ao conteúdo do veículo é cobrado, permanecendo “abertos” apenas os

Dentro desse universo, no que concerne o espaço de interação com o leitor, sete textos publicados geraram comentários dos leitores. Entre as temáticas trabalhadas nas matérias, predominam questões em torno da preservação do meio ambiente, com coberturas sobre desflorestamento amazônico, do tráfico e consumo de drogas, da violência urbana e as condições vulnerabilidade social nas favelas.

Acredita-se que o corpus textual, assim composto neste recorte pelo The Guardian, represente um microcontexto adequado para dar conta das questões colocadas neste estudo. O capítulo a seguir apresenta a análise do jornal estudado a partir da estrutura e dos procedimentos previstos no percurso metodológico.

6 O BRASIL NO THE GUARDIAN

O jornal The Guardian é reconhecido desde seu lançamento, em 1821, como um jornal de tendência liberal, sem manter vínculos próximos com o Partido Liberal. Atualmente, oferece apoio crítico ao Partido Trabalhista britânico, pois promove debates que acabam por influenciar na condução da “vida pública”. Para muitos, é considerado um jornal de centro- esquerda. Originalmente provincial, ganhou espaço e destaque nos anos 1960, quando se tornou um jornal de qualidade de circulação nacional e de prestígio internacional. Informações específicas sobre a conduta editorial de seus profissionais e o manual de redação e estilo podem ser consultadas abertamente no site do veículo150. Em termos de audiência, é

voltado para uma audiência adulta e economicamente ativa151.

Benzer Belgeler