• Sonuç bulunamadı

2. KURAMSAL TEMELLER

2.5. Spin Crossover

2.5.2. SCO uygulama alanları

que ele apresenta duas configurações em dois momentos. No primeiro momento, precisamos considerar que o Manifesto foi escrito primeira- mente em um jornal. Sabemos que o jornal é para consumo imediato, para a ordem do dia e dotado de uma memória sumária. Isso signifi- ca que o Visconde, ao que parece, tinha como destinatário apenas seus concidadãos e se comportava como um sujeito afetado pelos aconteci- mentos, um “monarquista ativista”, e pelo que foi submetido a enfrentar a partir dali. Parecia um desespero em fazer um registro fervoroso dos fatos no calor dos acontecimentos, pois segundo o próprio Visconde foi uma “primeira impressão apressadamente concluída”. (OURO PRETO, 1891, p. 1)

No segundo momento, deparamo-nos com uma reedição do Ma- nifesto em um livro, algo de existência mais duradoura que um jornal. Nessa reedição, o Visconde não se comportou mais como um sujeito de discurso apressado, mas um EU que pretendia deixar para as gerações futuras, e não apenas para seus concidadãos, “subsídios para a História” (OURO PRETO, 1891, p. 80). É uma nova escrita direcionada para um TU interlocutor ainda mais abrangente que seus compatriotas, expressa por um EU produtor sedento em constituir um discurso fundacional para a História da política brasileira, segundo suas impressões e remi- niscências. Dessa maneira, comporta-se como um “sujeito da História” engajado e não mais um monarquista-ativista.

Assim, podemos representar o Manifesto no quadro da encenação da linguagem proposto por Charaudeau (2008) em dois aspectos: para o primeiro momento, quando foi publicado em um jornal; e para o segun- do momento, quando foi reeditado em um livro.

62

FIGURA 10 – Encenação da linguagem no Manifesto publicado no Commercio de Portugal – 1889 FONTE: Adaptado de CHARAUDEAU, 2008a.

A Figura 10 representa a encenação da linguagem no Manifesto pu- blicado no jornal Commercio de Portugal. Nela, percebemos que, no espaço externo, o EUc é o Visconde de Ouro Preto; e o TUi é o lei- tor do jornal Commercio de Portugal. No espaço interno, o EUe é um “monarquista-ativista”, engajado em propagar suas ideias em defesa da Monarquia, e o alvo é seu concidadão, isto é, o TUd. Para o Visconde, esse TUd é aquele sujeito interessado em seu engajamento. Na segunda situação, temos:

FIGURA 11 – Encenação da linguagem do Manifesto publicado no livro Advento da

Dictadura Militar no Brazil – 1891

63

A Figura 11 apresenta a encenação da linguagem no Manifesto pu- blicado no livro Advento da Dictadura Militar no Brazil. Essa repre- sentação mostra-nos que, no espaço externo, o EUc continua sendo o Visconde de Ouro Preto; e o seu TUi, o leitor do livro Advento da Dic-

tadura Militar no Brazil. O EUe não objetiva apenas propagar ideais monarquistas, mas deixar escrito um discurso fundador para a História do Brasil. Assim, o EUe comporta-se como um “sujeito da História”; e seu TUd passa a ser não mais o público restrito de seus concidadãos da época, mas um alvo mais abrangente: as gerações futuras.

A partir dessas análises, podemos perceber que o Visconde de Ouro Preto apresenta não um, mas dois projetos de escritura, os quais variam de acordo com seu objetivo de escrita no momento e também segundo o suporte textual utilizado para a inscrição de suas memórias. A mudança de suporte textual, de jornal para livro, também interfere no modo como seu discurso é organizado.

Os quadros enunciativos apresentados pelas Figuras 10 e 11 corres- pondem aos dados explícitos do Manifesto. No entanto, o quadro enun- ciativo da primeira publicação do Manifesto não coincidiu efetivamente à real situação de comunicação pela qual ele fora submetido. O TUi, na prática, foram os adversários políticos do Visconde de Ouro Preto – Ruy Barboza, Christiano Benedict Ottoni e Visconde de Maracaju – uma vez que o sentido do ato de linguagem não reside apenas na manifestação verbal, mas inclusive nas marcas implícitas dos enunciados, as quais fo- ram identificadas imediatamente por aqueles políticos.

O discurso produzido pelo Visconde, representativo de dada situ- ação, não significa por si mesmo, mas mantém uma relação intrínseca com outros sujeitos também participantes daquela situação de comuni- cação. Estando inseridos no Manifesto, sobretudo envoltos em acusações de Afonso Celso, como a acusação de traição do Visconde de Maracaju, esses parlamentares reagiram imediatamente ao conteúdo do Manifesto.

64

FIGURA 12 – Visconde de Maracaju

FONTE: SUPERIOR TRIBUNAL MILITAR, 2014.

Na primeira publicação, podemos apontar a seguinte questão: Qual a finalidade imposta por essa primeira publicação? Segundo revela o próprio Visconde, “Aproveitando a demora no porto de escala escrevera o Manifesto e apenas chegando áquella capital (Lisboa) curei de impres- são” (OURO PRETO, 1891, p. 3). Ou seja, sua escrita surgiu de uma situação inesperada porque, ao que parece, não havia planos em fazer uma parada em Santa Cruz de Tenerife. Naquele momento, o sujeito que tomava a palavra era um ministro deposto e condenado ao exílio. Talvez ele tenha redigido o Manifesto como uma oportunidade de (se) explicar ou de demonstrar sua inocência e/ou ingenuidade a respeito da Procla- mação da República no Brasil (Cf. OURO PRETO, 1891, p. 33) porque, segundo ele, foi privado do direito à palavra. Afonso Celso, em nota de rodapé, faz uma referência ao folheto Advento da República no Brazil, escrito por Christiano Benedict Ottoni, para apontar que, naquele perí- odo, a “imprensa (brasileira) está(va) amordaçada...” (OURO PRETO, 1891, p. 105).

De acordo com o decreto nº 85 de 23 de dezembro de 1889, consti- tuíam crime militar publicações que se opusessem aos atos do governo

65

provisório, e estavam sujeitos à pena de morte os redatores dessas pu- blicações. Em virtude disso, “Varios jornaes foram supprimidos e jorna- listas encarcerados por discutirem a marcha da administração” (OURO PRETO, 1891, p. 105). Esse seria um dos motivos pelos quais Afonso Celso publicou tanto em um jornal português, Commercio de Portugal, quanto em tipografia francesa, na Imprimerie F. Pichon.

Fôlego e memória não faltaram a Afonso Celso para redigir, em curto prazo, quase uma centena de páginas. A identidade social do su- jeito que está na origem dessa situação é de um monarquista-ativista que tem como interlocutor ideal seu concidadão, explicitamente iden- tificável (Cf. OURO PRETO, 1891, p. 31), de quem ele esperava uma contrapartida de conivência político-ideológica. Entretanto, os efeitos visados pelo Visconde não corresponderam aos efeitos produzidos; e nem todos seus leitores experimentaram essa mesma “emoção”. Cons- ciente ou não, ele atingiu, diretamente, e teve a reação instantânea da “instância adversária”. Assim, surgiram os mal-entendidos, as incom- preensões, as interpretações outras, pois seus opositores ou inimigos políticos foram os interlocutores que, sem demora, publicaram artigos a respeito de seu texto.

Ruy Barboza, por exemplo, publicou um artigo, em 19 de dezembro de 1889, atribuindo falsidade ao ex-ministro, antes mesmo que o Mani- festo fosse impresso em Lisboa, em 20 de dezembro de 1889. Essa res- posta prévia do Ministro da Fazenda ocorreu possivelmente após alguém ter-lhe mencionado sobre a publicação do ex-ministro, pois o Visconde afirmou haver, em Santa Cruz de Tenerife, certo grupo incumbido em “denunciar as tramas e machinações do deportado e communicar seus revezes. D’ahi uma serie de telegrammas inverídicos e malevolos expedi- dos para o Rio de Janeiro e tendo por objecto os meus actos, pensamen- tos e palavras” (OURO PRETO, 1891, p. 3).

66

FIGURA 13 – Ruy Barboza de Oliveira FONTE: RUY BARBOZA, 2013.

De seus concidadãos, aparentemente, Afonso Celso não obteve re- torno. Sobredeterminado por essa circunstância que o Visconde parecia não esperar, surge a segunda situação de comunicação. A finalidade co- municativa desta tornou-se outra: não apenas deixar um “legado” a seus concidadãos e às gerações futuras, mas uma réplica às respostas suscita- das. Tornou-se uma tentativa de conversação face a face, ajustada pelas reações do outro (Ruy Barboza, Christiano Benedict Ottoni e Visconde de Maracaju), retificando ou reafirmando suas “teses”, na tentativa de, assim, reaproximar-se dos efeitos visados, especialmente, do efeito de sinceridade. Nessa reedição do Manifesto, foram mobilizadas certas es- tratégias de discurso, como a injunção e a inserção de notas de rodapé que fizeram do texto uma combinação ainda mais efervescente de argu- mentação e narração a serviço de sua proposta de ideal antirrepublicano. Nessa situação ou situações de comunicação, o locutor tem consciência de sua margem de manobra e utiliza categorias da língua ordenadas nos modos de organização do discurso8.

8 No Capítulo 4, seção 4.3, Da escrita impetuosa à reedição minuciosa, retomaremos e ampliaremos

69

OS MODOS DE ORGANIZAÇÃO

DO DISCURSO

Algumas palavras mais de interesse puramente pessoal: escrevo o meu testamento político.

(OURO PRETO, 1891, p. 26)

Desço a todas estas minudencias, porque escrevo o meo testamento politico e

quero tambem fornecer á historia alguns subsidios bem diversos.

(OURO PRETO, 1891, p. 173)

Segundo o Dicionário Jurídico Brasileiro, de Washington dos San- tos (2001, p. 240), um testamento é, sobretudo, uma declaração de úl- tima vontade. O testamento é um ato revogável, no qual o indivíduo dispõe, para depois de sua morte, o todo ou uma parte de seus bens. Se essa livre manifestação de vontade gera efeitos jurídicos, no caso do Visconde gerou efeitos políticos. Segundo Afonso Celso, seu Manifesto configura-se como “Testamento Político”, no qual sua última vontade foi oferecer subsídios à História do Brasil. Logo, há objetivos que motivam os sujeitos na construção e organização de seus discursos que são elabo- rados estrategicamente. Esse tipo de construção é explicitado por Cha- raudeau (2008a) no tópico sobre os modos de organização do discurso. Charaudeau (2008a) afirma que os modos de organização do dis- curso consistem nos princípios de organização da matéria linguística, marcados pela finalidade comunicativa de enunciar, descrever, contar ou argumentar do sujeito falante. Esses modos de organização, ou tipos de operações que estruturam o discurso, foram agrupados em quatro cate- gorias: o enunciativo, o descritivo, o narrativo e o argumentativo. Cada um deles dispõe de uma função de base e de um princípio de organiza- ção. A primeira das funções equivale à finalidade discursiva do projeto

70

de fala do locutor; e a segunda constitui-se de dupla base (linguística e discursiva) tanto para o descritivo, o narrativo e o argumentativo, con- forme veremos a seguir.

O autor ressalta uma singularidade do modo enunciativo: ele pos- sui uma atribuição particular na organização discursiva pelo fato de dar conta da posição do locutor com relação ao interlocutor, a si mesmo e aos outros, resultando na construção de um aparelho enunciativo. Além disso, o modo enunciativo intervém na encenação dos modos descritivo, narrativo e argumentativo. Diante da impossibilidade de análise dos qua- tro modos, durante o espaço de tempo disponível no presente trabalho, nosso interesse converge para os modos enunciativo e argumentativo.

Benzer Belgeler