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A inserção da Educação Física como disciplina obrigatória no Ensino Fundamental é fruto de um longo debate sobre a reforma do ensino brasileiro. Sua implementação se efetivou com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação em 1961 (BRASIL, 1961), mas como a maior parte da esfera educativa na época, sofreu grandes imposições do poder político e econômico vigente.

De acordo com os Referenciais para Formação de Professores (BRASIL, 1999), dado o contexto social da época, com o Golpe Militar de 1964 a legislação educacional brasileira passou a ser estruturada de acordo com a proposição de fortalecimento do modelo econômico voltado ao capital e as indústrias estrangeiras. Deste modo, as bases consideradas liberais da Lei de Diretrizes e Bases de 1961 foram gradualmente substituídas por bases tecnicistas das leis e governos subsequentes.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997), o esporte passou a ser o principal conteúdo ministrado pela Educação Física, a qual se voltava para o desenvolvimento técnico/esportivo e físico. Apenas na década de 1980, quando se iniciou uma profunda "crise de identidade" dos pressupostos, discursos e correntes teórico- metodológicas da Educação Física Escolar, tivemos mudanças políticas que passaram a incluir o ensino desta disciplina às 1ª a 4ª séries e não apenas às 5ª a 8ª séries, como ocorria até então. Em continuidade, o referido documento salienta que

[...] Ocorreu então uma mudança de enfoque, tanto no que dizia respeito à natureza da área quanto no que se referia aos seus objetivos, conteúdos e pressupostos pedagógicos de ensino e aprendizagem. No primeiro aspecto, se ampliou a visão de uma área biológica, reavaliaram-se e enfatizaram-se as dimensões psicológicas, sociais, cognitivas e afetivas, concebendo o aluno como ser humano integral. No segundo, se abarcaram objetivos educacionais mais amplos (não apenas voltados para a formação de um físico que pudesse sustentar a atividade intelectual), conteúdos diversificados (não só exercícios e esportes) e pressupostos pedagógicos mais humanos (e não apenas adestramento) (BRASIL, 1997, p. 21).

Neste sentido, houve influência dessas discussões na formulação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (BRASIL, 1996) como também na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL 1997). Neste último documento, especificamente para o trabalho da Educação Física, visualizamos reflexões no sentido de auxiliar o cotidiano da

atuação docente, de modo a promover aos alunos “[...] habilidades corporais e de participar de atividades culturais, como jogos, esportes, lutas, ginásticas e danças, com finalidades de lazer, expressão de sentimentos, afetos e emoções” (p. 15).

Assim, de acordo com os Referenciais para a Formação de Professores (BRASIL, 1999), a escola deve garantir aos alunos

[...] aprendizagens bastante diversificadas. Deve-lhes garantir a possibilidade de, ao longo da escolaridade, compreender conceitos, princípios e fenômenos cada vez mais complexos e de transitar pelos diferentes campos do saber, aprendendo procedimentos, valores e atitudes imprescindíveis para o desenvolvimento de suas diferentes capacidades (p. 24).

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997) referentes à Educação Física são divididos em duas partes: a primeira nos revela a trajetória da Educação Física ao longo da história, suas influências e tendências pedagógicas, sua importância para a formação da cidadania, além de discussões sobre suas especificidades nos processos de ensino e de aprendizagem e os objetivos gerais para o Ensino Fundamental. Já a segunda abrange indicações específicas dos objetivos, conteúdos e critérios de avaliação para as primeiras quatro séries do Ensino Fundamental, que são divididas em dois Ciclos: o Ciclo I compreende as 1ª e 2ª séries e o Ciclo II as 3ª e 4ª série.

Uma recente alteração foi estabelecida no Ensino Fundamental: a aprovação da Lei Nº 11.274 (BRASIL, 2006a), em fevereiro de 2006, mudou a duração do Ensino Fundamental de oito para nove anos, transformando o último ano da Educação Infantil no primeiro ano do Ensino Fundamental. Com a mudança, as classes não mais serão caracterizadas por "séries", mas sim, por "anos". No entanto, ao longo de nossa investigação, mantivemos o termo "séries" porque a escola participante ainda permanecia com esta denominação, já que, segundo a referida Lei, os Municípios, Estados e o Distrito Federal teriam o prazo até 2010 para implementar o Ensino Fundamental de nove anos.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997) indicam que desde o final do primeiro Ciclo do Ensino Fundamental espera-se que as crianças consigam participar de diferentes atividades corporais, de modo a adotar uma atitude cooperativa e solidária que não discrimine seus colegas, seja por razões de desempenho, seja por razões sociais, físicas, étnicas, religiosas, sexuais ou culturais.

Além disso, também é esperado que conheçam algumas possibilidades de movimento, bem como suas limitações de expressão corporal. Igualmente, a valorização, a apreciação e o conhecimento de algumas diferentes manifestações da cultura humana presentes no seu dia a dia também são esperadas para as crianças que concluíram o Primeiro Ciclo do Ensino Fundamental, uma vez que, de posse desses conhecimentos, poderão organizar, autonomamente, suas brincadeiras, jogos e outras atividades de natureza coletiva.

E em relação ao segundo Ciclo do Ensino Fundamental, os Parâmetros Curriculares Nacionais para a Educação Física (BRASIL, 1997) indicam que as crianças devem ser capazes de continuar com a ascensão de atitudes solidárias e de respeito mútuo, agora em situações lúdicas e esportivas, de modo a não solucionar seus conflitos de maneira violenta. Ao participar das atividades propostas nas aulas, espera-se que consigam reconhecer e respeitar algumas características de seus movimentos, bem como as de seus colegas sem que haja discriminações.

Em continuidade, o documento assinala algumas das ações esperadas para os alunos ao término do Ciclo I do Ensino Fundamental, bem como aquelas que poderão ser contextualizadas e aprofundadas nos anos letivos posteriores. Dentre os conhecimentos que podem ser ampliados aos alunos do Ciclo II desta mesma etapa, os Parâmetros Curriculares Nacionais para Educação Física (BRASIL, 1997, p. 54-55) descrevem:

● expressão de opiniões pessoais quanto a atitudes e estratégias a serem utilizadas em situações de jogos, esportes e lutas;

● resolução de problemas corporais individualmente e em grupos; ● participação na execução e criação de coreografias simples;

● participação em danças pertencentes a manifestações culturais da coletividade ou de outras localidades, que estejam presentes no cotidiano;

● apreciação e valorização de danças pertencentes à localidade;

● valorização das danças como expressões da cultura, sem discriminações por razões culturais, sociais ou de gênero;

● participação em atividades rítmicas e expressivas;

● percepção do próprio corpo e busca de posturas e movimentos não-prejudiciais nas situações do cotidiano;

● desenvolvimento de capacidades físicas dentro de lutas, jogos e danças, percebendo limites e possibilidades;

● diferenciação de situações de esforço aeróbico, anaeróbico e repouso;

● reconhecimento de alterações corporais, mediante a percepção do próprio corpo, provocadas pelo esforço físico, tais como excesso de excitação, cansaço, elevação de batimentos cardíacos, efetuando um controle dessas sensações de forma autônoma e com o auxílio do professor.

Não obstante, concebemos que a Educação Física Escolar não tem como função a realização de atividades idênticas àquelas que são praticadas pelos alunos fora do ambiente escolar. Contudo, desconsiderar tais práticas no processo de ensino e aprendizagem da Educação Física também seria um equivoco e, sobretudo, uma grande opressão às formas de manifestações e expressões culturais dos alunos.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997) também apontam que os objetivos das aulas devem contribuir com a autonomia dos alunos, fazendo com que controlem e valorizem seus movimentos, utilizando-os como recursos para organização de atividades coletivas, para a manutenção de sua própria saúde e, ainda, como recurso para usufruto do tempo disponível que possuem. O documento estabelece como objetivos para as aulas de Educação Física o desenvolvimento da capacidade das crianças em conseguir analisar alguns dos padrões de estética, saúde e beleza presentes em seu cotidiano, sendo que devem compreender sua inserção no contexto em que tais padrões são produzidos para que consigam identificar e criticar àqueles que incentivam o consumismo (BRASIL, 1997).

Enfatizamos que esta compreensão deve partir dos conhecimentos dos próprios alunos para que então se avancem nos processos de ensino e de aprendizagem dos alunos. De acordo com Freire (1989) a maior especialidade das crianças incide na curiosidade e no brincar, porém, o autor concebe com tristeza a realidade na qual alguns alunos vivem em determinados contextos escolares: ambientes onde não se aproveita o vasto mundo da cultura infantil restringem a liberdade de seus movimentos de sua curiosidade e, deste modo, oprimem e domesticam as crianças.

Nestes contextos onde não há estabelecida uma cultura educativa qualificada, que reconheça os conhecimentos que os alunos possuem, as próprias crianças

[...] têm seus passos gradativamente reduzidos e orientados para umas poucas trilhas: aquelas que os conduzirão em "segurança", para a escola e para a "vida" [...]. É uma pena que esse enorme conhecimento [da cultura infantil] não seja aproveitado como conteúdo escolar. Nem a Educação Física, enquanto disciplina do currículo, que deveria ser especialista em atividades lúdicas e em cultura infantil, leva isso em conta (FREIRE, 1989, p. 13, grifos do autor).

Partir dos conhecimentos das crianças, isto é, do seu saber de experiência feito (FREIRE, 1987, 1992) não significa, porém, permanecer neste universo. Pensando na especificidade da Educação Física, consideramos que o foco não está no “movimento” ou no “corpo”, estando este separado da mente, mas sim, no sujeito do movimento (KUNZ, 1994, 2004; SÃO PAULO, 2008; BETTI e cols., 2010), sendo o aluno, o ser humano, autor de seus próprios movimentos, indissociado de sua subjetividade, de sua intencionalidade, sua história de vida, sua própria cultura e do ambiente em que vive. Neste contexto, inerente ao corpo está o movimento.

Neste sentido, tal como indicado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997), a Educação Física Escolar, através da mediação docente, possibilita

[...] que se vivenciem diferentes práticas corporais advindas das mais diversas manifestações culturais e se enxergue como essa variada combinação de influências está presente na vida cotidiana. As danças, esportes, lutas, jogos e ginásticas compõe um vasto patrimônio cultural que deve ser valorizado, conhecido e desfrutado. Além disso, esse conhecimento contribui para a adoção de uma postura não-preconceituosa e discriminatória diante das manifestações e expressões dos diferentes grupos étnicos e sociais e às pessoa que dele fazem parte (p. 28-29).

Em conformidade, aportamos para uma perspectiva de ensino da Educação Física que, em seu processo, amplie e contribua com o desenvolvimento da autonomia, da criticidade, da desalienação, da leitura do mundo com a cultura de movimento. Isto significa que cada conteúdo deve ser ensinado nas aulas de Educação Física Escolar [...] não apenas devido aos seus benefícios e estímulos ao organismo humano, mas principalmente devido a sua condição de componente do patrimônio histórico da humanidade que deve ser apropriado por todos os alunos (BETTI e cols., 2010, p. 110).

No documento introdutório das Diretrizes Curriculares da Educação Básica Para a Rede Pública Estadual de Ensino do Paraná (PARANÁ, 2006a) também encontramos uma grande preocupação com a qualidade da Educação e com o ensino dos conteúdos, particularmente na Rede Pública de ensino. Em meio ao documento, destacamos o seguinte trecho:

Não se pretende na escola formar especialistas, mas dar acesso aos saberes e conteúdos que permitam o domínio de diferentes linguagens e por intermédio destas, garantir aos estudantes a leitura do mundo e diferentes

formas de expressão sobre a sociedade que vivemos. Por fim, como eixos de discussão curricular devem estar presentes os elementos constituidores do trabalho pedagógico, desde a concepção de mundo, de escola e de homem, a abordagem sobre ciência, conhecimento, cultura, trabalho, bem como a identificação da escola pública e sua função na sociedade, todos estes, entendidos como elementos fundantes da práxis educativa. A compreensão desses elementos desafia a escola a buscar a compreensão de sua realidade, levando-a a entender a base da relação teoria e prática na ação pedagógica, além da própria relação homem e mundo, definindo assim a práxis, coerência entre pensamento e ação (PARANÁ, 2006a, p. 26).

Assim, ao considerar este pressuposto, poderíamos pensar num conjunto de conhecimentos a ser alcançado/desenvolvido pelos alunos e professores através das aulas de Educação Física na escola. Sanches Neto e Betti (2008, 2010), por exemplo, expõem quatro dinâmicas convergentes entre si que, segundo os autores, explicitariam a especificidade do trabalho dos professores de Educação Física na Educação Básica: a cultura, o movimento, o corpo e o ambiente, os quais se imbricam nas ações dos docentes deste componente curricular. Tais dinâmicas seriam as “invariantes” da Educação Física (SANCHES NETO e BETTI, 2010).

No entanto, não se tem a perspectiva de impor conteúdos a serem desenvolvidos pelos professores. De acordo com Sanches Neto e Betti (2008), por exemplo,

Pensamos que o professor teria vários graus de liberdade para organizar sua intervenção docente, abrangendo os blocos de conteúdos. Porém, a autonomia que freqüentemente se atribui ao professor pode ser uma falácia, dados os agravantes institucionais que cerceiam seu trabalho, além das condicionantes temporais que impedem seu pleno exercício profissional e condições estruturais da sociedade em que vive. [...] Os conteúdos explicitariam elementos conceituais, atitudinais e procedimentais voltados às condutas desejadas dos alunos (p. 16).

Assim, os autores apresentam quatro blocos de conteúdos a serem desenvolvidos, considerando as especificidades de cada contexto escolar: "Elementos culturais da Motricidade", "Aspectos pessoais e interpessoais relacionados e integrados à Motricidade", "Movimentos fundamentais, combinados e especializados" e, por fim, a "Adequação da Motricidade às demandas ambientais".

Tal como as pesquisas apresentadas, significativos trabalhos vêm sendo realizados no sentido de demostrar a riqueza de práticas pedagógicas compromissadas,

dedicadas ao desenvolvimento de aprendizagens contextualizadas à realidade em que vivem os alunos, que se preocupam com ensino de conteúdos em suas diferentes dimensões no sentido de possibilitar aos alunos a apropriação, construção e reconstrução da cultura de movimento. Esses estudos apontam para a necessidade de apoio pedagógico, de ações coletivas que envolvam professores, comunidade escolar e universidade. Nessa perspectiva, como bem nos apontam Caparroz e Bracht (2007),

[...] interessantes experiências têm sido apresentadas e discutidas no âmbito da Educação e da educação física. Podemos destacar os programas de formação continuada com base na metodologia da pesquisa-ação (trabalhando com a idéia do professor como pesquisador de sua prática) e a construção de estruturas colaborativas de coletivos de estudo entre pares e ajuda mútua (p. 34).

Igualmente, na versão final das Diretrizes Curriculares da Educação Básica para a Educação Física (PARANÁ, 2008), observamos que o documento destaca a dimensão social da Educação Física, pois possibilitaram a consolidação

[...] de um novo entendimento em relação ao movimento humano, como expressão da identidade corporal, como prática social e como uma forma do homem se relacionar com o mundo. A proposta valorizou a produção histórica e cultural dos povos, relativa à ginástica, à dança, aos esportes, aos jogos e às atividades que correspondem às características regionais (p. 47).

Reconhecemos a importância de pesquisas no âmbito da Educação Física que localizem atuações docentes compromissadas com o processo de ensino e de aprendizagem dos alunos, que investiguem professores que possuem êxito em planejar, mediar/ensinar e avaliar os conteúdos escolares aos seus alunos. Igualmente, sublinhamos as práticas docentes que, considerando a realidade de seus alunos, realmente promovam-lhes a aprendizagem dos conteúdos da Educação Física e, assim, o sucesso escolar dos alunos.

Neste sentido, no capítulo seguinte buscamos detalhar nossos objetivos, questão de pesquisa e o percurso metodológico que trilhamos, de modo a descrever nosso critério de escolha do professor de Educação Física participante, os meios de coleta de dados e, posteriormente, como tais dados foram analisados.