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Grande parte do carvão vegetal utilizado pelas indústrias independentes de gusa é produzido a partir da madeira pelo processo de carbonização, que consiste em uma prática bastante rudimentar desenvolvida em fornos de alvenaria, com ciclos de aquecimento e resfriamento que podem durar até sete dias.

Atualmente, outros processos mais avançados de produção de carvão vegetal, como os fornos metálicos retangulares, equipados com sistemas de condensação de vapores e recuperadores de alcatrão, também podem ser encontrados em uso no Brasil. Entretanto, os fornos de alvenaria cilíndricos, com pequena capacidade de produção, sem mecanização e sem sistemas de recuperação de alcatrão e com baixo rendimento energético, continuam sendo os mais usados nas carvoarias brasileiras para a fabricação de carvão vegetal destinado às siderúrgicas.

O processo de carbonização desenvolve-se em seis fases principais, destacando-se o corte e o transporte da madeira, o abastecimento do forno, a carbonização, a retirada do carvão do forno, ensacamento e transporte (DIAS et al., 2002), atividades que exigem esforço físico intenso dos trabalhadores envolvidos sob condições térmicas extenuantes.

Normalmente, as contratações são temporárias, desprovidas de garantias trabalhistas e previdenciárias e os rendimentos mensais dos trabalhadores dificilmente superam a ordem de US$ 200 mensais para a jornada de cerca de 10 horas de trabalho diário (MONTEIRO, 2006, p. 74). Raramente os trabalhadores recebem equipamentos de proteção individual (EPI).

Além disso, não são poucos os casos de trabalhadores submetidos a mecanismos coercitivos de imobilização da força de trabalho, mantidos pelas dívidas contraídas para a compra de alimentos e pelo controle do trabalho exercido por capatazes. Aliado a isto, frequentemente são constatados na atividade a exploração de mão-de-obra infantil e o regime de trabalho análogo à condição de escravidão.

Por esses motivos, as pessoas que se submetem a esse trabalho são, em sua maioria, desprovidas de qualquer nível de instrução e, não raro, carecem de todo o tipo de registro e documentos. Enfim, o trabalhador do forno de carvão submete-se às condições penosas dessa atividade por não possuir qualquer outra oportunidade de trabalho que garanta sua subsistência e de sua família. Segundo Sen (2000), "a liberdade somente existe quando, diante de no mínimo duas alternativas, a pessoa pode escolher uma delas. Se houver apenas uma alternativa, não se pode falar em liberdade, mas em imposição, já que a possibilidade de escolha é inexistente".

Não é sem razão, portanto, que, nos últimos tempos, a produção de carvão vegetal a partir da carbonização em fornos de alvenaria, tem sido apontada como um trabalho degradante e insalubre que, na opinião de muitos, deveria ser extinto. A guisa de ilustração, segue trecho do relato de Dias et al. (2002), a respeito do processo de trabalho e saúde dos trabalhadores na produção artesanal de carvão vegetal no Estado de Minas Gerais:

Todos os sentidos do observador são tocados ao se aproximar de uma carvoaria. Em um local plano, escolhido por exigência do processo em meio à mata, depara-se com a fileira de fornos semelhantes a iglus envolvidos pela fumaça, cujo cheiro forte faz arder os olhos e impregna tudo e todos ao redor. Pilhas de madeira esperam a vez de ir para o forno e montes de carvão, às vezes, ainda fumegantes, pelo ensacamento. Os trabalhadores, geralmente seminus, têm o corpo coberto pela fuligem e deles, muitas vezes, somente se vêem os olhos e os dentes.

A maneira pela qual os carvoeiros organizam o trabalho é variável: individual e solitário, ou em duplas. As principais funções no processo são as de forneiro- carvoeiro e de carbonizador-barrelador. No sistema de produção familiar, as crianças desde muito cedo, aos quatro, cinco anos, quando começam a andar com mais desenvoltura, acompanham os pais, especialmente as mães, às carvoarias e "brincam" de ajudar a encher o forno. Em torno de seis a sete anos, algumas delas já conhecem todo o processo, e aos 12, 13 anos assumem todas as tarefas, sem distinção de sexo. As mulheres são, geralmente, poupadas de algumas tarefas como o esvaziamento do forno; porém, observaram-se adolescentes do sexo feminino e mulheres jovens desempenhando todas as funções, além de acumularem as responsabilidades pelas tarefas domésticas, caracterizando uma dupla jornada de trabalho.

Nas carvoarias volantes, os trabalhadores moram ou ficam alojados próximos aos fornos, em instalações improvisadas, cobertas por lonas, dormem em catres e não dispõem de condições mínimas de higiene e saneamento básico. É comum uma

família e alguns agregados dividirem o trabalho e a moradia.

No entanto, em termos práticos, as siderúrgicas independentes buscam ao máximo se desvincular das atividades de produção de carvão, comportando-se como se fossem absolutamente alheias ao processo de carbonização. Para tanto, grande parte das empresas tende a terceirizar os serviços de produção de carvão vegetal, por meio da contratação de empreiteiras, mesmo quando o insumo é obtido de manejos florestais ou silvicultura próprios. A situação relatada encontra-se descrita no relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito - CPI das Carvoarias concluído em 2002 pela Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais (ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DE MINAS GERAIS, 2002) conforme demonstra o trecho a seguir:

A prestação de serviços pelos obreiros às empresas investigadas, por intermédio de outras empresas, funciona como artifício para escamotear a relação de emprego existente, com vistas a frustrar a aplicação das normas trabalhistas,

eximindo os reais empregadores de arcarem com os ônus da atividade econômica que exercem, já que procuram fugir à conceituação do art. 2º da CLT, bem como descaracterizar seus empregados do enquadramento previsto no art. 3º do mesmo diploma legal. Em conseqüência, os contratos de prestação de serviços firmados pelas empresas investigadas com as empreiteiras, terceirizando suas atividades- fim, são alcançados pela cominação prevista no art. 9º da CLT, que preceitua que "serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação". (...)

A terceirização das atividades-fim, a par de violar a ordem jurídica e os princípios basilares do Direito do Trabalho, implica a precarização das relações de trabalho, ante os efeitos sociais que produz, pois:

a) acentua a exposição dos empregados das empreiteiras aos riscos de acidente de trabalho e doenças ocupacionais, já que transfere às empreiteiras a responsabilidade pela adoção das medidas de segurança e medicina do trabalho, e, na maioria das vezes, elas não possuem a mínima condição técnica ou econômica de assumir esse encargo;

b) impede os empregados das empreiteiras de obterem as vantagens, os direitos e os benefícios auferidos pelos empregados diretos da tomadoras, já que os exclui do campo de incidência dos acordos coletivos celebrados entre o sindicato e a empresa tomadora, transformando-os em trabalhadores de segunda categoria, não obstante desempenharem as mesmas funções dos empregados contratados diretamente pelas tomadoras;

c) causa o enfraquecimento dos sindicatos, já que com a substituição da mão-de- obra direta pela terceirizada o poder de negociação das entidades sindicais é reduzido.

No presente caso, essa situação se torna ainda mais grave, porque os trabalhadores terceirizados não têm, em sua grande maioria, nenhuma condição de se defender individualmente.

Por meio desse artifício, as empresas siderúrgicas transferem os custos de produção do carvão vegetal, cometendo a terceiros suas obrigações sociais e ambientais. Segundo Ripper (2003) as fórmulas encontradas para explorar os carvoeiros e burlar a legislação trabalhista brasileira têm nuances diferentes entre os Estados da Federação, como Minas Gerais, Maranhão e Mato Grosso do Sul, onde se concentram mais de 100 mil trabalhadores carvoeiros explorados por siderúrgicas e, também, madeireiras. Contudo, existe sempre um fator comum: quem mais lucra quase nunca contrata.

Impende salientar, por derradeiro, que as atividades de carvoejamento quase nunca representam desenvolvimento econômico para as regiões onde se processam, eis que, como ressaltado anteriormente, a remuneração dos trabalhadores envolvidos no processo de carvoejamento é aviltante, razão pela qual o volume de recursos gerados a partir deles não

é capaz de alterar os rumos da economia local. Ademais disso, os empregos são de péssima qualidade, pois oferecem condições precárias de moradia e trabalho, bem como desprezam as garantias previdenciárias e trabalhistas. Não é por outro motivo que a atividade carbonização da madeira, geralmente, encontra guarida somente em regiões miseráveis, com baixo índice de desenvolvimento humano, como as regiões Norte, Vale do Jequitinhonha e Noroeste de Minas Gerais.

Nesse cenário, iniciou-se um processo de supervalorização do carvão vegetal que aporta nas indústrias sem a documentação respectiva. Esse carvão, em geral, não tem origem lícita, sendo produzido a partir de desmates não autorizados. Mesmo quando o carvão vegetal é originário de uma exploração legalizada tem-se notado um grande esforço dos transportadores para burlar a fiscalização, de modo a entregar rapidamente a carga e aproveitar a mesma documentação para, ainda dentro do seu prazo de validade, acobertar uma outra carga.

As vantagens, nesses casos, alcançam todos os envolvidos no processo: por um lado, aquele que produz o carvão consegue colocar o seu produto sem origem no mercado, e o transportador, que usualmente atua como intermediário, obtém preço acima da cotação praticada para o carvão legalizado; por outro, a indústria que o recebe em tais condições, cuida de introduzi-lo no seu processo produtivo sem o registro e, conseqüentemente, sem a respectiva tributação do produto quando da posterior venda (no caso a tributação é diferida, sendo que o ICMS é recolhido quando da venda do ferro gusa ou aço), até porque não teria como justificar a produção, vez que não declarou o recebimento do carvão. Para o Estado, o prejuízo é extremamente significativo, pois além do prejuízo ambiental, arca com expressivas perdas tributárias.

Todos os aspectos abordados neste capítulo, cujo objetivo foi apresentar o cenário no qual se desenvolve a siderurgia não integrada a carvão vegetal em Minas Gerais, são a base do desenvolvimento da análise que se propôs realizar no trabalho de dissertação, na qual se destaca o papel do Ministério Público como um dos agentes públicos que podem interferir na cadeia de produção de ferro gusa, nas etapas onde as condições humanas são aviltantes (trabalho nas carvoarias) ou os direitos difusos desconsiderados (desmatamento, poluição e degradação ambiental nas regiões siderúrgicas).

CAPÍTULO

3:

O

REGIME

LEGISLATIVO

DO

SETOR